Essa série de artigos é direcionada para as Organizações (com fins lucrativos, sem fins lucrativos, estatais e outras) que estejam buscando reincorporar a Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT), visando não somente a sua perenidade nesse mercado em fase de profundas mudanças em todas as áreas de atuação – uma mudança da visão de mundo mecanicista de Descartes e Newton para uma visão de mundo holístico e ecológico –, como também que estejam almejando fazer toda a diferença positiva para os stakeholders, nesse mundo que se mostra cada vez mais interconectado, como a ciência quântica e a espiritualidade ancestral defendem.
O artigo aborda o conceito de Ciência da Espiritualidade à luz do sistema de pensamento da Sociedade Teosófica e da espiritualidade não-dualista.
Artigo para reflexão e meditação, de fonte primária sobre o tema.
Artigo:
“The Science of Spirituality”
“A Ciência da Espiritualidade”
Autora:
Ianthe Hoskins
Fonte:
A Palestra de Blavatsky, proferida na Convenção Anual da Sociedade Teosófica na Inglaterra, no Besant Hall, em Londres, em 28 de maio de 1950.
The Science of Spirituality.pdf
Tradução livre Projeto OREM® (PO)
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Sobre a autora
Ianthe Helen Hoskins – 12 de setembro de 2013
(1912-2001). Membro de destaque da Sociedade Teosófica de Adyar. Ianthe Helen Hoskins nasceu em 23 de dezembro de 1912, em Florença, Itália. Ela era uma das gêmeas filhas de Richard e Ida Hoskins; a sua irmã gêmea chamava-se Aglaia. Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, a família foi repatriada para a Grã-Bretanha em agosto de 1915.
Após a guerra, a família residiu em Enfield, Middlesex e foi lá que Ianthe Hoskins concluiu os seus estudos na Enfield County Grammar School, prosseguindo a sua formação no Westfield College, em Hampstead, onde obteve o diploma de bacharel em Francês e Latim. Era difícil conseguir emprego durante os anos da Grande Depressão, mas, por fim, ela obteve um cargo de professora na King Edward VI Grammar School.

Hoskins ingressou na Sociedade Teosófica em 1936; a sua atividade profissional a levou a diversos locais na Inglaterra e, consequentemente, ela foi, ao longo do tempo, membro de sete lojas diferentes. Em 1950, aos 38 anos, ela proferiu a prestigiosa Palestra Blavatsky, intitulada ‘A Ciência da Espiritualidade’.
Hoskins aposentou-se do magistério quando estava na casa dos cinquenta anos para dedicar o seu tempo ao trabalho Teosófico. Em 1968, 1970 e 1993, atuou como diretora da Escola de Sabedoria na Sede Internacional, em Adyar e ministrou cursos em 1983, 1986 e 1989 em Krotona, na Califórnia. Em 1982, ajudou a fundar a Escola Europeia de Teosofia, onde atuou como instrutora anualmente até o final da década de 1990. Por ser fluente em Inglês, Francês, Espanhol e Alemão, ela foi bem recebida em muitos países como palestrante da Sociedade Teosófica.
Ela foi uma entusiasta divulgadora do Raja Yoga e publicou um livro sobre o tema, intitulado ‘The Flower of Yoga’ [‘A Flor do Yoga’]. Hoskins serviu por vários anos como Secretária-Geral da Seção Inglesa.
Ela faleceu em Londres e o seu corpo foi cremado no Crematório de Eltham, no sul de Londres, em 20 de setembro de 2001.
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A Ciência da Espiritualidade
“Ao celebrar, nesse ano, o septuagésimo quinto aniversário de sua fundação, a Sociedade Teosófica encontrará muitas oportunidades para rever a sua história e avaliar as suas realizações. Sem entrar em detalhes históricos, amplamente registrados em outras fontes, pode-se afirmar com segurança que certas correntes de pensamento presentes no mundo atual têm a sua origem ou seu amplo desenvolvimento ligados ao movimento Teosófico.
As semelhanças entre as grandes religiões do mundo tornaram-se de conhecimento geral entre as pessoas instruídas; a doutrina da reencarnação é um tema aceito na literatura Ocidental; a questão da sobrevivência passou do campo da superstição popular para o da pesquisa acadêmica; o simbolismo, a astrologia, a telepatia e a cura [healing] espiritual contam com estudiosos sérios e um vasto acervo literário; e o leitor Ocidental pode, hoje, ter acesso direto ao pensamento Oriental por meio de comentários e traduções de inúmeros textos sagrados e filosóficos.
Além disso, Teosofistas, individualmente, têm dado contribuições notáveis ao progresso em diversos campos, como religião, ciência, arte, literatura, educação, política e bem-estar humano. De fato, o pensamento Teosófico gerou expressões tão variadas que é fácil perder de vista os princípios que elas buscam incorporar. Portanto, embora nós possamos obter proveito e inspiração ao rever o passado, é de suma importância que nós olhemos continuamente além do superficial e do transitório, voltando-nos para os elementos essenciais do sistema Teosófico.
Nesse labirinto fascinante, onde cada um dos muitos caminhos promete conduzir ao coração do mistério da vida, não é de se estranhar que surja o atordoamento e que se perca o fio condutor. Contudo, dentre os muitos ensinamentos reapresentados ao mundo pelo movimento Teosófico moderno, há um que — uma vez superado o fascínio distorcedor de outras verdades — emerge com o devido destaque como a verdade essencial da Teosofia.
Ele é, simultaneamente, o fundamento de toda doutrina, a chave para todo problema, a justificativa e a meta de toda busca pela Verdade. Sem ele, todos os outros ensinamentos tornam-se meros brinquedos da mente, fragmentos incoerentes e desprovidos de sentido de um padrão que perdeu o seu tema recorrente. Com ele, cada fato se ilumina e ganha significado e o caos de informações isoladas transforma-se em um padrão de beleza harmoniosa. Trata-se da doutrina da Unicidade da Vida.
“Trata-se da doutrina da Unicidade da Vida.“
Para onde quer que o estudante se volte em sua busca por uma pista sobre o sentido da existência, o princípio da unidade emerge com uma insistência que atesta claramente a sua natureza essencial. Ele permeia as escrituras das grandes religiões; ele é o tema central do misticismo; e a sua presença revela-se cada vez mais nas descobertas da ciência. A unidade é apontada como o princípio primordial, pois é um atributo axiomático do Absoluto:
‘One, without a second.’ [‘Um só, sem um segundo’].
A unidade é reconhecida como a força coesiva subjacente à infinita multiplicidade de formas manifestadas e é vista como o desfecho no qual toda diversidade encontrará a sua resolução.
“…o princípio da unidade emerge com uma insistência que atesta claramente a sua natureza essencial e permeia as escrituras das grandes religiões; ele é o tema central do misticismo; e a sua presença revela-se cada vez mais nas descobertas da ciência.“
Embora talvez não seja necessário recordar as grandes frases que proclamaram a Unidade aos homens desde tempos remotos, a repetição delas pode sintonizar as nossas mentes para a contemplação do mistério da Vida Una. Nas magníficas estrofes que constituem a base de ‘A Doutrina Secreta’, o fato é enunciado com uma simplicidade poderosa:
‘Sozinha, a Forma Una de Existência estendia-se ilimitada, infinita, sem causa, no Sono sem Sonhos; e a Vida pulsava inconsciente no Espaço Universal…’ 1
1The Secret Doctrine. Adyar Edition, I, p. 118
Na literatura sagrada da Índia, o tema da Unicidade do Self é tão predominante que se poderiam escolher inúmeras passagens para reiterar essa verdade:
‘Não visto, Ele vê; não ouvido, Ele ouve; não pensado, Ele pensa; não conhecido, Ele conhece. Ninguém além d’Ele é o Vidente, ninguém além d’Ele é o Ouvinte, ninguém além d’Ele é o Pensador, ninguém além d’Ele é o Conhecedor. Ele é o Self, o Governante Interior, Imortal. Tudo o mais perece.’2
2Brhadaranyaka Upanishad, III, vii, 23
O Buda ensinou de modo semelhante:
‘Assim como todas as coisas se originam de uma essência, elas se desenvolvem segundo uma lei e estão destinadas a um único objetivo, que é o Nirvana.’3
3Paul Carus: The Gospel of Buddha, p. 142.
E, no tesouro das Escrituras Hebraicas, a mesma verdade é proclamada:
‘Para onde irei do Teu Espírito, ou para onde eu fugirei da Tua presença? Se eu subir aos céus, lá estás Tu; se fizer a minha cama no inferno, eis que lá estás Tu. Se tomar as asas da alvorada e habitar nas extremidades do mar, mesmo ali a Tua mão me guiará e a Tua mão direita me susterá.’4
4Psalms, cxxxix, 7–10.
Nessas e em inúmeras outras passagens dos ensinamentos religiosos do passado, o ser humano tem sido instruído de que a vida é una, de que o Self é o mesmo em todos e de que, para onde quer que ele se volte,
Deus está presente, simultaneamente, em toda parte; Contudo, Deus, em toda parte, é sempre um só… 5
5Robert Southwell: Of the Blessed Sacrament of the Aulter.
Se a exposição moderna da Teosofia é uma reafirmação fiel da tradição antiga, ela tem que proclamar a unidade da vida como a sua mensagem central e perene. Assim, nós encontramos ‘A Doutrina Secreta’ resumindo os seus ensinamentos nessas palavras:
‘A Filosofia Esotérica ensina que tudo vive e é consciente, mas não que toda vida e consciência no nível da percepção [consciousness] sejam semelhantes às dos seres humanos ou mesmo dos animais. Consideramos a Vida como a Forma do Uno de Existência, manifestando-se naquilo que é chamado de Matéria; ou naquilo que, separando-os incorretamente, nós denominamos Espírito, Alma e Matéria no ser humano. A Matéria é o Veículo para a manifestação da Alma nesse plano de existência e a Alma é o Veículo, em um plano superior, para a manifestação do Espírito; e esses três constituem uma Trindade sintetizada pela Vida, que a todos permeia…”6
6S.D., I, p. 120.
Diante da afirmação insistente da unidade do Self, o estudante de Teosofia pode acabar sendo persuadido, quase sem perceber, a professar apenas da boca para fora a doutrina da Unicidade e a ecoar a declaração da Sabedoria Antiga na frase:
‘O Self é Um Só: Eu sou O QUE eu sou’.
Mas, para quantos essa anuência ao credo do Um Só é algo mais do que um aceno mecânico de cabeça em deferência à sabedoria superior de uma autoridade aceita? Será que, para muitos de nós, isso é realmente mais concreto em nossa experiência consciente do que o fato de a Terra girar em torno do Sol ou o fato de que os objetos sólidos são — como os cientistas nos têm assegurado — nada mais do que radiação insubstancial?
Ao contrário de Galileu, que externamente retratou-se de sua crença no movimento terrestre enquanto internamente afirmava ‘e, no entanto, ela se move’, nós repetimos com os lábios as afirmações dos cientistas, mas, intimamente, continuamos convencidos de que as nossas cadeiras são sólidas e imóveis. Como leigos, nós aceitamos os fatos da ciência sem conhecimento ou experiência direta, baseando-nos na autoridade dos especialistas; consequentemente, a nossa crença neles é, em grande parte, estéril e carente de convicção.
De modo semelhante, é preciso admitir que a maioria das pessoas normalmente não possui qualquer consciência no nível da realidade [awareness] do fato da unidade e que, embora nós possamos repetir com os lábios que o Self é Um Só, uma reserva mental reafirma a realidade da diferença e da separatividade.
De fato, exceto em raros momentos de intensa devoção ou amor — nos quais se pode experienciar uma perda temporária da identidade pessoal na consciência no nível da percepção [consciousness] de estar-uno-a-si-mesmo (at-one-ment) com Deus, com outro ser humano ou com o mundo natural —, a maioria de nós atravessa a vida sem qualquer reconhecimento da Unicidade do Self. Se isso fosse diferente, se nós tivéssemos ciência constante de nossa identidade uns com os outros, o primeiro Objetivo da Sociedade Teosófica jamais poderia ter sido formulado.
Pois a fraternidade humana está implícita na doutrina da Vida Una e a consciência no nível da realidade [awareness] dessa unidade traria consigo o reconhecimento ativo da fraternidade como um fato real e não meramente teórico. Não haveria uma verdade inquietante na afirmação de que falar sobre fraternidade indica a ausência da verdadeira consciência no nível da percepção [consciousness] de fraternidade? ‘Um homem verdadeiramente fraternal e afetuoso’, dizem-nos, ‘não fala em fraternidade; não se fala em fraternidade com a irmã ou com a esposa; existe um afeto natural.’7 Parece que a necessidade de afirmar a unidade do Self é evidência de que essa unidade é menos um fato da experiência do que um ato de fé.
7J. Krishnamurti: Verbatim Reports of Talks. Auckland, New Zealand, 1934
[Observação PO: Inscrição acima da entrada do Templo de Delfos: ‘Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os Deuses e as Suas energias.’]
No entanto, aqui e ali — tanto entre as vozes do passado quanto entre os homens e mulheres do nosso próprio tempo —, é possível distinguir uma nota de afirmação confiante, tão simples e direta, que só pode ser a expressão de uma experiência pessoal. Entre os muitos que creem de forma mais ou menos cega, existem os poucos que sabem com absoluta certeza. Mas tal é a natureza desse conhecimento que, entre esses poucos, raramente alguém tentou transmitir a sua experiência a outros por meio do instrumento limitador e distorcedor das palavras, pois a tarefa parece ‘tão vã quanto tentar esvaziar o oceano em um dedal’.
Já se escreveu o suficiente, contudo, para convencer o buscador de que encontrar é algo tão possível agora quanto no passado e de que a percepção consciente da unicidade pode transformar a sua crença incerta na certeza do conhecimento. A literatura do misticismo oferece provas abundantes dessa possibilidade. Mas convém também lembrar daqueles que, no movimento Teosófico moderno, reiteraram o ensinamento da Sabedoria Antiga não por causa de sua autoridade, mas porque eles sabiam que ele era verdadeiro — porque eles haviam percebido, ao menos em parte, a unicidade do Self.
O relato de uma experiência pessoal nunca pode ser mais do que sugestivo para aqueles que não a compartilharam. Mas, justamente por ser sugestivo, tal relato pode ser valioso para o estudante e o buscador, pois indica, de forma mais eficaz do que uma exposição impessoal, a natureza da meta pela qual se empenham. Um exemplo que vem prontamente à mente é a tentativa feita pelo Dr. Arundale de descrever alguns aspectos da consciência no nível da percepção [consciousness] nirvânica, tal como ele a experienciou. Em seu livro ‘Nirvana’, ele conta como, embora tivesse refletido profundamente sobre a unidade, ele ainda tinha apenas uma ideia vaga a respeito, sem qualquer percepção clara.
Então, ele narra como, ao contemplar certo dia um laranjal situado no vale abaixo de onde ele estava, ele teve o seu primeiro vislumbre das unidades fundamentais. ‘De repente’, escreve ele, ‘eu me vi peculiarmente e maravilhosamente identificado com as laranjeiras, com a própria vida e o ser delas. Eu estava à minha janela, mas também estava no laranjal — na verdade, eu era o laranjal. Era quase como se a minha consciência no nível da percepção [consciousness] oscilasse entre George Arundale como George Arundale e George Arundale como o laranjal. Eu era duas entidades e, no entanto, uma só.’8
8op. cit., p. xi.
Uma experiência semelhante é descrita por Krishnamurti em ‘O Reino da Felicidade’, onde ele relata uma identificação temporária consigo mesmo e a relva em crescimento. ‘Eu sentia a mim mesmo’, diz ele, ‘como aquela relva que ainda não se havia dividido em hastes individuais. Então, eu podia sentir a relva brotando de sob a terra, a seiva subindo por ela e as hastes se separando; e eu mesmo era cada uma daquelas hastes.’9
9op. cit., p. 19.
Duas perguntas surgem imediatamente à mente exigindo resposta. Em primeiro lugar, por que, uma vez que a unidade é declarada um fato, a consciência no nível da realidade [awareness] dessa unidade parece ser a exceção e não a regra? Em segundo lugar, como é possível a um indivíduo integrar as fileiras — restritas, porém constantes — daqueles que, em virtude de sua própria experiência, testemunham o fato de que a unidade pode ser reconhecida? Em outras palavras: por que nós não conhecemos a unidade e como nós podemos vir a conhecê-la?
É possível buscar a resposta para a primeira dessas perguntas tanto no nível cósmico quanto no pessoal. Ao adotar a primeira abordagem, o estudante terá a sua atenção voltada para o que se pode chamar, na linguagem humana, de o início das coisas. É aqui, no mistério da manifestação, que se tem que buscar o princípio da separatividade. Ele aprenderá sobre o surgimento desse princípio de separatividade, passando da latência para a atividade, quando o Uno — aquele que não tem segundo — quis: ‘Que eu seja muitos, que eu nasça’.10 Ao mesmo tempo, ele será alertado contra a suposição simplista de uma dualidade que é apenas aparência e não uma realidade fundamental. Pois os muitos que surgem no Uno, pela vontade do Uno, não são diferentes do próprio Uno.
‘Assim como de um fogo ardente surgem aos milhares faíscas de sua própria natureza, da mesma forma, do Imperecível nascem múltiplas existências e para ele, na verdade, retornam.’11
10Rig Veda, I, cxiv, 26.
11Mundaka Upanishad, I, ii, 3.
O estudante tem que compreender o fato de que o universo é uma manifestação da unicidade; caso contrário, ele incorrerá no erro de pressupor a separatividade ao imaginar uma dualidade original onde ela não existe. ‘Não se pode falar de um Universo como algo que foi feito’, escreve a Dra. Besant, ‘como se antes não existisse, pois tudo reside naquilo que não muda. Todos os opostos encontram aí a sua reconciliação, a sua destruição mútua; todos os opostos aí se fundem uns nos outros, pois O QUE é tudo e não há outro.’12 É nessa unidade do Todo que surge a multiplicidade e, embora do ponto de vista das partes a condição de separatividade seja bastante real, ela é inexistente do ponto de vista do todo.
12The Wisdom of the Upanishads, p. 18.
Tornaram-se familiares as muitas imagens utilizadas para ilustrar esse paradoxo da unidade na multiplicidade: pensamentos na mente, ondas no mar, faíscas no fogo e assim por diante. Contudo, embora o todo nunca deixe de ser uma unidade — apesar de suas múltiplas partes —, ele experiencia a separação por meio dessas partes. É por essa razão que o ato pelo qual um universo surge é tradicionalmente descrito como um ato de sacrifício por parte do Logos do universo; um ato ‘que consiste na assunção das limitações da matéria pelo Imaterial, no revestimento do Incondicionado por condições, no aprisionamento do Livre em laços.’13
13A Besant: The Laws of the Higher Life, p. 47.
Nesse nível remoto, pode parecer, talvez, que o problema seja de interesse meramente acadêmico. No entanto, essa impressão se dissipa quando nós passamos da consideração de princípios cósmicos para o terreno familiar da experiência consciente. Pois é aqui, na personalidade humana, que o problema da separatividade é experienciada com uma intimidade aguda e dolorosa. Embora nós ouçamos afirmar, com segurança autoritária, que a separatividade é uma ilusão, para o nosso atual estado de consciência no nível da percepção [consciousness] ela não é ilusão alguma, mas sim a realidade mais convincente da experiência cotidiana — uma realidade que a negação parece impotente para destruir. Nós podemos admitir, teoricamente, que o conteúdo de nossa consciência no nível da percepção [consciousness] talvez não possua realidade objetiva; contudo, permanece verdadeiro que ‘as ilusões de um louco são tão reais para ele quanto as nossas o são para nós’.14
14S.D., I, p. 335.
A mente pode estar iludida em sua interpretação das mensagens transmitidas pelos sentidos, mas, enquanto a ilusão perdura, o homem é prisioneiro delas. A dupla função dos sentidos parece apenas intensificar o dilema. Eles são a porta de entrada entre o indivíduo e o mundo, permitindo o acesso da experiência e do conhecimento à sua consciência no nível da percepção [consciousness]; contudo, a sua capacidade seletiva suprime mais do que revela, deixando-o sem meios de conhecer a natureza ou a extensão de sua privação (alienação) constante. Por intermédio deles, ele cai na armadilha do “não-Self” e permanece surdo e cego para a presença do Self:
Ó meu amado, herdeiro da Minha herança!
Vem a Mim depressa, ainda que a hora seja tardia!
Aqueles Meus cinco mensageiros, que eu enviei em busca,
Seduziram-te para longe de Mim e Eu aguardo a sós.15
15J Rhoades: Out of the Silence.
“A mente pode estar iludida em sua interpretação das mensagens transmitidas pelos sentidos, mas, enquanto a ilusão perdura, o homem é prisioneiro delas.“
Parece, então, que se a separatividade é a grande heresia, nós temos que nos reconhecer como hereges impotentes, ainda que involuntários. A razão de nossa cegueira foi explicada em termos de uma identificação da vida — que é una — com as formas individuais, que são muitas. É a consequência do movimento da consciência no nível da percepção [consciousness], por assim dizer, a partir do centro da circunferência.
O oceano que fragmenta a sua superfície em inúmeras ondas permanece um único oceano; contudo, cada onda desfruta de uma identidade individual cuja natureza ilusória deriva uma aparência de realidade do tempo e da forma. De modo semelhante, o Self se manifesta em um número infinito de personalidades distintas. A sua separação, enquanto personalidades, é real, mas, enquanto Eu, é uma ilusão. Pois a sensação de separatividade experienciada na personalidade nasce da identificação do Self com as formas temporárias às quais ele está associado no mundo tríplice da experiência humana.
“O oceano que fragmenta a sua superfície em inúmeras ondas permanece um único oceano; contudo, cada onda desfruta de uma identidade individual cuja natureza ilusória deriva uma aparência de realidade do tempo e da forma.“
‘Qualquer que seja o plano em que nossa consciência no nível da percepção [consciousness] atue’, diz A Doutrina Secreta, ‘tanto nós quanto as coisas pertencentes a esse plano constituímos, por ora, as nossas únicas realidades. Mas, à medida que nós ascendemos na escala do desenvolvimento, nós percebemos que, nos estágios pelos quais nós temos passado, nós confundimos sombras com realidades e que o progresso ascendente do Ego é uma série de despertares progressivos — cada avanço trazendo consigo a ideia de que agora, finalmente, nós temos alcançado a ‘realidade’; porém, somente quando nós atingirmos a Consciência No Nível da Percepção [Consciousness] absoluta e fundirmos a nossa própria a ela, nós estaremos livres das ilusões produzidas por Mâyâ.’16
16S.D., I, p. 113.
Até que essa consumação final seja alcançada, o homem repete, em cada nível de consciência no nível da percepção [consciousness], o erro de identificar-se com uma forma e, assim, reafirma o fato da diferença e da separação. Consequentemente, ele se prende à dor gerada por essa falsidade. ‘Aqueles que veem diferenças passam da morte para a morte.’17 O seu erro é duplo: ele sofre, primeiramente, por não conhecer a si mesmo e sofre, ainda mais, ao buscar a segurança da permanência em formas externas a si — formas que, por sua natureza, são mutáveis e transitórias. Um erro resulta em uma crescente insatisfação com a sua condição atual e no anseio por uma vida mais ampla do que aquela que conhece até o momento; o outro resulta na dor amarga de perdas frequentemente repetidas. Então, na agonia de sua frustração, ele clama contra a limitação que o impede da tomada de consciência do Self:
Vão o sonho! Eu não posso me misturar com a alma que tudo sustenta:
Eu estou aprisionado em meus sentidos; Eu estou imobilizado pelo meu orgulho;
Eu estou separado pela minha individualidade a partir da vida-mundo do Todo;
E o meu mundo é próximo e estreito e o mundo de Deus é desabitado e vasto.18
17Brhadaranyaka Upanishad, IV, iv, 23.
18E. G. A. Holmes: Nirvana.
À medida que começa a entender a causa de sua condição, o estudante indagará sobre o seu propósito. Ele perguntará por que aquele de quem se diz ‘Tu és O QUE’ tem que passar pelo ‘martírio da existência autoconsciente’19. Em suma, esse propósito pode ser descrito como a elevação da consciência no nível da percepção [consciousness], passando pela autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] até a Autoconsciência no nível da percepção [Self-consciousness]. O ciclo da experiência é assim resumido em A Doutrina Secreta:
‘O Ego começa com a Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness] Divina; sem passado, sem futuro, sem separação. Passa-se muito tempo antes que ele reconheça que é ele mesmo. Somente após muitos nascimentos começa de fato a discernir, por meio dessa coletividade de experiências, que é um indivíduo. Ao final de seu ciclo de reencarnações, ele ainda continua sendo a mesma Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness] Divina, mas ele agora tornou-se uma Autoconsciência no nível da percepção [Self-consciousness] individualizada’20.
19S.D., I, p. 311.
20S.D., V, p. 552.
“…esse propósito pode ser descrito como a elevação da consciência no nível da percepção [consciousness], passando pela autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] até a Autoconsciência no nível da percepção [Self-consciousness].“
A experiência de separatividade é um passo preliminar essencial para a realização da unidade. Onde existe unidade absoluta, não há noção de ‘outro’ e, portanto, nenhuma noção de ‘eu’; consequentemente, não pode haver consciência no nível da realidade [awareness] da unidade. A centelha da autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] só pode ser produzida pelo choque entre o aço do Self e a lasca de pedra do não-Self; daí a necessidade da dualidade — a oposição de dois polos — como etapa preliminar para o despertar da autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness].
Tanto Freud quanto Jung perceberam que a autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] surge de um estado inicial de indiferenciação entre sujeito e objeto. O primeiro expressa a visão de que ‘uma relação com objetos — e, assim, a consciência no nível da percepção [consciousness] no sujeito — desenvolve-se a partir de um estado de unicidade inconsciente, ou identidade”21, enquanto Jung aponta que ‘a característica principal do estado primordial e inconsciente da psique é que ela não está diferenciada a partir do objeto — uma condição típica de crianças e povos primitivos’22.
21W. M. Kranefeldt: Secret Ways of the Mind, p. 77.
22ibid., p. 141.
…parei aqui…
Assim como o indivíduo ‘torna-se consciente de si mesmo apenas na sociedade e ao conhecer outros semelhantes como a si mesmo’23, a consciência no nível da percepção [consciousness] só adquire significado na medida em que se diferencia de seu campo. Contudo, a condição de separação não passa de um meio para atingir um fim; uma vez alcançado esse fim, o meio tem que ser descartado, caso contrário, tornar-se-á um fardo e um obstáculo ao desenvolvimento ulterior.
23J. Smuts: Holism and Evolution, p. 234.
‘O propósito da vida’, diz Krishnamurti, ‘é perder o self separado — que começou como uma centelha individual e, quando você faz isso, então a Verdade se estabelece em você e você se torna parte da Verdade e você mesmo é a Verdade”24.
24By What Authority?
Assim, de sua identificação momentânea com a relva que crescia, ele retornou à consciência no nível da percepção [consciousness] normal de si mesmo com a tomada de consciência desse fato:
“Eu não desejo nada mais na vida do que ter a capacidade de perder a noção (o senso) do self separado. Pois, então, eu sou capaz de esquecer o ‘eu’ e identificar-me com o resto do mundo — com todos os reinos: vegetal, animal e humano; eu estou, então, mais próximo da Verdade, mais próximo dessa perfeição”25
25The Kingdom of Happiness, p. 20.
Por mais difícil que seja compreender o paradoxo da individualidade na unidade, é claramente um erro supor que o resultado da grande obra da evolução seja a fusão da gota com o oceano, de tal modo que a identidade, tão arduamente conquistada, seja destruída. A Doutrina Secreta tem afirmado categoricamente que o objetivo final da evolução não é a aniquilação.
‘No Paranirvana… as Humanidades do Passado, do Presente e até mesmo do Futuro, assim como todas as coisas, serão uma só e o mesmo. Todas as coisas terão retornado ao Grande Sopro. Em outras palavras, tudo estará ‘fundido em Brahman’, ou na Unidade Divina. Seria isso aniquilação?… Ver aniquilação no Nirvana equivale a dizer que um homem mergulhado em um sono profundo e sem sonhos — um sono que não deixa qualquer impressão na memória física e no cérebro, pois o Self Superior do adormecido encontra-se então em seu estado original de Consciência No Nível da Percepção [Consciousness] Absoluta — está também sendo aniquilado… A reabsorção não é, de forma alguma, um tal ‘sono sem sonhos’, mas… a Existência Absoluta, uma unidade incondicionada, ou um estado para cuja descrição a linguagem humana é absolutamente e irremediavelmente inadequada.’26
26 S.D., I, p. 309.
Carrington, em seus ‘Essays on Consciousness’ (‘Ensaios sobre a Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness]), buscou explicar, com feliz simplicidade, a natureza das mudanças pelas quais a consciência no nível da percepção [consciousness] tem que passar. ‘Independentemente de como tenha ocorrido o processo de individualização’, escreve ele, ‘parece-me claro que ele tem que ter envolvido um isolamento, uma limitação ou uma circunscrição concomitantes; e, embora eu não tenha total clareza sobre como tudo isso aconteceu, eu não tenho a menor dúvida de que agora eu sou altamente individual e altamente circunscrito. Em linhas gerais, a minha visão é a de que a segunda metade da evolução — por assim dizer — consiste em preservar a individualidade e livrar-se da circunscrição… Se nós imaginarmos esse processo levado ao limite, nós concluímos que o estado final será aquele em que a consciência no nível da percepção [consciousness] de cada um é coextensiva à Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness] Universal, preservando, contudo, o senso de individualidade adquirido na primeira parte do processo total.’27
27W. H. Carrington: Three Essays on Consciousness.
Uma vez obtido algum entendimento, ainda que incipiente, tanto da causa quanto do propósito de sua condição, o estudante pode voltar a sua atenção para a questão do método. Por quais meios — pode ele perguntar — se realiza o processo de Auto tomada de consciência em si mesmo? O princípio geral subjacente a esse processo tem sido descrito como uma identificação constante da vida com a forma, acompanhada por uma constante rejeição da forma por parte da vida. Ao identificar-se com as formas particulares às quais está associada, a consciência no nível da percepção [consciousness] no ser humano participa da heresia da separatividade; ao rejeitá-las, ele reafirma a sua própria natureza, promovendo, com esse ato, o desenvolvimento do senso de ‘I-ness’ (senso de si mesmo) — a base da autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness].
A natureza desse desenvolvimento torna-se evidente quando se contrasta o estado de consciência no nível da percepção [consciousness] dos reinos inferiores com o do reino humano. No homem, a consciência no nível da realidade [awareness] que engloba a consciência no nível da percepção [consciousness] está relacionada a um sujeito e, consequentemente, envolve um senso de ‘Eu’ ou autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness]. É aqui, no senso de ‘Eu’, que reside a distinção entre os estados humano e pré-humano. ‘A diferença entre a consciência no nível da percepção [consciousness] do ser humano e a dos animais é que, embora exista um ‘Self’ no animal, o animal não tem consciência desse ‘Self’.28 A consciência no nível da realidade [awareness] nos estágios pré-humanos não está relacionada a um sujeito e, portanto, não constitui autoconsciência no nível da realidade [self-awareness].
28S.D., V, p. 546.
O ser humano é, ao mesmo tempo, consciente e autoconsciente — ou, talvez, fosse mais acurado dizer que ele possui a capacidade de autoconsciência no nível da realidade [self-awareness], a capacidade de conhecer e de saber que ele conhece. O professor Macmurray esclarece esse relacionamento do indivíduo com os seus próprios modos de consciência no nível da percepção [consciousness] ao distinguir dois significados diferentes que, em geral, são confundidos no uso do termo ‘consciente’. Sentir uma emoção é, obviamente, uma forma de consciência no nível da percepção [consciousness]; mas estar ciente de que se está sentindo essa emoção é outra forma de consciência no nível da percepção [consciousness].
É preciso diferenciar — para usar os termos do professor Macmurray — a consciência no nível da percepção [consciousness] motora ou emocional, de um lado, da consciência no nível da percepção [consciousness] reflexiva ou cognitiva, de outro; diferenciar, isso é, entre sentir uma emoção e reconhecê-la como tal.29 Eddington fez uma distinção semelhante entre a consciência no nível da realidade [awareness] ‘senciente’ e a ‘sapiente’: a primeira sendo uma consciência no nível da realidade [awareness] que, como ele explica, ‘não tem objeto gramatical exceto ela mesma’ e a segunda possuindo ‘um objeto gramatical’, a saber, um item de conhecimento’.30
29The Boundaries of Science, p. 245.
30The Philosophy of Physical Science, p. 199.
Um acréscimo, ou extensão, da capacidade humana de autoconsciência no nível da realidade [self-awareness] reside na habilidade de reconhecer os limites da própria autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness]: saber que não se sabe. A sua pequena luz de autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] é suficiente para revelar quão vasta é a escuridão circundante. Seguindo essa imagem, nós podemos dizer que a tarefa da consciência no nível da percepção [consciousness] humana é fundir a sua luz limitada na luz infinita,
Romper os limites da vida e perder-se numa glória intensa e profunda
Enquanto a alma que, num clamor, lança-se na música e busca tornar-se una com o som. 31
31C. Bax: The Meaning of Man.
Pode-se observar que a atuação do princípio geral de identificação e repúdio está na base do processo de despertar que ocorre no desenvolvimento psicológico normal do indivíduo, do nascimento à maturidade. Naquele que começou a participar conscientemente de sua própria evolução, isso será observado ainda mais na alteração gradual do relacionamento entre o homem e os seus corpos e na extensão do processo de evolução psicológica ao longo de uma longa série de encarnações. Esse princípio atua sempre que a elevação do ‘diafragma da consciência no nível da percepção [consciousness]’ provoca uma mudança no relacionamento entre os campos subjetivo e objetivo da experiência.
Mas, embora ocorram mudanças na consciência no nível da percepção [consciousness] nos campos sub-humano e super-humano, assim como no humano, observa-se que é no homem — e somente nele — que parece surgir um problema de consciência no nível da percepção [consciousness].
Krishnamurti apontou que a autoconsciência no nível da realidade [self-awareness] nasce apenas do conflito e o conflito nasce da mente, prerrogativa do homem. ‘Quando você está consciente do ‘eu’?’, pergunta ele. ‘Quando você está consciente de si mesmo? Apenas quando você está frustrado, quando você encontra obstáculos, quando há uma resistência; caso contrário, você é totalmente inconsciente do seu pequeno self como ‘eu’… Você só está consciente de si mesmo quando há um conflito.
Assim, como nós vivemos imersos no conflito, nós estamos conscientes disso na maior parte do tempo; e, portanto, surge essa consciência no nível da percepção [consciousness], essa concepção que nasce do ‘eu’. Nesse conflito, o ‘eu’ nada mais é do que a consciência no nível da percepção [consciousness] de si mesmo como uma forma com um nome, com certos preconceitos, com certas idiossincrasias, tendências, faculdades, anseios e frustrações…”32 No entanto, o conflito e a dor são acompanhantes inevitáveis do crescimento e asseguram ao indivíduo que sofre que ele voltou as costas para a infância e está no caminho que conduzirá, por fim, à maturidade espiritual. ‘A turbidez das águas’, escreve Edward Caird, ‘apenas prova que o anjo tem descido para agitá-las; e o importante é que, quando assim agitadas, elas possuem uma virtude da cura [healing].”33
32Verbatim Reports of Talks. Auckland, New Zealand, 1934.
33The Evolution of Religion, Vol. I, p. 231.
O desenvolvimento da mente tem perturbado a paz animal e trouxe consigo a possibilidade da autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] que, por sua vez, implica a consciência no nível da realidade [awareness] da diversidade e, portanto, da separação. O papel desempenhado pela mente na criação e no fomento da ilusão de separação foi descrito pelo Dr. van der Leeuw em ‘The Conquest of Illusion’ [‘A Conquista da Ilusão’].
‘O intelecto, como mente presa à ilusão, só é capaz de operar sob as limitações da nossa visão de mundo. A estrutura fundamental dessa visão de mundo é a da dualidade, com o ‘mim’ de um lado e todas as coisas mais do outro lado — o self e o não-self. O intelecto, portanto, aceita necessariamente a separação de todas as coisas como um fato básico, aceita a ‘diversidade’ do mundo ao meu redor como inegável e, em todas as suas cogitações, jamais poderá se libertar do fardo dessa estrutura básica na qual está aprisionado. É possível que o intelecto reconheça teoricamente a existência da unidade, unidade da vida, unidade da energia, ou o que quer que nós chamemos de aquilo que une todas as coisas, mas mesmo assim a separatividade e a multiplicidade se imprimem com muito mais força no intelecto, de modo que a concepção de uma unidade fundamental se torna apenas uma pálida sombra ao lado de sua variada e colorida interação. Os próprios métodos do intelecto — distinguindo uma coisa da outra, analisando uma coisa em seus elementos componentes, aprendendo a observar as mínimas diferenças entre um caso e outro — tudo isso aponta para a separação e a multiplicidade como domínio do intelecto. Para obter dados, o intelecto precisa se basear na percepção sensorial e na dedução a partir de princípios básicos, a partir dos quais ele constrói as suas teorias e sistemas’. 34
34op. cit., p. 48.
A história da educação da humanidade será mais claramente entendida à luz do paradoxo da consciência no nível da percepção [consciousness] humana do que por meio de qualquer outra explicação. A vida nele é uma vida una, mas a vida que ele experiencia é uma vida de separação e diversidade. Entre esses dois polos encontra-se o caminho que HPB [Helena P. Blavatsky], com a vasta e penetrante compreensão dela do esquema evolutivo, denominou ‘o árduo caminho de ascensão do Gólgota da Vida’35. Perceber-se-á que as experiências educativas proporcionadas ao homem por meio das comunidades cuja vida ele normalmente compartilha — grupos sociais, nações e raças — servem a um duplo propósito. Ao mesmo tempo que elas ampliam o seu horizonte, alargam as suas simpatias e expandem o âmbito com o qual ele é capaz de se identificar, elas também tendem a intensificar a sua individualidade e a fortalecer as barreiras que separam a sua vida da vida dos outros homens. Ele se tornará cada vez mais distintamente individual e separado; e, à medida que a experiência confere definição à sua própria personalidade, ela também acentua a diferença entre ele e os outros.
35S.D., I, p. 311.
Se não houvesse meios de contrabalançar essa intensificação inevitável da identidade individual, seria difícil imaginar como o ser humano poderia ser educado para ir além da conquista da individualidade e alcançar a consciência no nível da percepção [consciousness] da vida unificada. No entanto, o estudo das diversas influências que atuam sobre a personalidade humana em desenvolvimento revela que o homem não é deixado sem amparo nesse processo.
Desde a infância da humanidade, parece que as forças que desenvolvem no ser humano os modos característicos de pensar e sentir — os quais acentuam a individualidade — são contrabalançadas pelas forças da religião organizada e dos sistemas éticos. Ora, a função tanto da religião quanto da ética é manter diante do ser humano, de maneiras adequadas à sua natureza, o fato da identidade fundamental de toda a vida, até que ele próprio reconheça a veracidade desse fato.
Por meio do culto e das práticas religiosas, busca-se constantemente despertar no indivíduo um senso de uma vida mais ampla, situada além das formas transitórias: primeiramente, associando-o, por laços espirituais, a um grupo restrito de fiéis — no qual o sentimento de fraternidade tem que prevalecer sobre quaisquer fatores que tendam à separação — e, posteriormente, à medida que a religião transcende as fronteiras raciais e nacionais, expandindo esse grupo de comunhão para além de todas as barreiras, até que ele abranja toda a raça humana. Um estudo comparativo das religiões demonstra claramente que os ensinamentos transmitidos ao ser humano por seus líderes espirituais visavam à tomada de consciência da unidade por meio de uma comunhão espiritual, pois, ‘assim como a religião começa declarando a Unidade de Deus, ela culmina proclamando a Fraternidade Humana’36.
36A Besant: Universal Textbook of Religion and Morals, I, p. 173.
Da mesma forma, a identidade dos elementos essenciais em todos os sistemas éticos reside no fato de que a base da moralidade é a unicidade do Self. Independentemente do formato sob o qual a Regra de Ouro seja apresentada, cada uma de suas expressões constitui, fundamentalmente, uma reafirmação do ensinamento do Buda: ‘Pratica a verdade de que o teu irmão é igual a ti mesmo’.
Embora a religião e a ética promovam a tomada de consciência da unidade ao fornecerem um guia prático para a ação fraternal, o espírito humano em despertar pode emancipar-se de uma disciplina externa e buscar a vida unificada pela via direta da Auto tomada de consciência.
Tanto o misticismo quanto o ocultismo oferecem técnicas que, embora difiram em sua abordagem, visam ao mesmo fim: a apreensão imediata do Uno. O misticismo fundamenta-se no fato da unidade. ‘Os místicos nos dizem incessantemente’, escreve Evelyn Underhill, ‘que ‘individualidade tem que ser morta’ antes que a Realidade possa ser alcançada…’ ‘Quando o Eu, o Mim e o Meu estiverem mortos, a obra do Senhor estará realizada’, diz Kabir. A substância daquela incorreção de atos e relações que constitui o ‘pecado’ é a separação do espírito individual do todo; a ridícula megalomania que faz de cada homem o centro de seu próprio universo.’37
37Practical Mysticism, p. 68.
As leis do ocultismo também derivam a sua justificativa da unidade do Self. ‘Não imagina’, diz A Luz no Caminho, ‘que você pode se manter à parte do homem mau ou do insensato. Eles são você mesmo, embora em grau menor do que o seu amigo ou o seu Mestre.’38 Uma análise das muitas instruções sobre a conduta na vida cotidiana do ocultista — como as apresentadas em ‘At the Feet of the Master’ [‘Aos Pés do Mestre’] — revelará que elas se dividem simplesmente em dois grupos: aquelas que buscam incutir nele a necessidade de uma conduta que auxilie os outros e aquelas que o alertam contra ações que possam prejudicar o próximo. Todas elas baseiam-se no fato da unidade, visto que se declara que ‘apenas aquilo que o Uno deseja pode ser, de fato, agradável para alguém’.
38op. cit., p. 6.
Afirma-se que, na ideia de uma Consciência No Nível da Percepção [Consciousness] Universal, pode ser encontrada ‘a matéria-prima da física e da psicologia, os fundamentos da religião natural, o significado do progresso espiritual, uma base para a Ética e uma racionalização do Altruísmo’.39 Tal afirmação pode parecer ousada, mas parece amplamente justificada; pois, ao analisarmos os ensinamentos da religião, as regras da ética, as declarações do misticismo e as leis do ocultismo, nós constatamos que a fonte de sua validade — bem como o seu princípio unificador e harmonizador — reside, em todos os casos, no fato da Unicidade da Vida.
39W. H. Carrington: The Death of Materialism.
Mas, se um homem persiste em fechar os ouvidos ao ensino sistemático que lhe é apresentado, se ele não quer ouvir a voz da religião ou os preceitos da ética e se ainda não está suficientemente desperto para trilhar o caminho interior rumo ao Self, então a própria vida lhe ensinará a realidade da unidade pelo método doloroso de tentativa e erro.
A experiência e o sofrimento lhe mostrarão que ‘toda vida está interligada e é da mesma natureza’ e que, portanto, nenhum homem vive apenas para si mesmo. Ele aprenderá, em sua própria vida — através de perdas pessoais, dor e pesar —, a verdade do ensinamento de Buda de que o mundo inteiro chora com a dor de um só indivíduo. Ele comprovará essa verdade na vida social de sua comunidade, ao descobrir que a sujeira, a doença e a degradação de uma parte perturbam a paz e travam o progresso do todo. Ele verá isso demonstrado em escala ainda maior nas condições sociais e econômicas das nações do mundo: nas consequências do analfabetismo ou da fome, na ocorrência de ciclos econômicos e recessões, na oscilação dos salários e nas leis segundo as quais os problemas econômicos de uma nação põem em risco a prosperidade de outras.
Além disso, em sua vida privada, ele comprovará a validade psicológica desse princípio: quanto mais persegue objetivos pessoais, menos capaz será de encontrar a satisfação que procura. ‘O homem que se torna egoísta’, alerta ‘A Luz no Caminho’, ‘isola-se, torna-se menos interessante e menos agradável aos outros. É uma visão terrível; por fim, as pessoas afastam-se de alguém muito egoísta como se afastariam de uma fera predadora.’40 Por meio de pressões lentas e graduais ou de catástrofes repentinas, a vida forçará o homem relutante à tomada de consciência de que o pecado fundamental da humanidade é o egoísmo e que a sua virtude essencial é o amor. Pois o egoísmo é a negação da realidade da unidade, enquanto o amor é a afirmação ativa dessa realidade.
40op. cit., p. 90.
Toda a humanidade está envolvida, em maior ou menor grau, no problema da separatividade; e, visto que a separatividade e o sofrimento caminham inevitavelmente juntos, o ser humano busca desesperadamente uma solução para o seu problema. Nós temos visto que a chave para o problema humano lhe é, de fato, apresentada de diversas maneiras; contudo, como ela se manifesta mais frequentemente de forma implícita do que explícita, o homem pode permanecer cego para o significado daqueles mesmos ensinamentos destinados a despertá-lo para a tomada de consciência da unidade.
Agora a Teosofia — a Sabedoria do Uno — volta a atenção do ser humano para além da superfície das regras e doutrinas exotéricas, apontando para a verdade denominada ‘Segredo das Eras’: a verdade de que a Vida é Una, de que ‘Tu és O QUE’. Ela apresenta ao espírito em busca uma visão unificada de um Plano que revela, simultaneamente, a causa, o propósito e o método da jornada da humanidade.
A Teosofia tem sido definida inúmeras vezes; porém, como nenhuma definição é exaustiva, permitimo-nos acrescentar mais uma e descrevê-la como a Ciência da Espiritualidade. Primeiramente, para justificar a sua pretensão de ser uma ciência, a Teosofia tem que demonstrar ser um sistema de conhecimento dotado de características reconhecidas: um campo de estudo, um conjunto de dados e um método. Enquanto sistema de conhecimento, a Teosofia é o repositório daquelas três grandes verdades ‘que são absolutas e não podem ser perdidas, mas que podem permanecer silenciosas por falta de expressão’41: o fato da existência de um Princípio Divino Único subjacente a todas as coisas; o fato da divindade — e consequente imortalidade — do espírito humano; e o fato da onipresença (universalidade) da lei e da justiça.
41C. W. Leadbeater: An Outline of Theosophy, p. 15.
O campo da Teosofia é tão vasto quanto a própria vida; ele abrange todas as formas, todos os tempos, todos os processos e o espírito neles envolvido. O seu corpo de conhecimentos não consiste apenas nos ensinamentos tradicionais sobre o homem e o universo — preservados desde tempos remotos —, mas também em todas as descobertas posteriores da verdade, em qualquer esfera da atividade humana, pelas quais o esboço original é constantemente elaborado e ampliado.
O método da Teosofia é o mais preciso e rigoroso de todas as técnicas científicas, pois não é outro senão o desenvolvimento, no próprio ser humano, das faculdades de percepção direta em todos os níveis da existência.
Ora, a espiritualidade é, a rigor, aquilo que diz respeito ao espírito. Mas o espírito é vida e a vida é una. Assim, a verdadeira espiritualidade é vista como ‘a autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] do Self, a realização do Uno na multiplicidade, da Vida nas formas’. Ao abordar o equívoco de imaginar que o Nirvana equivale à aniquilação, HPB afirma que, longe disso, ‘a fusão de todas as coisas na Unidade Divina é uma espiritualidade da mais refinada natureza’42. Se o misticismo foi corretamente definido como a arte da união com a realidade, então a Teosofia pode reivindicar ser a ciência da união com a realidade — ou seja, a Ciência da Espiritualidade.
42S.D., I, p. 309.
Pode-se argumentar, no entanto, que a verdadeira ciência é aquele conhecimento que ‘tem uma aplicação prática’ (tendência para o uso). Se isso for verdade, então, mais uma vez, a pretensão da Teosofia ao título de ciência justifica-se plenamente, pois, ao apresentar ao ser humano a ideia de um Plano subjacente ao universo, ela lhe oferece os meios de participar desse Plano e de transformar conhecimento em ação. Afinal, conhecer o Plano é conhecer a lei e conhecer a lei confere o poder de utilizá-la.
Nas ciências físicas, demonstrou-se repetidamente que a observação de uma lei possui esse duplo valor. Ela não apenas torna possível a previsão, mas também confere ao ser humano o poder de utilizar a atuação da lei para alcançar objetivos predeterminados.
Em um ensaio para a obra ‘The Great Design’ [‘O Grande Projeto’], o professor Fraser-Harris apresenta diversos exemplos de previsões bem-sucedidas em diferentes áreas da ciência — viabilizadas pelo estudo das leis naturais —, como a previsão de planetas desconhecidos na Astronomia, de elementos desconhecidos na Química e de secreções desconhecidas na Biologia. A pergunta que ele então levanta é particularmente pertinente: por que não seria possível fazer previsões semelhantes no campo da consciência no nível da percepção [consciousness]?
Now the framework of the Plan makes such prediction possible, and further, by indicating to man the nature of the step that lies before him, it invites him to co-operate in the evolutionary scheme. The suggestion has been made, indeed, that such co-operation is itself part of the scheme. “The most important result of our ‘empirical’ investigation,” writes Hans Driesch in The Great Design, “is this: we are not only entitled to say that there is a plan in Reality, we also know that we are placed in the midst of this plan, and that the further realization of the plan depends on ourselves.”43
Ora, a estrutura do Plano torna possível tal previsão e, além disso, ao indicar ao ser humano a natureza do passo que tem diante de si, convida-o a cooperar no esquema evolutivo. De fato, foi sugerido que essa cooperação é, ela própria, parte do esquema. ‘O resultado mais importante de nossa investigação ‘empírica’’, escreve Hans Driesch em ‘The Great Design’, ‘é esse: nós não apenas temos o direito de afirmar que existe um plano na Realidade, como também nós sabemos que nós estamos situados no meio desse plano e que a sua realização futura depende de nós mesmos.’43
43op. cit., p. 301.
Huxley também, ao observar as fases distintas na evolução dos sistemas éticos, sugere que um entendimento do movimento evolutivo da ética possibilita ao ser humano alinhar-se à direção do progresso e, assim, cumprir o seu papel como o agente por meio do qual a evolução pode desdobrar as suas possibilidades futuras.44 A Doutrina Secreta vai ainda mais longe. ‘A humanidade’, lê-se na obra, ‘é filha do Destino cíclico e nenhuma de suas Unidades pode escapar à sua missão inconsciente ou livrar-se do fardo de seu trabalho cooperativo com a Natureza.’45
44Evolution and Ethics, 1893–1943.
45S.D., III, p. 444.
Ora, quando o ser humano toma parte consciente do processo, ele altera o ritmo da evolução — por assim dizer — de uma progressão aritmética para uma geométrica. O seu conhecimento do Plano permite-lhe tomar um atalho para a solução do problema da separatividade e evitar a via penosa da tentativa e erro, com o sofrimento que a acompanha. Já se tem sugerido que o propósito do treinamento para uma carreira é ‘reduzir o coeficiente de hesitação e incerteza’. O estudo do Plano de evolução e das leis que o regem cumpre a mesma finalidade; pois, ao esclarecer a natureza da ilusão que limita a percepção humana, a Teosofia confere imediatamente o poder de superação. Ao definir a natureza da obra a ser realizada pela vida em sua jornada através da multiplicidade, ela acelera a sua concretização:
Tudo o que é, o que tem sido ou o que o tempo há de colher,
Não passa de um retorno ao lar, cumpridos os grandes labores,
Do Muitos para o Eterno Uno.46
46C. Bax: The Meaning of Man.
A ilusão é separatividade e o trabalho consiste na destruição dessa ilusão. Mas, visto que no ser humano o cerne do problema reside na identificação de sua consciência no nível da percepção [consciousness] com a personalidade — o instrumento através do qual se alcança a autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] —, a sua tarefa essencial é nada menos que a destruição da personalidade. Até ele saiba que a vida nele — que é o Self — é independente de quaisquer de suas associações temporárias, ele não terá vencido a ilusão da separatividade.
A personalidade é a encarnação, a apoteose da grande heresia; assim, em termos variados, mas com uma mensagem única, o estudante de espiritualidade é advertido repetidamente sobre a necessidade de abandonar completamente a vida pessoal como condição para a realização da vida do espírito. ‘Renuncia à tua vida, se quiseres viver’, diz ‘The Voice of the Silence’ [‘A Voz do Silêncio’] e acrescenta: ‘O self de matéria e o Self de Espírito jamais podem encontrar-se. Um dos dois tem que desaparecer; não há lugar para ambos. Antes que a mente da Alma possa entender, o botão da personalidade tem que ser esmagado e o verme dos sentidos, destruído para sempre, sem possibilidade de ressurreição.’
Enquanto o homem se apega à sua vida pessoal e coloca os seus próprios interesses acima dos interesses dos outros, ele nega a unidade da vida. Pois, onde o Self é reconhecido como Um Só, os interesses de qualquer indivíduo são, igualmente, os interesses de todos os outros. Portanto, amar o próximo como a si mesmo é a única forma de vida compatível com o reconhecimento da unidade; e o amor — o sentimento de perfeita identificação com o outro — é o cumprimento da lei. A vida de espiritualidade é aquela vivida como se a unidade fosse um fato. Isso explica por que a Teosofia — que nós escolhemos chamar de Ciência da Espiritualidade — foi definida de outra maneira por HPB. Ela a descreveu como ‘ALTRUÍSMO’ e insistiu que a verdadeira Teosofia não é outra coisa senão ‘a ‘Grande Renúncia do self’’, incondicionalmente e absolutamente, tanto no pensamento quanto na ação”.47
47Practical Occultism, p. 50
Esse fato — de que o apego à existência pessoal é o obstáculo no caminho para a vida livre do espírito e de que a destruição desse obstáculo é necessária para a libertação da vida — encontra-se consagrado nos grandes dramas religiosos sobre a morte. Eles ilustram a verdade de que ‘o caminho da abnegação e não o da autoafirmação, é a via divinamente estabelecida para a glória e a imortalidade’. A morte de tudo o que é pessoal e separatista constitui a porta de entrada para a vida eterna, e ‘o sacrifício de si mesmo é o único caminho para a auto tomada de consciência’48. Para o estudante de espiritualidade, a certeza de que a maior prova de amor é ‘dar a vida pelos seus amigos’ sugere alguma coisa muito mais profunda e exigente do que o sacrifício do corpo físico.
48Edward Caird: The Evolution of Religion, Vol. II, 236.
A personalidade em sua totalidade — com todos os seus desejos e pensamentos separatistas e todas as suas ambições egoístas que ignoram o universo — tem que ser oferecida em sacrifício. Observou-se anteriormente que o universo teve origem em um ato de sacrifício: o sacrifício da vida do Logos em prol de uma existência em formas limitantes. Contudo, a consumação do propósito desse ato requer um novo sacrifício: o das formas em favor da Vida. Assim, o símbolo da Cruz reveste-se de um duplo significado. Ao mesmo tempo que simboliza o sacrifício da Vida divina — ‘morta desde a fundação do mundo, morrendo verdadeiramente para que nós vivêssemos’49 —, simboliza também o sacrifício do self individual separado, representando ‘o caminho da Cruz’ que conduz à vida eterna.
49Liturgy of the Liberal Catholic Church.
A transcendência de condições limitantes é o único caminho para a liberação. A dor, portanto, é vista como algo que cumpre um propósito inteligível ao revelar a presença de algum fator de separação — alguma forma de egoísmo que tem que ser rompida. O Self se identificou com uma limitação e tem que repudiar a parte se quiser conhecer o todo. Contudo, talvez fosse mais correto dizer que a associação com a parte, com a limitação, não deve ser destruída, mas sim utilizada como um ‘self morto’, por meio do qual o homem pode ingressar em uma liberdade maior, situada além. Jung reconhece a necessidade de sacrifício no crescimento psicológico ao afirmar que a oportunidade de expansão da consciência no nível da percepção [consciousness], oferecida por cada novo problema, envolve também ‘a necessidade de despedir-se da inconsciência infantil e da confiança na natureza’50. O crescimento é adquirido ao preço de uma perda aparente e a dificuldade reside no fato de que esse preço tem que ser pago antes que a segurança reconfortante do ganho tenha sido comprovada.
50Modern Man in Search of a Soul, p. 110.
The useful illustration is sometimes given of the little girl who must give up her dolls in order to enter into the richer experiences of adulthood. The sacrifice that is here demanded of her continues to be demanded under different forms throughout human life. The man who wishes to roam freely through the kingdom of thought must abandon his attachment to the thought-patterns with which he has identified himself. To become the universal man he must abandon his parochialism. To reach the freedom of the creative levels of consciousness, he must renounce the comfortable security of the personality. Only on this condition will he be able to prove for himself the truth of statements made by ancient religion and modern psychology alike, that “foregoing self, the Universe grows ‘I’,” and that the only way to more abundant life lies in the renunciation of the limited form of life with which the individual is temporarily identified.
Uma ilustração útil, frequentemente apresentada, é a da menina que tem que abrir mão de suas bonecas para ingressar nas experiências mais ricas da vida adulta. O sacrifício exigido dela nesse momento continua a ser exigido, sob diferentes formas, ao longo de toda a vida humana. O homem que deseja transitar livremente pelo reino do pensamento tem que abandonar o seu apego aos padrões de pensamento com os quais tem se identificado. Para tornar-se o homem universal, tem que abandonar o seu paroquialismo. Para alcançar a liberdade dos níveis criativos de consciência no nível da percepção [consciousness], ele tem que renunciar à segurança confortável da personalidade. Somente sob essa condição ele poderá comprovar, por si mesmo, a veracidade das afirmações feitas tanto pela religião antiga quanto pela psicologia moderna: que, ‘foregoing self, the Universe grows ‘I’’(*) [‘ao renunciar o self, o Universo torna-se ‘Eu’ ou ‘ao renunciar ao pequeno self, o Universo inteiro torna-se o verdadeiro ‘Eu’] e que o único caminho para uma vida mais abundante reside na renúncia à forma limitada de vida com a qual o indivíduo está temporariamente identificado.
(*) Observação PO: “Foregoing self, the Universe grows ‘I’.” Essa famosa linha provém do poema “A Luz da Ásia” (também intitulado “A Grande Renúncia”), publicado em 1879 pelo poeta Inglês Sir Edwin Arnold. Ela aparece quando o Buda (Príncipe Siddhartha) profere o seu sermão final sob a árvore Bodhi, explicando a natureza do Nirvana. A frase faz parte de uma estrofe mais ampla que rejeita a ideia do Nirvana como um simples “fim” ou “morte”. Ao invés disso, descreve uma transformação da identidade: “Se alguém ensinar que o Nirvana é deixar de existir, dizei-lhes que eles mentem. Se alguém ensinar que o Nirvana é viver, dizei-lhes que eles se enganam… Nada buscando, ele tudo alcança; ao renunciar ao self, o Universo torna-se ‘Eu’.”
É possível expressar em poucas palavras o resultado prático do estudo da Ciência da Espiritualidade?
No que diz respeito à vida pessoal, nada mais se exige além de cumprir a instrução dada em ‘At the Feet of the Master’ [‘Aos Pés do Mestre’]: fazer exatamente o que é dito, viver como se a unidade fosse um fato e amar o próximo como a si mesmo. ‘Se você me perguntar’, escreve HPB em ‘The Key to Theosophy’ [‘A Chave para a Teosofia’], ‘como nós entendemos o dever Teosófico na prática e à luz do Karma, eu posso responder a você que o nosso dever é beber, sem murmurar até a última gota, o que quer que o cálice da vida nos tenha reservado; colher as rosas da vida apenas pela fragrância que possam espalhar sobre os outros; e contentar-nos apenas com os espinhos, caso essa fragrância não possa ser desfrutada sem privar outra pessoa dela.’51
51op. cit., p. 193.
Na organização das comunidades humanas e de seus relacionamentos complexos, a maneira de agir revela-se, mediante análise, fundamentalmente a mesma. Uma comparação feita por um antropólogo eminente entre o nosso modo de vida Ocidental e o de grupos primitivos lança luz sobre o problema que confronta o homem contemporâneo.
As sociedades primitivas são essencialmente simples: elas oferecem um modo de vida para todos, um código para todos e, consequentemente, caracterizam-se por uma invejável ausência de problemas. Uma comunidade civilizada moderna, por outro lado, apresenta um quadro de extraordinária diversidade e conflito: diferenças de pensamento religioso e político, diferenças de organização econômica e social, diferenças de padrões morais — todos eles violados — e uma complexa variedade de relacionamentos e funções em constante mudança; e, por toda parte, disputas, conflitos e problemas materiais e psicológicos.
At the cost of much unhappiness and dissatisfaction, a more dignified standard of personal relationships has been acquired, and diversity and individuality have been gained by the sacrifice of primitive harmony. It would seem that the next development for man is the attain ment of a superior harmony which shall be not the harmony of uniformity but a synthesis of diversity, in which individual differentiation shall contribute to the richness of the total pattern.52
52М. Mead: Coming of Age in Samoa.
Ao custo de muita infelicidade e insatisfação, alcançou-se um padrão mais digno de relacionamentos pessoais e a diversidade e a individualidade foram conquistadas mediante o sacrifício da harmonia primitiva. Parece que o próximo passo no desenvolvimento humano é a conquista de uma harmonia superior — não a harmonia da uniformidade, mas uma síntese da diversidade, na qual a diferenciação individual contribua para a riqueza do padrão como um todo.
‘Uma civilização’, escreveu Smuts, ‘não é nada além de uma estrutura espiritual de ideias dominantes que se expressam em instituições e na atmosfera sutil da cultura.’ Mas há de se reconhecer que as ideias dominantes têm que ser fornecidas, em primeiro lugar, por indivíduos. Se nós conseguirmos manter constantemente diante de nós a ideia da Vida Una, até que ela domine cada um de nossos pensamentos e ações, talvez nós tenhamos a satisfação de testemunhar o nascimento de uma civilização mundial que seja a expressão — em termos de instituições e culturas humanas — do princípio da Unidade.
A mudança que tem que ser realizada antes para que esse ideal se concretize é, essencialmente, uma mudança na consciência no nível da percepção [consciousness] humana. No entanto, há motivos para acreditar que a possibilidade de tal mudança não é um sonho vão. Sir Richard Gregory observou que o progresso do século XIX residiu não apenas no domínio crescente dos recursos materiais do mundo, mas no ‘despertar estupendo para um senso de responsabilidade social… uma concepção cada vez mais ampla das relações e obrigações entre os homens’, algo que o estudo daquele período revela. Esse senso já existia, de forma limitada, em grupos primitivos, mas, ‘na sociedade moderna, pode expandir-se para abarcar todos os membros de uma grande nação e, possivelmente, todos os homens de boa vontade. Os instintos sociais do homem estenderam-se da família à tribo, à nação e ao império e alcançarão a sua plenitude e o seu grau mais elevado quando abraçarem o mundo todo’.53
53Address to the American Association for the Advancement of Science, 1938.
Além do respaldo que a observação da história oferece a essa visão alentadora, parece haver evidências de outra natureza no desenvolvimento da parapsicologia. Nós concordamos com Huxley que ‘o grande problema ético de nosso tempo é alcançar a unidade global da humanidade’54. As conclusões de Rhine sobre o vasto alcance das investigações de natureza não física pareceriam extravagantes se não fossem corroboradas tanto pelo conhecimento existente acerca das mudanças evolutivas quanto pelos princípios da Sabedoria Antiga. Ao abordar a necessidade de um espírito de cooperação e harmonia nas relações humanas, ele prossegue:
‘Nós estamos avançando em direção a esse objetivo apoiados na base sólida da pesquisa. A descoberta de uma comprovação experimental para a concepção psicocêntrica do homem pode nos levar a ver as pessoas de todo o mundo como algo mais do que meros corpos. Nós sabemos — não apenas com base na fé, mas em evidências — que elas possuem mentes independentes, capazes de escolhas volitivas reais na determinação criativa de suas vidas, bem como potencialidades pessoais singulares para oferecer contribuições culturais únicas ao mundo. As distinções superficiais entre grupos, baseadas em características físicas, perdem importância à medida que se reconhece o significado da vida interior da mente humana. O poder de coesão social das inter-relações espirituais entre os homens — em contraposição às físicas — pode ser considerado tão real e eficaz quanto qualquer outra força no universo… Amparadas pela segurança das evidências experimentais, essas novas descobertas sobre as ciências da vida mental deverão difundir-se pelo mundo com a mesma eficácia que as ciências do corpo. E certamente nós temos que esperar que uma ordem superior de entendimento fraternal e cooperação as acompanhe através de oceanos e continentes, assim como melhores condições de saneamento e saúde seguiram o avanço do conhecimento em higiene e medicina.”55
54Evolution and Ethics, p. 233.
55The Reach of the Mind, p. 177.
A Ciência da Espiritualidade torna inteligíveis tanto os problemas da vida humana como as tentativas de indivíduos e grupos para encontrar uma solução satisfatória. A Sabedoria Antiga declara que a Vida é Una, mas o homem, no vale da sombra, vê apenas a multiplicidade e vai de morte em morte. Na separação e na dor ele colhe o fruto da individualidade; na renúncia e no amor ele pode reunir a Sabedoria do Self.
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