Esse artigo é direcionado para as Organizações (com fins lucrativos, sem fins lucrativos, estatais e outras) que estejam buscando reincorporar a Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT), visando não somente a sua perenidade nesse mercado em fase de profunda mudança em todas as áreas de atuação uma mudança da visão de mundo mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica , como também que estejam almejando fazer toda a diferença positiva para os stakeholders, na vida como um todo interconectado.

Artigo para reflexão e meditação, de fonte primária sobre o tema.

Artigo:

The Relationship between Science and Spirituality

O Relacionamento entre Ciência e Espiritualidade

Autor:

Fritjof Capra

Domingo de 20 de outubro de 2019

Site:

The Relationship Between Science and Spirituality – Fritjof Capra

Tradução livre Projeto OREM® (PO)

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O Relacionamento entre Ciência e Espiritualidade

Sobre o Autor

Fritjof Capra

Físico e teórico de sistemas, nascido em Viena, Capra tornou-se conhecido inicialmente por seu livro “The Tao of Physics” [“O Tao da Física”], que explorou as maneiras pelas quais a física moderna estava mudando a nossa visão de mundo, de uma perspectiva mecanicista para uma holística e ecológica.

Publicado em 1975, o livro ainda é impresso em mais de 40 edições em todo o mundo e é referenciado pela estátua de Shiva no pátio de um dos maiores e mais respeitados centros de pesquisa científica do mundo:

CERN, o Center for Research in Particle Physics [Centro de Pesquisa em Física de Partículas], em Genebra.

Nos últimos 30 anos, Capra tem se dedicado a uma exploração sistemática de como outras ciências e a sociedade estão promovendo uma mudança semelhante de visão de mundo, ou paradigmas, levando a uma nova visão da realidade e a um novo entendimento das implicações sociais dessa transformação cultural.

O seu livro mais recente, “The Systems View of Life” [“ A Visão Sistêmica da Vida”] (em coautoria com Pier Luigi Luisi, 2014), apresenta uma nova e grandiosa síntese desse trabalho, integrando as dimensões biológica, cognitiva, social e ecológica da vida em uma visão unificada.

Uma Nova Concepção da Vida

Eu fui treinado como um físico e passei vinte anos, de 1965 a 1985, pesquisando física teórica de altas energias em diversas universidades Europeias e Americanas. Desde os meus primeiros anos de estudante, eu fiquei fascinado pelas mudanças drásticas de conceitos e ideias que ocorreram na física durante as três primeiras décadas do século XX. No meu primeiro livro, O Tao da Física (Capra, 1975), eu discuti a profunda mudança em nossa visão de mundo provocada pela revolução conceitual na física – uma mudança da visão de mundo mecanicista de Descartes e Newton para uma visão holística e ecológica.

Em minhas pesquisas e escritos subsequentes, eu me dediquei a uma exploração sistemática de um tema central: a mudança fundamental de visão de mundo, ou mudança de paradigmas, que agora também está ocorrendo em outras ciências e na sociedade; o desdobramento de uma nova visão da realidade e as implicações sociais dessa transformação cultural.

Para conectar as mudanças conceituais na ciência com a mudança mais ampla de visão de mundo e valores na sociedade, eu tinha que ir além da física e buscar uma estrutura conceitual mais abrangente. Ao fazer isso, eu reconheci que os nossos principais problemas sociais – saúde, educação, direitos humanos, justiça social, poder político, proteção ambiental, gestão de empresas, economia e assim por diante – estão todos relacionados a sistemas vivos; a indivíduos, sistemas sociais e ecossistemas.

Com essa tomada de consciência, os meus interesses de pesquisa se deslocaram da física para as ciências da vida. Utilizando insights da teoria dos sistemas vivos, da teoria da complexidade e da ecologia, eu comecei a construir uma estrutura conceitual que integra quatro dimensões da vida: a biológica, a cognitiva, a social e a ecológica. Eu apresentei resumos dessa estrutura, à medida que ela evoluiu ao longo dos anos, em diversos livros, começando com *The Turning Point* (Capra, 1982), seguido por *The Web of Life* (Capra, 1996) e *The Hidden Connections* (Capra, 2002).

Em meu novo livro, “A Visão Sistêmica da Vida”, escrito em coautoria com Pier Luigi Luisi, professor de bioquímica da Universidade de Roma, eu ofereço uma grande síntese dessa visão unificadora (Capra e Luisi, 2014). Em sua essência, nós encontramos uma mudança fundamental de metáforas: de ver o mundo como uma máquina para entendê-lo como uma rede (network).

Nós estamos começando a ver o mundo como uma rede (network).

Nós temos descoberto que o mundo material, em última análise, é uma rede (network) de padrões inseparáveis ​​de relacionamentos. Nós temos descoberto também que o planeta como um todo é um sistema vivo e autorregulado. A visão do corpo humano como uma máquina e da mente como uma entidade separada está sendo substituída por uma que considera não apenas o cérebro, mas também o sistema imunológico, os órgãos e até mesmo cada célula como um sistema cognitivo vivo. E com a nova ênfase na complexidade, na não linearidade e nos padrões de organização, uma nova ciência das qualidades está emergindo lentamente.

Nós chamamos essa nova ciência de ‘visão sistêmica da vida’ porque ela envolve um novo tipo de pensamento – pensar em termos de relacionamentos, padrões e contexto. Na ciência, essa maneira de pensar é conhecida como ‘pensamento sistêmico’ ou ‘pensamento de sistemas’.

A Visão Sistêmica da Evolução

A visão sistêmica da vida, como era de se esperar, inclui um novo entendimento sistêmico da evolução. Ao invés de ver a evolução como resultado apenas de mutações aleatórias e seleção natural, nós estamos começando a reconhecer o desdobramento criativo da vida em formas de crescente diversidade e complexidade como uma característica inerente a todos os sistemas vivos. Embora a mutação e a seleção natural ainda sejam reconhecidas como aspectos importantes da evolução biológica, o foco central está na criatividade, na busca constante da vida pela novidade (inovação).

A visão sistêmica reconhece que a evolução não começou com a primeira célula viva, mas milhões de anos antes, com um processo conhecido como evolução molecular ou ‘pré-biótica’ (ver Capra e Luisi, pp. 216 e seguintes). As nossas ideias detalhadas sobre essa evolução pré-biótica ainda são muito especulativas, mas a maioria dos biólogos e bioquímicos não duvida que a origem da vida na Terra tenha sido o resultado de uma sequência de eventos químicos, sujeitos às leis da física e da química e à dinâmica não linear de sistemas complexos.

Na perspectiva sistêmica, o cenário básico da origem e evolução da vida na Terra começa nos oceanos primordiais com a formação de bolhas oleosas delimitadas por membrana, conhecidas pelos químicos como ‘vesículas’. Essas minúsculas gotículas se formaram espontaneamente de acordo com as leis básicas da física, tão naturalmente quanto as bolhas de sabão que se formam quando nós misturamos água e sabão.

Uma vez formadas, as vesículas, uma complexa rede química se desdobrou gradualmente nos espaços que elas continham, o que proporcionou às bolhas o potencial para crescer e ‘evoluir’ em estruturas complexas e autorreplicantes. Eventualmente, a vida emergiu dessas protocélulas com a evolução do DNA, das proteínas e do código genético.

Isso marcou o surgimento de um ancestral universal – a primeira célula bacteriana – da qual toda a vida subsequente na Terra descende. Os descendentes das primeiras células vivas dominaram a Terra tecendo uma teia bacteriana planetária e ocupando gradualmente todos os nichos ecológicos.

Impulsionada pela criatividade inerente a todos os sistemas vivos, a teia planetária da vida expandiu-se por meio de mutações, troca genética e simbioses, produzindo formas de vida de complexidade e diversidade cada vez maiores.

Nesse majestoso desdobramento da vida, todos os organismos vivos responderam continuamente às influências ambientais com mudanças estruturais e o fizeram de forma autônoma, de acordo com as suas próprias naturezas (ibid., pp. 134 e ss.). Desde o início da vida, as suas interações entre si e com o ambiente não vivo foram interações cognitivas (ibid., pp. 141 e ss.). À medida que as suas estruturas se tornavam mais complexas, o mesmo acontecia com os seus processos cognitivos, culminando, por fim, na consciência no nível da realidade [awareness] consciente, na linguagem e no pensamento conceitual.

Espírito e Espiritualidade

Ao observarmos esse cenário – da formação de gotículas oleosas ao surgimento da consciência no nível da percepção [consciousness] – surge naturalmente a questão: e a dimensão espiritual da vida? Há espaço para o espírito humano nessa nova visão da evolução pré-biótica e biótica?

Para responder a essa pergunta, é útil revisar o significado original da palavra ‘espírito’. O Latim spiritus significa ‘sopro’, o que também se aplica à palavra Latina relacionada anima, ao Grego psyche e ao Sânscrito atman. O significado comum desses termos-chave indica que o significado original de ‘espírito’ em muitas tradições filosóficas e religiosas antigas, tanto no Ocidente quanto no Oriente, é o de sopro da vida.

Como a respiração é, de fato, um aspecto central do metabolismo de todas as formas de vida, exceto as mais simples, o sopro da vida parece ser uma metáfora perfeita para a rede (network) de processos metabólicos que é a característica definidora de todos os sistemas vivos (Ibid., pp. 134 e ss.). O espírito – o sopro da vida – é o que nós temos em comum com todos os seres vivos. Ele nos nutre e nos mantém vivos.

A Espiritualidade é geralmente entendida como uma forma de ser que flui de uma certa experiência profunda da realidade, conhecida como experiência ‘mística’, ‘religiosa’ ou ‘espiritual’. Existem inúmeras descrições dessa experiência na literatura das religiões do mundo, que tendem a concordar que se trata de uma experiência direta e não intelectual da realidade, com algumas características fundamentais independentes dos contextos culturais e históricos. Uma das mais belas descrições contemporâneas pode ser encontrada em um breve ensaio intitulado “Spirituality as Common Sense” [“Espiritualidade como Senso Comum”], do monge Beneditino, psicólogo e escritor David Steindl-Rast (1990).

O espírito – o sopro da vida – é o que nós temos em comum com todos os seres vivos.

De acordo com o significado original de espírito como o sopro da vida, o Irmão David caracteriza a experiência espiritual como uma experiência não ordinária da realidade durante momentos de intensa vivacidade. Os nossos momentos espirituais são momentos em que nós nos sentimos intensamente vivos. A vivacidade sentida durante essa ‘experiência culminante’, como a denominou o psicólogo Abraham Maslow (1964), envolve não apenas o corpo, mas também a mente. Os Budistas se referem a esse estado de alerta mental elevado como ‘atenção plena’ (‘mindfulness’) e eles enfatizam, curiosamente, que a atenção plena está profundamente enraizada no corpo. A espiritualidade, portanto, é sempre corporificada. Nós experienciamos o nosso espírito, nas palavras do Irmão David, como ‘a plenitude da mente e do corpo’.

A espiritualidade, portanto, é sempre corporificada.

É evidente que essa noção de espiritualidade é muito consistente com a noção de mente corporificada que está sendo desenvolvida na ciência cognitiva (ver Varela et al., 1991). A experiência espiritual é uma experiência da vivacidade da mente e do corpo como uma unidade. Além disso, essa experiência de unidade transcende não apenas a separação entre mente e corpo, mas também a separação entre o self e o mundo. A consciência no nível da realidade [awareness] central nesses momentos espirituais é um profundo senso de unicidade com tudo, um sentimento de pertencimento ao universo como um todo.

Esse senso de unicidade com o mundo natural é plenamente corroborado pela nova concepção sistêmica da vida. Nós ao entendermos como as raízes da vida se aprofundam na física e na química básicas, como o desdobramento da complexidade começou muito antes da formação das primeiras células vivas e como a vida evoluiu por bilhões de anos utilizando, repetidamente, os mesmos padrões e processos básicos, nós reconhecemos o quão intimamente conectados nós estamos com toda a estrutura da vida.

Uma Sensação de Admiração e Maravilha

A experiência espiritual – a experiência direta e não intelectual da realidade em momentos de intensa vivacidade – é conhecida como experiência mística porque é um encontro com o mistério. Professores espirituais ao longo dos tempos têm insistido que a experiência de um profundo senso de conectividade; de pertencimento ao cosmos como um todo, que é a característica central da experiência mística, é inefável – incapaz de ser adequadamente expressa em palavras ou conceitos. Assim nós lemos no Kena Upanishad (ver Hume, 1934):

Ali o olho não alcança,
A fala não alcança, nem a mente.
Nós não sabemos, nós não entendemos
Como alguém poderia ensiná-lo.

Esse encontro com o mistério, como nos dizem os místicos, é frequentemente acompanhado por um profundo sentimento de admiração e maravilha, juntamente com uma grande humildade. Os cientistas, em suas observações sistemáticas dos fenômenos naturais, não consideram a sua experiência da realidade como inefável. Pelo contrário, nós buscamos expressá-la em linguagem técnica, incluindo a matemática, com a maior precisão possível. Contudo, a interconectividade fundamental de todos os fenômenos é um tema dominante também na ciência moderna e muitos de nossos grandes cientistas têm expressado o seu sentimento de admiração e maravilha ao se depararem com o mistério que reside além dos limites de suas teorias. Albert Einstein, por exemplo, expressou repetidamente esses sentimentos, como na seguinte passagem célebre (Einstein, 1949):

‘A coisa mais bela que nós somos capazes de experienciar é o mistério. Ela é a emoção fundamental que está no berço da verdadeira arte e da verdadeira ciência… o mistério da eternidade da vida e o vislumbre da maravilhosa estrutura da realidade, juntamente com o esforço sincero para compreender uma porção, por menor que seja, da razão que se manifesta na natureza.’

Espiritualidade e Religião

Nós ao discutirmos o relacionamento entre Ciência e Espiritualidade, é importante distinguir entre Espiritualidade e Religião.

Espiritualidade é uma maneira de estar fundamentado(*) em uma determinada experiência da realidade, independente de contextos culturais e históricos.

Observação PO: O autor utilizou a palavra “grounded”, que poderia ser traduzida também por “com os dois pés no chão’, significando alguém que tem uma base sólida e não se deixa levar facilmente pelas emoções.

Religião é a tentativa organizada de entender a experiência espiritual, interpretá-la com palavras e conceitos e usar essa interpretação como fonte de diretrizes morais para a comunidade religiosa.

‘Deus não tem religião’ – Gandhi

Existem três aspectos básicos da religião: teologia, moral e ritual (ver Capra e Steindl-Rast, 1991). Nas religiões Teístas, a teologia é a interpretação intelectual da experiência espiritual, do sentimento de pertencimento, tendo Deus como ponto de referência supremo. A moral, ou ética, são as regras de conduta derivadas desse sentimento de pertencimento; e o ritual é a celebração do pertencimento pela comunidade religiosa. Todos esses três aspectos – teologia, moral e ritual – dependem dos contextos histórico e cultural da comunidade religiosa.

A Teologia era originalmente entendida como a interpretação intelectual da própria experiência mística dos teólogos. De fato, segundo o estudioso Beneditino Thomas Matus (citado em Capra e Steindl-Rast, 1991), durante os primeiros mil anos do Cristianismo, praticamente todos os principais teólogos – os chamados ‘Pais da Igreja’ – também eram místicos. Ao longo dos séculos subsequentes, porém, durante o período escolástico, a Teologia tornou-se progressivamente fragmentada e dissociada da experiência espiritual que originalmente lhe constituía o núcleo.

Com a nova ênfase no conhecimento teológico puramente intelectual, houve um endurecimento da linguagem. Enquanto os Padres da Igreja afirmavam repetidamente a natureza inefável da experiência religiosa e expressavam as suas interpretações em termos de símbolos e metáforas, os teólogos escolásticos formularam os ensinamentos Cristãos em linguagem dogmática e exigiram dos fiéis que aceitassem essas formulações como verdade literal. Em outras palavras, a Teologia Cristã (no que diz respeito à instituição religiosa) tornou-se cada vez mais rígida e fundamentalista, desprovida de espiritualidade autêntica.

O Cristianismo era originalmente focado em uma experiência mística de Deus. A Religião veio depois.

A consciência no nível da realidade [awareness] desses relacionamentos sutis entre Religião e Espiritualidade é importante quando nós comparamos ambas com a Ciência. Enquanto os cientistas tentam explicar os fenômenos naturais, o propósito de uma disciplina espiritual não é fornecer uma descrição do mundo. O seu propósito, ao invés disso, é facilitar experiências que transformem o indivíduo e seu modo de vida. Contudo, nas interpretações de suas experiências, místicos e professores espirituais muitas vezes também fazem afirmações sobre a natureza da realidade, relações causais, a natureza da consciência no nível da percepção [consciousness] humana e assuntos semelhantes. Isso nos permite comparar as suas descrições da realidade com as descrições correspondentes feitas por cientistas.

Nessas tradições espirituais – por exemplo, nas diversas escolas do Budismo – a experiência mística é sempre primária; as suas descrições e interpretações são consideradas secundárias e provisórias, insuficientes para descrever plenamente a experiência espiritual. De certa maneira, essas descrições não são muito diferentes dos modelos limitados e aproximados da Ciência, que estão sempre sujeitos a modificações e aprimoramentos.

Na história do Cristianismo, em contraste, as afirmações teológicas sobre a natureza do mundo, ou sobre a natureza humana, eram frequentemente consideradas verdades literais e qualquer tentativa de questioná-las ou modificá-las era considerada herética. Essa posição rígida da Igreja levou aos conhecidos conflitos entre a Ciência e o Cristianismo Fundamentalista, que persistem até os dias atuais. Nesses conflitos, posições antagônicas são frequentemente adotadas por fundamentalistas de ambos os lados, que não levam em conta a natureza limitada e aproximada de todas as teorias científicas, por um lado e a natureza metafórica e simbólica da linguagem das escrituras religiosas, por outro. Nos últimos anos, esses debates fundamentalistas tornaram-se especialmente problemáticos em torno do conceito de um Deus criador.

No Budismo, a experiência mística é sempre primária.

Nas religiões Teístas, o senso de mistério que está no cerne da experiência espiritual é associado ao divino. Na tradição Cristã, o encontro com o mistério é um encontro com Deus e os místicos Cristãos enfatizaram repetidamente que a experiência de Deus transcende todas as palavras e conceitos. Assim, Dionísio, o Areopagita, um místico de grande influência do início do século VI, escreveu:

‘Ao final de todo o nosso conhecimento, nós conheceremos Deus como o desconhecido’;

e São João Damasceno, no início do século VIII:

‘Deus está acima de toda a onisciência e acima de toda essência’ (ambos citados em Capra e Steindl-Rast, 1991).

Contudo, a maioria dos teólogos Cristãos deseja falar sobre a sua experiência com Deus e para isso os Padres da Igreja utilizaram linguagem poética, símbolos e metáforas. O erro central dos teólogos fundamentalistas nos séculos subsequentes foi e continua sendo, adotar uma interpretação literal dessas metáforas religiosas. Uma vez feito isso, qualquer diálogo entre Religião e Ciência torna-se frustrante e improdutivo.

A Religião envolve não apenas a interpretação intelectual da experiência espiritual, mas também está intimamente ligada à moral e aos rituais. A moral, ou ética, são as regras de conduta derivadas do senso de pertencimento que reside no âmago da experiência espiritual e o ritual é a celebração desse pertencimento.

Tanto a ética quanto o ritual se desenvolvem no contexto de uma comunidade espiritual ou religiosa. Segundo David Steindl-Rast, o comportamento ético está sempre relacionado à comunidade específica à qual pertencemos. Quando nós pertencemos a uma comunidade, nós nos comportamos de acordo com ela.

No mundo atual, nós pertencemos a muitas comunidades diferentes, mas nós compartilhamos duas comunidades às quais todos nós pertencemos. Nós somos todos membros da humanidade e todos nós pertencemos à biosfera global.

Nós somos membros de oikos, a Família da Terra, que é a raiz Grega da palavra ‘ecologia’ e, como tal, nós devemos nos comportar como os outros membros da família se comportam – as plantas, os animais e os microrganismos que formam a vasta rede (network) de relacionamentos que nós chamamos de teia da vida.

Nós somos parte integrante da teia da vida.

A característica mais marcante da Família da Terra é a sua capacidade intrínseca de sustentar a vida. Como membros da comunidade global de seres vivos, cabe a nós agir de forma a não interferir nessa capacidade intrínseca. Esse é o significado essencial da sustentabilidade ecológica. Como membros da comunidade humana, o nosso comportamento deve refletir o respeito à dignidade humana e aos direitos humanos fundamentais. Uma vez que a vida humana abrange dimensões biológicas, cognitivas, sociais e ecológicas, os direitos humanos devem ser respeitados em todas as quatro dimensões.

Explicar isso em detalhes é um grande desafio, mas, felizmente, nós temos um documento magnífico, a Carta da Terra, que abrange a ampla gama da dignidade humana e dos direitos humanos. A Carta da Terra foi escrita ao longo de muitos anos, a partir da Cúpula da Terra no Rio de Janeiro, em 1992, em um esforço colaborativo singular que envolveu ONGs, povos Indígenas e muitos outros grupos ao redor do mundo. É uma declaração de 16 valores e princípios para a construção de um mundo sustentável, justo e pacífico – um resumo perfeito da ética que nós necessitamos para o nosso tempo.

Para concluir a minha breve discussão sobre Religião, eu gostaria de acrescentar algumas palavras sobre rituais e a noção do sagrado. O propósito original das comunidades religiosas era proporcionar aos seus membros a oportunidade de reviver as experiências místicas dos fundadores da religião. Para isso, os líderes religiosos criaram rituais especiais dentro de seus contextos históricos e culturais.

Esses rituais podem envolver lugares especiais, vestes, música, drogas psicodélicas e diversos objetos ritualísticos. Em muitas religiões, esses meios especiais para facilitar a experiência mística tornam-se intimamente associados à própria religião e são considerados sagrados. Assim, nós ouvimos falar de ‘terra sagrada’, ‘geometria sagrada’, ‘música sagrada’, ‘danças sagradas’, ‘água benta’, ‘cogumelos sagrados’ e assim por diante.

Paralelos entre Ciência e Misticismo

Como eu tenho mencionado, cientistas e professores espirituais perseguem objetivos muito diferentes. Enquanto o propósito dos primeiros é encontrar explicações para os fenômenos naturais, o dos últimos é transformar a pessoa e o seu modo de vida. Contudo, em suas diferentes buscas, ambos são levados a fazer afirmações sobre a natureza da realidade que podem ser comparadas.

Entre os primeiros cientistas modernos a fazer tais comparações estavam alguns dos principais físicos do século XX, que se esforçaram para entender a estranha e inesperada realidade revelada a eles em suas explorações de fenômenos atômicos e subatômicos (ver Capra, 1975, pp. 52 e ss.). Na década de 1950, vários desses cientistas publicaram livros de divulgação científica sobre a história e a filosofia da física quântica, nos quais insinuaram paralelos notáveis ​​entre a visão de mundo implícita na física moderna e as visões das tradições espirituais e filosóficas Orientais. As três citações a seguir são exemplos dessas primeiras comparações.

As noções gerais sobre o entendimento humano… ilustradas pelas descobertas na física atômica não são, por natureza, totalmente desconhecidas, inéditas ou novas. Mesmo em nossa própria cultura, elas têm uma história e no pensamento Budista e Hindu ocupam um lugar ainda mais considerável e central. – J. Robert Oppenheimer (1954)

Para um paralelo com a lição da teoria atômica… [nós temos que nos voltar] para aqueles tipos de problemas epistemológicos com os quais pensadores como Buda e Lao Tzu já se depararam. – Niels Bohr (1958)

A grande contribuição científica para a física teórica que veio do Japão desde a última guerra pode ser um indício de uma certa relação entre ideias filosóficas na tradição do Extremo Oriente e a substância filosófica da teoria quântica. – Werner Heisenberg (1958)

A visão de mundo da física quântica e das tradições espirituais Orientais revelou-se notavelmente semelhante.

Durante a década de 1960, houve um forte interesse pelas tradições espirituais Orientais na Europa e na América do Norte e muitos livros acadêmicos sobre Hinduísmo, Budismo e Taoísmo foram publicados por autores Orientais e Ocidentais. Naquela época, os paralelos entre essas tradições Orientais e a física moderna eram discutidos com mais frequência (ver, por exemplo, LeShan, 1969) e alguns anos depois explorei-os sistematicamente em *O Tao da Física* (Capra, 1975).

A minha principal tese nesse livro é que as abordagens de físicos e místicos, embora à primeira vista pareçam bastante diferentes, compartilham algumas características importantes. Para começar, o método deles é completamente empírico. Os físicos derivam o seu conhecimento de experimentos; os místicos, de insights meditativos. Ambos são observações e, em ambos os campos, essas observações são reconhecidas como a única fonte de conhecimento. Os objetos de observação são, naturalmente, muito diferentes nos dois casos. Os místicos olham para dentro e exploram a sua consciência no nível da percepção [consciousness] em vários níveis, incluindo os fenômenos físicos associados à manifestação da mente.

Os físicos, por outro lado, iniciam a sua investigação sobre a natureza essencial das coisas estudando o mundo material. Explorando reinos cada vez mais profundos da matéria, eles tomam ciência da unidade essencial de todos os fenômenos naturais. Mais do que isso, eles também percebem que eles próprios e sua consciência no nível da percepção [consciousness] são parte integrante dessa unidade. Assim, místicos e físicos chegam à mesma conclusão: uma disciplina partindo do reino interior, a outra do mundo exterior. A harmonia entre as suas visões confirma a antiga sabedoria Indiana de que Brahman, a realidade última exterior, é idêntica a Atman, a realidade interior.

Uma importante semelhança entre os caminhos do físico e do místico reside no fato de que as suas observações ocorrem em domínios inacessíveis aos sentidos comuns. Na física moderna, esses domínios são os do mundo atômico e subatômico; no misticismo, eles são estados não ordinários de consciência no nível da percepção [consciousness] nos quais o mundo sensorial cotidiano é transcendido.

Em ambos os casos, o acesso a esses níveis não ordinários de experiência só é possível após longos anos de treinamento em uma disciplina rigorosa e em ambos os campos os ‘especialistas’ afirmam que as suas observações muitas vezes desafiam expressões na linguagem comum.

O misticismo ancestral inerente à física quântica representa um choque para uma sociedade baseada na ciência.

A física do século XX foi a primeira disciplina em que os cientistas experienciaram mudanças drásticas em seus conceitos e ideias fundamentais – uma mudança paradigmática da visão de mundo mecanicista de Descartes e Newton para uma concepção holística e sistêmica da realidade. Posteriormente, a mesma mudança de paradigma ocorreu nas ciências da vida com o surgimento gradual da visão sistêmica da vida. Portanto, não deve ser surpresa que as semelhanças entre as visões de mundo dos físicos e dos místicos Orientais sejam relevantes não apenas para a física, mas para a Ciência como um todo.

Após a publicação de *O Tao da Física* em 1975, inúmeros livros foram publicados nos quais físicos e outros cientistas apresentaram explorações semelhantes dos paralelos entre física e misticismo (por exemplo, Zukav, 1979; Talbot, 1980; Davies, 1983). Outros autores estenderam as suas investigações para além da física, encontrando semelhanças entre o pensamento Oriental e certas ideias sobre livre-arbítrio; morte e nascimento; e a natureza da vida, da mente, da consciência no nível da percepção [consciousness] e da evolução (ver Mansfield, 2008). Além disso, paralelos semelhantes também foram traçados com as tradições místicas Ocidentais (ver Capra e Steindl-Rast, 1991).

Ecologia Profunda e Espiritualidade

As extensas explorações das relações entre Ciência e Espiritualidade ao longo das últimas quatro décadas tornaram evidente que o senso de unicidade, que é a principal característica da experiência espiritual, é plenamente confirmado pelo entendimento da realidade na Ciência Contemporânea. Portanto, existem inúmeras semelhanças entre as visões de mundo de místicos e professores espirituais – tanto Orientais quanto Ocidentais – e a concepção sistêmica da natureza que está sendo desenvolvida em diversas disciplinas científicas.

Folha Pequena – Vaso Sanguíneo – Rio Amazonas

Nós estamos profundamente conectados à natureza.

A consciência no nível da realidade [awareness] de estarmos conectados com toda a natureza é particularmente forte na ecologia. Conectividade, relacionamento e interdependência são conceitos fundamentais da ecologia; e conectividade, relacionamento e pertencimento são também a essência da experiência espiritual. Portanto, a ecologia – e em particular a escola da ecologia profunda, fundada pelo filósofo Norueguês Arne Naess na década de 1970 (ver Devall e Sessions, 1985) – pode ser uma ponte ideal entre Ciência e Espiritualidade. A característica definidora da ecologia profunda é uma mudança de valores antropocêntricos para ecocêntricos. É uma visão de mundo que reconhece o valor intrínseco da vida não humana, reconhecendo que todos os seres vivos são membros de comunidades ecológicas, ligados em redes (networks) de interdependências.

Quando nós olhamos para o mundo ao nosso redor, nós descobrimos que nós não estamos imersos no caos e na aleatoriedade, mas nós fazemos parte de uma grande ordem, uma grandiosa sinfonia da vida. Cada molécula em nosso corpo já fez parte de corpos anteriores – vivos ou não vivos – e fará parte de corpos futuros. Nesse sentido, o nosso corpo não morrerá, mas continuará a viver, repetidamente, porque a vida continua. Além disso, nós compartilhamos não apenas as moléculas da vida, mas também os seus princípios básicos de organização com o restante do mundo vivo. E como a nossa mente também é corporificada, os nossos conceitos e metáforas estão inseridos na teia da vida juntamente com os nossos corpos e cérebros. De fato, nós pertencemos ao universo e essa experiência de pertencimento pode tornar as nossas vidas profundamente significativas.

Referências

Bohr, N. (1958). Atomic Physics and Human Knowledge. New York: John Wiley & Sons.

Capra, F. (1975). The Tao of Physics. 5th edn. Boston: Shambhala. [fifth updated edition published in 2010.]

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Capra, F. and P. L. Luisi (2014). The Systems View of Life, Cambridge: Cambridge University Press.

Capra, F. and D. Steindl-Rast with Thomas Matus. (1991). Belonging to the Universe. San Francisco: Harper.

Davies, P. (1983). God and the New Physics. New York: Simon & Schuster.

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Mansfield, V. (2008). Tibetan Buddhism and Modern Physics, West Conshohocken, PA: Templeton Press.

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Varela, F. J., E. Thompson and E. Rosch. (1991). The Embodied Mind. Cambridge, MA: MIT Press.

Zukav, G. (1979). The Dancing Wu Li Masters. New York: Morrow.

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Imagem: Cameron Gray Instagram

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.

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Autor

Graduação: Engenharia Operacional Química. Graduação: Engenharia de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing - PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras - FGV/SP. Blog Projeto OREM® - Oficina de Reprogramação Emocional e Mental - O Blog aborda quatro sistemas de pensamento sobre Espiritualidade Não-Dualista, através de 4 categorias, visando estudos e pesquisas complementares, assim como práticas efetivas sobre o tema: OREM1) Ho’oponopono - Psicofilosofia Huna. OREM2) A Profecia Celestina. OREM3) Um Curso em Milagres. OREM4) A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE) - Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT). Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista como uma proposta inovadora de filosofia de vida para os padrões Ocidentais de pensamentos, comportamentos e tomadas de decisões (pessoais, empresariais, governamentais). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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