Com o objetivo de conhecimento e de entendimento sobre o sistema de pensamento de uma Organização Baseada na Espiritualidade (OBE), nós estamos transcrevendo trechos do artigo “Workplace Spirituality – Making a Diference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”], editado por Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer.

A fonte do artigo é o livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1, dos autores acima referenciados.

O Prefácio abaixo explica a razão de ser desse importante artigo para entendimento do passado, presente e futuro do que se tem observado no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho.

Artigo:

“Workplace Spirituality – Making a Diference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”]

Editado por:

Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer

Fonte:

Livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1

DE GRUYTER (www.degruyter.com)

Instituto Fetzer (Home – The Fetzer Institute)

Essa obra está licenciada sob a Licença Internacional Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0. Para mais detalhes, acesse http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0.

Tradução livre Projeto OREM® (PO)

Prefácio

Esse livro é extremamente relevante e oportuno. A e a espiritualidade têm sido um aspecto fundamental da experiência humana ao longo dos tempos. No entanto, a forma como são experienciadas e expressas continua a mudar com o passar do tempo. Por exemplo, no contexto dos Estados Unidos (EUA), uma pesquisa recente da Gallup mostra que a participação de Americanos em locais de culto (por exemplo, sinagogas, igrejas ou mesquitas) caiu para 47% – o nível mais baixo nos 80 anos de história da pesquisa e uma queda em relação aos 70% registrados em 1999 (Jones, 2021). Isso representa um declínio constante desde o início do século XXI. Essa tendência é impulsionada por dois fatores: um número maior de adultos que não se identificam com nenhuma religião e um declínio na frequência a igrejas entre aqueles que se identificam com alguma religião. Por trás dessas tendências, existem diferenças populacionais ou geracionais, com as gerações mais jovens expressando menos afiliação religiosa (7% dos tradicionalistas – adultos Americanos nascidos antes de 1946; 13% dos baby boomers (1946-1964); 20% da geração X (1965-1980) e 31% dos millenials (geração Y) (1981-1996)).

Simultaneamente, o Instituto Fetzer apoiou um estudo sobre a espiritualidade Americana que buscou entender melhor o significado da espiritualidade para os Americanos e como ela influencia as suas vidas sociais e ações cívicas (Instituto Fetzer, 2020). O estudo incluiu participantes de diversas afiliações religiosas ou identidades espirituais, incluindo aqueles sem nenhuma. Constatou-se que “a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020). Mais especificamente, 86% das pessoas se consideram espirituais e 68% acreditam que a sua espiritualidade guia as suas ações no mundo. Esses números incluem pessoas que se identificam com alguma tradição religiosa e aquelas que não se identificam.

…“a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020)

O que nós podemos concluir desses dois relatórios aparentemente contraditórios? Eu apresento esses dados como base para a importância e a relevância da espiritualidade no ambiente de trabalho. Para muitos, a espiritualidade no ambiente de trabalho é inadequada. Contudo, como demonstram esses estudos, muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando. Ao mesmo tempo, muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013). De fato, para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores. Além disso, as organizações são frequentemente os mecanismos estruturais pelos quais as sociedades se organizam e alcançam os seus objetivos sociais, econômicos e técnicos mais importantes e complexos. Elas são tanto impulsionadoras quanto representações da vida e dos valores da sociedade. Diante disso, elas permanecem um foco crucial e um potencial impulsionador do crescimento e desenvolvimento pessoal e do florescimento humano.

muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando.

Reconhecendo tudo isso, no Instituto Fetzer (o Instituto), nós nos esforçamos para viver a nossa missão e os nossos valores criando uma comunidade de ambiente de trabalho espiritualmente fundamentada, que nós chamamos de Community of Freedom (COF) [Comunidade da Liberdade]. A nossa COF é o alicerce espiritual do nosso trabalho para transformar a nós mesmos e a sociedade de maneira autêntica e eficaz.

muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013).

As maneiras de ser e as práticas individuais e comunitárias expressas por meio da COF – e enraizadas em nossos valores organizacionais essenciais de amor, confiança, autenticidade e inclusão – apoiam o Instituto no cultivo da cultura necessária para concretizar a nossa missão de ajudar a construir a base espiritual para um mundo amoroso. Uma das estruturas que nós utilizamos para nos mantermos firmes em nossa missão e visão são os nossos community of freedom gatherings (COFG) [encontros da comunidade da liberdade]. Os COFGs consistem em encontros semanais de três horas com todos os funcionários – desde os nossos jardineiros e equipe de programas até a nossa equipe e líderes de finanças e tecnologia da informação. Durante os COFGs, nós convidamos facilitadores externos e professores espirituais para nos ajudar a nos envolvermos em exploração espiritual individual e comunitária e na construção da comunidade. Nós também oferecemos sessões ministradas por funcionários e fornecemos espaço e recursos para que os funcionários busquem os seus caminhos pessoais. Exemplos de sessões incluem conjuntos de práticas contemplativas, a ciência do bem-estar, a capacidade de diálogo e o convívio com o luto coletivo. As sessões geralmente incluem componentes didáticos e experienciais, além de oportunidades para discussões em pequenos e grandes grupos, que permitem aos funcionários compartilhar experiências profundas uns com os outros.

para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores.

Em 2016, o Instituto encomendou um estudo de caso independente para aprender mais sobre os primeiros pontos positivos, desafios e impactos do COFG. Algumas das principais conclusões foram que os funcionários sentiram um aumento na confiança, no moral, na conexão e na capacidade de lidar com dificuldades relacionais a partir do trabalho. O estudo de caso também abordou questões e preocupações dos funcionários sobre o propósito dos COFGs em relação ao nosso trabalho externo, o uso de linguagem inclusiva e a abordagem do COFG e as suas ofertas e como os encontros se traduzem em políticas e práticas organizacionais mais amplas. Algumas dessas questões têm sido respondidas à medida que nós temos aprofundado o nosso trabalho como uma comunidade e outras nós continuamos a investigar e a desenvolver.

O Instituto não só se dedica a cultivar um ambiente de trabalho espiritualmente fundamentado, como também busca aprender com outros que compartilham da mesma visão sobre como cultivar culturas organizacionais que apoiem o desenvolvimento e o florescimento humano; e que permitam às organizações operar a partir de sua visão e valores mais profundos, rumo a um mundo mais amoroso. É esse compromisso que motiva o nosso apoio ao trabalho realizado pela International Association of Management, Spirituality and Religion (IAMSR) [Associação Internacional de Gestão, Espiritualidade e Religião], incluindo esse volume. Aqueles que buscam criar ambientes de trabalho que sejam espaços robustos para o florescimento humano e o mundo que nós desejamos habitar precisam de apoio e companheiros de jornada. Muitos de nós estamos lidando com questionamentos semelhantes sobre os prós e os contras de trazer a espiritualidade para o ambiente de trabalho.

Há muito que nós temos aprendido nos últimos vinte anos de experimentação nessa área e muito mais a aprender. Esse volume oferece algumas das melhores ideias e práticas de líderes de pensamento na área. Que ele sirva de inspiração e alimente a nossa imaginação e esforços coletivos em relação ao que é possível.

Shakiyla Smith, Vice-Presidente de Cultura Organizacional – Instituto Fetzer – 10 de novembro de 2021.

Referências

Fetzer Institute. (September 2020). Study of Spirituality in the United States. Report retrieved from https://spiritualitystudy.fetzer.org/sites/default/files/2020-09/What-Does-Spirituality-Mean To-Us_%20A-Study-of-Spirituality-in-the-United-States.pdf  

Jones, J.M. (2021). U.S. Church Membership Falls Below Majority for First Time. Gallup. Retrieved from https://news.gallup.com/poll/341963/church-membership-falls-below-majority-first time.aspx

Kegan. R., Lahey, L. L.(2016). An everyone culture: Becoming a deliberately developmental organization. Harvard Business Review Press.

Neal. J. (2013). Creating enlightened organizations: Four gateways to spirit at work. Palgrave Macmillan.

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—–Continuação da Parte XVIII—–

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19 Espiritualidade no Ambiente de Trabalho e o Olhar Etnográfico

Autora: Juliette Koning

Introdução

Esse capítulo defende o uso da etnografia para um melhor entendimento da espiritualidade no ambiente de trabalho. Nesse capítulo, espiritualidade no ambiente de trabalho refere-se à pesquisa sobre valores e sistemas de crenças religiosas/espirituais no contexto profissional, incluindo pesquisas dentro do campo mais amplo de Management, Spirituality and Religion (MSR) [Gestão, Espiritualidade e Religião]. Seguindo Fotaki, Altman e Koning (2020, p. 10), que afirmam que “as crenças espirituais desempenham um papel central na vida de religiosos, assim como de não religiosos e ateus” e, portanto, eu não imponho restrições a esses rótulos. É notável que a aparente boa adequação entre os dois não tenha resultado em uma forte representação da etnografia nos estudos sobre espiritualidade no ambiente de trabalho até o momento. Não é a nossa intenção explorar as razões para isso, mas sim apresentar o conjunto mais amplo de abordagens etnográficas (autoetnografia, etnografia organizacional, autoetnografia organizacional) e destacar a  sua potencial contribuição para o campo da espiritualidade no ambiente de trabalho. Esse capítulo dá continuidade às discussões no âmbito da espiritualidade no ambiente de trabalho para explorar maneiras alternativas de conhecimento e se baseia em minhas próprias experiências de pesquisa etnográfica na interseção entre religião e negócios, bem como em meus escritos sobre etnografia como uma abordagem de pesquisa.

Pesquisando a Espiritualidade no Ambiente de Trabalho

Ao analisar o campo de Management, Spirituality and Religion (MSR) [Gestão, Espiritualidade e Religião], um tema recorrente é como esse campo relativamente jovem e emergente deve melhor estudar a “tela em branco” (Tackney et al., 2017, p. 245). Surgem questões quanto à sua ontologia e epistemologia, bem como às abordagens de pesquisa relacionadas (ver, por exemplo, Lund Dean et al., 2003; Lund Dean & Fornaciari, 2007; Miller & Ewest, 2013; O. Burton et al., 2017; Tackney et al., 2017; Neal, 2018). Essas discussões giram em torno do desenvolvimento de medidas eficazes e modelos robustos, numa tentativa de posicionar o campo como científico. Como argumentado por Neal (2018), essa tendência mais científica, focada na mensuração rigorosa do construto espiritualidade, deve-se à associação do campo com as tradições clássicas de gestão. Mas, como apontado por Benefiel (2003a, 2003b, 2005), pode haver um paradoxo entre as preocupações objetivas, materiais e quantificáveis ​​da ciência (e, por extensão, da gestão e da ciência organizacional) e as preocupações não materialistas da religiosidade e da espiritualidade.

Ao mesmo tempo, Lin et al. (2016, p. x) sugerem a necessidade de um paradigma de pesquisa que integre “alma e espírito” com “corpo e mente” e Tackney et al. (2017, p. 250) sugerem que são necessárias “novas fontes de dados (narrativas, histórias pessoais etc.)” que permitam a pesquisa sobre “maneiras interconectadas de ser”. Assim, quais seriam as metodologias alternativas e outras maneiras de conhecimento; especificamente aquelas que permitem fazer perguntas relacionadas ao “eu” [“ser”, “self”] no contexto da MSR (Neal, 2018, p. 48)? As discussões atuais no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho parecem culminar em um apelo por abordagens de pesquisa relacionais, intuitivas, corporificadas, não lineares e inclusivas, que investiguem os processos de construção de significado relacionados à espiritualidade no ambiente trabalho. Eu argumentarei que a etnografia contribui significativamente para abordar algumas dessas questões. Curiosamente, uma busca em bases de dados por “etnografia” e “espiritualidade no ambiente de trabalho” ou “relacionamentos interpessoais” gera um número surpreendentemente pequeno de resultados.

Etnografia

Então, o que a etnografia é capaz de oferecer ao campo da espiritualidade no ambiente de trabalho e que exemplos existem para ajudar o pesquisador interessado em sua jornada?

Uma breve recapitulação das características únicas da etnografia pode ser um importante ponto de partida. Como bem colocou Cunliffe (2010, p. 227), a etnografia trata do “entendimento da experiência humana – como uma determinada comunidade vive por meio do estudo de eventos, linguagem, rituais, instituições, comportamentos, artefatos e interações”. Fazer etnografia implica em trabalho de campo (imersão no campo por algum tempo), do qual grande parte consiste em observação (participativa) e exploração do fenômeno de interesse em seu ambiente “natural”. Portanto, a etnografia é sempre uma abordagem sensível ao contexto, o que significa que as interpretações às quais o pesquisador chega estão inseridas no contexto (tempo e lugar) da pesquisa. Como o pesquisador é a principal ferramenta de pesquisa, “as suas experiências e observações – documentadas em um diário de campo e posteriormente processadas – são uma fonte central de dados” (Zilber & Zanoni, 2020, p. 4; Hall, 2013).

“…a etnografia trata do ‘entendimento da experiência humana – como uma determinada comunidade vive por meio do estudo de eventos, linguagem, rituais, instituições, comportamentos, artefatos e interações’” (Cunliffe, 2010, p. 227).

Isso exige reflexividade(*) por parte do pesquisador, uma avaliação crítica de como o significado e a interpretação são construídos por ele (Cunliffe, 2003). Isso implica um nível de consciência no nível da realidade [awareness] de como a nossa posição e as nossas experiências impactam o que nós “vemos” e as afirmações de conhecimento às quais nós chegamos (Ybema et al., 2009). Para pesquisar a espiritualidade no ambiente de trabalho, Lips-Wiersma (2003, p. 407), por exemplo, argumenta que é extremamente importante ser transparente sobre “os dogmas, definições, medos e desejos que nós trazemos para a pesquisa e identificar como eles moldam as questões de pesquisa, as escolhas metodológicas, a amostragem e a representação”. Para aqueles menos familiarizados com a etnografia, pode parecer que ela consiste em métodos pouco ortodoxos para se aproximar o máximo possível do mundo da vida das pessoas pesquisadas. Isso geralmente inclui uma combinação de escuta, observação, conversa, vigilância, ajuda, leitura, reflexão e assim por diante, com o objetivo de chegar a um melhor entendimento do que está acontecendo (na comunidade em foco) e por quê (van Maanen, 2001).

(*) Observação PO: “A reflexividade é uma ideia que remete à capacidade que nós temos de refletir sobre as nossas próprias ações, pensamentos, atitudes e até mesmo sobre o impacto que eles desencadeiam no contexto social. Em termos simples, é pensar sobre o próprio pensar, analisar os motivos por trás de nossas escolhas e entender os efeitos de nossas ações. Essa prática de autoanálise desenvolve uma maior consciência no nível da percepção [consciousness] de si mesmo, estimulando mudanças positivas e a construção de uma identidade mais sólida.” Fonte: 🌀 Lucidarium – Sua Bússola no Mundo do Conhecimento

Existe um impulso para entender a partir de dentro (o que não é o mesmo que “se integrar à cultura local”, uma afirmação frequentemente ouvida) que inclui a imersão do pesquisador no campo por um período significativo, “explorando a microdinâmica da realidade social a partir da perspectiva das pessoas que a constroem e a vivenciam” (Zilber & Zanoni, 2020, p. 2). Como afirmam Azouz et al. (2021, p. 4), é essa presença nos bastidores que permite ao etnógrafo “capturar sutilezas religiosas e interpessoais”. Muitas das abordagens etnográficas atuais parecem ser fundamentadas em paradigmas qualitativos, interpretativos e críticos que abrangem a subjetividade, a emotividade e a valorização da influência do pesquisador na pesquisa. No entanto, não há apenas uma narrativa que os etnógrafos contam (outro ingrediente essencial da etnografia, o resultado escrito). Com o tempo, narrativas clássicas podem perder popularidade, como a narrativa realista (que apresenta as observações como a realidade), enquanto outras ganham espaço, como a narrativa de defesa de direitos que aborda grandes injustiças (van Maanen, 1988, 2010).

“Como afirmam Azouz et al. (2021, p. 4), é essa presença nos bastidores que permite ao etnógrafo ‘capturar sutilezas religiosas e interpessoais’”.

Algumas das características centrais da etnografia, como a imersão em um campo específico (local de trabalho, igreja, mosteiro) e, por meio da observação (participativa), a tentativa de capturar de perto um mundo de vida (cultural) específico, tanto o singular quanto o cotidiano e desenvolvê-lo em um texto que desafie o leitor a “questionar e reexaminar as suas crenças tidas como certas” (Bate, 1997, p. 1153), tornam a etnografia bastante adequada para capturar o significado da espiritualidade no ambiente de trabalho. Ela permite a exploração das experiências individuais de membros da comunidade/organização dentro de seu contexto cultural, como sugere Cullen (2011) em seu estudo sobre um programa de espiritualização em uma empresa.

Uma característica importante da abordagem etnográfica é a dimensão experiencial. Em outro trabalho, eu mencionei que a minha observação participante e imersão em uma comunidade Pentecostal-Carismática me “sensibilizaram” em um “nível pessoal por meio de experiências vívidas” das dimensões experienciais do Cristianismo Pentecostal-Carismático (Koning & Waistell, 2012, p. 68). Isso se relaciona com o que Hall (2013, p. 132) considera uma característica singular do uso da etnografia no estudo de congregações, onde “os pesquisadores podem participar das atividades no ambiente em que estão conduzindo a sua pesquisa e tentar entender o que essas atividades e ações significam para as pessoas nesse ambiente”.

Suspender o julgamento é uma consideração importante, especialmente relevante ao realizar pesquisas em ambientes desconhecidos ou sobre práticas desconhecidas (como a espiritualidade no ambiente de trabalho). Isso é extremamente relevante e se relaciona com a ideia de querer fazer justiça à experiência da espiritualidade ou religião, ainda mais se o pesquisador não faz parte da comunidade ou cultura. A reflexividade é uma forma de lidar com essas experiências como etnógrafo. Em outro trabalho (Koning & Ooi, 2013), eu escrevi sobre momentos de desconforto que eu experienciei em campo (na comunidade Pentecostal-Carismática mencionada anteriormente). Mas, ao analisar esses momentos, eu obtive muitas percepções sobre a comunidade religiosa e as suas experiências, práticas e comportamentos. Como argumenta Davies (Davies, 2010, p. 13), a reflexividade oferece muitas pistas analíticas e é “epistemologicamente informativa”.

A reflexividade é uma forma de lidar com essas experiências como etnógrafo.

Como argumenta Davies (Davies, 2010, p. 13), a reflexividade oferece muitas pistas analíticas e é “epistemologicamente informativa”.

Uma questão recorrente, especialmente no que diz respeito ao estudo de comunidades religiosas, é a questão do “insider” [fonte interna] versus “outsider” [fonte externa]. Como mencionado, a pesquisa etnográfica busca se aproximar o máximo possível dos mundos da vida [um estado de coisas em que o mundo é experienciado, o mundo é vivido] em estudo , mas também requer certo distanciamento para “enxergar” as características únicas e cotidianas desse mundo e poder oferecer insights científicos. Esse processo é sempre permeado por emoções, posicionamentos, construção de relacionamentos e questões de limites. Já se reconhece que os pesquisadores são, muitas vezes, parcialmente insiders e parcialmente outsiders e que isso resulta da interação entre o pesquisador e a comunidade (e não apenas da prerrogativa do pesquisador de decidir); trata-se, ao mesmo tempo, de poder e representação (Clifford & Marcus, 1986).

“…a pesquisa etnográfica busca se aproximar o máximo possível dos mundos da vida em estudo, mas também requer certo distanciamento para ‘enxergar’ as características únicas e cotidianas desse mundo e poder oferecer insights científicos.

Apesar desses avanços, essa questão do “insider” versus “outsider” no estudo da religião (ou áreas afins, como a espiritualidade) persiste (Jensen, 2011). O debate gira em torno de como conduzir o estudo de uma comunidade religiosa ou espiritual se o pesquisador não pertence a ela e quais os desafios que podem surgir se o pesquisador pertencer (Arweck, 2002; Chryssides & Gregg, 2019). Enquanto alguns argumentam que a distinção é problemática e pode obscurecer mais do que revelar (Jensen, 2011), outros defendem que esses termos podem ser melhor percebido como uma “série de relacionamentos” que podem transitar do distante ao próximo, abrindo possibilidades, mas também causando confusão; percebê-los dessa forma pode nos aproximar da “realidade complexa do trabalho de campo” (Bowie, 2019, p. 125). É importante ter em mente que tentar enquadrar o pesquisador em uma dessas posições cria uma dicotomia que “essencializa” tanto o pesquisador quanto a comunidade de pesquisa (Collins, 2002, p. 91). Mais importante ainda, ignora a possibilidade de o pesquisador não ser nem um “crente” nem um “cético” (Bowie, 2019, p. 111).

A Família Etnográfica: Etnografia Organizacional e Autoetnografia

A etnografia faz parte do que eu prefiro chamar de uma família maior de abordagens etnográficas. Essas incluem a etnografia organizacional ou do ambiente de trabalho, a autoetnografia e a autoetnografia organizacional. Cada uma delas pode ser relevante para o estudo da espiritualidade no ambiente de trabalho. A Tabela 19.1 abaixo aborda o que torna cada uma dessas abordagens única à sua maneira e o que cada uma implica para o objetivo principal da pesquisa, os papéis do pesquisador e do pesquisado e qual o resultado pretendido. A tabela também fornece exemplos de potenciais tópicos de pesquisa no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho e MSR e alguns recursos essenciais.

A visão geral na Tabela 19.1 abaixo indica que, embora haja um interesse comum entre essas abordagens etnográficas, ou seja, o entendimento da cultura, a transição da etnografia para a autoetnografia desloca o foco para um exame mais intenso do eu [ser, self]. A abordagem do pesquisador como sujeito na autoetnografia e na autoetnografia organizacional ou no ambiente de trabalho cria desafios únicos, devido à exposição de experiências muitas vezes altamente pessoais e à revelação de reflexões íntimas sobre o contexto cultural (próprio), que pode ser um ambiente de trabalho ou uma comunidade espiritual/religiosa.

Nas seções seguintes, eu abordarei as características dessas “outras” etnografias e as fundamentarei com exemplos da espiritualidade no ambiente de trabalho e/ou da MSR para destacar como essa abordagem foi adotada por alguns (na verdade, apenas alguns) e o que ela tem a oferecer ao campo em geral.

Etnografia Organizacional

A etnografia organizacional (ou do ambiente de trabalho) é uma abordagem de pesquisa que explora a vida organizacional a partir de dentro da organização. Ela se concentra em entender como os membros da organização dão sentido ao seu cotidiano organizacional, às suas atividades e práticas. Nesse processo, a atenção frequentemente se volta para desvendar dimensões ocultas, como emoções, poder e política (Ybema et al., 2009), mas também pode estudar o humor para entender a criação da identidade organizacional (Huber & Brown, 2017), a implementação de um programa de liderança espiritual (Cullen, 2011) ou o papel da religiosidade em uma empresa familiar e o seu impacto sobre membros não familiares (Azouz et al., 2021). Diferentemente da imagem do antropólogo viajando para lugares distantes e desconhecidos, o etnógrafo organizacional pode permanecer mais próximo de casa, “encontrando-se preso ao familiar e ao mundano”, mas é justamente esse ambiente de trabalho comum “que o etnógrafo precisa abordar com curiosidade, respeito e investigação” (Ciuk et al., 2018, p. 272).

A etnografia organizacional (ou do ambiente de trabalho) é uma abordagem de pesquisa que explora a vida organizacional a partir de dentro da organização.

Como argumentado por Burton et al. (2018, p. 4), a etnografia organizacional é adequada para o estudo das práticas de gestão e organização de organizações religiosas, pois essas são “exploradas no contexto das tradições específicas de crença e prática nas quais estão inseridas”. As características singulares da espiritualidade no ambiente de trabalho e/ou de organizações de inspiração religiosa reside na relação entre fé, crenças, organização e atividades (Hinings & Raynard, 2014). Uma abordagem etnográfica, focada na experiência, nos detalhes, no contexto/cultura e na complexidade, é bastante apropriada para conciliar a atenção aos elementos espirituais/religiosos e aos organizacionais. A desconstrução de fronteiras (sagrado/secular ou insider/outsider) é parte integrante da abordagem. Eu utilizarei o estudo de Todd (2012) sobre como e por que organizações religiosas em rede trabalham pela justiça social em suas comunidades locais para oferecer insights sobre essa etnografia organizacional.

Como argumentado por Burton et al. (2018, p. 4), a etnografia organizacional é adequada para o estudo das práticas de gestão e organização de organizações religiosas, pois essas são “exploradas no contexto das tradições específicas de crença e prática nas quais estão inseridas”.

Todd (2012, p. 229) discute o resultado de “mais de um ano e meio de participação etnográfica em duas organizações religiosas distintas, focadas no aprimoramento da comunidade e na justiça social” e tem especial interesse em explorar o papel dos “ambientes religiosos na promoção da justiça social”. Todd (2012, p. 233) dedica uma seção específica, intitulada “pesquisador”, na qual aborda questões como a sua própria religiosidade, as suas suposições em relação às duas organizações religiosas que ele selecionou (uma Cristã e uma Inter-Religiosa) e o seu interesse pela Teologia da Libertação. Ele explica cuidadosamente que essas revelações pessoais não devem ser “descartadas”, mas sim reconhecidas como fazem parte de sua perspectiva e como ele “manteve constante atenção à influência de sua posição social em sua interpretação dos dados” (ibid.). Como mencionado anteriormente, a reflexividade é uma característica importante na pesquisa etnográfica. O artigo de Todd é um bom exemplo de como isso pode ser reconhecido.

Uma abordagem etnográfica, focada na experiência, nos detalhes, no contexto/cultura e na complexidade, é bastante apropriada para conciliar a atenção aos elementos espirituais/religiosos e aos organizacionais.

Uma seção particularmente útil do artigo é aquela em que Todd (2012) explica o papel das notas de campo em sua pesquisa etnográfica como forma de orientar as observações, especialmente a inclusão de informações sensoriais e características físicas, que merecem atenção. Por se tratar de uma etnografia organizacional, a visão geral mostra quais características da organização e de seus membros foram registradas.

As anotações focaram nas questões norteadoras da pesquisa sobre como as organizações em rede entendiam e trabalhavam pela justiça social. Assim, as observações e anotações de campo se concentraram em:

(a) os tópicos de discussão;

(b) processos significativos que ocorreram no ambiente, como a tomada de decisões;

(c) a interação entre os membros da organização;

(d) eventos ou incidentes-chave;

(e) variações ou exceções a um padrão emergente;

(f) como as pessoas atribuíam significado às suas próprias ações e experiências;

(g) informações sensoriais, como imagens ou sons;

(h) a organização física do espaço;

(i) o uso da linguagem;

(j) anedotas e citações;

(k) reações pessoais; e

(l) quaisquer outras observações que parecessem relevantes (Todd, 2012, p. 234).

É relevante o acréscimo de Todd a essa seção, explicando que essas anotações de campo foram acompanhadas de reflexões pessoais sobre o que ele observou.

A seção de resultados oferece a rica descrição que se espera de uma pesquisa etnográfica, proporcionando ao leitor uma visão imediata da organização e de seus membros, como:

Além disso, nas reuniões da rede, os indivíduos se apresentavam com os seus nomes e congregações às quais pertenciam. As reuniões começavam com uma devoção que sempre incluía a leitura de textos religiosos e terminavam com uma oração em grupo, ambas frequentemente focadas no aprimoramento da comunidade e na justiça. Pessoalmente, os membros descreveram-se como ativos em suas congregações e como buscavam viver de acordo com a sua fé religiosa (Todd, 2012, p. 239).

Refletindo sobre o assunto, Todd (2012, p. 242) destaca que uma das qualidades de sua abordagem etnográfica reside na “participação aprofundada que permitiu a observação qualitativa do processo ao longo do tempo”. Essa longa duração não costuma ser considerada uma característica importante da etnografia organizacional, mas vale a pena destacá-la aqui, em particular, pois, na maioria dos casos, o etnógrafo busca entender uma cultura ou um fenômeno cultural que nunca são fáceis de perceber ou descobrir, como o alinhamento entre religião e justiça social na missão de uma organização, ou o desenvolvimento de um programa de liderança espiritual – assunto que abordaremos na próxima seção.

Autoetnografia e Autoetnografia Organizacional

A autoetnografia situa-se na intersecção da autobiografia (eu [ser, self]) e da etnografia (cultura); utiliza a experiência pessoal (“auto”) para descrever e interpretar (“grafia”) textos, experiências, crenças e práticas culturais (“etno”) (Adams et al., 2011, pp. 1–2). Frequentemente, concentra-se em momentos decisivos da vida e em como esses impactaram o seu percurso (Winkler, 2018). Contudo, o foco está sempre no entendimento de um contexto ou ambiente sociocultural específico (por exemplo, uma organização, congregação, comunidade) através da experiência pessoal e da imersão (Kempster & Stewart, 2010; Haynes, 2011). Pode lançar luz, por exemplo, sobre a experiência de uma mudança de carreira acadêmica a partir de uma perspectiva interna, onde o autoetnógrafo (através de descrições detalhadas em vinhetas autoetnográficas) compartilha com o leitor “parte do prazer e da dor associados” a tal mudança dentro da academia (o contexto cultural) (Humphreys, 2005, p. 842).

A autoetnografia situa-se na intersecção da autobiografia (eu [ser, self]) e da etnografia (cultura); utiliza a experiência pessoal (“auto”) para descrever e interpretar (“grafia”) textos, experiências, crenças e práticas culturais (“etno”) (Adams et al., 2011, pp. 1–2).”

No campo da espiritualidade no ambiente de trabalho, a autoetnografia é raramente utilizada. No entanto, há um estudo que eu abordarei em detalhes aqui, pois é um ótimo exemplo da riqueza dessa abordagem de pesquisa e de como ela pode oferecer novas perspectivas sobre a espiritualidade no ambiente de trabalho. Trata-se da pesquisa de John Cullen sobre uma iniciativa de Spiritual Management Development (SMD) [Desenvolvimento de Gestão Espiritual] em uma grande organização de serviços Irlandesa, numa tentativa de aprimorar a eficácia pessoal de seus gestores. Cullen (2011) explica que a sua pesquisa teve como objetivo entender a organização e a cultura organizacional, bem como o programa e os seus participantes. Em seu artigo de 2011, ele aborda os prós e os contras do uso da autoetnografia (referida em seu artigo como auto/etnografia). Como o artigo oferece uma riqueza de insights e reflexões sobre o uso da autoetnografia na pesquisa sobre espiritualidade no ambiente de trabalho, eu quero abordar alguns desses pontos aqui.

Cullen (2011, p. 145) explica por que ele decidiu não estudar o SDM com uma lente etnográfica mais geral:

Aplicar um modelo etnográfico genérico à pesquisa correria o risco de distorcer a forma como eu relatei essas experiências e, ao invés disso, eu optei por “construir” uma pesquisa mais adequada para desenvolver uma imagem vívida do fenômeno em estudo. Ao tentar representar o fenômeno, eu tive que representá-lo em seus próprios termos e não seguir servilmente modelos avaliativos herdados de outros gêneros etnográficos.

Com base nessa consideração, ele decidiu que as suas próprias experiências com a organização e o programa seriam importantes e, portanto, ele optou pelo que chama de autoetnografia:

“Eu usei o termo autoetnografia para me referir ao fato de que o meu relato de uma iniciativa de espiritualização no ambiente de trabalho se baseia em um relato etnográfico da iniciativa e em meu próprio relato autoetnográfico” e “para entender como o programa SMD poderia afetar a identidade dos participantes, eu precisava entender como ele me impactaria” (Cullen, 2011, pp. 147-148).

Ele também revela que, ao participar como coparticipante, ele conseguiu identificar e entender por que o programa enfrentou problemas,

O processo de autoetnografia, quando aplicado a programas de espiritualização no ambiente de trabalho, como o SMD, aproxima os pesquisadores das experiências dos gestores que vivenciam tais iniciativas e abre maiores oportunidades para a coleta de dados, que podem não estar disponíveis com abordagens mais tradicionais. A minha experiência com o programa da DSB proporcionou um entendimento mais profundo dos motivos pelos quais os participantes tiveram dificuldades em implementar os seus ensinamentos em suas vidas profissionais (Cullen, 2011, p. 160).

Por fim, ele explica o que considera um benefício fundamental da abordagem escolhida,

O principal benefício de utilizar a autoetnografia é o respeito, na prática, pelos participantes e entrevistados. A autoetnografia pode auxiliar na remoção de barreiras que frequentemente se apresentam quando pesquisadores entram em um ambiente organizacional para realizar pesquisas culturais (Cullen, 2011, p. 161).

Cullen (2011, p. 158) conclui afirmando que a autoetnografia consiste em entrelaçar narrativas pessoais de experiência com a teoria existente sobre o fenômeno cultural em estudo e que o objetivo é produzir “relatos rigorosos e convincentes de áreas da experiência que, de outra forma, são de difícil acesso ou não podem ser articuladas vividamente por meio de uma voz autoral imparcial”. São essas dimensões experienciais de difícil acesso que oferecem à pesquisa sobre espiritualidade no ambiente de trabalho um caminho a seguir; um caminho que vai além das tentativas de mensurar resultados (no desempenho, por exemplo) e que oferece, como Cullen faz em seu estudo, um panorama mais rico e complexo do significado da espiritualidade no ambiente de trabalho.

Em conclusão: Espiritualidade no Ambiente de Trabalho e o Olhar Etnográfico

Em conclusão, esse capítulo espera inspirar o uso de abordagens etnográficas no estudo da espiritualidade no ambiente de trabalho ou das crenças religiosas no ambiente de trabalho. Foram apresentados os vários gêneros etnográficos disponíveis, as características que compartilham e as características que tornam cada um único. O que eles têm em comum é a capacidade de oferecer uma visão “interna”, rica em experiências, que proporciona ao leitor um entendimento do que a espiritualidade ou a religião no ambiente de trabalho pode significar tanto para a organização quanto para os seus membros. Pode-se dizer que esse nível de riqueza e complexidade está atualmente em falta na área, em sua busca por “se tornar” científica e mensurar a eficácia de valores espirituais, liderança ou programas sobre os resultados organizacionais. Claramente, há também uma crescente discussão sobre se essas questões são mensuráveis. Assim como o campo mais amplo de negócios e gestão se abriu para adotar abordagens etnográficas, é hora de a espiritualidade no ambiente de trabalho fazer o mesmo. Ainda é difícil encontrar boas pesquisas etnográficas nessa área e seria um grande avanço se a próxima década de pesquisas sobre espiritualidade no ambiente de trabalho começasse a se desenvolver nesse sentido. Com o seu interesse em “experiências” espirituais/religiosas/de fé, qual seria a melhor maneira de estudar a espiritualidade no ambiente de trabalho senão por meio de uma perspectiva “experiencial”? Isso exige coragem e reflexividade por parte do pesquisador, mas, como outros já demonstraram, os estudos etnográficos enriquecem a área e o nosso entendimento.

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—–Continua Parte XX—–

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.

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Autor

Graduação: Engenharia Operacional Química. Graduação: Engenharia de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing - PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras - FGV/SP. Blog Projeto OREM® - Oficina de Reprogramação Emocional e Mental - O Blog aborda quatro sistemas de pensamento sobre Espiritualidade Não-Dualista, através de 4 categorias, visando estudos e pesquisas complementares, assim como práticas efetivas sobre o tema: OREM1) Ho’oponopono - Psicofilosofia Huna. OREM2) A Profecia Celestina. OREM3) Um Curso em Milagres. OREM4) A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE) - Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT). Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista como uma proposta inovadora de filosofia de vida para os padrões Ocidentais de pensamentos, comportamentos e tomadas de decisões (pessoais, empresariais, governamentais). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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