A virtude (quem diria…) paga bons dividendos.

Destacamos artigo de Francisco Gracioso, editado na Revista ESPM de 2007, onde o autor apresenta que os resultados econômico-financeiros são maximizados nas Melhores Empresas para se Trabalhar ou Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBEs).

“Por que se preocupar com o conteúdo espiritual ou humanístico de nossa filosofia de gestão? As respostas são variadas e vão desde as convicções pessoais dos Administradores até a percepção de que a Empresa-Cidadã pode ser um bom negócio.

Introdução

Este tema não é novo, mas foi ainda pouco explorado pelo mundo acadêmico brasileiro. A grande maioria da literatura publicada é de autoria de estudos Americanos que discorrem principalmente sobre a chamada ética protestante e a influência das filosofias orientais no mundo dos negócios.

No entanto, não se pode dizer que os empresários nacionais ainda não acordaram para o tema. Pelo contrário, há registros de iniciativas admiráveis já na primeira metade do século passado, como a famosa Vila Maria Zélia, construída pelo industrial Jorge Street para abrigar a família de seus trabalhadores.”

A história completa da Vila Maria Zélia pode ser acessada no site São Paulo Antiga, link https://saopauloantiga.com.br/vilamariazelia/.

Uma das ruas da Vila em 1917 – Foto São Paulo Antiga

O artigo acima (2012) de Douglas Nascimento, afirma que São Paulo, com toda a sua imensidão territorial, possui inúmeras Vilas antigas espalhadas por diversos pontos da cidade. Boa parte destas Vilas foram construídas por industriais, que optavam por ceder moradias decentes aos seus funcionários próxima às suas instalações fabris.

“A matriz era um sucesso, com funcionários trabalhando em tempo integral e a fábrica produzindo a todo vapor, inclusive em capacidade máxima, o que levou o empresário a ampliar as suas instalações, optando por uma região como o Belenzinho que já recebia muitas indústrias à época e que poderia rapidamente dar abrigo a uma nova instalação industrial.”

Francisco Gracioso, em seu artigo, também afirma que a Vila era um recanto acolhedor, com casas confortáveis, escolas, clube de recreação, ambulatório e igreja.

“Jorge Street investiu nesta obra uma boa parte de sua fortuna, simplesmente porque achava que este era o seu dever [espiritual] como empresário.

Surgiram também, no início do século passado, fundações construídas em proveito dos funcionários de algumas Empresas, por iniciativa de industriais de origem Europeia.

Infelizmente, a legislação trabalhista brasileira, consolidada por Getúlio Vargas, criou tantas obrigações sociais, que acabou por intimidar os empresários, colocando-os na defensiva.

Só mais recentemente, através de iniciativas como a do Instituto Ethos, a dívida social das Empresas começou a ser resgatada.”

O Instituto Ethos de Empresas e Responsabilidade Social é uma OSCIP cuja missão é mobilizar, sensibilizar e ajudar as Empresas a gerirem os seus negócios de forma socialmente responsável, tornando-as parceiras na construção de uma sociedade justa e sustentável. Site https://www.ethos.org.br/conteudo/sobre-o-instituto/.

Uma OSCIP [Organização da Sociedade Civil de Interesse Público] é uma qualificação jurídica atribuída a diferentes tipos de entidades privadas atuando em áreas típicas do setor público com interesse social, que podem ser financiadas pelo Estado ou pela iniciativa privada sem fins lucrativos. Ou seja, as entidades típicas do terceiro setor. Site SEBRAE, no link: https://www.sebrae.com.br/sites/PortalSebrae/bis/oscip-organizacao-da-sociedade-civil-de-interesse-publico,554a15bfd0b17410VgnVCM1000003b74010aRCRD

Os Empresários têm vergonha de parecer bonzinhos

Francisco Gracioso esclarece, em seu artigo, que na fase de preparação desse estudo, foram entrevistados pessoalmente vários presidentes e executivos de Empresas reconhecidas pelo seu comportamento ético, zelo pela qualidade e respeito aos seus clientes, fornecedores e funcionários.

“Perguntamos a esses empresários e executivos se admitiam que havia um componente espiritual em sua filosofia de gestão. Para surpresa nossa, todos negaram com veemência, deixando claro que a sua preocupação maior eram a perenidade e a rentabilidade da Empresa; portanto, preocupações essencialmente materiais.

Alguns chegaram mesmo a desconfiar do que chamamos de Espiritualidade na Organização, associando-a a crenças religiosas deslocadas de lugar. Para dois deles, havia até conotações supersticiosas nesse conteúdo espiritual.

De fato, no passado, monarcas e generais jamais começavam uma batalha antes de consultar oráculos ou interpretar a direção do voo das aves no céu.

A natureza humana continua a mesma. Como todos nós, os donos e executivos de Empresas também podem ser crentes convictos, crédulos em demasia ou mesmo supersticiosos.

E isto pode levá-los a fazer as coisas que todo mundo faz; penduram crucifixos na parede do escritório, consultam cartomantes e evitam fechar negócios no dia 13. De um modo geral, trata-se de credulidade ou superstição e não tem nada de espiritual.

Se imaginamos uma tabela onde se situam as diversas gradações da Espiritualidade nos Negócios (vide Figura 1), nós veremos que em um dos extremos está a descrença total.

Figura 1

De fato, como observou um dos executivos que consultamos a Empresa moderna é vista como um ser impiedoso e impessoal e estas características teriam sido ainda mais reforçadas pelo advento dos esquemas de compensação variável.

A partir do momento em que os acionistas aceitam remunerar os seus executivos na razão direta dos resultados financeiros obtidos, desapareceria qualquer esperança de conteúdo espiritual nos negócios.

No outro extremo do espectro está uma visão transcendente da Empresa, como se tivéssemos sido ungidos por Deus para levar avante os Seus propósitos.

Dizem que o lendário Sam Walton acreditava nessa missão divina, na direção da Wal-Mart.

O mesmo se diz a respeito de alguns empresários japoneses, como o fundador da Matsushita.

No meio deste espectro colocaríamos os empresários que creem que o seu negócio é parte de uma ordem cósmica e que lhes cabe zelar para que esta ordem seja mantida.

Conteúdo espiritual na Empresa – algumas variantes

Além das três variantes acima, existem outras que compõem o nosso espectro de situações, como veremos abaixo. Veja também a Figura 1 deste artigo, já referida.

1. A Empresa é um ser impiedoso e impessoal.

2. A Empresa prima pelo comportamento ético, zelo pela qualidade e transparência nas relações com terceiros.

3. A Empresa se vê como uma grande família. Procura conciliar os seus objetivos com os dos funcionários e pretende torná-los mais felizes.

4. A Empresa se vê como parte integrante de uma ordem cósmica universal e procura mantê-la; cidadania, ética nas relações e respeito ao cliente.

5. A Empresa é vista pelos seus dirigentes como tendo sido eleita por Deus para levar avante os Seus desígnios na Terra.

O leitor certamente encontrará outras variações se analisar atentamente o que ocorre no mundo dos negócios. Trata-se sempre de ir além dos objetivos puramente materiais, tornando a Empresa um bom lugar para se trabalhar.

Na maioria dos casos, as motivações são complexas e vão desde as convicções pessoais dos dirigentes até a percepção pragmática de que a virtude, a longo prazo, paga bons dividendos.

O lado Espiritual das Organizações – Uma tentativa de conceituação

Em minha juventude, como estudante de administração, estagiei em uma grande fábrica de tecidos que chegou a ser a maior do país, mas entrou em decadência e cerrou as portas em meados dos anos 60.

Os escritórios da Empresa abriam para um amplo pátio ajardinado onde havia um grande crucifixo de madeira ao lado do qual ardia uma lâmpada votiva.

Era, sem dúvida, uma demonstração de que os proprietários tinham uma profunda fé religiosa e faziam questão de que todos se lembrassem disso.

Talvez esperassem, dessa forma, atrair a proteção divina para a Empresa. Mas as pessoas passavam pela cruz sem desviar o olhar e sem preocupar-se com o seu significado.

De fato, não é fácil transpor as nossas crenças religiosas para o universo dos negócios. A dificuldade começa já na definição do que vem a ser efetivamente a Espiritualidade na Organização.

Mesmo que quiséssemos, jamais conseguiríamos fazer com que os nossos funcionários compartilhassem a nossa fé religiosa. E mesmo que isto fosse possível, de pouco adiantaria para o sucesso da Empresa, como nós vimos pelo exemplo acima.

Em nossa opinião, mais do que uma tentativa de associar a Empresa ao sobrenatural, a Espiritualidade na Empresa consiste na adoção e prática de valores éticos e morais que transcendem os objetivos puramente comerciais, embora possam também influir neles.

Resumidamente, estes valores seriam de três tipos:

  • Respeito ao ser humano;
  • Transparência nas ações;
  • Responsabilidade social ou prática da cidadania.

Em épocas e locais distintos, a adoção destes princípios resultou em formas bem diversas de Espiritualidade Empresarial, conforme os valores da cultura nacional.

Fala-se muito da ética protestante nos negócios, uma expressão criada por Max Weber para designar o comportamento típico dos empresários do Norte da Europa, obcecados pelo sucesso, mas sempre prontos a devolver à sociedade uma parte de seus ganhos.

A ética protestante, por exemplo, é característica da cultura anglo-saxônica, caracterizada pelo respeito sacrossanto ao lucro, devoção ao trabalho, respeito aos compromissos e atitudes dogmáticas.

Uma variante desta ética protestante é a ética luterana descrita por Thommas Mann na saga dos Buddenbrooks, a família de negociantes de Hamburgo que manteve os seus valores mesmo em plena decadência.

Para nós, que vivemos numa cultura católica, esta ética protestante chega a ser incompreensível. Mas ela persiste ainda hoje, como forte componente de Empresas mundiais como a Procter & Gamble, a General Motors e outras gigantes oriundas, principalmente, do meio-oeste Americano.

A sua principal qualidade é o sentido de perenidade do negócio e a sua principal desvantagem é a dificuldade que têm em entender os que não pensam como eles.

Não é por outra razão que mais de ¼ de todos os CEO’s das 500 maiores Empresas Americanas professam a religião anglicana, enquanto apenas 2,5% da população Americana segue essa religião (dados extraídos de pesquisa realizada pela revista Fortune entre os CEO’s das maiores Empresas Americanas).

Doutrina Zen-Budista no mundo dos negócios Japonês

A doutrina religiosa mais popular no Japão é o Xintoísmo, uma crença nativa daquele país, mas entre as classes superiores japonesas é grande o número de adeptos da doutrina Budista, nas suas duas principais variações: o Budismo Chinês e o Budismo Zen.

Isto tem uma influência muito grande na maneira de pensar dos empresários Nipônicos, muitos dos quais acreditam sinceramente, que a Empresa tem dois grandes deveres: zelar pela harmonia cósmica e tornar este mundo um pouco melhor.

Além disso, o Zen-Budismo ensina que é muito tênue a linha que separa o passado do presente e esse do futuro. Para o Zen-Budista a única distinção real é que no presente se constrói o futuro, combinando as lembranças do passado à realidade de hoje e aos sonhos do futuro.

Pode parecer complicado para nós, mas isto deu às Empresas Japonesas uma enorme vantagem na tarefa de planejar o seu futuro, tanto assim que os Japoneses dizem talvez com certa razão que os Americanos e os Ocidentais em geral não sabem fazer planos estratégicos.

O Zen-Budismo ensina também que não há uma resposta única para cada questão. Numa comunidade como é a Empresa, o equilíbrio deve ser buscado através da liberdade de pensamento e do consenso entre todos os participantes de um projeto.

Na prática, isto tem implicações de valor inestimável para a obtenção de vantagens competitivas, desde a ousadia criativa (que nós, por preconceito, não associamos aos Japoneses), até a constituição de cadeias de produção que combinam os interesses de dezenas de players diferentes, obtendo reduções de custos inimagináveis para nós.

A virtude paga bons dividendos

O êxito em escala mundial das Empresas Japonesas, como também das Coreanas e Chinesas, sem dúvida deve muito ao conteúdo espiritual que lhes foi legado pela sua cultura religiosa, tanto assim que os valores que antigamente eram associados à ética protestante, como amor ao trabalho, lealdade e responsabilidade, são agora lembrados para explicar o sucesso dos Orientais.

Mas não é só no Oriente que a virtude paga dividendos. Em trabalho recente, o professor Alexandre Gracioso demonstrou que as Empresas escolhidas pela revista Exame como sendo os Melhores Locais onde se Trabalhar, são também as mais lucrativas entre as 500 maiores Empresas brasileiras.

Esta vantagem cresce ainda mais nas Empresas de serviços, onde a qualidade do elemento humano é fundamental. A esse propósito, vide a Figura 2 que mostra em resumo os principais resultados do trabalho mencionado.

Figura 2 – Retorno sobre o Patrimônio por Setor para os Grupos de Controle e de Testes

Como explicar isso? Certamente porque as Melhores Empresas para se Trabalhar são também as mais eficientes e competitivas. E não resta dúvida de que as Empresas com alto conteúdo humanístico que respeitam o ser humano e agem com transparência, acabam criando um ambiente de trabalho estimulante e acolhedor. São Empresas que têm mais facilidades para atrair e conservar funcionários e executivos mais talentosos.

O mais curioso é que um executivo com perfil estritamente materialista, como Jack Welch, defende, exatamente, esse tipo de ambiente, em seu livro Paixão por Vencer. Um homem como ele, que desde a sua primeira comunhão, certamente, não foi mais à igreja, defende, no entanto, a necessidade de se agregar valores humanísticos à cultura empresarial. Talvez seja aí a chave para a solução do nosso enigma.

Em vez de valores espirituais, deveríamos falar do conteúdo humanístico da cultura empresarial.

O papel do CEO nas Empresas que cultivam o seu Conteúdo Espiritual

Sem dúvida alguma, a principal responsabilidade do executivo principal, além de maximizar os resultados econômico-financeiros, é zelar pela perenidade da Empresa. São dois objetivos que podem parecer antagônicos mas que na verdade são complementares.

Os resultados econômico-financeiros são maximizados quando a Empresa se mostra mais competitiva e eficiente, mas isso não significa, necessariamente, que ela deva ser imediatista.

Em um livro que fez sucesso no Brasil, O Monge e o Executivo, o consultor Americano James C. Hunter defende a tese de que o líder será tanto mais respeitado e seguido, quanto maior for a sua disposição para colocar-se a serviço de seus subordinados.

No livro, o personagem principal (um monge beneditino) chama esta predisposição para servir de amor aos subordinados. Estamos, portanto, falando de coisas profundamente espirituais mas que redundam em benefícios materiais para a Empresa.

Quanto a garantir a perenidade da Empresa, estamos falando, principalmente, da defesa e renovação de seus valores culturais. Uma Empresa sem valores sólidos é como uma árvore sem raízes que tomba na primeira ventania mais forte.

E não há nada que mais se pareça com o espírito da Empresa que os seus valores culturais. Falamos de ética, responsabilidade, respeito e preocupação com o bem comum entre outras coisas.

Em artigo anterior, sob o título ‘Empresa e religiões: o líder como Sumo-Sacerdote’, já dissemos que o executivo principal da Empresa se compara ao líder de uma religião.

Assim como cabe ao Papa zelar pela integridade dos valores católicos, cabe ao CEO zelar pela integridade da cultura organizacional.

Imagem pexels-cottonbro-4614110.jpg

Fonte:

1. Gracioso, Alexandro. O estilo de cada uma. Guia Exame, as melhores Empresas para você trabalhar, São Paulo, p.26-28, 2002.

2. Gracioso, Francisco. Empresas e Religiões: o líder como Sumo-Sacerdote. Revista da ESPM, São Paulo, v2, nº 2, p.25-32, ago. 1995.

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios podem ajudar tanto as Pessoas como as Organizações.

Autor

Graduação: Engenheiro Operacional Químico. Graduação: Engenheiro de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras FGV/SP. Consultor de Empresas: Projeto OREM® - Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBEs). Estudante e Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista; Psicofilosofia Huna e Ho’oponopono; A Profecia Celestina; Um Curso em Milagres (UCEM); Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT); A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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