Nós estamos destacando e transcrevendo trechos de entrevista editada na Revista ESPM JAN-FEV 2007, que aborda o tema Espiritualidade e Negócios.

Alguns destaques que estão entre [ ] e em itálico são por conta do Projeto OREM® (PO).

O entrevistador da Revista ESPM é J. Roberto Whitaker Penteado (JR) – Editor e Membro do Conselho Editorial. E-mail [email protected]

O currículo do entrevistado Ives Gandra da Silva Martins era tão extenso que – mesmo transformado em “mini currículo” – tinha 62 itens e ocupava 3 páginas do seu site na internet.

Vamos refletir sobre os insights advindos da entrevista sobre o tema Espiritualidade e Negócios.

Assim começa o entrevistador JR:

“Longe de ser um atestado de pretensão, é a evidência do dinamismo e da produtividade desse cidadão Paulista de 70 anos de idade – festejados em 2006 – que reúne uma série estonteante de competências: advogado, ativista político, especialista em finanças, professor, empresário, conselheiro de inúmeras instituições – inclusive da ONU –, sócio e membro de dezenas de associações profissionais, articulista, escritor e poeta (mais de 50 livros publicados), para citar algumas delas.

Mas nós fomos conversar com Ives Gandra principalmente para conhecer as suas ideias sobre espiritualidade e negócios, pois trata-se de uma pessoa publicamente engajada na defesa dos seus princípios religiosos Católicos – em todas as circunstâncias – fazendo, assim, contraponto e complemento aos outros pensadores e profissionais que participam dessa edição da Revista da ESPM, representando muitas áreas de espiritualidade e de convicções.

Nós saímos levando diversos livros autografados e com essa entrevista que vale por uma verdadeira aula.

JR – Jesus expulsou os vendilhões do templo – terá sido porque espiritualidade e negócios não se misturam?

IVES GANDRA – Jesus convivia bem com ricos; dois de seus melhores amigos eram cidadãos abastados – José de Arimatéia e Nicodemos – que foram inclusive os que tiveram a coragem de acompanhar, quando o corpo desceu da cruz e foi enterrado. Ele expulsou os “vendilhões” do tempo. Eram aqueles que sem ética, sem religiosidade, faziam de Deus um negócio. Mas ele não foi contrário aos negócios feitos com a ética e ele teve amigos de todas as categorias sociais, inclusive empresários. Eu estou convencido de que, entre os vendilhões dos templos e Nicodemos e Arimatéia, que também eram negociantes, há uma profunda diferença. Ele expulsou aqueles que exploravam a imagem de Deus, ele não disse que os negócios, em si, eram ruins, mas conviveu com todos.

JR – Como você vê a questão da espiritualidade nos negócios – no trabalho, na profissão – e a ética? São coisas diferentes ou não?

IVES GANDRA – Não é que não sejam diferentes, mas se complementam. Não há religião sem ética, nem existe o ser não-ético. Ética vem de ethos, que quer dizer costumes, bons costumes na Grécia. Moral vem de mores, costumes também, com um sentido mais pragmático, em Roma; a ética dos Gregos era mais especulativa e filosófica; mas, na verdade, ambas referem-se a bons costumes. Se nós examinamos a origem das duas expressões, nós iremos verificar que elas estão sempre vinculadas a virtudes humanas e, de certa forma, a valores religiosos.

Quase todos os filósofos, na Grécia, falaram em ética. Não só os pré-Socráticos, mas, fundamentalmente, os três grandes, Sócrates, Platão e Aristóteles. Vamos verificar que Platão e outros – sempre que falaram de moral, direito ou de ética – vincularam tais ciências, direta e indiretamente, aos deuses, à especial religiosidade, visto que tinham a visão de que havia alguma coisa superior ao ser humano. E é interessante notar esse respeito ao divino. Por exemplo, Sócrates, nos quatro diálogos de seu processo (Eutifron, Apologia, Crito e Fedon), ele fala nos deuses. Nesses últimos, quando já está condenado à morte, que devia respeitar a vontade dos deuses. No quarto diálogo ele se refere à importância da morte e, no terceiro, não aceita a proposta de fugir, visto que os seus discípulos lhe tinham preparado a fuga. Dizia ele que “tinha que respeitar as leis da cidade porque as leis da cidade representavam as leis de Deus”.

Há, pois, nítida vinculação entre religião e ética. O que é importante – isso parece fundamental – é que todo homem, necessariamente, tem uma religiosidade que aparece de alguma forma. Principalmente, os Ateus e Agnósticos, quando procuram eliminar o Criador, eles criam outros deuses para eles mesmos. A juventude Alemã viveu, por exemplo, o Deus do Nazismo. Na prática, o homem tem tanta necessidade de símbolos que, ao eliminar o seu Criador, substitui-o por outros. Os materialistas, inclusive, vivem em função de deuses por eles criados, ou seja, o poder, o dinheiro, o sexo e a vaidade, etc..

JR – Fala-se de alguém que não acredita em nada; mas não existirá, pelo menos, um pequeno espaço para os “ecumênicos”: aqueles que acreditam em tudo?

IVES GANDRA – Na verdade, há para mim um outro dado, que é a espiritualidade. Eu, pessoalmente, sou Católico, Apostólico, Romano – mas eu estou absolutamente convencido de que – nem de longe – nós solucionamos todos os mistérios do universo. O nosso equipamento para percepção e concepção do universo é extremamente limitado. Utilizando a simples razão, eu não consigo saber qual é a minha origem, para onde eu vou, qual a razão do universo, por que o universo existe, como é que surgiu a vida, etc..

JR – E nem mesmo se a própria razão é a única forma de perceber as coisas…

IVES GANDRA – Exatamente. Por exemplo, vamos falar sobre a intuição, que era uma das formas de conhecimento de que trata o nosso Leonel Franca, quando ele fala do conhecimento pela fé. O dado que me parece importante é de que há evidentemente, pelo menos um campo em que nós não temos ainda a capacidade de percepção através do racional. Eu, pessoalmente, parto do princípio de que a minha religião é boa para mim, mas que haverá, nas outras, conteúdos satisfatórios a outras culturas. Creio que o ecumenismo leva, necessariamente, à salvação. O próprio movimento de que eu participo – o Opus Dei – foi o primeiro que obteve da Santa Sé o direito de receber, entre os seus colaboradores, pessoas de outras religiões. Se os fins são os mesmos, por que não juntar esforços por obras boas?

Eu considero muito significativo que cinco dos grandes pensadores do mundo foram contemporâneos, num espaço de, aproximadamente, 200 anos. Eu falo de Isaías, Confúcio, Buda, Pitágoras e Zaratustra. Eles representam as mentalidades Persa, Chinesa, Hindu, Grega e Judia. Cada povo desses tem costumes, maneiras de ser, formas, etc., bastante diversas. Mas têm uma base comum de pensamento, no que diz respeito à crença em Deus, ou aos valores de como é que o ser humano pode ser mais feliz considerando a sua vinculação com Deus.

Confúcio era de um pragmatismo impressionante; Isaías de uma espiritualidade única; Zaratustra um profeta, mas também um pensador fantástico; Pitágoras era um matemático como diversos outros, mas era também espiritualista, filósofo, criador, inclusive de uma escola pré-Socrática que foi até além dos próprios vinculados à “Trindade Áurea” entre os Gregos. Por isso, quando você diz “eu acredito em tudo”, eu penso que, no fundo, todos nós somos obrigados a acreditar.

Agora, você irá dizer: “Quando é que você tem a convicção? Você acredita só pela fé ou pela fé e pela razão?” Veja os trabalhos do professor Stephen Hawking, de que eu gosto muito, eu tenho todos os livros e li todos. Ele foi – indiscutivelmente – um pioneiro em tornar popular algo que era hermético para os mortais comuns.

E ele é Agnóstico, não acredita em Deus e diz que o universo, o big bang, estava demonstrando a inexistência de Deus. Mas qualquer Judeu analfabeto sabe que foi assim que tudo começou. Que houve um Fiat Lux. E por que um big bang e não um Fiat Lux? O que você pensa? Isso causou muito impacto, há vinte, trinta anos, “a ideia de que a idade do universo poderia ser medida por um relógio dos quinze bilhões de anos”.

Desde a criação do universo, até chegar – em cinco bilhões de anos – a Terra, o mar, os peixes, os animais, até chegar ao homem. Se você transforma os quinze bilhões de anos, seis dias, eles seguem rigorosamente a lógica da criação; o que vale dizer que você pode chegar a uma verdade que não pode ser explicada pela razão, pelo conhecimento.

São Pedro, por exemplo, na sua carta número dois, declara que “um dia a Terra irá ser consumida pelo Sol, abrasada e destruída no fogo”. O que é que os cientistas, hoje, descobririam? Que, da forma como o Sol vai se consumindo, ele irá pegar os planetas menores – possivelmente Mercúrio, Vênus e a Terra – Marte talvez não chegue – irá consumi-los numa grande explosão, até voltar a ser uma estrela anã, pequena. Há dois mil anos São Pedro também não era um astrônomo.

O que eu quero dizer é que você pode chegar à existência de valores através de símbolos, de sinais. Cristo dizia que “quando há sinais no céu, no tempo, se poderá saber da colheita, quando vem a tempestade, etc..” Nós podemos também ir descobrindo, pela razão, sinais da presença revelada por Deus – que os cientistas levam muito tempo para atingir. Por essa razão você pode achar que todos os caminhos são bons e eu acredito naquele que colocou o próprio Deus vindo à Terra, conforme previsto por Isaías.

JR – É muito difícil, também, para uma pessoa conhecer todas as religiões, o volume de conhecimento, para registro, é muito grande. Mas, voltando à questão da empresa. Mesmo entre pessoas que acreditam no sistema de livre empresa, há uma certa noção de que os Protestantes teriam tido mais sucesso do que os Católicos. A “ética Protestante seria condizente com o sucesso empresarial”. Até que ponto isso teria fundamento?

IVES GANDRA – Indiscutivelmente, você se refere a Lutero e principalmente a Calvino, que acha que “o cidadão bem-sucedido seria na vida um sujeito agraciado por Deus”. É praticamente a ética Protestante que provoca a contrarreforma dos Jesuítas, etc. e ocorre num período em que, de fato, houve uma certa desestruturação do Catolicismo, da igreja Católica. A visão da época de que os valores espirituais estariam em conflito com os valores de vida comum, de vida ordinária é um pouco equivocada. Você pode, perfeitamente, ser um excelente profissional, um excelente empresário e acreditar no espírito. Uns 300 anos antes de Constantino, todo Católico tinha a sua profissão e, no próprio Evangelho, se você analisar nos atos dos apóstolos, verá que todos os cidadãos ali apresentados são profissionais. Paulo diz “eu nunca precisei deixar de trabalhar para viver, ninguém precisou me sustentar, eu era fazedor de tendas.”  Cristo era conhecido como o filho de um marceneiro e queria ser um bom marceneiro, para ser reconhecido como um sujeito competente no que fazia.

Os Protestantes aproveitaram esses ensinamentos dos primeiros anos do Cristianismo. Na Idade Média, forma-se uma concepção – que não era totalmente incorreta, mas era parcial – de que a única forma de você santificar-se, na vida, era saindo do mundo. Surgiram os Anacoretas, os Conventos e o cidadão normal, como você e eu – não passava disso. Criaram-se dois mundos. Por outro lado, o próprio Vaticano tinha os seus estados pontificiais, o que trouxe uma certa confusão, própria não da religião, mas da percepção dos homens. Mas houve um retorno ao Cristianismo original, dos primeiros 300 anos, daqueles que eram perseguidos, mas tinham a sua profissão, que trabalhavam. O Vaticano perdeu todos os seus estados pontificiais, a Itália se unifica e a sua “função” passa a ser eminentemente espiritual; não a de administrar bens. Foi quando houve o Concílio Vaticano. O Vaticano II decide que “um leigo é tão importante quanto um sacerdote, qualquer que seja a sua atividade legítima”. Mas só em 1964 isso foi confirmado e todos podem absolutamente conviver com essa maneira de ser.

Entre os Protestantes, a tentativa de vincular o sucesso de uma pessoa a ser agraciado por Deus era a visão Calvinista, que deu a impressão de que as pessoas têm de ser bem-sucedidas… Mas, voltando ao problema da empresa: indiscutivelmente – eu estou convencido – se o homem não tiver algumas barreiras internas, em matéria de espiritualidade e a ética como reflexo natural da vida humana – os negócios irão ficar como no romance de Dostoievski, Os irmãos Karamazov: “Se Deus não existe, tudo é permitido”. Sem Deus, então, trata-se apenas de fazer o melhor negócio. Creio que a grande evolução foi quando se começou a perceber, coletivamente – ainda sem falar de religiosidade – que a ética é importante. Você pega, por exemplo, o capitalismo selvagem do século XIX, o Sherman Act, o Clayton Act [Leis Antitruste] – o poder de controlar a concorrência, a própria natureza humana, que termina corrompendo governos, empresários, etc..

Mas hoje eu sinto, como professor, a preocupação que se tem com a formação de pessoas de outra natureza para as empresas. Eu estive recentemente nos Estados Unidos – eu tenho um filho que é professor residente no MIT. Eu fui fazer umas palestras e depois eu fui visitar o meu filho. Eles me levaram à Harvard Law School e eu descobri que tinha trinta e oito livros na biblioteca de Harvard…Mas ninguém mais pode cursar a Business School de Harvard, sem fazer algum trabalho de voluntariado social. O cidadão que não tenha um perfil ético, que possa ser avaliado, é visto com muitas reservas, na contratação para um emprego.

Cada vez mais, as empresas – em função da disponibilidade de conhecimento, de avanços tecnológicos, do conhecimento – precisam estimular a lealdade, para que o sujeito não fique pulando de um lugar para o outro. Então, levam muito em consideração o perfil de respeitabilidade, o perfil ético da pessoa, para saber – ao entrar – que ele pode ser alguém em quem se vai investir, na medida em que ele irá progredir sabendo de que forma tem de se comportar.

Eu sei que ainda nós estamos longe do ideal, em função da própria natureza humana, mas começa-se a perceber uma série de sinalizações, de natureza legislativa, global, de percepção dos grandes líderes de empresas de que há a necessidade de saber trabalhar o elemento humano – principalmente com valores, para poder confiar neles – na medida em que esses é que poderão dirigir. Esses escândalos recentes, nos Estados Unidos, foram escândalos pela supervalorização de executivos que, na verdade, tinham apenas o seu projeto pessoal.

JR – Perdoe-me interromper, mas não haverá uma inversão ao exigir de quem entra um comportamento ético/espiritual e – na prática – os decisores, os donos dos negócios é que “levariam os seus subordinados a pecar”, na ânsia pelo lucro diante do stress da pressão dos acionistas para a produção de resultados a curtíssimo prazo?

IVES GANDRA – Eu penso que é um elemento complicador já que – de um lado – pretende-se lealdade, pretendem-se valores, confiabilidade como o que existe na Máfia… Só que a Máfia, se você deixar de ser leal você é morto e na empresa isso não deve acontecer.

JR – Isso seria tema para uma outra entrevista, mas a Máfia não é, exatamente, um mau tipo de organização…

IVES GANDRA – Não – ao contrário – funciona. Mas, funciona nessa base. Há que se admitir a necessidade de competitividade, que pode ser muitas vezes agressiva, predatória. Há contudo, instrumentos que foram criados, gradativamente, pelos próprios legisladores do mundo inteiro a começar do Sherman Act. Se nós analisarmos, por exemplo, o século XIX em que houve o grande salto da economia Americana, foi a era de capitalismo mais selvagem que já houve no mundo. Nem na Inglaterra, nem nos países Europeus ocorreu algo tão violentamente destrutivo, muitas vezes com as características de Máfia; o concorrente era eliminado fisicamente – a construção das estradas, os grandes impérios. Foram aparecendo os princípios; da competitividade, as leis antitruste, etc.. Começa a haver regras de convívio. Nós, no nosso instituto, temos a preocupação com a deontologia(*), para ir conformando princípio; há regras que têm de ser seguidas. Que se busque o lucro, nem há dúvida, mas dentro de determinadas regras.

O que é a OMC, por exemplo, senão uma forma de regulamentar a competitividade internacional, para assegurar que não haja procedimentos desleais, no comércio e na concorrência? Eu admito que não é um problema fácil, mas há sinalizações de que o século XXI será melhor do que o século XX e ambos incomensuravelmente melhores do que o que tivemos no século XIX – e sem nenhum tipo de comparação com a situação na Idade Média.

JR – Quer dizer que você é otimista em relação ao futuro?

IVES GANDRA – Eu não sou otimista em relação ao futuro próximo por essas razões, mas por um outro tipo de razão: é que nós teremos de enfrentar problemas convivenciais que superam os problemas das empresas, que são os problemas das culturas dos povos – em nível empresarial. Diz-se que “Frei Exemplo é o melhor pregador”, quer dizer: o cidadão que não dá o exemplo não pode dizer aos outros o que fazer. Os próprios empresários que começam a exigir esse tipo de responsabilidade sentem que eles próprios devem ser confiáveis, sendo os primeiros a dar o exemplo.

“Frei Exemplo é o melhor pregador.”

Como se dissessem: “nós estamos investindo na sua capacidade de gerar novidades, tecnologias, etc., para progredir e não no sentido de práticas desleais”. Até porque as práticas desleais, quando descobertas, podem acabar com uma empresa, como aconteceu recentemente nos Estados Unidos e também aqui no Brasil. E eu considero a ética – como disse no início – extremamente vinculada a uma religiosidade. Eu penso que os princípios gerais que hoje norteiam as ações empresariais são princípios de que todos têm consciência [no nível da realidade (awareness)] – e são melhores em relação aos do passado – mas há problemas bem complexos da internacionalização, da globalização: das diferenças entre salários por exemplo. Na obra de Thomas Friedman, “O mundo é plano”, ele mostra como se contratam serviços e mão-de-obra na Índia para fazer trabalhos nos Estados Unidos, como declarações de imposto de renda individuais, etc., por um quinto do valor. E é indiscutível que a automação reduz a mão-de-obra. Por mais que se diga “as soluções serão encontradas”, com o mundo de habitantes que nós temos, fica cada vez mais difícil essa convivência entre os países desenvolvidos e os demais.

E eu considero a ética – como disse no início – extremamente vinculada a uma religiosidade.

JR – Você está falando a partir de uma visão macro…

IVES GANDRA – Sim. No nível das empresas, eu tenho a impressão que tenha havido uma evolução razoável. Eu irei lhe oferecer três livros que fazem parte de uma trilogia que eu escrevi – “Uma visão do mundo Contemporâneo”, “A era das contradições” e “A queda dos mitos econômicos”. Em 1996, eu até previa algo semelhante ao que aconteceu com as duas torres, o segundo é de 2000 e o terceiro de 2004 em que eu procuro expor uma visão macro mundial dessa série de problemas e dificuldades como, por exemplo, o narcotráfico. Por mais que se combata, ele cada vez se estende mais e, em minha opinião, se estende por falta de valores – na medida em que você tem capacidade de enfrentar com valores, você dá um instrumento da pessoa se capaz de desistir; no momento que você diz que “Deus não existe, tudo é válido…” é evidente.

JR – O nosso grande maestro, Tom Jobim, recentemente falecido dizia meio brincando meio sério que “no Brasil tudo se perdoa, menos o sucesso”. O nosso presidente, por exemplo, valoriza os pobrezinhos e critica as elites. Mas, a rigor, elite é o que há de melhor na sociedade e pobre é o carente, o que deixa de ter alguma coisa. Lembra-se do livro “O país dos coitadinhos” do Emil Farah? Será que nós estamos condenados ao fracasso?

IVES GANDRA – Eu penso que não. Mas vamos levar mais tempo, porque nós temos uma série de distorções na concepção do Estado, no Brasil. O que o presidente Lula diz, ele necessariamente, não acredita, não acredita mesmo. Mas o fato é que, no Brasil, sempre nós damos muita importância ao papel do Estado Protetor – o Brasil não tinha povo e já tinha divisão territorial e capitanias hereditárias.

JR – Uma administração que precedeu a povoação.

IVES GANDRA – Tanto é verdade, que na maioria dos estados você é chamado de “cidadão” e, aqui no Brasil, de “administrado”. No nosso Direito você não é cidadão, você é administrado, há um administrador público e você é administrado por ele. Os administradores públicos são os donos do poder sobre quem o Faoro escreveu. Isso leva a um discurso que nem sempre corresponde à realidade. O Lula sabe perfeitamente que, sem as elites, ele não vive. Qual é a política monetária do Lula para manter o superávit primário? É uma política que só beneficia quem tem capital, os mais beneficiados do governo do Lula são os que têm capital e – em minha opinião – corretamente; se ele não fizesse uma política monetária assim, nós não conseguiríamos baixar o risco-Brasil. Mas ele quer conviver com todos – com os radicais do MST, com os burocratas do PT (que fazem com que a máquina administrativa não se reduza nunca) e com todas as classes empresariais. O Furlan é um homem de empresa, o Meirelles é banqueiro, foi presidente do Banco de Boston. Então, na prática, o discurso é popular. Mas as ações têm tido certa sensatez. Veja que o Lula é convidado ao Fórum de Davos e o Hugo Chavez não, porque irá lá fazer política pois não têm o que dizer. Na prática, não há capitalista mais selvagem do que o Chavez nem cidadão mais inimigo do povo do que ele.

Um cidadão que, de fato, favorece o socialismo, não irá reduzir a produção de petróleo, para aumentar o preço, gerando exatamente uma crise que irá afetar, fundamentalmente, os países pobres. Mas também os pobres do hemisfério norte especialmente para enfrentar o frio do inverno, o rico não tem problemas. Essa era a técnica mais elementar, que se utilizava no século XIX: “se eu quero ganhar mais eu reduzo a produção para que o preço aumente”. Então ele é um capitalista selvagem, sem controle, dizendo-se socialista. Esses discursos não me impressionaram muito, são para gerar votos e popularidade, não significa que seja o que eles pensam. Agora, sobre o papel do Estado, no Brasil – com esse protecionismo – o eleitor acomodou-se a uma situação em que cabe ao Estado resolver tudo.

Por exemplo, Bolsa Família é uma forma de incentivo ao ócio, apesar do aspecto social positivo, mas é assistencialista. Outro dia, soube de um caso interessante: um zelado de prédio em Pernambuco pediu demissão dizendo: “Eu não quero mais ser zelador. Eu fiz a conta e, se eu continuar trabalhando aqui, eu não ganho a Bolsa Família e nem a Bolsa Escola; com os filhos que eu tenho, eu irei ganhar mais estando desempregado do que se eu estivesse trabalhando”. E ele fez as contas no papel. Na prática nós ainda temos a mentalidade de esperar tudo do Estado. Isso irá ter que mudar, pois a competitividade internacional está sendo de tal ordem, que não adianta: ou você se insere no mundo ou irá ficar para trás. Veja o nosso crescimento pífio nesses últimos anos.

JR – Isso não tem ligação, também, com o problema ético candente nosso, que é a questão da corrupção – afinal de contas, a corrupção começa no Estado ou começa na empresa?

IVES GANDRA – Necessariamente, começa no Estado. Se houvesse um Estado enxuto, haveria menos corrupção; quanto mais mastodonte for o Estado, mais corrupção, porque tudo se faz à base da corrupção. Aliás, eu não chamo a isso de corrupção, mas sim de “concussão”.

JR – Qual a diferença?

IVES GANDRA – Na verdade, nós vivemos mais em função de concussão do que de corrupção. Na corrupção, o agente público é o sujeito passivo; o sujeito ativo é o agente; na concussão, o sujeito ativo é o agente público e o cidadão é o sujeito passivo, que não tem alternativa. Se você precisa de um determinado documento e lhe dizem: “só lhe dou se você me der tanto, senão vai demorar três meses” – você não tem escolha. Isso se chama, em Direito Penal de concussão. Hoje, no Brasil, a concussão é muito maior do que a corrupção porque praticamente tudo anda à base de uma comissão aqui, uma gorjeta lá, etc.. E eu estou falando na micro administração porque – quando se chega na macro – veja todos os relatórios, esse ano, sobre superfaturamento; só podem levar à conclusão de que boa parte dos recursos foram destinados aos administradores públicos. Não sei se você chegou a ler, há alguns dias, o relatório da Heritage Foundation e eles põem o Brasil em sexagésimo segundo lugar em relação ao item corrupção, entre os cento e cinquenta e oito países pesquisados.

Na corrupção, o agente público é o sujeito passivo; o sujeito ativo é o agente; na concussão, o sujeito ativo é o agente público e o cidadão é o sujeito passivo, que não tem alternativa.

JR – Não era uma questão de percepção de corrupção? Creio que cheguei a escrever sobre isso…

IVES GANDRA – Percepção de corrupção por parte dos empresários. Porque, na verdade, você só pode definir a corrupção por percepção, já que não há registro.

JR – Lembro-me de que o comentário que me ocorreu foi, justamente, que o Brasil não estava nem entre os melhores e nem entre os piores: estava no meio.

IVES GANDRA – Sim, mas em relação aos outros emergentes nós estamos mal – o Chile está em décimo primeiro e nós estamos em sexagésimo segundo. Eu estou convencido, no caso do Brasil, de que nós ainda temos de evoluir muito; eu chego a achar que nós só temos um problema, que é o tamanho do Estado; no dia em que você reduzir o tamanho do Estado, você não irá eliminar a corrupção, não irá eliminar a concussão, mas irá reduzi-las sensivelmente. A International Fiscal Association, maior entidade tributária do mundo, afirma que existe uma regra elementar: quanto maior a carga tributária, maior a sonegação, maior a corrupção; quanto menor a carga tributária, menores tanto uma como outra.

“…eu chego a achar que nós só temos um problema, que é o tamanho do Estado; no dia em que você reduzir o tamanho do Estado, você não irá eliminar a corrupção, não irá eliminar a concussão, mas irá reduzi-las sensivelmente.”

JR – Uma correlação perfeita.

IVES GANDRA – Quando se diz “precisamos reduzir a carga tributária”, deve-se refletir que, se eu não reduzir a carga burocrática, eu não reduzirei nunca a carga tributária – e isso está vinculado à ética. Quando o cidadão – aquilo que em Direito Penal se chama de Estado de Necessidade – não tem outra alternativa senão se se admite até a morte por estado de necessidade, isso é admitido como um ato de sobrevivência, ou roubo em Estado de necessidade comprovado também. Na verdade, se nós não diminuirmos o tamanho do Estado – eu estou absolutamente convencido – o Brasil irá ser um país marginalizado.

Thomas L. Friedman, no seu livro, mostra um dado que, em 1992, a Índia era um Estado absolutamente semelhante ao brasileiro; mas começaram a ganhar eficiência, porque depois de diminuída a “máquina”, todos os outros setores melhoraram. No Brasil, não se tem a mentalidade de servidor público, não há carreiras públicas, a não ser algumas como magistrados, militares, corpo diplomático, etc.. A máquina está inchada, não só por concursos públicos, mas pelos “amigos dos reis”, aqueles que vão conseguindo.

Claro que isso prejudica muito a ética empresarial por que as empresas são obrigadas a fazer determinados acordos, senão não sobrevivem. O que eu chamo de concussão está no Código Penal Brasileiro.

Voltando à religiosidade, o Cidadão, empresário que tiver uma formação religiosa e uma formação ética terá mais condições de fazer as opções certas e – ao mesmo tempo – de expor menor a empresa, do que àquele que não tem escrúpulos e não tem limites. Porque há outro dado que tem de ser levado em consideração: muitas vezes nessa luta por competitividade, do “eu irei corromper, eu irei comprar, tudo é válido, etc.”, irão se deixando rastros que o Ministério Público ou uma fiscalização pegando, podem destruir uma empresa. Há casos recentes, nos Estados Unidos, da Arthur Andersen, que era uma das maiores auditorias do mundo e desapareceu por ter dado um laudo incorreto no caso da Enron. A ousadia muito grande na competição sem escrúpulo deixa rastro e torna mais vulnerável.

JR – Mas você está citando os Estados Unidos. E aqui?

IVES GANDRA – No Brasil também, a toda hora há demonstrações de empresas, que resolveram ser mais ousadas e quando se descobre – nós temos um caso recente no Tribunal Regional de uma empresa seríssima e respeitada…

JR – Eu tinha um tio que dizia: “Olha meu filho, é melhor ser honesto, nem que seja por malandragem”.

IVES GANDRA – É muito possível que, sob certas circunstâncias, a maior falta de ética é ser ético, porque se você leva uma vantagem enorme, todas as ponderações são feitas medindo riscos e refletindo: “se eu não posso deixar de concorrer, é a regra do jogo, não há como”, então é um caso de concussão. Agora, se eu posso adotar critérios que sejam de competitividade, de valorização – não só nas relações de competitividade, mas também nas relações sociais com os empregados. Hoje, um dos grandes problemas que se coloca é exatamente essa convivência com o empregado, o empregado não é uma peça de uma máquina, mas um cidadão, com formação ética e religiosa…

JR – Eu acho importante esse seu exemplo, porque expressa a sua confiança no poder do indivíduo de, de fato, influenciar as coisas – através da sua convicção, da sua ética, das suas crenças…

IVES GANDRA – Eu estou convencido disso. Eu nunca tive ambições políticas. Eu fui presidente de um partido político, o PL, até 1965. Depois do Ato Constitucional n} 2, o PL, aqui em São Paulo, nunca mais eu fiz política; eu fui convidado para Ministro, Secretário de Estado, Secretário Municipal, eu não aceitei; convidaram-me para Desembargador, na época era o Tribunal que convidava, eu não aceitei. Queriam que eu saísse candidato à Senador, eu não aceitei porque eu não sou político, mas apenas advogado, eu tenho consciência, eu gosto de lecionar, eu gosto da reflexão política – e sendo um cidadão com mentalidade social, eu escrevo permanentemente em jornais da cidade.

JR – Isso me parece extrema modéstia; você é um formador de opinião.

IVES GANDRA – Eu faço isso porque eu entendo que, apesar de todas as minhas limitações, eu tenho uma responsabilidade em relação à sociedade em que eu vivo. Afinal, eu tive um pai que me permitiu que estudasse e me deu apoio; e outros que trabalham comigo, que poderiam ser muito melhores do que eu, não tiveram. De alguma forma, você tem de dar para a sociedade algo em troca e uma forma de dar é transmitir os seus valores. Pode ser até que estejam errados, mas pelo menos, há convicção.

E não só dentro do ambiente em que você vive. João Carlos, por exemplo, meu irmão, que você conhece – está desenvolvendo, com meninos –, um projeto de música. Ele está com duas orquestras de meninos – inclusive da FEBEM – que está transformando personalidades. Quando nós morremos, não levamos nada do que fizemos.

Contam que o Cardeal Richelieu, no fim da vida, já velho, passava pelos seus salões, aquelas alfaias, passava a mão e dizia “se eu pudesse, se eu pudesse levar tudo isso…” Não irá poder, é bobagem. Quando eu falo, “eu sou o pior exemplo”, tem gente lá no Centro de Extensão dos professores do ISE que são administradores, por exemplo, o Paulo Ferreira, que é nosso diretor e ele foi vice-presidente da Dal Internacional, morou nos Estados Unidos durante sete, oito anos. Eu gosto de repetir: “Frei Exemplo é o melhor pregador, não adianta só falar”. Se o cidadão vê que você não está vivendo aquilo, a sua palavra não vale absolutamente nada. Eu acho que religiosidade é bom o homem ter; mesmo os ateus agnósticos acreditam em valores que podem não ser Deus, mas precisam de um valor. O homem tem necessidade disso.

A ética e a moral – seja na visão Grega, na visão Romana, na visão mais superlativa, mais pragmática ela não é conflitante, mas é uma consequência natural da religiosidade. E que você pode optar, evidentemente, adaptando-se às realidades, mas isso serve de um balizamento para não levar a aventuras. Isso pode representar uma evolução menos rápida, mas sempre mais segura. Considero isso como uma fórmula: religiosidade, ética e aplicação pragmática.”

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(*) Observação PO: Significado de Deontologia

Fonte: Deontologia: o que é, significado e ética profissional – Significados

Deontologia é uma filosofia que faz parte da filosofia moral contemporânea, que significa ciência do dever e da obrigação.

A deontologia é um tratado dos deveres e da moral. É uma teoria sobre as escolhas dos indivíduos, o que é moralmente necessário e serve para nortear o que realmente deve ser feito.

O termo deontologia foi criado no ano de 1834, pelo filósofo inglês Jeremy Bentham, para falar sobre o ramo da ética em que o objeto de estudo é o fundamento do dever e das normas. A deontologia é ainda conhecida como “Teoria do Dever”.

Immanuel Kant também deu sua contribuição para a deontologia, uma vez que a dividiu em dois conceitos: razão prática e liberdade.

Para Kant, agir por dever é a maneira de dar à ação o seu valor moral; e por sua vez, a perfeição moral só pode ser atingida por uma livre vontade.

A deontologia também pode ser o conjunto de princípios e regras de conduta ou deveres de uma determinada profissão. Ou seja, cada profissional deve ter a sua deontologia própria para regular o exercício da profissão, e conforme o Código de Ética de sua categoria.

Para os profissionais, deontologia são normas estabelecidas não pela moral e sim para a correção de suas intenções, ações, direitos, deveres e princípios.

O primeiro Código de Deontologia foi feito na área da medicina, nos Estados Unidos.

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Imagem: vitaly-gariev-Kxo17w7BurY-unsplash 27.11.25

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.

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Graduação: Engenharia Operacional Química. Graduação: Engenharia de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing - PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras - FGV/SP. Blog Projeto OREM® - Oficina de Reprogramação Emocional e Mental - O Blog aborda quatro sistemas de pensamento sobre Espiritualidade Não-Dualista, através de 4 categorias, visando estudos e pesquisas complementares, assim como práticas efetivas sobre o tema: OREM1) Ho’oponopono - Psicofilosofia Huna. OREM2) A Profecia Celestina. OREM3) Um Curso em Milagres. OREM4) A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE) - Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT). Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista como uma proposta inovadora de filosofia de vida para os padrões Ocidentais de pensamentos, comportamentos e tomadas de decisões (pessoais, empresariais, governamentais). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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