Com esse artigo, o Projeto OREM® está alcançando a marca de 590 artigos publicados e compartilhados, com o objetivo de consultas, pesquisas, estudos, conhecimento e entendimento sobre o sistema de pensamento da metafísica da espiritualidade não dualista.
O Projeto OREM® visa compartilhar, de maneira gratuita, todos os recursos que nós tivemos acesso nesse processo de aprendizado (artigos disponibilizados na internet, revistas, livros, áudios, entrevistas, etc. etc.), na sua grande maioria traduzidos da língua Inglesa, em razão da baixa disponibilidade de matérias de fonte primária na língua Portuguesa. Infelizmente, boa parte do material utilizado e estudado já não está mais disponível na internet e alguns livros estão com edições esgotadas.
Ao longo desse processo de conhecimento e entendimento, nós temos percebido que na língua Inglesa as palavras são mais ricas nos detalhes daquilo que, de fato, o autor quer transmitir, sem deixar nenhum tipo de dúvidas, embora a difícil tarefa de comunicação através das palavras.
Um exemplo típico são as palavras “cure” e “healing” que certamente serão traduzidas para a palavra “cura”, embora duas palavras com significados de diferentes abrangências.
A palavra “cure” é a cura médica, o foco é a eliminação definitiva de uma doença ou condição. Ela é dual, local, Cartesiana-Newtoniana, objetiva, física e clínica. Atua no efeito.
A palavra “healing” é a cura ou restauração holística, o foco é o processo de regeneração, harmonia e equilíbrio, físico e também não físico. O foco não é somente o físico, mas também o emocional, o mental, o psicológico, o espiritual. Ela visa a integridade daquele que busca a cura. Ela é não-dual, não-local, Quântica, subjetiva, liberadora, integrativa.
Nos artigos do blog Projeto OREM® nós temos tomado o cuidado de, no processo de tradução livre, destacar a cura quando oriunda da palavra “cure” e da palavra “healing”. E isso faz toda a diferença no processo de entendimento.
A razão desse artigo número 123, categoria “A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE)” é estudarmos as palavras “consciousness” e “awareness”, que normalmente são traduzidas para a palavra “consciência”, perdendo-se a essência da mensagem do autor.
No impactante e providencial livro “Um Curso em Milagres” (UCEM) nós temos para as duas palavras acima a tradução para “consciência”, o que perde muito em essência a mensagem do autor do livro.
Na sessão Nota do Tradutor de UCEM, tradução autorizada da terceira impressão (fevereiro de 1993) da segunda edição Americana, publicada originalmente pela Foundation for Inner Peace, nós temos a seguinte explicação:
Awareness/Consciousness
“Em Português não temos uma palavra para ‘awareness’ e ‘consciência’ foi usada para designar ambas [awareness e consciousness], mas estes conceitos não são sinônimos no Curso.
Awareness se refere àquilo de que nós temos consciência no contexto da ‘realidade’. ‘…The awareness of love’s presence…’ (Introduction) = ‘…A consciência da presença do amor…’ (Introdução).
‘Consciousness’ designa o conteúdo da consciência no ‘nível da percepção’: ‘Consciousness, the level of perception, was the first split introduced into the mind after the separation…” (T-3.IV.2:1) = ‘A consciência, o nível da percepção, foi a primeira divisão introduzida na mente após a separação…’”
Para complementar a explicação da diferença entre “awareness” e “consciousness”, nós estamos destacando trechos de dois artigos didáticos sobre o tema. Enfatizamos também que todos os artigos traduzidos e disponibilizados no blog Projeto OREM® fazem referência quando se trata de uma tradução da palavra “awareness” e da palavra “consciousness’’, o que faz toda a diferença na interpretação da mensagem do autor.
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Artigo:
Consciousness, Awareness, and Presence: A Neurobiological Perspective
Autor:
Vinod D Deshmukh – Department of Neurology, Jacksonville Campus, University of Florida, Jacksonville, Florida, USA
Fonte:
IJOY – International Journal of Yoga
Site:
Consciousness, Awareness, and Presence: A Neurobiological Perspective – PMC
Tradução livre Projeto OREM® (PO)
Observação PO: Consciousness = consciência no nível da percepção. Awareness = consciência no nível da realidade
Consciência no Nível da Percepção [Consciousness], Consciência no Nível da Realidade [Awareness] e Presença: Uma Perspectiva Neurobiológica
Resumo
“Propõe-se que a consciência no nível da percepção [consciousness] seja diferente da consciência no nível da realidade [awareness]. A consciência no nível da percepção [consciousness] pode ser entendida como um processo cognitivo dual, corporificado e imbricado, enquanto a consciência no nível da realidade [awareness] é um processo não dual e não local. A consciência no nível da realidade [awareness] não local é a autoconsciência no nível da realidade [self-awareness] afetiva sempre presente e sempre renovada, capaz de estar ciente de si mesma, bem como da dualidade sujeito-objeto em curso e dos conteúdos cognitivos conscientes. Essa consciência no nível da realidade [awareness] não local é o nosso estado padrão. Embora poucos de nós estejamos cientes dela devido à nossa habitual preocupação mental e devaneio. Nós necessitamos relaxar, aprender a meditar, deixar de lado todas as preocupações e retornar ao nosso modo padrão de estado de ser, que é pacífico, silencioso, pleno, energético e sempre renovado. Então, nós nos sentimos vivos, livres e em casa no mundo sem esforço. Essa é a essência da meditação para viver uma vida feliz, pacífica e significativa.
O restante do artigo fornece detalhes sobre presença meditativa, meditação iogue e meditação mindfulness, com as suas práticas e aplicações atuais. O foco principal do artigo é a neurobiologia da meditação, que é discutida em detalhes. Ela abrange o espaço mental percebido experiencialmente, incluindo o espaço pessoal, peripessoal e extrapessoal; os conceitos de mente na literatura Ocidental e Oriental; e os fundamentos neurobiológicos no tronco encefálico, sistema reticulo-límbico, prosencéfalo, incluindo os cinco circuitos tálamo-corticais-gânglios da base, múltiplas modalidades sensoriais, percepção integrada, produção da fala, comunicação linguística, movimentos voluntários e ações intencionais. A integridade da mente consciente é expressa como biopsicossocial-abstrata/espiritual.
Palavras-chave:
Bio-psycho-social-abstract, cognitive consciousness, experiential mind-space, language communication, meditative presence, mindfulness meditation, nonlocal awareness, voluntary movement control, yoga meditation.
Introdução
“Toda experiência é local. Eu não estou limitado a eventos locais. Eu sou consciência no nível da realidade [awareness] não local. Ela é uma consciência no nível da realidade [awareness] da consciência no nível da percepção [consciousness] local.”
Há muita ambiguidade no campo dos estudos da consciência no nível da percepção [consciousness] sobre o uso dos termos consciência no nível da percepção [consciousness], consciência no nível da realidade [awareness], presença e espaço experiencial. Alguns autores consideram que termos consciência no nível da percepção [consciousness] e consciência no nível da realidade [awareness] são a mesma coisa.[1] Alguns autores diferenciam entre consciência no nível da percepção [consciousness] dual e não dual.[2] Outros ainda escrevem sobre autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] e consciência no nível da percepção [consciousness] sem conteúdo.[3] A autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] possui três características essenciais: subjetividade, unidade da experiência e intencionalidade da ação. Esses aspectos são difíceis de entender e explicar em termos neurobiológicos simples.
[1]Koch C. The Feeling of Life Itself: Why Consciousness Is Widespread but Can’t Be Computed. USA: The MIT Press; 2019. p. 257.
[2]Josipovic Z. Nondual awareness: Consciousness-as-such as non-representational reflexivity. Prog Brain Res. 2019;244:273–98. doi: 10.1016/bs.pbr.2018.10.021.
[3]Srinivasan N. Consciousness without content: A look at evidence and prospects. Front Psychol. 2020;11:1992. doi: 10.3389/fpsyg.2020.01992.
Consciência no nível da percepção [consciousness] e Consciência no nível da realidade [awareness]
Nesse artigo, eu proponho que consciência no nível da percepção [consciousness] e consciência no nível da realidade [awareness] não são a mesma coisa. A consciência no nível da percepção [consciousness] é um processo cognitivo e dualista, enquanto a consciência no nível da realidade [awareness] é não dual, espontânea e não local. A consciência no nível da percepção [consciousness] cognitiva é processada pelos circuitos neocorticais e paliais, enquanto a consciência no nível da realidade [awareness] não específica e não local é processada pelos circuitos pré-corticais (subcorticais) como um estado sempre renovado de excitação-consciência no nível da realidade [awareness]-ser. A especificação da excitação consciente e das experiências conscientes ocorre posteriormente no neocórtex.
Conteúdo Consciente, Espaço Experiencial e Consciência No Nível da Realidade [Awareness] Não Local
Com a consciência no nível da percepção [consciousness], nós experienciamos o espaço próximo e o espaço distante extrapessoal. O espaço próximo consiste no espaço pessoal, ou seja, o corpo e o seu interior e o espaço peripessoal é o espaço circundante alcançável e interativo. Essa é uma perspectiva de ecossistema com um organismo individual cercado por múltiplos objetos, outros organismos e as biomoléculas e energias biofísicas naturais. Todos os eventos experienciados ocorrem localmente, conscientemente ou pré-conscientemente, em relação ao sujeito que os experiencia. Tais experiências conscientes são locais e limitadas no espaço mental e no tempo.
Algumas das experiências meditativas históricas relacionam-se a esse vasto, ilimitado e pacífico estado experiencial. É possível ter uma consciência no nível da realidade [awareness] espacial ilimitada e não local, que é espontânea, holística e sempre renovada. Ela não é afetada pelos eventos e experiências do corpo, da mente e do espaço.
A declaração do Rei Janaka no Ashtaavakra Gita é profundamente significativa:[4]
“Tão infinito quanto o espaço eu sou e o mundo fenomênico é como um jarro limitado (pequeno); esse é o verdadeiro conhecimento. Não há nada, então, a ser renunciado, nem a ser aceito, nem a ser destruído.”
[4]Chinmayananda S. Central Chinmaya Mission Trust. Asṣtṭaāvakra Gītā : Song of Self-Realization. 2016:498.
Sri Raman Maharshi resumiu os seus conselhos para a meditação da seguinte forma:
“Dentro do sanctum do coração, somente Brahman existe. O sentimento ‘Eu…Eu’ pulsa e brilha como o próprio Atman. Entre em seu coração, por meio da auto indagação ou da fusão do ego. Aquietando a respiração (e a mente), permaneça em seu verdadeiro ser, o self.”[5]
[5]Deshmukh VD. The transparent mind and the peaceful self: Neuroscience and Vedanta perspectives. J Appl Conscious Stud. 2022;10:2–7.
J. Krishnamurti expressou isso da seguinte maneira:
“Silêncio e amplidão caminham juntos. A imensidão do silêncio é a imensidão da mente na qual não existe um centro.”[6]
[6]Krishnamurti J. Meditations. Harper and Row. New York, USA: 1979. p. 63.
Outro exemplo dessa consciência no nível da realidade [awareness] não local é a perspicaz declaração de Sri Nisargadatta Maharaj sobre a sua própria perspectiva. Aqui está a sua citação: (M para Maharaj e Q para Questionário):
“M: Onde não há mente, não há para onde voltar. Eu sou todo para frente, sem volta! O vazio fala; o vazio permanece. Q: Não há mais memória? M: Nenhuma memória de prazer ou dor passada. Cada momento nasce como um novo. Q: Sem memória, você não pode estar consciente. M: Claro, eu estou consciente e plenamente ciente disso. Eu não sou um bloco de madeira! Compare a consciência no nível da percepção [consciousness] e o seu conteúdo a uma nuvem. Você está dentro da nuvem, enquanto eu a observo. Você está perdido nela, mal conseguindo ver a ponta dos dedos, enquanto eu vejo a nuvem e muitas outras nuvens, o céu azul também, o Sol, a lua, as estrelas. A realidade é uma só para nós dois, mas para você é uma prisão e para mim isso é um lar.”[7]
[7]Nisargadatta M. I Am That. 6th. Chetana: The University of Virginia; 1973. p. 430.
Mente
A mente pode ser definida de quatro maneiras diferentes:
(1) um processador de padrões neuro elétricos no fluxo de excitação-energia-informação consciente ou pré-consciente dentro do cérebro-mente;
(2) a consciência no nível da percepção [consciousness] humana que se origina no cérebro e se manifesta, especialmente no pensamento, na percepção, nos sentimentos, na vontade, na memória e na imaginação;
(3) a totalidade dos processos conscientes e inconscientes do cérebro que direcionam o comportamento mental e físico de um organismo senciente;
(4) o princípio da inteligência; o espírito da consciência no nível da percepção [consciousness] considerado como um aspecto da realidade.[5]
Persiste uma ambiguidade no uso do termo “mente”. Na literatura Ocidental, esse termo abrangente “mente” tem um escopo mais amplo. Ele inclui todos os processos não físicos e até mesmo a autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness]. A mente, por exemplo, é definida pelo Dr. Siegel como “tudo o que está relacionado à nossa experiência subjetiva e sentida de estar vivo, desde sentimentos a pensamentos, de ideias intelectuais às imersões sensoriais internas antes e por trás das palavras, às nossas conexões sentidas com outras pessoas e com o nosso planeta. E a mente também se refere à nossa consciência no nível da percepção [consciousness], à experiência que nós temos de estar cientes dessa sensação sentida de vida, a experiência de conhecer dentro da consciência no nível da realidade [awareness]. A mente é a essência da nossa natureza fundamental, o nosso sentido mais profundo de estar vivo, aqui, agora, nesse momento.”[8]
[8]Halstead R. Mind: A journey to the heart of being human, by Daniel J. Sigel. Educ Gerontol. 2017;43:522–3.
Na literatura Oriental, o termo mente tem um escopo limitado, com apenas quatro funções: manas (mentação, cognição e pensamento); buddhi (inteligência e tomada de decisão); ahamkar (sentimento de ser um ego, um sujeito ou um agente); e chitta (o repositório da memória, incluindo o léxico da linguagem e das imagens). Essa concepção limitada de cérebro e mente pertence à pessoa autoconsciente.[5,9]
[9]Sridhar M, Nagendra H. Consciousness in Indian philosophy and modern physics. Int J Yoga Philos Psychol Parapsychol. 2021;9:53.
Eu acrescentaria também que a mente pode ser local e relacionada a um indivíduo com o seu espaço experiencial pessoal, peripessoal e extrapessoal. Em outro sentido, a mente também pode ser não local, não pessoal e não relacionada ao indivíduo e ao seu mundo pessoal. Tradicionalmente, a mente possui três níveis de organização: biológico, psicológico e social. Eu acrescentaria mais um nível: abstrato ou espiritual. Nós necessitamos alcançar não apenas um entendimento horizontal em cada nível, mas também uma visão vertical e holística que abranja todos os níveis: biopsicossocial e abstrato!
Consciência No Nível da Realidade [Awareness] do Espaço-Mente
Em neurobiologia, o espaço percebido pela experiência (EPS – experientially perceived space) é dividido em espaço pessoal, peripessoal e extrapessoal. O EPS é um processo muito dinâmico, adaptativo e em constante renovação. O EPS é continuamente mapeado, remapeado e representado no córtex parietal posterior e nos córtices de associação multimodal (áreas 2, 5 e 7 de Brodmann). As redes corticais relacionadas incluem a rede de modo padrão e as redes atencionais dorsal e ventral. Todo o corpo experienciado, incluindo as suas partes experienciadas, como rosto, boca, lábios, tronco, genitália, mãos e pernas, é representado como um homúnculo neuroplástico em constante evolução nos córtices sensório-motor e de associação multimodal. Não apenas a pessoa corporal, o self, mas também o ambiente pessoal são representados no córtex de associação multimodal posterior como um mapa representacional da experiência individual e seu padrão neural.
Existe um espaço extrapessoal chamado espaço distante, baseado nas memórias experienciais de eventos distantes ou remotos e em sua representação perceptual. Por exemplo, pacientes com acidente vascular cerebral no lobo parietal posterior direito desenvolvem uma síndrome de heminegligência à esquerda. Não apenas desconhecem o hemiespaço esquerdo, mas a sua orientação cognitiva e mental em relação ao ambiente familiar, incluindo a sua casa e a cidade, também é heminegligenciada. Isso é chamado de síndrome de heminegligência representacional. As suas observações e experiências dependem de seu ponto de vista único em relação ao espaço percebido da cena atual. Exemplos clínicos dessas alterações no cérebro, mente e espaço incluem os fenômenos do membro fantasma, ilusões de partes ou de todo o corpo, cirurgia para sindactilia e experiências fora do corpo.[10]
[10]Kandel ER, Schwartz JH, Jessell TM, Siegelbaum SA, Hudspeth AJ. Principles of Neural Science. 5th. New York NY: McGraw Hill; 2013.
Presença e o Espaço Abstrato Holístico
Por presença, eu quero dizer estar plenamente presente e receptivo no momento ou situação atual. É existir agora de todo o coração, sem julgamentos, críticas, reações, expectativas ou comentários. Isso proporciona uma oportunidade para aprendizado experiencial, insight e integração. Isso é estar espontaneamente ciente da própria corporeidade, bem como da própria incorporação no mundo humano e natural. Há um sentimento espontâneo de unidade existencial com profunda clareza mental, amplitude, silêncio, vitalidade e paz. Nesse estado, há também um senso de integridade, autorrealização, transparência, curiosidade, criatividade e cuidado com todos.[5]
A presença só é possível quando há uma coordenação homeodinâmica e plena integração entre o neocórtex cerebral, responsável pela orientação de objetivos e o pré-córtex (subcórtex) límbico-reticular, espontaneamente ativo. Por exemplo, o sorriso deliberado é iniciado pelo circuito pré-frontal-gânglios da base-tálamo, esquelético-motor, enquanto o sorriso espontâneo é iniciado pelo córtex cingulado anterior e pelo pré-córtex límbico correspondente. Essas diferenças podem ser observadas claramente em certos tipos de pacientes que sofreram AVC (acidente vascular cerebral). Esses pacientes podem perder a capacidade de sorrir voluntariamente ou deliberadamente e também de sorrir sob comando, mas a sua capacidade de sorrir espontaneamente, de forma emocional, é preservada. Por exemplo, quando ouvem uma piada engraçada, sorriem sem esforço.
Existe uma vasta literatura sobre meditação iogue, meditação mindfulness e meditação transcendental. Revisar essa literatura está além do escopo desse artigo. Resumidamente, na Meditação Ashtanga Yoga de Patanjali, existem cinco etapas preparatórias: Yama, Niyama, Asana, Pranayama e Pratyahara. Yamas são as regras da boa conduta social. Niyamas são as regras para o cuidado pessoal saudável, conduta e estilo de vida. Asana é uma postura firme e confortável, com imobilidade, que pode ser mantida por tempo suficiente para a meditação. Pranayama é a desaceleração calma da respiração até um estado de quietude natural, a eupneia. Na eupneia, apenas o diafragma se contrai e relaxa. Eu a chamo de respiração de um só músculo! Ao praticar Bhramari pranayama e Deergha Omkar (recitação prolongada de AUM até que termine no silêncio natural), pode-se silenciar a fala interna e a mente divagante, retornando à consciência no nível da realidade [awareness] silenciosa e pacífica, que é o nosso estado natural de bem-estar.
Pratyahara é o desapego de todas as experiências corporais locais, sejam elas pessoais, peripessoais ou extrapessoais. É preciso relaxar e retornar à autoconsciência no nível da realidade [self-awareness] sempre presente. É um processo não local e não dual. Trata-se da libertação da consciência no nível da realidade [awareness] a partir da mente consciente, com os seus pensamentos habituais e persistentes e conteúdos experienciais. Então, naturalmente, retorna-se à autoconsciência no nível da realidade [self-awareness] não local com uma sensação de autolibertação.
Dharana é a atenção calma, alerta e focada em um objeto escolhido, como a respiração, um ídolo querido ou uma imagem. Também pode ser chamada de concentração mental plena na atividade escolhida. Dhyana é a atenção ou vigilância calma e sustentada por um longo período. Samadhi é a completa auto imersão na meditação dhyana. A pessoa fica tão absorta na meditação dhyana que se esquece completamente de si mesma, como se não existisse como uma entidade separada. Samadhi pode ocorrer com ou sem conteúdo consciente (sabeeja e nirbeeja samadhi). Tem sido chamado de Dharmamegha samadhi. Dharmamegha é a nuvem de dharma, que pode ser entendida como uma nuvem ilimitada de paz, silêncio, virtude, ausência de esforço, senso de perfeição, kaivalya ou nirvana.
A meditação mindfulness é a consciência no nível da realidade [awareness] que surge ao prestar atenção, intencionalmente, no momento presente, sem julgamentos. Atualmente, é muito popular e amplamente utilizada pela população em geral e também no meio acadêmico. Ela é usada para o bem-estar pessoal, redução do estresse e para o tratamento de transtornos de ansiedade e depressão. Em praticantes de mindfulness a longo prazo, observa-se um aumento da massa cinzenta no córtex cingulado posterior, no giro supramarginal e no hipocampo, enquanto há uma diminuição na amígdala. O córtex cingulado posterior medeia processos relacionados ao self. O giro supramarginal participa da tomada de perspectiva, da teoria da mente e dos processos atencionais. O hipocampo armazena memórias e serve para orientação e navegação. A amígdala é ativa na detecção e resposta a qualquer situação de perigo. Ela medeia o medo e a ansiedade em situações reais e imaginárias.
“A meditação mindfulness é a consciência no nível da realidade [awareness] que surge ao prestar atenção, intencionalmente, no momento presente, sem julgamentos.“
A prática prolongada da meditação minimiza o ruído e as distrações perceptivas internas, aumentando a sensibilidade a estímulos e eventos significativos. Uma postura firme, com a cabeça e o corpo imóveis, minimiza a interferência dos circuitos vestibulares e cerebelares, causada pela gravidade e outros movimentos corporais. A eupneia, uma respiração natural, lenta e tranquila, é o nosso estado padrão de respiração e de ser. Idealmente, apenas um músculo esquelético está ativo ritmicamente nesse estado: o diafragma. A eudaimonia é um estado de bem-estar geral ou de bom humor. Tal estado é uma consequência natural da prática meditativa. É necessário também minimizar o diálogo interno, a mente divagante, os pensamentos dispersivos e as reações emocionais habituais. Assim, é possível estar em silêncio, sereno e imerso em cada novo momento, com uma sensação espontânea de consciência no nível da realidade [awareness] plena e unidade existencial.
“A eupneia, uma respiração natural, lenta e tranquila, é o nosso estado padrão de respiração e de ser.“
Neurobiologia da Presença
Para entender os processos neurobiológicos envolvidos na presença, é necessário ter um bom conhecimento de como o cérebro-mente-corpo do organismo funciona, estando esse inserido no mundo. O organismo humano é corporificado e inserido no mundo natural e no mundo humano. Todos os ciclos de ação-percepção-ação do organismo e outras atividades são mapeados e remapeados no cérebro. Esses mapas dinâmicos, somados, sensório-motores e representacionais no cérebro são chamados de homúnculo somatotópico. Esses mapas são continuamente atualizados ao longo da vida do organismo. Há grande flexibilidade e neuroplasticidade nesses mapas cerebrais. Existem vários excelentes livros de referência sobre a neurobiologia cérebro-mente-comportamento.[10]
Tronco cerebral
O tronco cerebral é uma estrutura versátil e essencial para a vida. Existe uma hierarquia funcional no tronco cerebral, que se divide em bulbo, ponte, cerebelo e mesencéfalo. As redes neurais do bulbo regulam a pressão arterial, a respiração, a motilidade gastrointestinal, a ingestão e o equilíbrio. Os núcleos de ponte (núcleos pontinhos) controlam o olhar horizontal, os movimentos oculares reflexos, a postura, o sono REM (movimento rápido dos olhos) e as expressões faciais. O cerebelo coordena a atividade motora, o equilíbrio postural, a marcha, os movimentos oculares, o alcance, a preensão e a fala. O mesencéfalo regula os movimentos oculares verticais, a visão de perto, o controle pupilar, a postura e a locomoção, o sono não-REM e o nível de alerta consciente e pré-consciente. A formação reticular, com as suas complexas redes neurais, é a região-chave para a integração holística do organismo e as suas ações comportamentais, incluindo a locomoção, a homeostase corporal, o ciclo circadiano sono-vigília e a unidade contínua da experiência do self.
Existe uma cadeia altamente conectada de geradores de padrões centrais no tronco cerebral, que desempenham diversas funções vitais e comportamentais. Atividades essenciais como respirar, engolir, tossir, andar, mastigar, falar, aproximar-se ou evitar e defender-se dependem do bom funcionamento do tronco cerebral. A respiração é desencadeada por altos níveis de concentração de CO2 e/ou íons H+ no líquido cefalorraquidiano ou no fluido extracelular. A respiração é iniciada no complexo pré-Bötzinger do grupo respiratório ventral. A frequência respiratória é modulada pelo núcleo parafacial da ponte e outras redes relacionadas, incluindo o controle voluntário do circuito neural pré-frontal. Há um fluxo ascendente e descendente de energia-informação no tronco cerebral. Ele conecta a medula espinhal com o pré-córtex e o córtex, tanto estrutural quanto funcionalmente.[11] A medula espinhal lombossacral possui um gerador de padrões central para movimentos básicos de locomoção. A medula espinhal cervical (C3-C5) possui os neurônios motores para os movimentos diafragmáticos. A medula espinhal toracolombar medeia a atividade simpática de todo o corpo.
[11]Noback CR, Strominger NL, Demarest RJ, Ruggiero DA. The Human Nervous System: Structure and Function. 6th. Totowa New Jersey: Humana Press; 2005. pp. 1–477.
Prosencéfalo (encéfalo frontal)
O prosencéfalo é composto pelo córtex cerebral, gânglios da base e tálamo, com os seus múltiplos circuitos neurais. As propriedades coletivas do prosencéfalo, em coordenação com o tronco cerebral, são responsáveis por nos tornar humanos. Ele transforma movimentos em ações significativas e sensações em percepções conscientes. Ele também nos permite ter uma variedade de emoções e pensamentos complexos. A emoção (emotion) pode ser entendida como e-motion (e-movimento?), equivalente à energia para ação e motivação. As emoções são processadas pelo sistema límbico, que consiste em hipotálamo, corpos mamilares, amígdala, tálamo anterior, hipocampo, giro parahipocampal, fórnix, giro do cíngulo e córtex orbitofrontal. O circuito de Papez é bem conhecido por seu papel no processamento emocional e na tomada de decisões conscientes.
Modalidades Sensoriais
As modalidades sensoriais vão muito além dos cinco sentidos clássicos, a saber, visão, audição, tato, olfato e paladar. Algumas das modalidades adicionais são a nossa percepção da gravidade, a informação vestibular sobre a posição da cabeça e do corpo no espaço, a propriocepção, a percepção de danos nos tecidos e a sensação visceral da bexiga, do cólon, do estômago e dos pulmões. Nós codificamos a intensidade da percepção em relação à atividade sensorial de fundo. Isso é conhecido como a lei de Weber. Por exemplo, nós podemos ver uma vela com mais facilidade à noite do que em um dia ensolarado. Na presença meditativa, a relação sinal-ruído percebida aumenta e, portanto, a percepção é aprimorada.
Percepção
A percepção é a consciência no nível da realidade [awareness] de um self consciente, interagindo com o ambiente ao seu redor. Ela é mediada por vias sensoriais multimodais. Sentir o self, interagindo com o mundo, é crucial para a sobrevivência, bem como para a reprodução e o desenvolvimento. Estímulos sensoriais guiam movimentos de forma pré-consciente, afetam a homeostase e influenciam o humor. A energia e a informação sensoriais passam por três processos fundamentais: transdução, transmissão e modulação. Isso resulta em um padrão neuro elétrico único, chamado código neural, que é interpretado e armazenado como uma memória e experiência representacional-simbólica. A memória do padrão bioelétrico perdura através de transformações corporais, metamorfoses, bem como através de gerações sequenciais.[12] Essa memória pode ser de uma sensação somática experienciada, uma ação, um som, um som vocal, uma palavra, um pensamento verbal ou uma imagem visual. As nossas experiências percebidas de eventos relacionados ao self e ao ambiente são continuamente integradas e atualizadas ao longo de nossa vida.
“A percepção é a consciência no nível da realidade [awareness] de um self consciente, interagindo com o ambiente ao seu redor.“
[12]Levin M. Bioelectric signaling: Reprogrammable circuits underlying embryogenesis, regeneration, and cancer. Cell. 2021;184:1971–89. doi: 10.1016/j.cell.2021.02.034.
Produção da Fala
O Professor Mason tem descrido claramente todo o processo de produção da fala em palavras simples.
“O ar dos pulmões é colocado sob pressão pela contração do diafragma. Quando uma pressão suficiente é atingida, as cordas vocais são afastadas e a glote se abre. A pressão se dissipa rapidamente e a glote se fecha. A glote abre e fecha em uma frequência que é a frequência fundamental da fala, de 100 a 250 Hz. A fonação na frequência fundamental é então filtrada pelo trato vocal para produzir a fala articulada. A forma do trato vocal pode ser modificada pelos músculos da faringe, língua, úvula e lábios.”[13]
A frequência fundamental da fala tem uma média de cerca de 120 Hz para homens e cerca de 210 Hz para mulheres. Os seres humanos são capazes de realizar os movimentos voluntários da fala mais precisos e complexos, criando vários sons, notas musicais e canções. É por isso que tantas línguas humanas evoluíram no mundo. Todo recém-nascido humano tem a capacidade intrínseca de aprender qualquer idioma. Até o período crítico dos 3 anos, uma criança pode aprender qualquer idioma ao qual seja exposta.
[13]Peggy M. Medical Neurobiology. 2nd. New York, USA: Oxford University Press; 2017. p. 488.
Comunicação Linguística
Os fonemas são as unidades acústicas da produção da fala. Diversas combinações de fonemas criam palavras e frases. Tipicamente, a área de Broca está envolvida na produção da fala e a área de Wernicke é crucial para a compreensão da linguagem. A linguagem é uma forma de comunicação não apenas por meio de palavras faladas, mas também pela língua de sinais Americana e pela leitura tátil de textos em Braille para pessoas cegas. As áreas de Broca e Wernicke são essenciais em todas as comunicações humanas. A junção temporoparietal (JTP) funciona como um léxico, um dicionário de palavras do vocabulário, números aprendidos e diversos símbolos e imagens. A JTP do hemisfério esquerdo é especializada no processamento de palavras e números, enquanto a JTP do hemisfério direito processa imagens visuais, música, prosódia e atenção direcionada a ambos os hemisférios.
Gânglios da Base e a Condição Padrão
Os gânglios da base, juntamente com o tálamo e o córtex cerebral, formam cinco circuitos neurais principais que geram ações comportamentais complexas e tomada de decisões. Os cinco circuitos são:
1. Circuito esquelético-motor
2. Circuito oculomotor
3. Circuito pré-frontal dorsolateral
4. Circuito orbitofrontal
5. Circuito límbico ou do cíngulo anterior.
O circuito esquelético-motor auxilia na escolha de uma ação voluntária por vez, dentre várias ações possíveis. Existem três vias envolvidas nesse processo de escolha:
(a) A via hiperdireta fornece um sinal de parada global para interromper todos os movimentos. Essa é a via de inibição global;
(b) A via direta libera uma ação selecionada da inibição. Essa é a via de iniciação da ação; e
(c) A via indireta inibe seletivamente certos movimentos, mas não todos. Essa é a via de inibição seletiva.
O circuito oculomotor controla o olhar e os movimentos de orientação. O circuito pré-frontal dorsolateral está envolvido no controle executivo, na memória de trabalho e no sequenciamento de ações comportamentais. É possível manter na memória de trabalho até 7 ± 2 itens por 20 a 30 segundos sem repetição. O circuito orbitofrontal está envolvido no processamento emocional, na inteligência emocional, na motivação e na socialização. O circuito límbico ou do cíngulo anterior influencia o monitoramento emocional e a auto-organização comportamental.
Controle Motor Voluntário
Todos os movimentos e ações são interdependentes do estado homeodinâmico de cada um, dos circuitos de feedback e feedforward sensoriais e das funções cognitivas do cérebro. Nós temos uma sensação homeodinâmica (homeostática) renovada do nosso estado presente a cada novo momento. Antonio Damasio define essas sensações homeostáticas primordiais da seguinte forma:
“Os sentimentos nos permitem experienciar e tomar consciência, unificar as nossas percepções mentais em torno de um único ser. Os sentimentos homeostáticos são os primeiros facilitadores da consciência no nível da percepção [consciousness]… O meu uso do termo ‘primordial’ é convencional e visa referir-se à natureza simples e direta do que eu concebo como sentimentos, tal como eles surgiram no início da evolução humana e como eles provavelmente ainda são em muitas espécies não humanas, sem mencionar os bebês humanos. Eu me refiro a todos esses sentimentos primordiais como ‘homeostáticos’ para separá-los claramente dos sentimentos emocionais, cuja origem é o envolvimento das emoções.”[14]
“Todos os movimentos procedem sobre uma plataforma que depende inteiramente da motivação, do humor e do pensamento. Fundamentalmente, sem motivação – consciente ou inconsciente – nós simplesmente não fazemos movimentos voluntários.”[13]
[14]Damasio A. Feeling and Knowing: Making Minds Conscious, Cognitive Neuroscience. Pantheon, USA: 2021.
A hierarquia motora envolvida em movimentos voluntários e ações significativas segue o seguinte caminho:
(1) planejamento motor no córtex pré-frontal dependendo do contexto situacional,
(2) sequências reais ou imaginadas de ações na área motora suplementar,
(3) programas específicos de ação motora com feedback sensório-perceptivo do córtex parietal,
(4) instruções neuro elétricas para o homúnculo motor,
(5) modulação pelos gânglios da base e pelos circuitos cerebelares,
(6) centros de controle motor do tronco cerebral,
(7) geradores de padrões centrais,
(8) interneurônios motores,
(9) neurônios motores e
(10) músculos esqueléticos.[13]
Agora, nós podemos apreciar a enorme complexidade e beleza das múltiplas redes cerebrais que operam impecavelmente em diversos níveis, quando nós respiramos voluntariamente, caminhamos, levantamos um dedo, pegamos uma xícara de café, olhamos para uma flor e dizemos “Olá” a um amigo! Estar vivo, bem e verdadeiramente ciente é a maior maravilha que todos nós experienciamos diariamente. Nós necessitamos apreciar a maravilhosa integridade da realidade biopsicossocial-abstrata.
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Artigo:
What’s the difference between consciousness, watching (or witnessing), mindfulness and awareness?
Fonte:
OSHO Sammasati
Site:
The difference between consciousness, mindfulness and awareness
Tradução livre Projeto OREM® (PO)
Qual a diferença entre consciência no nível da percepção [consciousness], observar (ou testemunhar), atenção plena (mindfulness) e consciência no nível da realidade [awareness]?
Pensar e sentir são atividades da mente. Como nós observamos em “O Papel da Mente” (The Role of the Mind – OSHO Sammasati), ter uma mente plenamente funcional é uma dádiva maravilhosa. Os problemas surgem quando nós nos identificamos com os nossos pensamentos e sentimentos e nos esquecemos — ou nunca descobrimos — os nossos verdadeiros selves e a paz de simplesmente sermos.
“Os problemas surgem quando nós nos identificamos com os nossos pensamentos e sentimentos e nos esquecemos — ou nunca descobrimos — os nossos verdadeiros selves e a paz de simplesmente sermos.“
A capacidade de agir, pensar ou sentir são funções da nossa mente — atividades sobre as quais nós podemos estar inconscientes ou ter diferentes graus de consciência no nível da percepção [consciousness]. À medida que nós nos tornamos mais conscientes — o que muitas vezes é chamado de “despertar” do nosso sono metafísico — nós somos capazes de começar a notar aquilo de que nós estamos conscientes. Nós observamos a nós mesmos como sujeito, o observador e aquilo que nós estamos observando — seja um pensamento, um sentimento ou outra pessoa — como o observado.
Essa etapa, de vidente e visto, é conhecida como interior testemunho, observação ou contemplação. A partir daqui, é possível dar um salto para a consciência no nível da realidade [awareness]. Na consciência no nível da realidade [awareness], a atitude dualista de sujeito e objeto desaparece, toda separação subsumida em um estado de simples consciência no nível da realidade [awareness], de qualidade de ser, de essência. Então, nós somos capazes de conhecer a experiência direta.
‘Sammasati’ e ‘Mindfulness’ são termos Budistas para notar as nossas ações, os nossos pensamentos e os nossos sentimentos sem estarmos perdidos neles, sem estarmos tão identificados com eles a ponto de nós nos esquecermos de nós mesmos como seres distintos deles. Por exemplo, nós pensamos que nós somos as nossas conquistas (ou fracassos!), os nossos pensamentos inteligentes ou maldosos, o nosso ciúme ou a nossa afeição.
Sammasati pode ser traduzido como ‘lembrança correta’ – a recordação de quem nós somos… não esses aspectos passageiros, mas um ser de consciência no nível da realidade [awareness].
‘Mindfulness’ é um termo um tanto inadequado e pode ser confuso, pois a mente é composta tanto de inconsciência quanto de consciência no nível da percepção [consciousness]; portanto, tecnicamente, estar com a mente plena engloba ambos os aspectos. A expressão Zen para o nosso estado natural de ser, para a consciência no nível da realidade [awareness], parece mais adequada: ‘não-mente’.
Osho descreve a diferença entre consciência no nível da realidade [consciousness], testemunho e consciência no nível da realidade [awareness]: a progressão essencial em três etapas rumo ao Divino
Há uma grande diferença entre consciência no nível da realidade [awareness] e testemunho. Testemunhar ainda é um ato; você o está praticando, o ego está presente. Portanto, o fenômeno do testemunho se divide entre sujeito e objeto.
O testemunho é um relacionamento entre sujeito e objeto. A consciência no nível da realidade [awareness] é absolutamente desprovida de qualquer subjetividade ou objetividade. Não há ninguém que está testemunhando em consciência no nível da realidade [awareness]; não há ninguém que está sendo testemunhado. A consciência no nível da realidade [awareness] é um ato total, integrado; o sujeito e o objeto não estão relacionados nela; eles estão dissolvidos. Assim, consciência no nível da realidade [awareness] não significa que alguém está ciente, nem significa que alguma coisa está sendo atendida.
A consciência no nível da realidade [awareness] é total – subjetividade total e objetividade total como um único fenômeno – enquanto no testemunho existe uma dualidade entre sujeito e objeto. A consciência no nível da realidade [awareness] é não-fazendo; o testemunho implica um fazedor. Mas, através do testemunho, a consciência no nível da realidade [awareness] é possível, porque testemunhar significa que isso é um ato consciente; isso é um ato, mas consciente. Você pode fazer alguma coisa e estar inconsciente – a nossa atividade ordinária é inconsciente – mas se você se torna consciente dela, ela se torna testemunho. Portanto, a partir da atividade inconsciente ordinária para a consciência no nível da realidade [awareness] existe uma lacuna que pode ser preenchida pelo testemunho.
“A consciência no nível da realidade [awareness] é total – subjetividade total e objetividade total como um único fenômeno – enquanto no testemunho existe uma dualidade entre sujeito e objeto.“
Testemunhar é uma técnica, um método para alcançar a consciência no nível da realidade [awareness]. Ela não é a consciência no nível da realidade [awareness] em si, mas, quando comparada à atividade comum, à atividade inconsciente, ela é um passo superior. Alguma coisa tem mudado: a atividade tem se tornado consciente; a inconsciência tem sido substituída pela consciência no nível da percepção [consciousness]. No entanto, alguma coisa mais precisa ser mudada. Ou seja, a atividade precisa ser substituída pela inatividade. Esse será o segundo passo.
“…a partir da atividade inconsciente ordinária para a consciência no nível da realidade [awareness] existe uma lacuna que pode ser preenchida pelo testemunho.“
É difícil saltar da ação comum e inconsciente para a consciência no nível da realidade [awareness]. Isso é possível, mas árduo, por isso um passo intermediário é útil. Se alguém começa testemunhando a atividade consciente, então o salto se torna mais fácil – o salto para a consciência no nível da realidade [awareness] sem nenhum objeto consciente, sem nenhum sujeito consciente, sem nenhuma atividade consciente. Isso não significa que a consciência no nível da realidade [awareness] não é consciência no nível da percepção [consciousness]; ela é pura consciência no nível da percepção [consciousness], mas ninguém está consciente dela.
“É difícil saltar da ação comum e inconsciente para a consciência no nível da realidade [awareness]. Isso é possível, mas árduo, por isso um passo intermediário é útil.“
Ainda existe uma diferença entre consciência no nível da percepção [consciousness] e consciência no nível da realidade [awareness]. A consciência no nível da percepção [consciousness] é uma qualidade da sua mente, mas ela não é a sua mente em sua totalidade. A sua mente pode ser ambas consciente e inconsciente [subconsciente], mas quando você transcende a sua mente, não há inconsciência no nível da percepção [unconsciousness] e nem consciência no nível da percepção [consciousness] correspondente. Há consciência no nível da realidade [awareness].
“A sua mente pode ser ambas consciente e inconsciente [subconsciente], mas quando você transcende a sua mente, não há inconsciência no nível da percepção [unconsciousness] e nem consciência no nível da percepção [consciousness] correspondente. Há consciência no nível da realidade [awareness].“
Consciência no nível da realidade [awareness] significa que a mente em sua totalidade tem se tornado ciente. Agora a antiga mente não está mais presente, mas existe a qualidade de ser consciente. A consciência no nível da realidade [awareness] se tornou a totalidade; a própria mente é agora parte da consciência no nível da realidade [awareness]. Nós não podemos dizer que a mente está ciente; nós podemos apenas dizer, de forma significativa, que a mente está consciente. Consciência no nível da realidade [awareness] significa transcendência da mente, portanto, ela não é a mente que está ciente. É somente através da transcendência da mente, através do ir além da mente, que a consciência no nível da realidade [awareness] se torna possível.
“Consciência no nível da realidade [awareness] significa que a mente em sua totalidade tem se tornado ciente.“
A consciência no nível da percepção [consciousness] é uma qualidade da mente, a consciência no nível da realidade [awareness] é a transcendência; é estar indo além da mente. A mente, como tal, é o meio da dualidade, portanto a consciência no nível da percepção [consciousness] nunca pode transcender a dualidade. Ela está sempre consciente de alguma coisa e sempre há alguém que está consciente. Assim, a consciência no nível da percepção [consciousness] é parte integrante da mente e a mente, como tal, é a fonte de toda dualidade, de todas as divisões, sejam elas entre sujeito e objeto, atividade e inatividade, consciência no nível da percepção [consciousness] ou inconsciência no nível da percepção [unconsciousness]. Todo tipo de dualidade é mental. A consciência no nível da realidade [awareness] é não dual, portanto, consciência no nível da realidade [awareness] significa o estado de não-mente.
“Consciência no nível da realidade [awareness] significa transcendência da mente, portanto, ela não é a mente que está ciente. É somente através da transcendência da mente, através do ir além da mente, que a consciência no nível da realidade [awareness] se torna possível.“
Qual é, então, o relacionamento entre consciência no nível da percepção [consciousness] e testemunho? Testemunhar é um estado e a consciência no nível da percepção [consciousness] é um meio para testemunhar. Se você começa a estar consciente, você alcança o testemunho. Se você começa a estar consciente de seus atos, consciente dos acontecimentos do seu dia a dia, consciente de todas as coisas que o rodeiam, então você começa a testemunhar.
“A consciência no nível da percepção [consciousness] é uma qualidade da mente, a consciência no nível da realidade [awareness] é a transcendência; é estar indo além da mente.“
O testemunho surge como consequência da consciência no nível da percepção [consciousness]. Você não pode praticar o testemunho; você só pode praticar a consciência no nível da percepção [consciousness]. O testemunho surge como uma consequência, como uma sombra, como um resultado, como um subproduto. Quanto mais você se torna consciente, mais você se aprofunda no testemunho, mais você se torna uma testemunha. Portanto, a consciência no nível da percepção [consciousness] é um método para alcançar o testemunho. E o segundo passo é que o testemunho se tornará um método para alcançar a consciência no nível da realidade [awareness] plena.
“Todo tipo de dualidade é mental. A consciência no nível da realidade [awareness] é não dual, portanto, consciência no nível da realidade [awareness] significa o estado de não-mente.“
Esses são os três passos: consciência no nível da percepção [consciousness], testemunho e consciência no nível da realidade [awareness]. Mas onde nós existimos é no nível mais baixo: ou seja, na atividade inconsciente [subconsciente]. A atividade inconsciente [subconsciente] é o estado de nossas mentes.
“…a consciência no nível da percepção [consciousness] é um método para alcançar o testemunho. E o segundo passo é que o testemunho se tornará um método para alcançar a consciência no nível da realidade [awareness] plena.“
Através da consciência no nível da percepção [consciousness], você pode alcançar o testemunho e através do testemunho, você pode alcançar a consciência no nível da realidade [awareness] e através da consciência no nível da realidade [awareness], você pode alcançar a ‘não realização’. Através da consciência no nível da realidade [awareness], você pode alcançar tudo o que já foi alcançado. Depois da consciência no nível da realidade [awareness], não há nada; a consciência no nível da realidade [awareness] é o fim.
A consciência no nível da realidade [awareness] é o fim do progresso espiritual; a inconsciência no nível da realidade [unawareness] é o começo…
Se você se tornar cem por cento consciente, você se torna uma testemunha, um sakshi. Se você se tornar uma sakshi, você terá chegado ao ponto de salto a partir do qual o salto para a consciência no nível da realidade [awareness] se torna possível. Na consciência no nível da realidade [awareness], você perde a testemunha e apenas o testemunho permanece: você perde o fazedor, você perde a subjetividade, você perde a consciência no nível da realidade [consciousness] egocêntrica. Então, a consciência no nível da realidade [consciousness] permanece, sem o ego. A circunferência permanece sem o centro.
Essa circunferência sem o centro é a consciência no nível da realidade [awareness].
“A consciência no nível da realidade [awareness] é o fim do progresso espiritual; a inconsciência no nível da realidade [unawareness] é o começo…“
A consciência no nível da percepção [consciousness] sem qualquer centro, sem qualquer fonte, sem qualquer motivação, sem qualquer fonte da qual ela provém – uma consciência no nível da percepção [consciousness] ‘sem fonte’ – é a consciência no nível da realidade [awareness].
Assim, você se move a partir da existência inconsciente que é a matéria, prakriti, em direção à consciência no nível da realidade [awareness]. Você pode chamá-la a divina, a santidade, ou qualquer outro nome que você desejar chamá-la. Entre a matéria e o divino, a diferença reside sempre na consciência no nível da percepção [consciousness].
“A consciência no nível da percepção [consciousness] sem qualquer centro, sem qualquer fonte, sem qualquer motivação, sem qualquer fonte da qual ela provém – uma consciência no nível da percepção [consciousness] ‘sem fonte’ – é a consciência no nível da realidade [awareness].“
(OSHO: Meditação: A Arte do Êxtase)
‘Pensar sobre’ ou ‘Estar ciente de’
Há muitas situações no nosso dia a dia em que nós não necessitamos pensar para resolver um problema ou uma situação em potencial; ao invés disso, nós podemos simplesmente trazer a nossa consciência no nível da realidade [awareness] para isso.
Uma amiga descreve um pequeno incidente que lhe trouxe um entendimento importante sobre a diferença entre os dois. Ela explica…
Eu estava caminhando apressadamente por uma trilha estreita, prestes a virar a esquina quando ela fez uma curva à direita. Assim que eu estava virando, eu vi, vindo na direção oposta, várias pessoas atrás de um carrinho grande, empurrando-o e outras, de cada lado, puxando-o. A trilha era ladeada por arbustos, então havia pouca margem de manobra para que eu ou eles pudéssemos nos mover.
Comecei a pensar: ‘Eles estão vindo direto na minha direção. Obviamente, eles não irão me dar passagem – ou eles irão? Eu consigo passar pela direita ou pela esquerda? Será que eles pretendem se mover para um dos lados? Eles estão conversando e rindo juntos: será que eles me viram, ou eles estão tão absortos que vão esbarrar em mim?’
Completamente concentrada no que estava acontecendo, a minha mente ficou cada vez mais tensa. Como eu resolveria isso? Então, de repente, a minha mente parou; eu me senti expandir e relaxar. A bolha de estresse tinha estourado e eu me movi em direção às pessoas e ao carrinho, de forma despreocupada, mas plenamente consciente — do meu corpo, dos meus movimentos e dos movimentos do carrinho e de seus atendentes.
Com a harmonia silenciosa de dançarinos, nós nos cruzamos. Toda aquela confusão mental que tinha precedido o mágico momento de pausa mental tinha sido totalmente desnecessária (embora eu tenha levado a um insight realmente significativo!).
Consciência no nível da realidade [awareness] relaxada
Normalmente, quando nós estamos muito relaxados, nós estamos inconscientes – dormindo em frente à televisão, por exemplo, ou cochilando enquanto nós tomamos sol na praia. Por outro lado, quando nós estamos ‘prestando atenção’, nós estamos tensos (literalmente sob tensão). Na meditação, ao estarmos cientes, esses dois estados aparentemente opostos se encontram, de modo que você está consciente e, ao mesmo tempo, completamente relaxado.
Por exemplo, agora mesmo, enquanto você continua a ler, permita que a sua consciência no nível da realidade [awareness] deslize suavemente para a sua respiração. Você não está mudando a sua respiração de forma alguma, apenas estando ciente dela. Você sabe como respirar; você já tem feito isso muitas vezes ao longo da sua vida, então você não necessita pensar nisso. Você não necessita trazer a sua mente à tona enquanto você observa, a partir de dentro, a respiração entrando e saindo do seu corpo. E nós não estamos falando de focar ou se concentrar, mas de uma observação suave e muito tranquila, uma observação interna passiva… ainda mais passiva do que olhar… Pronto e é isso!
“Na meditação, ao estarmos cientes, esses dois estados aparentemente opostos [relaxado e prestando atenção] se encontram, de modo que você está consciente e, ao mesmo tempo, completamente relaxado.“
Mudando o seu relacionamento com o problema
‘Os problemas significativos que nós enfrentamos não podem ser resolvidos no mesmo nível de pensamento em que nós estávamos quando os criamos.’ (Albert Einstein)
Uma característica da mente, como Einstein destaca, é que ela fabrica complexidades e dificuldades.
Por exemplo, você pode pensar: ‘Como essa doença irá progredir? Será que eu irei sobreviver? Essa incerteza é assustadora. Eu odeio perder o controle e se isso já me incomoda agora, como será mais para frente? E se as pessoas se aproveitarem de mim? Onde ficará a minha dignidade?’
Qualquer pessoa que já esteve doente provavelmente teve pensamentos semelhantes. Simplesmente lidar com eles através do pensamento – ou seja, no mesmo nível – só agrava o problema. Ao invés disso, observe esses pensamentos sempre que surgirem, sem condená-los ou a si mesmo por tê-los. Não se envolva com eles, apenas observe-os – como o observador na margem, observando o riacho passar.
Então, como explica o místico J. Krishnamurti:
‘…o problema tem um significado completamente diferente; o que significa que não há mais identificação com o problema e, portanto, não há julgamento e assim o problema começa a revelar o seu conteúdo. Se você fizer isso constantemente, continuamente, então todo problema pode ser resolvido fundamentalmente, não superficialmente.’
Na verdade, pode acontecer que os problemas com os quais nós lutamos não necessitem de solução. Nós necessitamos apenas mudar o nosso relacionamento com eles. A lembrança de que nós não somos os nossos pensamentos – eles são tão separados de nós e tão passageiros quanto detritos levados pela correnteza de um rio – ajuda-nos a deixá-los passar. É o nosso apego a eles e não o fato de eles saltarem do rio direto para o nosso colo, que cria o problema.
O observador como a sua posição padrão
Nós temos sido levados a acreditar que nós somos os nossos pensamentos e sentimentos e que a mente é a única faculdade que nós temos para lidar com eles. Portanto, tenha paciência consigo mesmo enquanto experimenta uma abordagem diferente. Aos poucos, à medida que você se lembra de si mesmo como alguém separado a partir de seus pensamentos e sentimentos, isso se tornará o seu conhecimento experiencial.
Particularmente se você estiver com pouca energia, acamado e/ou com alguma dor, o método conhecido como Vipassana ou meditação do Insight é a maneira mais simples de passar a partir do pensar para o ser, a partir de alguém que está preso aos pensamentos para o observador. O método consiste simplesmente em observar a sua respiração enquanto ela entra em seu corpo e depois sai novamente.
Respirar é uma atividade física e uma experiência sensorial. Você pode sentir a entrada e a saída do ar – aquela sensação sutil nas narinas, a expansão e o enchimento do peito e da barriga. Isso requer também um mínimo de energia, apenas a presença da sua respiração e a sua capacidade de observá-la.
Mais tarde, você poderá se observar tomando banho (ou sendo banhado) e realizando outras atividades do seu dia, tais como preparar o café da manhã para os seus filhos, caminhar pela cidade, observar os movimentos envolvidos em uma ligação telefônica e assim por diante. Como essas são experiências tangíveis, observá-las é mais fácil.
Observar a mente, o fluxo de pensamentos e sentimentos, geralmente é mais desafiador. Os pensamentos são mais efêmeros e tendem a se mover rapidamente; desvencilhar-se deles requer paciência. Os sentimentos podem se registrar tão rapidamente e podem ser tão abrangentes – sejam eles de amor ou de raiva – que também representam um desafio maior.
Se você deseja se tornar mais ciente de seus pensamentos e sentimentos ao seu redor, comece com pequenas irritações, por exemplo, ao invés de mergulhar de cabeça em situações extremas – como tentar manter a calma e o controle quando o ciúme estiver à flor da pele!
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“Através da consciência no nível da percepção [consciousness], você pode alcançar o testemunho e através do testemunho, você pode alcançar a consciência no nível da realidade [awareness] e através da consciência no nível da realidade [awareness], você pode alcançar a ‘não realização’. Através da consciência no nível da realidade [awareness], você pode alcançar tudo o que já foi alcançado. Depois da consciência no nível da realidade [awareness], não há nada; a consciência no nível da realidade [awareness] é o fim.“
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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.
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