Com o objetivo de conhecimento e de entendimento sobre o sistema de pensamento de uma Organização Baseada na Espiritualidade (OBE), nós estamos transcrevendo trechos do artigo “Workplace Spirituality – Making a Diference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”], editado por Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer.
A fonte do artigo é o livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1, dos autores acima referenciados.
O Prefácio abaixo explica a razão de ser desse importante artigo para entendimento do passado, presente e futuro do que se tem observado no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho.
Artigo:
“Workplace Spirituality – Making a Diference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”]
Editado por:
Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer
Fonte:
Livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1
DE GRUYTER (www.degruyter.com)
Instituto Fetzer (Home – The Fetzer Institute)
Essa obra está licenciada sob a Licença Internacional Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0. Para mais detalhes, acesse http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0.
Tradução livre Projeto OREM® (PO)
Prefácio
Esse livro é extremamente relevante e oportuno. A fé e a espiritualidade têm sido um aspecto fundamental da experiência humana ao longo dos tempos. No entanto, a forma como são experienciadas e expressas continua a mudar com o passar do tempo. Por exemplo, no contexto dos Estados Unidos (EUA), uma pesquisa recente da Gallup mostra que a participação de Americanos em locais de culto (por exemplo, sinagogas, igrejas ou mesquitas) caiu para 47% – o nível mais baixo nos 80 anos de história da pesquisa e uma queda em relação aos 70% registrados em 1999 (Jones, 2021). Isso representa um declínio constante desde o início do século XXI. Essa tendência é impulsionada por dois fatores: um número maior de adultos que não se identificam com nenhuma religião e um declínio na frequência a igrejas entre aqueles que se identificam com alguma religião. Por trás dessas tendências, existem diferenças populacionais ou geracionais, com as gerações mais jovens expressando menos afiliação religiosa (7% dos tradicionalistas – adultos Americanos nascidos antes de 1946; 13% dos baby boomers (1946-1964); 20% da geração X (1965-1980) e 31% dos millenials (geração Y) (1981-1996)).
Simultaneamente, o Instituto Fetzer apoiou um estudo sobre a espiritualidade Americana que buscou entender melhor o significado da espiritualidade para os Americanos e como ela influencia as suas vidas sociais e ações cívicas (Instituto Fetzer, 2020). O estudo incluiu participantes de diversas afiliações religiosas ou identidades espirituais, incluindo aqueles sem nenhuma. Constatou-se que “a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020). Mais especificamente, 86% das pessoas se consideram espirituais e 68% acreditam que a sua espiritualidade guia as suas ações no mundo. Esses números incluem pessoas que se identificam com alguma tradição religiosa e aquelas que não se identificam.
…“a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020)
O que nós podemos concluir desses dois relatórios aparentemente contraditórios? Eu apresento esses dados como base para a importância e a relevância da espiritualidade no ambiente de trabalho. Para muitos, a espiritualidade no ambiente de trabalho é inadequada. Contudo, como demonstram esses estudos, muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando. Ao mesmo tempo, muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013). De fato, para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores. Além disso, as organizações são frequentemente os mecanismos estruturais pelos quais as sociedades se organizam e alcançam os seus objetivos sociais, econômicos e técnicos mais importantes e complexos. Elas são tanto impulsionadoras quanto representações da vida e dos valores da sociedade. Diante disso, elas permanecem um foco crucial e um potencial impulsionador do crescimento e desenvolvimento pessoal e do florescimento humano.
…muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando.
Reconhecendo tudo isso, no Instituto Fetzer (o Instituto), nós nos esforçamos para viver a nossa missão e os nossos valores criando uma comunidade de ambiente de trabalho espiritualmente fundamentada, que nós chamamos de Community of Freedom (COF) [Comunidade da Liberdade]. A nossa COF é o alicerce espiritual do nosso trabalho para transformar a nós mesmos e a sociedade de maneira autêntica e eficaz.
…muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013).
As maneiras de ser e as práticas individuais e comunitárias expressas por meio da COF – e enraizadas em nossos valores organizacionais essenciais de amor, confiança, autenticidade e inclusão – apoiam o Instituto no cultivo da cultura necessária para concretizar a nossa missão de ajudar a construir a base espiritual para um mundo amoroso. Uma das estruturas que nós utilizamos para nos mantermos firmes em nossa missão e visão são os nossos community of freedom gatherings (COFG) [encontros da comunidade da liberdade]. Os COFGs consistem em encontros semanais de três horas com todos os funcionários – desde os nossos jardineiros e equipe de programas até a nossa equipe e líderes de finanças e tecnologia da informação. Durante os COFGs, nós convidamos facilitadores externos e professores espirituais para nos ajudar a nos envolvermos em exploração espiritual individual e comunitária e na construção da comunidade. Nós também oferecemos sessões ministradas por funcionários e fornecemos espaço e recursos para que os funcionários busquem os seus caminhos pessoais. Exemplos de sessões incluem conjuntos de práticas contemplativas, a ciência do bem-estar, a capacidade de diálogo e o convívio com o luto coletivo. As sessões geralmente incluem componentes didáticos e experienciais, além de oportunidades para discussões em pequenos e grandes grupos, que permitem aos funcionários compartilhar experiências profundas uns com os outros.
…para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores.
Em 2016, o Instituto encomendou um estudo de caso independente para aprender mais sobre os primeiros pontos positivos, desafios e impactos do COFG. Algumas das principais conclusões foram que os funcionários sentiram um aumento na confiança, no moral, na conexão e na capacidade de lidar com dificuldades relacionais a partir do trabalho. O estudo de caso também abordou questões e preocupações dos funcionários sobre o propósito dos COFGs em relação ao nosso trabalho externo, o uso de linguagem inclusiva e a abordagem do COFG e as suas ofertas e como os encontros se traduzem em políticas e práticas organizacionais mais amplas. Algumas dessas questões têm sido respondidas à medida que nós temos aprofundado o nosso trabalho como uma comunidade e outras nós continuamos a investigar e a desenvolver.
O Instituto não só se dedica a cultivar um ambiente de trabalho espiritualmente fundamentado, como também busca aprender com outros que compartilham da mesma visão sobre como cultivar culturas organizacionais que apoiem o desenvolvimento e o florescimento humano; e que permitam às organizações operar a partir de sua visão e valores mais profundos, rumo a um mundo mais amoroso. É esse compromisso que motiva o nosso apoio ao trabalho realizado pela International Association of Management, Spirituality and Religion (IAMSR) [Associação Internacional de Gestão, Espiritualidade e Religião], incluindo esse volume. Aqueles que buscam criar ambientes de trabalho que sejam espaços robustos para o florescimento humano e o mundo que nós desejamos habitar precisam de apoio e companheiros de jornada. Muitos de nós estamos lidando com questionamentos semelhantes sobre os prós e os contras de trazer a espiritualidade para o ambiente de trabalho.
Há muito que nós temos aprendido nos últimos vinte anos de experimentação nessa área e muito mais a aprender. Esse volume oferece algumas das melhores ideias e práticas de líderes de pensamento na área. Que ele sirva de inspiração e alimente a nossa imaginação e esforços coletivos em relação ao que é possível.
Shakiyla Smith, Vice-Presidente de Cultura Organizacional – Instituto Fetzer – 10 de novembro de 2021.
Referências
Fetzer Institute. (September 2020). Study of Spirituality in the United States. Report retrieved from https://spiritualitystudy.fetzer.org/sites/default/files/2020-09/What-Does-Spirituality-Mean To-Us_%20A-Study-of-Spirituality-in-the-United-States.pdf
Jones, J.M. (2021). U.S. Church Membership Falls Below Majority for First Time. Gallup. Retrieved from https://news.gallup.com/poll/341963/church-membership-falls-below-majority-first time.aspx
Kegan. R., Lahey, L. L.(2016). An everyone culture: Becoming a deliberately developmental organization. Harvard Business Review Press.
Neal. J. (2013). Creating enlightened organizations: Four gateways to spirit at work. Palgrave Macmillan.
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—–Continuação da Parte XVII—–
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18 Relacionando-se de Maneira Diferente: Explorando Como uma Ontologia Relacional Pode Catalisar Pesquisas em MSR Orientadas Para a Ação Transformadora e Emancipadora
Autora: Julia Storberg-Walker
Resumo
O propósito desse capítulo é explorar como a implementação de uma ontologia relacional por parte do pesquisador pode restaurar/reparar a profunda interconexão e interdependência entre toda a vida no planeta. Embora as questões ontológicas possam ser consideradas muito filosóficas ou distantes das questões práticas da pesquisa, esse capítulo busca elucidar a importância da adoção de uma perspectiva ontológica relacional, com a intenção de continuar a aprimorar a capacidade de formação futura dos pesquisadores em Management, Spirituality and Religion (MSR) [Gestão, Espiritualidade e Religião].
O termo “ontologia relacional” é usado para descrever várias filosofias ou formas de conhecimento que diluem a distinção entre sujeito e objeto; entre pesquisador e pesquisado; e entre humano e natureza. Essas filosofias/formas de conhecimento oferecem diversas maneiras de refletir criticamente sobre a subjetividade, as competências e as habilidades do pesquisador necessárias para uma pesquisa significativa em MSR. A preparação ou o desenvolvimento do pesquisador e as decisões e as ações práticas de planejamento da pesquisa são impactadas por essas ontologias, com consequências significativas para o propósito, a implementação e o impacto potencial dos estudos. Esse capítulo busca oferecer aos pesquisadores de MSR novas maneiras de conceber e conduzir pesquisas transformadoras e emancipatórias, orientadas para a ação, nesse momento histórico crítico de mudanças tumultuosas e caos.
Por que Ontologias Relacionais?
Esse capítulo trata do que é real (ontologia) e das implicações do que é real para a pesquisa em Management, Spirituality, and Religion (MSR) [Gestão, Espiritualidade e Religião]. A realidade quântica, como eu a entendo e experiencio, foi melhor descrita por David Bohm (1980) como uma coemergência de energia em matéria. A expressão “ontologia relacional” significa essa profunda interdependência e cocriação da realidade. Ao longo do tempo, eu tenho aprendido que essa maneira de entender o mundo foi descrita de múltiplas e diversas maneiras, por exemplo, teoria ator-rede (Latour, 2005), realismo agencial (Barad, 2003), pedagogia crítica revolucionária (Allman, 2001); autopoiese (Maturana & Varela, 1980), ser relacional (Gergen, 2009), pós-humanismo (Braidotti, 2018), uma visão de mundo quântica (Tsao & Laszlo, 2019) e a ordem implícita na teoria quântica (Bohm, 1980).
“A expressão ‘ontologia relacional’ significa essa profunda interdependência e cocriação da realidade.“
A partir dessas posições relacionais, as ideias e as ações de um pesquisador emergem dentro/a partir de contextos e o próprio contexto é um “jogador” no jogo de conduzir pesquisas tanto quanto o cérebro, o intelecto, a cognição e a tomada de decisões. Essa postura está longe da separação Newtoniana e do paradigma da redução científica e do pensamento de causa e efeito. A pesquisa em MSR tem lidado com esse paradigma desde a sua origem; a ciência da redução para descobrir leis naturais e resultados generalizáveis tem sido o padrão ouro para estudiosos e pesquisadores organizacionais e de gestão. Os pesquisadores de MSR têm lutado para legitimar formas subjetivas de conhecimento e condução de pesquisas (Lin et al., 2016); eles tiveram que encontrar medidas objetivas (MacDonald, 2011); e foram aconselhados a operacionalizar e definir termos (Tackney, Chappell, Harris, Pavlovich, Egel, Major, Finney e Stoner (2017) para legitimar a pesquisa MSR.
“A partir dessas posições relacionais, as ideias e as ações de um pesquisador emergem dentro/a partir de contextos e o próprio contexto é um “jogador” no jogo de conduzir pesquisas tanto quanto o cérebro, o intelecto, a cognição e a tomada de decisões.“
Esse capítulo busca expandir/partir dessa produção acadêmica para vislumbrar uma nova maneira de ser um pesquisador em MSR. Isso requer uma mudança de consciência no nível da percepção [consciousness] – de uma consciência no nível da percepção [consciousness] de separação (típica, por exemplo, da pesquisa em ciência da organização e da gestão) – para uma nova forma de estar no mundo que reconheça a interdependência e a origem dependente (um princípio Budista que reconhece a mutualidade da causalidade) de todo o mundo material. Ao invés de se basear na separatividade, esse capítulo sugere que o futuro da pesquisa em MSR deve, ao contrário, aproximar-se. Como descrito por Cuomo,
…os produtores de conhecimento que almejam essa aproximação abandonam o sonho do progresso científico, que busca o conhecimento absoluto a serviço do domínio iluminado e da riqueza, trabalhando, ao invés disso, por um conhecimento que nos familiarize com as particularidades do mundo que nós afetamos. Investigações arrogantes aceitam uma distância confortável entre o conhecimento e a vida e escondem os seus limites e as suas inadequações por trás de uma postura epistêmica (de produção de conhecimento) que proclama um caminho unificado para o saber, um caminho que necessariamente segue tradições de privilégio e exclusão. (Cuomo, 2020, pp. 66–67; itálico meu)
“Isso requer uma mudança de consciência no nível da percepção [consciousness] – de uma consciência no nível da percepção [consciousness] de separação (típica, por exemplo, da pesquisa em ciência da organização e da gestão) – para uma nova forma de estar no mundo que reconheça a interdependência e a origem dependente (um princípio Budista que reconhece a mutualidade da causalidade) de todo o mundo material.“
Aproximar-se é uma metáfora, uma indicação do que eu defendo ser uma abordagem relacional para a pesquisa em MSR que é transformadora, educativa e emancipadora. Nessa ontologia relacional, a pesquisa tem o potencial de transformar tanto o pesquisador quanto o pesquisado, porque aproximar-se gera uma obrigação moral de cuidado e uma forma de reciprocidade sagrada semelhante aos métodos de pesquisa Indígenas (Kimmerer, 2013; Wilson, 2008). A ciência moderna (a começar por Galileu Galilei) não se aproxima em um sentido moral; de fato, como argumenta Loizzo (2020), a ciência moderna “minou a nossa fé na humanidade e na perfectibilidade da sociedade humana” e fomentou um “ceticismo moderno sobre o nosso potencial humano para a integração pessoal e social” (p. 72). Aproximar-se representa um afastamento da ciência da separação, da objetificação e da redução e oferece um caminho relacional convincente para uma pesquisa em MSR impactante.
“Aproximar-se representa um afastamento da ciência da separação, da objetificação e da redução e oferece um caminho relacional convincente para uma pesquisa em MSR (Management, Spirituality and Religion) impactante.”
Eu acredito que as ontologias relacionais e a intenção de se aproximar também representam uma resistência às premissas e aos valores associados à ciência tradicional. Aproximar-se não é amplamente reconhecido na academia neoliberal como uma forma válida de produção de conhecimento, onde a competição, a separação, a racionalidade e a hierarquia são valorizadas. Mesmo a ideia de produção de conhecimento em si seria rejeitada a partir de uma perspectiva relacional, com o argumento de que o pesquisador está inserido no processo de produção e, portanto, faz parte dos resultados ou das descobertas. No neoliberalismo acadêmico, contudo, o conhecimento pode ser produzido, consumido e mercantilizado. Devido a essas normas e valores, pesquisadores e educadores que ensinam sobre ontologias relacionais e conduzem pesquisas a partir dessa perspectiva frequentemente recorrem a ideias, livros e artigos não Eurocêntricos Ocidentais em busca de informação e inspiração.
Da mesma forma, ao longo dos anos de ensino e pesquisa, eu tenho incluído cada vez mais perspectivas não Eurocêntricas e Ocidentais em meus projetos de pesquisa e aulas de metodologia de pesquisa; a adição mais recente tem sido um aprofundamento em ontologias relacionais – o foco desse capítulo. Por exemplo, em uma aula recente de metodologia de pesquisa, um dos livros didáticos selecionados foi escrito por uma filósofa feminista (Thayer-Bacon, 2017) e os palestrantes convidados e outras leituras obrigatórias eram de acadêmicos Indígenas – bem como de diversas perspectivas ético-onto-epistemológicas. Essas leituras e os acadêmicos convidados, embora posicionados de forma diferente, apontavam para a ideia crítica de conexão; de relação; de algum tipo de responsabilidade ética fundamentada na reciprocidade. Todos apontavam para o “fato” de que os seres humanos fazem parte da natureza; não são observadores objetivos da natureza que se mantêm separados dela.
“Todos apontavam para o “fato” de que os seres humanos fazem parte da natureza; não são observadores objetivos da natureza que se mantêm separados dela.”
Refletindo sobre o assunto, agora eu entendo que incorporar ontologias relacionais na sala de aula de doutorado foi uma estratégia de resistência à visão tradicional de um universo mecanizado com relações separadas de causa e efeito – o paradigma que as feministas sugerem ser resultado de formas patriarcais de conhecer e estudar o mundo. Ao mesmo tempo, eu continuo aprendendo que o “ambos/e”, o “yin/yang” e o “nem um/nem outro” podem ser uma maneira melhor de entender como ensinar a investigação acadêmica e conduzir a minha própria pesquisa. Mais importante ainda, eu acredito que, ao adotar uma perspectiva ontológica relacional, o pesquisador adquire um ponto de vista privilegiado e interno para conceber e executar qualquer tipo de projeto de pesquisa – seja ela quantitativa, qualitativa ou de métodos mistos – que busque aproximar-se. Uma perspectiva ontológica relacional dissolve a separação entre pesquisador e pesquisado e, ao invés disso, convida à perspectiva radical de estar imerso e inserido em um campo abrangente de informação e energia. Os seres humanos estão na natureza; são da natureza; não estão separados dela. Os pesquisadores estão imersos por e em relacionamento com o pesquisado. Essa perspectiva, na minha opinião, oferece aos pesquisadores de MSR – por se preocuparem com o espiritual, o sagrado e o significativo – o potencial para conduzir pesquisas transformadoras e catalisadoras de mudança.
“Uma perspectiva ontológica relacional dissolve a separação entre pesquisador e pesquisado e, ao invés disso, convida à perspectiva radical de estar imerso e inserido em um campo abrangente de informação e energia.”
Afinal, O Que São Ontologias Relacionais?
Eu apresento três maneiras diferentes de começar a compreender as ontologias relacionais. Primeiro, eu concordo com a visão da renomada acadêmica da educação e feminista Barbara Thayer-Bacon de que “ontologia” e “espiritualidade” podem ser usadas de forma intercambiável, pois ambas “ajudam a manter os nossos mundos unidos e dão sentido às nossas vidas” (2017, p. 3). Nessa perspectiva, as ontologias relacionais são maneiras não dualistas de entender o mundo que “enfatizam que nós estamos holisticamente conectados com o nosso universo maior, material e espiritualmente” (2017, p. 7). Thayer-Bacon oferece a analogia de um oceano, um barco e uma rede de pesca para descrever a ideia dela de ontologia relacional. Nessa visão, todo o cosmos é representado como o vasto oceano, representando toda a experiência pura. Nós não podemos conhecer toda essa vastidão, então nós criamos uma rede para nos ajudar a compreendê-la. Thayer-Bacon (2017) sugere:
o que nós usamos para tecer essas redes são as nossas teorias do conhecimento (epistemologia), bem como as nossas teorias do ser (nossa ontologia). Existem múltiplos tipos de redes epistemológicas e ontológicas que nós somos capazes de projetar, talvez até uma variedade infinita, algumas mais eficazes do que outras, em termos da quantidade de vida Marinha que conseguem capturar… Qualquer que seja a rede epistemológica e ontológica que nós usemos, por mais fina que seja a trama, há muito mais nesse vasto oceano da experiência que as nossas redes são capazes de capturar. Quando nós lançamos as nossas redes, muito transbordará, além de vazar por baixo delas e escapar de volta para o Oceano infinito. Nós não podemos nos dissociar das questões epistemológicas e ontológicas, pois elas formam a própria trama das redes que nós usamos para capturar as nossas preocupações cotidianas e lhes dar significado.
“…as ontologias relacionais são maneiras não dualistas de entender o mundo que “enfatizam que nós estamos holisticamente conectados com o nosso universo maior, material e espiritualmente” (Barbara Thayer-Bacon, 2017, p. 7).
Nessa metáfora, a rede consiste em fios de urdidura e trama; a urdidura representa as nossas teorias ontológicas (por exemplo, ser, ou o que é) e a trama as nossas teorias epistemológicas (por exemplo, como nós sabemos). Embora ambos os fios da trama sejam importantes, o fio da urdidura gera a essência da nossa experiência humana. Thayer-Bacon sugere que ontologia e espiritualidade são sinônimos, uma vez que o ser primeiro é “não tangível nem material e primordial para a nossa sobrevivência” (2017, p. 3); desse modo, os fios da trama dessa rede (tecido relacional) moldam de maneira decisiva o significado que nós atribuímos à nossa experiência humana. Thayer-Bacon descreve ainda como os humanos constroem as redes deles – primeiro herdando a rede dos pais e da família, depois na escola, revisando/reparando a rede à medida que o aprendizado e a independência se desenvolvem e, por fim, na vida adulta, por meio dos relacionamentos. As nossas redes não são construídas isoladamente; elas são constantemente criadas e recriadas por meio da experiência e dos relacionamentos e, a não ser que as redes se tornem visíveis para nós, nós corremos o risco de afirmar que a nossa experiência é a Verdade. Uma vez que algo se torna visível (por exemplo, consciente) para nós, nós somos mais capazes de reconhecer a parcialidade, os limites do nosso conhecimento e a incrível vastidão de Tudo O Que É.

Essa visão de uma ontologia relacional tem implicações profundas para a pesquisa e a erudição, pois nega categoricamente a existência de uma separação entre o conhecedor (o pesquisador) e o conhecido (o pesquisado). O que nós vemos, entendemos e nomeamos é função de nossas perspectivas ontológicas e epistemológicas. Um pesquisador/acadêmico sob essa ótica seria humilde em todas as suas afirmações de conhecimento, pois reconheceria o “vasto Oceano de experiência” que o seu projeto de pesquisa não conseguiu abarcar.
A segunda ontologia relacional que eu quero descrever é a da teoria quântica. A partir dessa perspectiva, resultados científicos empíricos se combinam com modelagem matemática para sugerir a existência do que David Bohm chama de ordem implícita de energia e informação. Nessa visão, a ordem implícita é a base do universo; consciência no nível da percepção [consciousness] e matéria coemergem; e, o que é importante para os pesquisadores, a implicação é que não há separação entre pesquisador, objeto de pesquisa e instrumentos de pesquisa. Muitos acadêmicos e filósofos ofereceram ideias profundas sobre essa interconexão, ou “consciência no nível da percepção [consciousness] da conectividade” (Tsao & Laszlo, 2019) e por que ela é importante. Por exemplo, a feminista, física e filósofa Karen Barad (2003) oferece uma perspectiva baseada na teoria quântica chamada realismo agencial, que descreve uma realidade na qual cada “coisa” está conectada em uma teia de relações.
“…resultados científicos empíricos se combinam com modelagem matemática para sugerir a existência do que David Bohm chama de ordem implícita de energia e informação. Nessa visão, a ordem implícita é a base do universo; consciência no nível da percepção [consciousness] e matéria coemergem…”
Na perspectiva do realismo agencial, um ser humano não possui mais capacidade de ação (agency) (pense em “influência”) sobre uma experiência coletiva (pense em aprendizado no ambiente de trabalho ou trabalho significativo) do que de fato ideias, políticas, cultura/normas, tecnologia, estrutura organizacional e assim por diante. O realismo agencial, como eu o entendo, aponta para a cocriação de experiência/significado entre “agentes” humanos e não humanos e exige que os pesquisadores reposicionem a si mesmos e as suas visões sobre o que é real. No realismo agencial, assim como na teoria quântica, toda a questão material (por exemplo, o que nós vemos; o que David Bohm chama de ordem explícita) coemerge relacionalmente. Nessa perspectiva, não se pode desconectar a experiência humana do contexto, das práticas ou da estrutura. Essa é uma forma profunda de ontologia relacional – o que é, surge por meio de relações.
“Karen Barad (2003) oferece uma perspectiva baseada na teoria quântica chamada realismo agencial, que descreve uma realidade na qual cada “coisa” está conectada em uma teia de relações.”
A terceira forma de ontologia relacional que eu apresento nesse capítulo é a da perspectiva Indígena. Ao descrever ideias Indígenas, é fundamental reconhecer como as posições de poder e vantagem, tanto individuais quanto estruturais, contribuem para a minha pesquisa e produção acadêmica (D’Arcangelis, 2018). Como um colonizador Branco escrevendo esse capítulo do meu escritório em terras Massawomek e Manahoac, eu reconheço o potencial de colonizar ainda mais os povos Nativos da Ilha da Tartaruga (América do Norte) ao me apropriar da ontologia, epistemologia e axiologia Indígenas. (Nota: pelo que eu entendo, não é possível separar realidade (ontologia), conhecimento (epistemologia) e responsabilidade (axiologia) nas maneiras de conhecimento Indígenas [Indigenous Ways Of Knowing (IWOK)]. A separação desses conceitos é oferecida aqui porque é assim que as mentes Ocidentais têm sido treinadas e desenvolvidas – inclusive a minha).
Como colonizador Branco, eu adentro um espaço liminar impossível ao escrever, usar e descrever filosofias Indígenas. A reflexão crítica sobre esses assuntos não é suficiente, pois ainda pressupõe a existência de um “eu” separado dos outros e das estruturas de opressão nas quais eu vivo e trabalho. D’Arcangelis (2018) se baseia na dupla virada reflexiva de Ahmed (2004) para propor uma reflexividade radical, ela própria “uma forma de análise crítica que examinaria as nossas subjetividades como janelas para o funcionamento e a potencial alteração das estruturas sociais nas quais nós estamos plenamente implicados” (p. 12; grifo meu). A reflexividade radical sobre ideias Indígenas é, em si, uma característica de uma ontologia relacional – o saber de que eu, como um pesquisador, cocrio as estruturas de opressão e privilégio das ideias e dos valores de pesquisa que permeiam a academia. Nessa perspectiva, eu reconheço o meu profundo envolvimento na perpetuação das hierarquias de poder e privilégio – de conhecimentos, ideias e práticas de pesquisa consideradas “melhores” do que outras. Ao mesmo tempo, eu posso honrar e respeitar a IWOK, as suas filosofias e as suas práticas de pesquisa. Diversos acadêmicos Indígenas me disseram que, com honra, respeito e reconhecimento, eu sou capaz de servir ao sagrado por meio do ensino, da pesquisa e de práticas permeadas pela IWOK. Consequentemente, eu ofereço o que eu aprendo em sala de aula, por meio de minhas pesquisas e em meu ativismo.
A próxima seção apresenta ideias extraídas de “Research is Ceremony: Indigenous Research Methods” (2008), de Sean Wilson; de “Braiding Sweet grass: Indigenous Wisdom, Scientific Knowledge, and the Teaching of Plants” (2013), de Robin Wall Kimmerer; e da Dissertação de Mestrado de Lyla June Johnston, “Diné Bina’nitin Dóó O’hoo’aah/Education For Us, By Us: A Collective Journey in Diné Education Liberation”. Essas seleções representam uma gama diversificada de ideias e práticas de pesquisa fundamentadas na ética da soberania e mentalidade inerentes a toda a matéria – humana, animal, vegetal, cosmos; bem como na responsabilidade, nas relações e na reciprocidade. Seres humanos e não humanos estão intrinsecamente relacionados nessa ontologia relacional e a dignidade de todos os seres é um princípio fundamental. Essa posição ontológica coloca os seres humanos em sintonia com a natureza, inseparáveis dela e eticamente e moralmente obrigados a protegê-la, a assegurar o seu florescimento e a trabalhar para corrigir/reparar tudo o que diminua a sua dignidade.
As três ontologias relacionais apresentadas aqui — a espiritualidade/ontologia de Thayer-Bacon, que confere significado integral à existência; as descobertas da teoria quântica que sugerem uma conexão energética e coemergente entre tudo o que nós vemos e fazemos; e as ontologias Indígenas que exigem respeito e reciprocidade — todas as três alteram a relação pesquisador/pesquisado de maneiras sutilmente diferentes e todas as três oferecem aos pesquisadores de MSR uma nova base para conduzir pesquisas transformadoras e impactantes.
“Seres humanos e não humanos estão intrinsecamente relacionados nessa ontologia relacional e a dignidade de todos os seres é um princípio fundamental. Essa posição ontológica coloca os seres humanos em sintonia com a natureza, inseparáveis dela e eticamente e moralmente obrigados a protegê-la, a assegurar o seu florescimento e a trabalhar para corrigir/reparar tudo o que diminua a sua dignidade.“
A próxima seção apresenta ideias de pesquisa dos três acadêmicos Indígenas mencionados acima para ilustrar a profunda coerência entre elas e as questões contemporâneas que a MSR e o mundo enfrentam. É como se o desdobramento da experiência humana com o planeta e todos os seus habitantes tivessem cogerado essa luz em nosso tempo de escuridão; a luz, para mim, é a maneira Indígena de se relacionar com todas as coisas como sagradas, em um sentido cerimonial, através do imperativo moral da dignidade e do respeito. Praticar essa maneira de estar no mundo oferece aos pesquisadores de MSR um caminho poderoso para gerar pesquisas significativas e transformadoras.
Maneiras de Conhecimento Indígena [Indigenous Ways of Knowing (IWOK)] e Pesquisa
Eu recentemente, troquei e-mails com uma acadêmica/ativista Indígena sobre a diferença entre as palavras espiritualidade e cerimônia. Eu estava usando a expressão “espiritualidade Indígena” para significar o que eu entendia como as múltiplas/diversas maneiras de estar em unidade com o sagrado, dentro do meu entendimento de IWOK. A minha amiga sugeriu que a expressão “cerimônia Indígena” seria uma representação melhor (obrigada, Lyla June Johnston). Essa mudança de termo teve um impacto imediato em mim e percebi o profundo entendimento da sacralidade do ser humano através do entendimento de que a própria vida é uma cerimônia. As normas culturais Euro-Ocidentais relegaram a cerimônia e o ritual a um lugar muito distante do centro do que significa ser humano. Em contraste, a sabedoria tradicional Oriental há muito enfatiza a importância da cerimônia e do ritual (禮/lǐ), por exemplo, em Confucius’Analects Book I [Livro I dos Analectos de Confúcio]. E, frequentemente, a palavra espiritualidade sugere um eu [ser, self] desencarnado, “superior”, que é capaz de transcender o mundo material.
“…a própria vida é uma cerimônia…”
Mas a cerimônia Indígena me reconecta com o meu corpo; com o meu corpo suado, dolorido, respirando, alongando-se, com os seus ossos, sangue e músculos. Essa é uma experiência do sagrado, se eu escolher pensar e saber que a minha vida corpórea é uma cerimônia. A minha vida corpórea é uma expressão da Fonte e de tudo o que é sagrado. Estendendo-se à minha cognição e mente corpóreas, as minhas ideias, escritos e pesquisas também são cerimônia.
Eu deveria ter percebido isso meses atrás, ao ler o livro de Shawn Wilson, “Research is Ceremony: Indigenous Research Methods” (A Pesquisa é Cerimônia: Métodos de Pesquisa Indígena). Apesar do título já me alertar sobre a importância da palavra “cerimônia”, eu só a compreendi quando uma amiga catalisou um entendimento novo, mais profundo e integrado. Eu compartilho essa jornada de aprendizado com vocês para iluminar o desdobramento contínuo, o aprofundamento constante, as experiências sublimes contínuas de conhecer mais sobre o sagrado. Eu posso estar em sintonia enquanto eu pesquiso, faço compras no supermercado, passeio com o meu cachorro, participo de reuniões acadêmicas. Tudo pode ser uma cerimônia se eu escolher me abrir para esse potencial.
“Tudo pode ser uma cerimônia se eu escolher me abrir para esse potencial.“
O livro de Wilson é uma contribuição exemplar para compartilhar com o mundo uma ontologia relacional Indígena. Por exemplo, Wilson descreve a inseparabilidade da metodologia e da axiologia ao conduzir pesquisas por meio da IWOK:
…nós [pesquisadores] somos mediadores em um relacionamento crescente entre a comunidade e aquilo que está sendo pesquisado. E a maneira como nós realizamos o nosso trabalho nesse papel é onde nós mantemos a responsabilidade relacional. Nós somos responsáveis perante nós mesmos, a comunidade, o nosso ambiente ou o cosmos como um todo e também perante os temas que nós estamos pesquisando. Nós temos todos esses relacionamentos que nós necessitamos manter. (2008, p. 106)
A pesquisa como cerimônia permanece ancorada no corpo, completamente permeada pelo contexto. E contextualizar o conhecimento exige integridade. Um entendimento contextual e incorporado “…é necessário para que esse conhecimento se torne vivenciado, torne-se parte de nossa experiência coletiva ou parte de nossa rede de relacionamentos” (Wilson, 2008, pp. 102-103). Há uma responsabilidade ligada ao conhecimento e ao ato de conhecer que não pode ser separada na IWOK; eu entendo isso como um imperativo ético, pois o conhecimento vivenciado que pode ser gerado pela pesquisa tem que enaltecer a sacralidade de toda a vida.
Eu convido todos os pesquisadores de MSR a considerarem a leitura do texto de Wilson, que oferece ideias substanciais e poderosas para catalisar a próxima geração de pesquisa e estudos em MSR. Aqui está mais uma citação desse livro impactante que ilumina a profunda adesão a uma ontologia relacional:
…se o pesquisador for separado da pesquisa e essa for desvinculada de seus relacionamentos, ela não será aceita dentro de um paradigma Indígena. A pesquisa não demonstrará respeito pelo relacionamento entre os participantes da pesquisa e o tema… a pesquisa tem que refletir com precisão e construir sobre os relacionamentos entre as ideias e os participantes… (Wilson, 2008, p. 101)
Assim como Wilson (2008), Johnston (2017) e Wall Kimmerer (2013) estão profundamente enraizados em uma ontologia relacional e cada pesquisador oferece exemplos de pesquisa empírica que conecta os mundos material e sutil por meio da IWOK. A pesquisa é emancipadora, afirma o imperativo moral da dignidade de todos e é muito corporificada. Esses exemplos oferecem aos pesquisadores de MSR maneiras únicas e poderosas de ver e sentir como se aproximar por meio da IWOK. O convite está aberto para que os leitores acessem essa poderosa sabedoria.
A próxima seção apresenta detalhes selecionados sobre por que e como a pesquisa em MSR pode ser concebida e conduzida por meio da implementação de uma ontologia relacional. Espera-se que, com essas novas perspectivas, os pesquisadores em MSR possam continuar a construir sobre o conjunto de conhecimento implicitamente extraído da interseção entre IWOK, ontologia relacional e ontologia quântica e sejam catalisadores de pesquisas profundamente transformadoras.
Implementando/Gerando Pesquisa a partir de uma Ontologia Relacional
Essa seção oferece respostas às perguntas: Por que os pesquisadores de MSR deveriam implementar uma ontologia relacional? Como os pesquisadores de MSR poderiam conduzir pesquisas a partir dessa perspectiva ontológica? Ambos os tipos de perguntas têm sido debatidos por estudiosos anteriores, como será descrito abaixo, porém com uma diferença sutil, mas importante, no foco.
Por que os Pesquisadores de MSR Devem Implementar uma Ontologia Relacional?
Muitos acadêmicos se concentram em mudar o paradigma do pesquisador, criando argumentos para validar o conhecimento subjetivo e reduzir a distância entre pesquisador e pesquisado. Esses argumentos frequentemente giram em torno da defesa da pesquisa qualitativa como a “melhor” maneira de entender o significado e os fenômenos espirituais e o foco está em mudar o paradigma ou sistema de crenças do pesquisador da ciência “objetiva” para a experiência “subjetiva”.
O argumento que eu apresento aqui é diferente e talvez mais perturbador em seu impacto. O meu argumento não busca legitimar o conhecimento subjetivo. Trata-se de um argumento ontológico sobre a realidade, centrado em seus correlatos epistemológicos baseados em modos de ser Indígenas, quânticos e relacionais no/com o mundo material e sutil. Não se trata de legitimar a pesquisa qualitativa; na verdade, como eu mencionei anteriormente, todas as formas de pesquisa (qualitativa, quantitativa ou de métodos mistos) podem ser conduzidas a partir de uma perspectiva ontológica relacional.
Definições são importantes e há uma profunda diferença entre paradigma e ontologia. Conforme descrito por Kuhn (1962), um paradigma representa uma ciência “madura” quando há consenso sobre teorias, procedimentos e modelos. Por outro lado, ele classificou como “imaturo” um campo científico (historicamente, o domínio da espiritualidade) que não possui consenso teórico ou processual. Em ambas as categorias de paradigma, o pesquisador está fora do projeto de pesquisa, observando-o como um observador objetivo e neutro. Existe uma separação entre pesquisador e pesquisado quando se fala de paradigma; isso é completamente diferente quando se fala de uma ontologia relacional, como eu descrevi anteriormente nesse capítulo.
Implementar uma ontologia relacional implica ser diferente como pesquisador e embora alguns autores (por exemplo, Lin et al., 2016) descrevam práticas para desenvolver a “paisagem interior” do pesquisador que possibilita essa diferença, há implicações profundas para o planejamento da pesquisa que permanecem implícitas em grande parte desses trabalhos anteriores porque, creio eu, o foco estava no paradigma ao invés da ontologia. O foco estava na lente ou na metáfora e não no Que É.
Um dos livros didáticos seminais sobre pesquisa relevantes para essa discussão é o livro “Toward a Spiritual Research Paradigm: Exploring New Ways of Knowing, Researching, and Being” [“Em Direção a um Paradigma de Pesquisa Espiritual: Explorando Novas Maneiras de Conhecer, Pesquisar e Ser.]. Nessa obra inovadora, os autores Lin, Oxford e Culham (2016) apresentam um argumento convincente para o desenvolvimento de um paradigma de pesquisa espiritual, pois “uma parte grande e vital da experiência humana é excluída dos paradigmas de pesquisa atuais” (p. x). Eles também argumentam que “os pesquisadores necessitam incorporar aquilo que pesquisam. Isso significa que o cultivo e o crescimento espiritual dos pesquisadores fazem parte do empreendimento da pesquisa” (p. xi). O livro oferece múltiplas e diversas maneiras de conceber e executar pesquisas por meio de um spiritual research paradigm (SRP) [paradigma de pesquisa espiritual] e muitos dos capítulos desse livro oferecem ideias, argumentos, evidências e aplicações substanciais de um SRP.
Eu aprecio a importância de nomear e distinguir um paradigma de pesquisa espiritual, pois isso é crucial para a MSR e eu apresento um argumento diferente nesse capítulo. Um SRP também significa, em sua essência, que existem diferentes paradigmas a partir dos quais um pesquisador é capaz de entender ou dar sentido ao mundo. Nomear e distinguir diferentes paradigmas perpetua a separação (por exemplo, não está alinhada a uma ontologia relacional) das seguintes maneiras:
– Isso dá ao pesquisador o poder de nomear e selecionar um paradigma em detrimento de outro;
– Isso deixa em aberto a ideia de que o pesquisador não está em um relacionamento de coemergência com um paradigma escolhido;
– Isso posiciona o pesquisador no centro da produção de conhecimento;
– Isso pressupõe que a realidade está separada de nossa observação dela:
– Isso legitima/privilegia o paradigma (como olhar para a realidade) em detrimento da ontologia (o que é a realidade); e
– Embora seja um passo adiante identificar e começar a legitimar diferentes maneiras de conhecimento, limita-se a como os pesquisadores são capazes de conhecer e não aborda o que há para conhecer (por exemplo, uma realidade relacional).
Uma ontologia relacional, por outro lado, afirma que os pesquisadores literalmente cogeram a realidade à medida que nós concebemos e implementamos projetos de pesquisa. Essa posição ontológica sugere que as ideias cognitivas de um pesquisador coemergem com as condições materiais da pesquisa. O pesquisador está inserido na mesma teia relacional (Thayer-Bacon, 2017), no mesmo campo energético quântico (Bohm, 1980), no mesmo espaço cerimonial de reciprocidade (Kimmerer, 2013) que o objeto da pesquisa. O “campo de jogo” é nivelado – o pesquisador não é como um técnico dirigindo o jogo. O jogo é jogado através do pesquisador, não pelo pesquisador.
Pense nisso por um momento. Se o “jogo” da pesquisa é jogado através do pesquisador, o que isso pode significar para você? A partir de uma perspectiva cerimonial Indígena, significa que não há separação entre conhecimento e responsabilidade – toda pesquisa é um ato moral e ético de reciprocidade que reconhece a soberania e a mentalidade de toda a vida. A partir de uma perspectiva quântica, significa que existe uma ordem invisível e implícita de unidade entre pesquisador e pesquisa, que reflete uma emergência ou devir contínuo. A partir de uma perspectiva de Thayer-Bacon (2017), significa que ontologia e espiritualidade são intercambiáveis e que toda pesquisa pode ser considerada uma manifestação do sagrado – desde que o pesquisador se abra ao fluxo daquilo que deseja emergir.
Então, por que os pesquisadores de MSR deveriam adotar uma ontologia relacional? A resposta talvez seja controversa, mas é clara: porque, por meio da pesquisa, nós temos outra oportunidade de servir à fonte; ao sagrado; ou, em outro sentido, Aquilo Que Anseia Emergir a partir da ordem implícita (Bohm, 1980) ou da consciência no nível da percepção [consciousness] da interconexão (Tsao & Laszlo, 2019). Em consonância com Lin et al. (2016), isso significa que a paisagem interior do pesquisador necessita ser cultivada e nutrida; mas, talvez diferentemente desses autores, o conhecimento e a pesquisa provêm de uma Unidade ontológica que é impossível de nomear ou classificar.
A próxima seção oferece algumas ideias práticas para a implementação da pesquisa por meio da adoção de uma ontologia relacional.
Como os Pesquisadores de MSR Podem Conduzir Pesquisas e Permitir que a Pesquisa Flua Através Deles?
A reformulação da pergunta acima sinaliza a profunda mudança que ocorre ao se adotar uma ontologia relacional. O pesquisador egóico passa a estar em ressonância com o campo invisível de energia e informação apontado pela sabedoria Indígena e pela teoria quântica. A partir desse campo, podem emergir o propósito, a implementação e o impacto da pesquisa. Essa seção descreve como os pesquisadores de MSR podem pensar e, em seguida, não pensar sobre a condução de pesquisas ao adotar uma ontologia relacional.
“…ao se adotar uma ontologia relacional, o pesquisador egóico passa a estar em ressonância com o campo invisível de energia e informação apontado pela sabedoria Indígena e pela teoria quântica.”
O propósito dos estudos de pesquisa em MSR geralmente está relacionado a algum tópico de gestão conectado à espiritualidade ou religião – tópicos frequentemente pouco pesquisados na gestão convencional e na ciência organizacional. Essa pesquisa se concentra em experiências humanas que envolvem profunda interconectividade, transcendência, crescimento, transformação, mistério ou alegria. Esses tipos de experiências frequentemente exploram uma sensação de fluxo (Csikszentmihalyi, 2008), Qi (Tsao & Laszlo, 2019) ou o que Gary Zukav (2014) chama de poder autêntico: “o alinhamento da personalidade com a alma – e da percepção multissensorial: a expansão da percepção humana além das limitações dos cinco sentidos” (p. xxx). Essas experiências profundamente humanas/espirituais são os temas da pesquisa em MSR, que na perspectiva Newtoniana têm sido relegadas a um status não científico.
“Gary Zukav (2014) chama de poder autêntico: “o alinhamento da personalidade com a alma – e da percepção multissensorial: a expansão da percepção humana além das limitações dos cinco sentidos” (p. xxx).“
Normalmente, nós temos sido treinados para elaborar uma declaração de propósito precisa, bem definida e orientada para objetivos e resultados em nossa pesquisa. Tradicionalmente, o propósito está ligado a uma lacuna no conhecimento e a pesquisa pretende contribuir para preenchê-la. Creswell (2016) argumenta que a declaração de propósito é a declaração mais importante em um estudo e que deve transmitir a essência do projeto.
No entanto, a gênese do propósito é o que se diferencia quando se adota uma ontologia relacional. Ao invés de começar com um problema prático para definir o problema de pesquisa, ou ancorar um problema de pesquisa em uma lacuna na literatura, um pesquisador que adota uma ontologia relacional começará observando atentamente o interior e o exterior para sentir ou intuir o que deseja emergir do campo do devir. Os momentos de clareza ou conhecimento podem ser breves, intermitentes ou raros, mas o pesquisador sabe quando eles acontecem. Muito já foi escrito sobre esse conhecimento mais sutil e interior em pesquisas, por exemplo, na disciplina de psicologia transpessoal (Anderson & Braud, 2011; Braud & Anderson, 1998) e perspectivas Junguianas sobre pesquisa (Romanyshyn, 2013). Tsao e Laszlo (2019) apontam para pesquisas existentes que sugerem que “a consciência no nível da percepção [consciousness] pode, na verdade, existir fora do cérebro, ao invés de ser gerada por ele” (6).
O desafio reside em como expandir essa capacidade de acessar, entregar-se ou abrir-se a esse campo maior de potencial. A próxima seção oferece sugestões da área da psicologia transpessoal. Eu descobri que essa disciplina gerou dissertações, livros didáticos e artigos acadêmicos sobre maneiras práticas e implementáveis de conectar o material com o mundo sutil por meio da pesquisa. Há um paradoxo nisso que é importante reconhecer: nomear e identificar etapas de acesso é necessário para muitos de nós que estamos aprendendo e desenvolvendo competências para esse trabalho. Ao mesmo tempo, nós corremos o risco de perder o inefável se não nos desapegarmos do nosso cérebro racional/cognitivo. A chave é lidar com ambos de forma leve e equilibrada.
Práticas e Competências para Pesquisadores de MSR
Essa seção descreve três maneiras pelas quais os pesquisadores de MSR podem aprofundar as suas habilidades para implementar a ontologia relacional em suas pesquisas. Primeiro, eu descrevo diferentes maneiras de acessar formas não racionais de conhecimento, seguindo sugestões dos estudiosos da pesquisa transpessoal Anderson, Braud e Clements (Anderson, 2011; Braud & Anderson, 1998; Clements, 2011). Segundo, eu defendo a importância do trabalho com a sombra e das sincronicidades. E terceiro, eu recomendo o uso da linguagem da metáfora para comunicar a pesquisa; Romanyshyn (2013) chama isso de poética da pesquisa.
Acessando Maneiras Não Racionais de Conhecimento.
De acordo com os pesquisadores Anderson e Braud (2011), os pesquisadores podem acessar momentos de clareza por meio de quatro portais de entendimento: pensamento, sensação, sentimento e intuição. No entanto, o pesquisador necessita cultivar facilidade e expertise em todas as quatro formas de conhecimento. O livro de Anderson e Braud, “Transpersonal Research Methods for the Social Sciences: Honoring Human Experience” [“Métodos de Pesquisa Transpessoal para as Ciências Sociais: Honrando a Experiência Humana], oferece ferramentas e etapas bem testadas para que os pesquisadores desenvolvam a sua capacidade máxima nessas múltiplas formas de conhecimento. Eles têm identificado três categorias:
1) acesso a processos geralmente inconscientes (conhecimento tácito, imaginação ativa, escrita automática, etc.);
2) acesso ao conhecimento direto (intuição, ressonância simpática, presença); e
3) identificação empática (identificação precisa, não emocional, com o fenômeno de estudo; por exemplo: os pesquisadores Feynman identificaram o fenômeno como um elétron e McClintock o identificaram como um cromossomo de um fungo do milho) (Anderson & Braud, 2011, p. 250).
Todas essas três práticas podem facilitar a nossa capacidade de ter uma experiência direta/intuitiva (Tsao & Laszlo, 2019) de entrega ao propósito cósmico de nossa pesquisa em MSR. Ao mesmo tempo, o conhecimento direto/intuitivo traz muitos desafios para um acadêmico/pesquisador. Por exemplo, experiências intuitivas diretas podem desafiar crenças na ciência normal com a sua separação sujeito/objeto. Experiências intuitivas diretas podem desafiar a crença de que o mundo é composto de entidades discretas. E para pessoas que não tiveram experiências diretas/intuitivas, é difícil “acreditar” nessas formas de conhecimento porque não há um significado compartilhado para uma compreensão compartilhada. Essas formas não racionais de sentir ou intuir/conhecer o mundo parecem exigir uma experiência subjetiva pessoal de conhecimento direto.
Curiosamente, a pesquisa sobre percepção visual pode oferecer uma explicação e uma oportunidade/esperança para aprimorar um entendimento compartilhado. A pesquisa está começando a entender a disjunção entre “conhecer” em um sentido intelectual e analítico e “conhecer” que é direto/intuitivo. Essas descobertas podem explicar alguns dos motivos pelos quais nem todos “viram” ou “sentiram” uma realidade relacional ou quântica. Por exemplo, pesquisas sugerem que não se pode ter uma visão científica “racional” e uma visão direta/intuitiva ao mesmo tempo (Mayer, 2007):
As percepções que caracterizam experiências potencialmente anômalas [por exemplo, uma experiência direta/intuitiva] parecem emergir de um estado mental que, no momento da percepção, é radicalmente incompatível com o estado mental em que as percepções que caracterizam o pensamento racional são possíveis… Essa é uma proposição terrível para a maioria de nós, formados na tradição intelectual e científica Ocidental… Nós não estamos acostumados à investigação científica em que os fenômenos que nós estamos tentando estudar sejam eles próprios exclusivos do estado mental que nos permite estudá-los” (Mayer, 2007, p. 137).
Isso sugere que o estado de espírito associado a uma ontologia relacional, incluindo experiências com conhecimento direto/intuitivo e outras experiências anômalas (por exemplo, visão à distância), simplesmente não pode ser entendido com o estado de espírito associado à ciência Newtoniana. Em última análise, os pesquisadores de MSR necessitam desenvolver a capacidade de transitar entre essas duas formas de experienciar o mundo para implementar plenamente uma ontologia relacional.
Realizando o Trabalho com a Sombra.
Romanyshyn (2013), também da área da psicologia, assim como Anderson, Braud e Clements (Anderson, 2011; Braud & Anderson, 1998; Clements, 2011), é um psicólogo/filósofo Junguiano e tem um foco diferente sobre o que o pesquisador necessita fazer e quais habilidades ou competências desenvolver. Eu acredito que as contribuições em seu livro “The Wounded Researcher: Research with Soul in Mind” [“O Pesquisador Ferido (Machucado): Pesquisa com a Alma em Mente”] são cruciais ao se considerar a pesquisa a partir de uma ontologia relacional por diversos motivos. Por exemplo, a perspectiva Junguiana expande o campo interno no qual o pesquisador trabalha para incluir a psique (o inconsciente) e a sua conexão com a sincronicidade. Essa conexão é importante por razões epistemológicas e retóricas. Os leitores são incentivados a ler o livro completo para obter um entendimento mais amplo das muitas contribuições potenciais que uma visão Junguiana oferece à pesquisa em MSR.
Jung escreveu sobre a interseção entre a física quântica e a psicologia e descobriu que ambas as disciplinas tinham um problema epistemológico relacionado ao “vínculo indissolúvel que existe entre o objeto a ser investigado e o investigador humano” (Romanyshyn, 2013, p. 31). Para Jung, a sincronicidade (por exemplo, coincidências significativas sem uma aparente conexão causal) na experiência humana é semelhante à “forma que a luz assume” (p. 32) em relação a um pesquisador em um laboratório de física. Assim como a propriedade da luz depende do pesquisador que a observa, também a forma do mundo material (por exemplo, coincidências significativas) depende do estado inconsciente (por exemplo, psique) do observador. Para Jung, “alguma coisa no estado inconsciente liga a psique à matéria” (p. 32).
Levar essa ideia em consideração, como pesquisador de MSR, significa que o inconsciente pode influenciar o processo de pesquisa e, consequentemente, quaisquer afirmações ou descobertas. Isso tem implicações enormes para o valor potencial (ou a falta dele) da pesquisa. Eu sinto que o trabalho interior, o trabalho com a sombra e as práticas de conectividade (Tsao & Laszlo, 2019) seriam elementos críticos na preparação do pesquisador, a fim de criar um canal o mais claro possível para “o que deseja emergir” por meio do processo de pesquisa. Os pesquisadores necessitariam praticar estratégias rigorosas de autoconhecimento e autodesenvolvimento para evitar que a sua pesquisa se torne terapia (Anderson & Braud, 2011). Esse tipo de preocupação não se restringe a esse contexto; em muitas referências à pesquisa autoetnográfica, há uma preocupação com a possibilidade de elementos narcisistas ou terapêuticos influenciarem o processo de pesquisa (Chang, 2008). Ao invés de descartar o processo de pesquisa autoetnográfica como inerentemente falho e sem valor, os autoetnógrafos têm sido atentos e diligentes e produziram muitas contribuições para a ciência.
Veja, por exemplo, o Relatório Qualitativo em https://nsuworks.nova.edu/do/search/?q=autoethnography&start=0&context=6227772&facet=. Não há razão para acreditar que os pesquisadores de MSR não possam fazer o mesmo.
Escrevendo Metaforicamente.
Jung também sugeriu que é importante para os pesquisadores encontrarem uma linguagem para comunicar uma sensibilidade metafórica do tipo “nem uma coisa nem outra”, ao invés da usual formulação “ambos/e” e que tanto a física quântica quanto a psicologia enfrentam esse desafio.
“… Assim como a física quântica teve que desenvolver uma linguagem de probabilidades, a psicologia necessita desenvolver uma linguagem de significados potenciais e prováveis, uma linguagem de aproximações, uma linguagem que resista à literalização do visível e ao esquecimento do invisível” (Jung, citado em Romanyshyn, 2013, p. 35).
Romanyshyn defende que os pesquisadores considerem a escrita metafórica como uma forma de evitar a objetificação/congelamento ou reificação daquilo que é sempre potencial – uma dinâmica fluida. Resultados ou afirmações de pesquisa, se escritos em metáfora, seriam “desliteralizados, libertados da exigência de serem tomados ao pé da letra, como a verdade absoluta” (43).
Eu acredito que essas três práticas – acessar o conhecimento direto, realizar o trabalho com a sombra e usar a linguagem metafórica (o que Romanyshyn chama de “poética da pesquisa”) – são elementos críticos a serem considerados na preparação, implementação e redação de pesquisas em MSR por meio de uma ontologia relacional. Desenvolver a competência em acessar a consciência no nível da realidade [awareness] direta/intuitiva é capaz de auxiliar os pesquisadores de MSR a explorar continuamente o campo quântico/relacional durante o planejamento, a condução e a redação da pesquisa. Esse acesso contínuo é capaz de aumentar o potencial de o pesquisador estar realmente explorando o que deseja emergir, ao invés de simplesmente preencher uma lacuna na literatura. Realizar o trabalho com a sombra pode proporcionar uma profunda consciência no nível da realidade [awareness] de como a psique do pesquisador pode influenciar o processo de pesquisa. Além disso, esse trabalho parece ser outra maneira de gerar resultados de pesquisa “claros” e “ressonantes”, livres do ego. Finalmente, adotar uma visão metafórica da linguagem da pesquisa poderia abordar a qualidade inefável das experiências humanas relevantes para a pesquisa quântica.
Resumo e Invocando Intenção
O propósito desse capítulo é explorar como os pesquisadores de MSR podem implementar uma ontologia relacional por meio da pesquisa e como essa implementação pode restaurar/reparar a profunda interconexão e interdependência entre toda a vida no planeta. A intenção foi convidar a uma expansão da capacidade dos pesquisadores de MSR de conduzir pesquisas qualitativas orientadas para a ação, transformadoras e emancipatórias.
Três diferentes perspectivas ontológicas relacionais foram apresentadas e ideias específicas para a implementação da pesquisa a partir de uma posição ontológica relacional foram oferecidas. O trabalho de desenvolvimento das capacidades internas para esse trabalho envolve formas não lineares e não racionais de conhecer e ser pesquisadores de MSR. A partir de uma perspectiva IWOK, o trabalho é simultaneamente performativo e normativo, com o imperativo de afirmar e proteger a sacralidade de toda a vida. O trabalho também é curativo [healing] e emancipatório, como iluminado pela dedicatória da dissertação de mestrado de Johnston (2017):
“Aos colonizados e aos colonizadores. Que nós possamos ser livres das correntes que nos impedem de sermos o que nós somos. Ayόόan…nishn.” (p. iii).
Que os pesquisadores do MSR venham a ser plenamente o que são, por meio de suas pesquisas e que essas pesquisas catalisem a transformação no corpo, na mente e no espírito.
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—–Continua Parte XIX—–
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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.
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