Nós estamos destacando trechos artigo/estudo (paper) abaixo indicado, para conhecimento e entendimento do sistema de pensamento das Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBE).
Trata-se de material relevante para os buscadores da verdade, assim como para aquelas Organizações que estão analisado a viabilidade de implementação dessa inovadora maneira de gestão empresarial.
As referências indicadas ao final do artigo é rico material para estudos e pesquisas sobre o tema Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT).
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Artigo:
“A Review of Scientific Research on Spirituality”
“Uma Revisão da Pesquisa Científica sobre Espiritualidade”
Autores
Rajesh Ratnakar – Research Fellow, National Institute of Industrial Engineering (NITIE), Mumbai, India, [email protected]
Dr. Shreekumar K. Nair – Professor, OB & HRM, National Institute of Industrial Engineering (NITIE), Mumbai, India, [email protected], [email protected]
Fonte:
Perspectives and Research – Business
Julho-Dezembro de 2012
Site:
1. A Review of Scientific Research on Spirituality
Resumo
A espiritualidade tem sido, talvez, um dos conceitos mais mal utilizados e mal interpretados e, ao longo dos anos, tem adquirido significados diversos e, em certa medida, conflitantes. Recentemente, tem havido um interesse crescente pela espiritualidade tanto entre acadêmicos quanto entre profissionais das áreas de gestão e comportamento organizacional. De fato, continuam os esforços para definir a espiritualidade com clareza, dissociando-a da religião, bem como para identificar as suas facetas, os seus indicadores ou as suas dimensões fundamentais.
Esse artigo (paper) apresenta uma revisão da produção científica na área da espiritualidade nas últimas três décadas, com o objetivo específico de destacar algumas das incertezas que ainda persistem.
Os estudos analisados foram organizados em sete seções e cada uma delas é encerrada com a indicação das lacunas mais significativas da respectiva área.
O intuito é permitir que futuros pesquisadores preencham essas lacunas, contribuindo para tornar a investigação científica em curso sobre a espiritualidade mais abrangente e completa.
Palavras Chaves
Health and wellbeing, organizational spirituality, spirituality, spirituality at work, spirituality intelligence
1. Introdução
“A espiritualidade diz respeito à vida interior do indivíduo, aspecto que tem demonstrado ter consequências positivas para o comportamento dele/dela no contexto organizacional. Nos últimos anos, tem ocorrido tentativas sistemáticas e bem-sucedidas de aplicar o conceito de espiritualidade em ambientes organizacionais visando melhorar o bem-estar dos colaboradores.
Até a virada do século, a espiritualidade não constituía, de fato, uma área de interesse para pesquisadores de orientação científica. De fato, até a década de 1990, existiam pouquíssimos estudos quantitativos sobre o tema. Muitos pesquisadores, como Hodge (2001) e Forray e Stork (2002), entre outros, têm expressado as suas opiniões — cada um à sua maneira — questionando por que a espiritualidade geralmente não era tratada como uma variável científica e por que o seu relacionamento com outras variáveis psicológicas consagradas não havia sido extensivamente estudado nem analisado estatisticamente. Eles concordavam que era extremamente difícil definir e muito mais medir, a espiritualidade.
No entanto, surgiu uma questão fundamental que não podia ser ignorada: por que houve tão poucas tentativas de aplicar as ferramentas profundamente esclarecedoras da lógica quantitativa e da racionalidade científica ao estudo e ao entendimento dos conceitos relacionados à espiritualidade?
Do ponto de vista empírico, a área da espiritualidade era bastante indefinida antes da década de 1980. Quase não havia conceitos que contassem com definições amplamente aceitas. As pessoas formulavam as suas próprias definições (para os seus próprios fins) sobre os conceitos que lhes interessavam, sem se preocupar realmente em obter aceitação ou consenso geral para os seus pontos de vista ou crenças ‘pessoais’. Sem pretender realizar uma busca exaustiva, McGinn (1993) identificou 35 definições diferentes, as quais classificou em três categorias ou abordagens:
- Interpretações teológicas ou dogmáticas, que oferecem uma ‘definição de cima para baixo’;
- Entendimentos antropológicos, que enfatizam a natureza e a experiência humanas; e
- Abordagens histórico-contextuais, que destacam a experiência enraizada na história de uma comunidade específica.
No entanto, à medida que a virada do século se aproximava — a partir da década de 1990 —, o cenário começou a mudar. Pesquisas focadas no campo da espiritualidade começaram a ser realizadas, ganhando impulso e resultando em uma profusão de artigos e livros sobre o tema. O aspecto particularmente empolgante, contudo, era que as discussões em curso estavam dando origem a áreas de análise totalmente novas, como a Neuroteologia (Newberg, D’Aquili & Rause, 2001) — que examinava as bases neurológicas e biológicas da experiência espiritual — e a Teobiologia (Rayburn & Richmond, 1998) — que buscava entender a espiritualidade por meio da plenitude e da estrutura do mundo natural em que nós vivemos, bem como do conhecimento revelado. O que todas essas novas abordagens começavam a demonstrar era que a espiritualidade constitui um elemento fundamental de quem nós somos como seres humanos.
Nas palavras de Moberg (2002, p. 58):
‘…a tentativa de descobrir dimensões, indicadores, correlatos, fontes e consequências adicionais da espiritualidade é um dos desafios potencialmente mais ricos para futuras pesquisas nas ciências sociais e comportamentais’.
Contudo, avançar nessa área não era tarefa simples. Moberg (2002) também nos deixou um ‘aviso amigável’ ao relatar o caso de uma colega Socióloga que iniciou uma pesquisa sobre espiritualidade. Ela reuniu um painel de especialistas de diversos grupos religiosos, mas os membros Judeus da equipe não aprovaram os indicadores de bem-estar espiritual que satisfaziam os Cristãos; o projeto foi encerrado antes mesmo de ela conseguir consultar os Muçulmanos. Ficou claro também, ao tentar entender as nuances da pesquisa na área da espiritualidade, que era preciso proceder com cautela. Como Marjolien ressaltou claramente, a investigação humana envolvia realizar pesquisas ‘com’ as pessoas e não ‘sobre’ elas (Lips-Wiersma, 2002).
A maioria dos estudiosos está familiarizada com o fundador da Psicologia Humanista, Abraham Maslow e a sua pirâmide de cinco níveis de necessidades hierárquicas. O que alguns talvez não saibam é que, mais tarde, Maslow acrescentou à sua hierarquia de necessidades humanas um sexto nível, um novo patamar superior: a autotranscendência.
Abraham Maslow é reconhecido como o fundador da Psicologia Humanista. No entanto, em meados da década de 1960, Maslow foi além de uma perspectiva estritamente humanista e fundou uma Psicologia Transpessoal ou de base espiritual. As suas obras posteriores incluíam títulos como ‘Religions, Values and Peak Experiences’ (Maslow, 1964) e ‘The Farther Reaches of Human Nature’ (Maslow, 1971).
Maslow adicionou à sua conhecida hierarquia de necessidades humanas um novo nível de topo: a autotranscendência. Os seus estudos sobre indivíduos autorrealizados levaram-no à conclusão de que o nível mais elevado de autorrealização envolve um movimento para além do próprio self. O atual movimento da ‘Psicologia Positiva’ ecoa a mensagem de Maslow, enfatizando o estudo de pessoas saudáveis e vibrantes, bem como a atenção aos fatores — incluindo a espiritualidade — que sustentam a sua adaptação positiva (Moss, 2002).
2. Revisão da Literatura
2.1 Definindo Espiritualidade
A raiz etimológica da palavra ‘espírito’ deriva do termo Latino ‘spiritus’, que significa sopro, coragem, vigor, alma ou vida; ou de ‘spirare’, soprar ou respirar (segundo Eliason, Hanley & Leventis, 2001).
Definir espiritualidade sempre foi uma tarefa complexa. Como bem observou Taggart:
‘…é da natureza da espiritualidade ser algo difícil de definir. Enquanto alguns… desejam maior clareza sobre o que ela é…, outros resistem fortemente a qualquer tentativa de defini-la, cientes do poder tirânico e restritivo das definições’ (Taggart, 2001, p. 325).
Moberg (2002) afirmou que algumas definições de espiritualidade são substantivas, centrando-se em conteúdos ou componentes sagrados que geralmente abrangem fenômenos divinos ou relacionados a Deus, ao passo que outras são funcionais, concentrando-se no que a espiritualidade realiza ou em como ela afeta, subjetiva e existencialmente, indivíduos ou grupos.
As primeiras tensionam as fronteiras entre a teoria científica e a teologia, enquanto as últimas tendem a diluir os limites conceituais. Ele citou McGinn (1993, p. 1), segundo o qual…
‘a espiritualidade é como a obscenidade: nós podemos não saber defini-la, mas a reconhecemos quando nós a vemos; e a ‘inconstância’ — ou a incapacidade dos acadêmicos de fornecer definições precisas — jamais impediu as pessoas de praticá-la’.
Hodge (2001) definiu diretamente a espiritualidade como uma relação com Deus — ou com aquilo que fosse considerado o Absoluto — que promovia um sentido de significado, propósito e missão na vida. Embora as definições de espiritualidade variassem, um ponto em comum entre elas era o foco no processo de encontrar significado e propósito na vida, bem como na vivência de um conjunto de crenças pessoais profundamente arraigadas (Neck & Milliman, 1994).
Segundo Vaill (1996, p. 218), a espiritualidade referia-se à…
‘…o sentimento que os indivíduos têm sobre o significado fundamental de quem eles são, do que estão fazendo e das contribuições que estão oferecendo’.
Por outro lado, Krishnakumar e Neck (2002) argumentaram que essa visão multifacetada da espiritualidade era benéfica para as organizações, desde que os gestores buscassem entender as diferentes perspectivas espirituais e incentivassem a coexistência de todas elas no ambiente organizacional; assim, a busca por uma definição única e definitiva do termo não seria a abordagem mais adequada.
Piedmont e Leach (2002) escreveram que a espiritualidade representa a matéria-prima psicológica da qual emergem os comportamentos religiosos.
Danah Zohar, em seu livro amplamente discutido intitulado ‘SQ – Spiritual Intelligence – the Ultimate Intelligence’ [‘SQ – Inteligência Espiritual – a Inteligência Suprema’], aprofundou o conceito de Quociente Espiritual (QE), enfatizando que ‘o QE está relacionado a significado, valores e visão criativa e, o mais importante, possui o poder de transformar’ (Zohar & Marshall, 2000, p. 15).
Parsian e Dunning (2009, p. 2), que desenvolveram o ‘Spirituality Questionnaire’ (‘Questionário de Espiritualidade’), definiram a espiritualidade como…
‘…encontrar significado na vida, autorrealização e conexões com o self interior, com outras pessoas e com o todo universal’…,
…declarando que essa definição se aplicava tanto a pessoas religiosas quanto às não religiosas. No entanto, nem todos encaravam a religião/espiritualidade dessa maneira.
Segundo Moss (2002, p. 284), Freud…
‘…retrata a religião como uma projeção de medos e desejos humanos e descreve as pessoas religiosas como indivíduos supersticiosos, fracos demais para enfrentar realidades objetivas; essa mensagem dupla sintetiza a atitude de Freud em relação à espiritualidade’.
McSherry e Cash (2004) exploraram algumas das definições frequentemente citadas (especialmente no contexto da enfermagem) para determinar se o conceito de espiritualidade poderia ser considerado ‘universal’. Eles concluíram que…
‘… parece não existir uma definição universal de espiritualidade e a probabilidade teórica de criar uma é praticamente nula’ (McSherry & Cash, 2004, p. 159).
Da mesma forma, Pava (2007, p. 292) também levantou uma questão contundente:
‘…por que se dar ao trabalho de usar a palavra espiritualidade? Por que não simplesmente descartá-la em favor de outra palavra, como ‘sentido’ ou ‘significado’?’
Por outro lado, ele próprio respondeu à sua pergunta, afirmando (com justificativas) que a palavra espiritualidade era uma ferramenta importante e valiosa demais para ser abandonada. De modo geral, as pessoas tinham — e ainda têm — um entendimento muito positivo do que a espiritualidade representa. Em um artigo recente, Poole (2009) nos convidou a ter em mente que as definições de ‘espiritualidade’ variam e tendem a incluir propósito, valores, atribuição de sentido, ser bom ou ético, conectividade, transcendência, autorrealização e uma dimensão além do mundo material.
Assim, a lacuna de pesquisa mais evidente é automaticamente revelada. Não existe uma definição única, bem definida e amplamente aceita de espiritualidade. De fato, há tantas definições que o conceito corre o risco de ficar obscurecido pela imprecisão. Segundo Badrinarayanan e Madhavaram (2008), ainda não foi proposta nenhuma definição operacional de espiritualidade que seja única e universalmente aceitável para a comunidade intelectual — seja no âmbito espiritual ou científico.
Na verdade, Zohar (2000) sugere que tal tarefa pode ser tão difícil a ponto de ser praticamente impossível. Portanto, os textos e estudos aqui apresentados deixam claro que definir a espiritualidade é, por si só, um desafio imenso; a questão se beneficiaria muito se pesquisadores se dedicassem diligentemente a formular uma definição que fosse, em grande medida, aceita pela maioria dos estudiosos da ciência da espiritualidade.
2.2 A Diferença entre Religião e Espiritualidade
Muita confusão tem surgido, pode surgir e, de fato, continua surgindo, pois não existem definições precisas e específicas para os conceitos de religião e espiritualidade. Assim, torna-se muito difícil diferenciar esses dois termos. É por isso que muitas pessoas optam pelo caminho mais fácil e os utilizam como sinônimos, complicando ainda mais a situação. Além disso, muitos dos aspectos negativos da religião organizada acabam sendo associados à espiritualidade, uma vez que, frequentemente, os dois conceitos são agrupados de forma vaga. Ao destacar as confusas sobreposições conceituais, McConkie (2008) abordou o ‘pingue-pongue’ de definições entre espiritualidade e religião, situação que resulta em uma falta de clareza conceitual para ambos os termos.
No entanto, muitos pesquisadores começaram claramente a diferenciar esses dois termos. De fato, alguns deles também declararam que essa diferenciação é de importância crucial.
Northcut (2000, p. 158) cita duas definições: uma para religião, como…
…‘a expressão externa da fé, composta por crenças, códigos éticos e práticas de adoração’;
e outra para espiritualidade, como…
…‘a busca humana por significado pessoal e por relacionamentos mutuamente gratificantes entre as pessoas, o ambiente não humano e, para alguns, Deus’.
A partir da leitura da literatura atual sobre o assunto, surgiram diversas perspectivas que delineiam essa diferença, as quais são apresentadas na Tabela 1.

Badrinarayanan e Madhavaram (2008, p. 422) suscitaram amplo consenso ao afirmarem enfaticamente que dois fatores têm dificultado a pesquisa acadêmica sobre espiritualidade na literatura convencional de negócios:
(1) a confusão predominante quanto às diferenças entre espiritualidade e religiosidade e
(2) a falta de consenso sobre a definição de espiritualidade.
Ambas as questões precisam ser enfrentadas diretamente para que haja avanços na pesquisa científica nessa área.
2.3 Diferentes Dimensões da Espiritualidade
Muitas dimensões da espiritualidade foram identificadas por diversos estudiosos que se aprofundaram no assunto. Ao explorar a questão — ‘Será que características humanas de natureza espiritual contribuem para o processo de aprendizagem?’ —, Bennet e Bennet (2007) propuseram as seguintes 13 dimensões da espiritualidade:
- Vitalidade,
- Cuidado,
- Compaixão,
- Entusiasmo,
- Empatia,
- Expectativa,
- Harmonia,
- Alegria,
- Amor,
- Respeito,
- Sensibilidade,
- Tolerância e
- Disposição.
Segundo Mahoney e Graci (1999), a espiritualidade parecia incluir os seguintes atributos:
- caridade (senso de doação, serviço),
- comunidade (senso de conexão, relacionamento),
- compaixão,
- perdão (e paz),
- esperança,
- oportunidades de aprendizado,
- significado (propósito) e
- moralidade (sensibilidade para distinguir o certo do errado).
McCormick (1994) delineou cinco temas da espiritualidade que adquiriram relevância significativa no contexto do mercado global e do ambiente de trabalho multicultural:
- compaixão,
- meio de vida correto,
- serviço altruísta,
- trabalho como meditação e
- respeito ao pluralismo.
Em seu estudo sobre a espiritualidade no ambiente de trabalho, Mitroff e Denton (1999) constataram, por meio de uma pesquisa sistemática, que a espiritualidade é universal e atemporal, abrangendo diversas dimensões — como…
- a interconectividade,
- o caráter sagrado e
- a paz interior,
…para citar apenas algumas.
Mais uma vez, fica evidente que, assim como ocorre na definição de espiritualidade, parece haver tantas dimensões ou componentes da espiritualidade quanto abordagens — ou pessoas que as propõem. Isso ressalta, contudo, a necessidade de investigar uma questão relevante:
Seria possível formular e propor uma definição única, operacional, bem definida e amplamente aceita — que especifique claramente as dimensões da espiritualidade — capaz de satisfazer todas as partes interessadas (ou, ao menos, a maioria delas) envolvidas no estudo científico da espiritualidade?
2.4 Inteligência Espiritual
Antigamente, a inteligência era um conceito simples, singular e não problemático, geralmente entendido como…
‘… uma capacidade única, frequentemente abreviada como ‘g’ para inteligência geral [general intelligence]; … em grande parte inata e, portanto, difícil de alterar; e que pode ser medida pelos psicólogos, desde o início da vida de um indivíduo, por meio da aplicação de instrumentos específicos denominados testes de QI’ (Herrnstein & Murray, 1994, citados em Gardner, 2000, p. 28).
Posteriormente, Gardner (1993) publicou o seu livro sobre a teoria das inteligências múltiplas e apresentou um total de sete inteligências, a saber:
- Linguística/Verbal;
- Matemática/Lógica/Analítica;
- Visual/Espacial;
- Auditiva/Musical;
- Cinestésica/Motora;
- Interpessoal;
- Intrapessoal; e
- Naturalista (a oitava foi acrescentada mais tarde; Gardner, 2000).
Ele também estabeleceu oito critérios que definiriam o que permitiria a uma entidade qualificar-se para ser reconhecida como uma inteligência.
Emmons (2000) escreveu um artigo revolucionário propondo a existência de uma nona inteligência: a inteligência espiritual. Ele argumentou de forma convincente que a inteligência espiritual atendia a todos os critérios de qualificação. Edwards (2003, p. 51) comentou o debate entre Gardner e Emmons sobre a inteligência espiritual da seguinte forma:
‘Inicialmente, eu simpatizo bastante com os argumentos a favor da inteligência espiritual, mas eu sinto que três questões necessitam ser abordadas antes de nós nos entusiasmarmos excessivamente com o conceito’.
As três questões eram:
(a) A inteligência espiritual é verdadeiramente autônoma em relação a outras formas de inteligência, como a verbal, a lógico-matemática e — talvez a mais importante de todas — a inteligência social?
(b) O uso da espiritualidade para resolver problemas implica que um determinado conjunto de problemas possa ser especificamente designado como espiritual? e
(c) Nós podemos distinguir o conhecimento espiritual do conhecimento sobre a espiritualidade?
O debate sobre a inteligência espiritual continua em andamento e essa área pode ser fértil para contribuições e para a expansão das fronteiras do conhecimento e do entendimento. No entanto, os estudiosos da área ainda divergem quanto a se a espiritualidade se qualifica ou não para ser chamada de ‘inteligência’.
Dadas as tendências atuais, tudo indica que essas discussões e deliberações, por vezes sinuosas, continuarão por algum tempo. Portanto, qualquer estudo de pesquisa bem estruturado e fundamentado nessa área específica — capaz de resolver essa questão de uma vez por todas — poderia proporcionar o avanço tão necessário nesse campo da espiritualidade.
2.5 Mensurando a Espiritualidade
Nessa etapa, surge uma questão muito pertinente e válida…:
…se é tão difícil definir o conceito de espiritualidade, não seria ainda mais difícil mensurá-lo?
Isso pode ser verdade, mas algumas pessoas encontraram uma maneira de contornar esse problema, definindo primeiramente o seu próprio constructo ou abordagem da espiritualidade — ou de um aspecto específico dela — e, em seguida, elaborando e validando formas de mensurá-la.
Muitos pesquisadores tentaram desenvolver constructos relacionados à espiritualidade e instrumentos para mensurá-los. Por exemplo, Ellison (1983) criou a Escala de Bem-Estar Espiritual (Spiritual Well-Being Scale – SWBS), composta por duas dimensões: Bem-Estar Existencial (Existential Well-Being – EWB) e Bem-Estar Religioso (Religious Well-Being – RWB). Essa escala tem sido amplamente utilizada nos últimos anos.
A SWBS foi posteriormente refinada e evoluiu para um instrumento mais validado: o Questionário de Bem-Estar Espiritual (Spiritual Well-Being Questionnaire – SWBQ) (Gomez & Fisher, 2003).
Outro instrumento, o Inventário Espiritual [Spiritual Inventory] de Kuhn (citado em McKee & Chappel, 1992), é composto por 25 perguntas focadas nas relações com o self, com os outros e com o Transcendente, mas não com o meio ambiente.
Mascaro, Rosen e Morey (2004) elaboraram a Escala de Significado Espiritual (Spiritual Meaning Scale – SMS), com 14 itens, para mensurar a extensão do significado derivado da espiritualidade. Ryan e Fiorito (2003) desenvolveram o “Questionário de Espiritualidade Meios-Fins” (‘Means-Ends Spirituality Questionnaire – M-E-S-Q, com 63 itens) para investigar o relacionamento entre religião e saúde mental.
Glik (1990) desenvolveu o Índice de Orientação Espiritual [Index of Spiritual Orientation], composto por 19 itens. Essa escala apresenta três fatores distintos que correspondem conceitualmente a: ‘Crenças ideacionais’ (9 itens), ‘Saliência da religião’ (6 itens) e ‘Misticismo’ (4 itens).
O Índice de Saúde Espiritual em Quatro Domínios (Spiritual Health in Four Domains Index – SH4DI) foi desenvolvido por Fisher, Francis e Johnson (2000) para avaliar a saúde espiritual com base em quatro domínios de bem-estar espiritual relacionados ao self, à comunidade, ao meio ambiente e a Deus. O Questionário de Espiritualidade [Spirituality Questionnaire], composto por 29 itens, foi desenvolvido por Parsian e Dunning (2009) para mensurar a espiritualidade e examinar a relação entre espiritualidade e estratégias de enfrentamento (coping) em jovens adultos com diabetes. O instrumento apresentava quatro fatores: autoconsciência no nível da realidade [self-awareness], importância das crenças espirituais, práticas espirituais e necessidades espirituais.
Havia, no entanto, um problema significativo na aplicação desses inventários. Eles eram utilizados predominantemente em contextos Ocidentais, com participantes majoritariamente Cristãos.
Moberg (2002) apontou, de forma bastante reveladora, que apenas 5 dos 282 estudos analisados por ele sobre religião/espiritualidade e variáveis correlatas dedicavam-se a indivíduos Budistas, Confucionistas, Hindus ou Muçulmanos (ou a grupos que incluíssem essas tradições); desses, apenas 2 (ambos sobre a religião Muçulmana) utilizaram metodologias quantitativas. Trata-se, portanto, de uma limitação que precisa ser superada.
É necessário realizar mais estudos empíricos em contextos culturais Orientais, utilizando, sobretudo, instrumentos de medição que sejam independentes de cultura e livres de quaisquer vieses ou influências religiosas.
2.6 Espiritualidade, Saúde e Bem-Estar
O relacionamento entre espiritualidade e boa saúde tem sido reconhecido há muito tempo e tem sido objeto de diversos debates e pesquisas. Muitos estudos constataram uma correlação positiva entre essas duas variáveis. Coward e Reed (1996) definiram a cura [healing] como uma sensação de bem-estar decorrente de uma consciência no nível da realidade [awareness] intensificada de plenitude e integração entre todas as dimensões do ser.
Em um estudo, Fisher, Francis e Johnson (2002) — que também desenvolveram o SH4DI (Spiritual Health in Four Domains Index, ou Índice de Saúde Espiritual em Quatro Domínios) — examinaram correlações pessoais e sociais da saúde e do bem-estar espiritual entre professores do ensino fundamental no Reino Unido e constataram uma correlação positiva entre a idade e o bem-estar espiritual.
Em outro estudo, Kaut (2002) examinou detalhadamente a conexão entre espiritualidade e a morte/o processo de morrer. A sua pesquisa revelou que, além de ser importante fortalecer a espiritualidade ao longo da vida, é ainda mais imperativo promover a saúde espiritual na fase final da vida.
Em outro estudo, com uma abordagem distinta, Kaut (2002) examinou detalhadamente a conexão entre espiritualidade e morte/processo de morrer. A sua pesquisa revelou que não apenas é importante fortalecer a espiritualidade ao longo da vida, mas também é ainda mais imperativo promover a saúde espiritual na fase final da vida.
Byrd (1988) realizou uma alocação aleatória e duplo-cega de 393 pacientes de unidades de terapia coronariana em grupos de controle ou experimentais. Pacientes, médicos e pesquisadores não sabiam por quais pacientes estavam sendo feitas orações. Grupos religiosos foram organizados e oravam diariamente pelo grupo experimental. Cada voluntário orava por vários pacientes, utilizando o primeiro nome de cada um e o seu próprio estilo de oração. Os resultados de Byrd mostraram que os pacientes do grupo experimental — por quem se orou — apresentaram uma probabilidade cinco vezes menor de necessitar de antibióticos e três vezes menor de desenvolver edema pulmonar; nenhum deles precisou de intubação endotraqueal, em comparação com 12 pacientes do grupo de controle e houve, proporcionalmente, menos óbitos. O grupo que recebeu orações apresentou ‘menos insuficiência cardíaca congestiva, necessitou de menos terapia com diuréticos e antibióticos, teve menos episódios de pneumonia, menos paradas cardíacas e foi submetido com menor frequência a intubação e ventilação’ (Byrd, 1988, p. 829).
Em uma linha semelhante, Braud (1990), na Mind Science Foundation, utilizou 10 tubos contendo hemácias (glóbulos vermelhos) em um grupo experimental e 10 tubos idênticos em um grupo de controle. Trinta e dois voluntários sem treinamento específico visualizaram a proteção das hemácias do grupo experimental. Pesquisadores e técnicos não sabiam quais tubos estavam sendo alvo das orações. Quando todas as células sanguíneas foram expostas a uma solução salina, aquelas do grupo experimental apresentaram menos hemólise, inchaço, rompimento e dissolução.
Em outro estudo comparável, Wirth e Cram (1994) relataram que a oração reduziu a atividade eletromiográfica (EMG) de superfície nas regiões lombar e torácica, mantendo-se constantes todas as outras variáveis, inclusive o relaxamento autonômico.
Portanto, não resta dúvida de que a espiritualidade afeta positivamente a saúde; contudo, a maneira como isso ocorre e como pode ser logicamente aproveitado — isso é, como a espiritualidade pode ser utilizada de forma tangível para melhorar diretamente a saúde física — constitui uma área promissora para pesquisas sérias e perspicazes no futuro.
Estudos capazes de isolar (mantendo constantes todos os outros fatores) o efeito da espiritualidade na saúde — permitindo que ela seja cientificamente estudada e aproveitada para a melhoria prática e cotidiana do bem-estar integral — abririam caminho para integrar a espiritualidade ao cotidiano e a todos os aspectos da vida das pessoas.
2.7 Espiritualidade no Trabalho
Não há dúvida de que a espiritualidade no ambiente de trabalho está sendo submetida a um escrutínio muito intenso por parte da comunidade de pesquisadores e a explosão de publicações sobre o tema é uma prova cabal desse fato. Embora o trabalho de pesquisa propriamente dito (conforme registrado em publicações) tenha começado há cerca de 15 anos, fala-se em espiritualidade (tanto no trabalho quanto na vida cotidiana) há quase um século.
Já naquela época — há quase 90 anos —, Mary Parker Follett, uma autora prolífica e muito respeitada em seu tempo, enfatizou em seu livro ‘Creative Experience’ [‘Experiência Criativa’] (Follett, 1924) a necessidade de se atentar para a vida espiritual no ambiente de trabalho, ao escrever que ‘a separação entre a nossa chamada vida espiritual e as nossas atividades cotidianas constitui um dualismo fatal’ (conforme citado em Johnson, 2007, p. 430).

“A vida não é um filme para nós; vocês nunca podem assistir à vida, pois vocês estão sempre dentro dela.”
“O objetivo desse livro é sugerir que nós busquemos uma maneira pela qual os desejos possam se entrelaçar, que nós procuremos um método pelo qual a integridade plena do indivíduo se torne una com o progresso social e que nós tentemos fazer com que a nossa experiência cotidiana nos proporcione valores espirituais cada vez maiores.”
Mary Follett
Na edição especial do ‘Journal of Organizational Change Management’ sobre ‘A vanguarda da pesquisa em espiritualidade e organizações’, Benefiel (2003) sintetizou três abordagens principais adotadas na área:
(a) A vertente quantitativa;
(b) A vertente abrangente do ‘porquê’ e do ‘como’ — abordando as razões e as formas de integrar a espiritualidade nas organizações; e, finalmente,
(c) A vertente profunda do ‘como’ e do ‘porquê’ — pesquisas qualitativas sobre a manifestação e o impacto da espiritualidade.
A perspectiva da liderança relacionada à espiritualidade parece estar ganhando força rapidamente no meio acadêmico. Fry e Cohen (2009) propuseram a liderança espiritual como um paradigma para a transformação organizacional e para a superação dos aspectos negativos da cultura de EWHC (‘Extended Working Hours Culture) [Cultura de Jornadas de Trabalho Prolongadas]; tal abordagem pode promover o bem-estar dos colaboradores e a responsabilidade social corporativa sem comprometer a lucratividade, o crescimento da receita e outros indicadores de desempenho financeiro.
De fato, Cacioppe (2000) chegou a afirmar que o papel central da liderança era o desenvolvimento do espírito nos níveis individual, de equipe e organizacional.
Tischler, Biberman e Mckeage (2002) afirmaram (com base em seu extenso estudo sobre o assunto) que pessoas com níveis mais elevados de espiritualidade levam vidas mais saudáveis, felizes e produtivas no trabalho. Eles argumentaram que, visto que ficou comprovado que o Emotional Quotient (EQ) [Quociente Emocional] afeta a vida profissional (Goleman, 1995), é plausível supor que o SQ [Spiritual Quotient] (Quociente Espiritual) exerça um efeito semelhante. Eles também defenderam a ideia de que, por ser uma experiência intrapessoal, a experiência espiritual em si não pode ser testada empiricamente, embora as suas manifestações e efeitos possam ser estudados.
Os autores citaram diversos estudos demonstrando que a Transcendental Meditation (TM) [Meditação Transcendental], de Mahesh Yogi, gera efeitos positivos significativos na produtividade no trabalho.
Em outro estudo, Mitroff e Denton (1999) realizaram mais de 100 entrevistas em profundidade e complementaram o trabalho com um questionário enviado por correio. Algumas de suas descobertas (resumidas brevemente) foram:
- As pessoas anseiam por maneiras de praticar a espiritualidade no ambiente de trabalho sem ofender os colegas ou gerar hostilidade.
- Uma maioria expressiva desejava poder expressar e desenvolver a plenitude de seu self no trabalho.
- A maioria dos entrevistados havia experienciado alguma forma de ‘ferida na alma’ em decorrência de seu trabalho em organizações.
- Quase todos os entrevistados acreditavam em um poder superior ou em Deus.
Neal e Biberman (2003) apresentaram uma reflexão realista:
‘Nos últimos séculos, o Ocidente criou uma nítida separação entre o mundo exterior das atividades mundanas e o mundo interior da espiritualidade e da religião. De muitas formas, isso ajudou a humanidade a superar a superstição, bem como o poder e a dominação das igrejas. No entanto, sob outros aspectos, isso nos afastou daquilo que há de melhor e mais elevado na condição humana.’
Após exporem esse argumento convincente, eles levantaram algumas questões bastante específicas que se impõem a todos os pesquisadores da área da espiritualidade, a saber:
- Nós podemos e devemos mensurar alguma coisa tão inefável quanto a espiritualidade?
- Ao tentarmos mensurar a espiritualidade em relação aos resultados organizacionais, nós estaremos fornecendo munição para que as organizações utilizem a espiritualidade para fins instrumentais?
- Como nós distinguimos espiritualidade, religiosidade, religião, valores espirituais, práticas espirituais e outros conceitos importantes? As ferramentas de avaliação atuais (provenientes, em sua maioria, das áreas de psicologia e teologia) funcionam em contextos organizacionais?
- Existem novas metodologias, além das abordagens qualitativas e quantitativas atuais, que poderiam estar mais alinhadas a uma forma de realizar pesquisas baseada em uma consciência no nível da percepção [consciousness] mais elevada?
- Em que medida os nossos conceitos e metodologias são transculturais?
- Quais resultados individuais significativos estão relacionados à espiritualidade do indivíduo no ambiente de trabalho?
- Existe algo como espiritualidade organizacional e, em caso afirmativo, quais são os principais resultados organizacionais associados a ela?
- Qual é o impacto da espiritualidade do próprio pesquisador nos resultados da pesquisa? (Neal & Biberman, 2003, p. 364).
Voltando a atenção para um contexto corporativo ligeiramente diferente — a indústria de software —, Armour (2002, p. 14) afirmou de forma sucinta:
‘Nós programamos máquinas, mas nós não somos máquinas. É o espírito que nos torna diferentes’.
Assim, conforme demonstrado por muitas das pesquisas citadas anteriormente, a espiritualidade começava a ser vista como um ingrediente essencial para um ambiente de trabalho satisfatório e motivador. Como é evidente, há uma vasta gama de pesquisas sendo realizadas nessa área sob diversas perspectivas.
No entanto, ainda há muito a explorar sobre as formas adequadas de integrar a espiritualidade, de maneira harmoniosa, aos ambientes, às vidas e às culturas profissionais; além disso, são necessárias mais pesquisas empíricas sobre um aspecto crucial (pelo menos sob a ótica corporativa): a natureza da relacionamento entre a busca por resultados financeiros (lucratividade) e a espiritualidade. Poucos estudos abordaram diretamente o relacionamento complexo entre a espiritualidade e variáveis financeiras, como receita, lucros e valor para o acionista.
3. Conclusão
Embora esteja bastante claro que o número de pesquisas relacionadas à espiritualidade tenha aumentado consideravelmente nos últimos tempos, ainda existem muitas áreas significativas inexploradas.
A maior parte das pesquisas foi realizada na cultura Ocidental de predominância Cristã, sendo que muitos dos estudos empíricos utilizaram instrumentos com viés religioso.
Essa questão, juntamente com outras lacunas apontadas ao final de cada seção desse artigo, necessita ser abordada o mais breve possível.
Faz todo o sentido a observação de Moberg (2002) de que, apesar do reducionismo inevitável — decorrente da impossibilidade de medir a espiritualidade de forma direta e em sua totalidade —, a tentativa de descobrir dimensões, indicadores, correlatos, fontes e consequências adicionais da espiritualidade constitui um dos desafios potencialmente mais ricos para futuras pesquisas nas ciências sociais e comportamentais.
A importância, o significado e o impacto da espiritualidade estão apenas começando a ser entendidos. Isso ocorre em todos os níveis e em diversos campos de estudo, como física, psicologia, economia e todas as biociências.
O surgimento de áreas de estudo como a Teobiologia e a Neuroteologia reforça essa tendência, assim como a explosão de publicações e pesquisas na área.
Contudo, é preciso concluir ressaltando que o trabalho realizado nesse campo apresenta lacunas significativas, as quais esse artigo buscou evidenciar.
Espera-se que, com o prosseguimento das pesquisas nessas áreas por parte daqueles(as) que se empenham em aproximar ciência e espiritualidade, sejam alcançados avanços importantes, conduzindo-nos a um entendimento muito mais abrangente e científico do âmbito da espiritualidade.
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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.
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