Com o objetivo de conhecimento e de entendimento sobre o sistema de pensamento de uma Organização Baseada na Espiritualidade (OBE), nós estamos transcrevendo trechos do artigo “Workplace Spirituality – Making a Diference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”], editado por Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer.
A fonte do artigo é o livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1, dos autores acima referenciados.
O Prefácio abaixo explica a razão de ser desse importante artigo para entendimento do passado, presente e futuro do que se tem observado no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho.
Artigo:
“Workplace Spirituality – Making a Diference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”]
Editado por:
Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer
Fonte:
Livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1
DE GRUYTER (www.degruyter.com)
Instituto Fetzer (Home – The Fetzer Institute)
Essa obra está licenciada sob a Licença Internacional Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0. Para mais detalhes, acesse http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0.
Tradução livre Projeto OREM® (PO)
Prefácio
Esse livro é extremamente relevante e oportuno. A fé e a espiritualidade têm sido um aspecto fundamental da experiência humana ao longo dos tempos. No entanto, a forma como são experienciadas e expressas continua a mudar com o passar do tempo. Por exemplo, no contexto dos Estados Unidos (EUA), uma pesquisa recente da Gallup mostra que a participação de Americanos em locais de culto (por exemplo, sinagogas, igrejas ou mesquitas) caiu para 47% – o nível mais baixo nos 80 anos de história da pesquisa e uma queda em relação aos 70% registrados em 1999 (Jones, 2021). Isso representa um declínio constante desde o início do século XXI. Essa tendência é impulsionada por dois fatores: um número maior de adultos que não se identificam com nenhuma religião e um declínio na frequência a igrejas entre aqueles que se identificam com alguma religião. Por trás dessas tendências, existem diferenças populacionais ou geracionais, com as gerações mais jovens expressando menos afiliação religiosa (7% dos tradicionalistas – adultos Americanos nascidos antes de 1946; 13% dos baby boomers (1946-1964); 20% da geração X (1965-1980) e 31% dos millenials (geração Y) (1981-1996)).
Simultaneamente, o Instituto Fetzer apoiou um estudo sobre a espiritualidade Americana que buscou entender melhor o significado da espiritualidade para os Americanos e como ela influencia as suas vidas sociais e ações cívicas (Instituto Fetzer, 2020). O estudo incluiu participantes de diversas afiliações religiosas ou identidades espirituais, incluindo aqueles sem nenhuma. Constatou-se que “a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020). Mais especificamente, 86% das pessoas se consideram espirituais e 68% acreditam que a sua espiritualidade guia as suas ações no mundo. Esses números incluem pessoas que se identificam com alguma tradição religiosa e aquelas que não se identificam.
…“a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020)
O que nós podemos concluir desses dois relatórios aparentemente contraditórios? Eu apresento esses dados como base para a importância e a relevância da espiritualidade no ambiente de trabalho. Para muitos, a espiritualidade no ambiente de trabalho é inadequada. Contudo, como demonstram esses estudos, muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando. Ao mesmo tempo, muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013). De fato, para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores. Além disso, as organizações são frequentemente os mecanismos estruturais pelos quais as sociedades se organizam e alcançam os seus objetivos sociais, econômicos e técnicos mais importantes e complexos. Elas são tanto impulsionadoras quanto representações da vida e dos valores da sociedade. Diante disso, elas permanecem um foco crucial e um potencial impulsionador do crescimento e desenvolvimento pessoal e do florescimento humano.
…muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando.
Reconhecendo tudo isso, no Instituto Fetzer (o Instituto), nós nos esforçamos para viver a nossa missão e os nossos valores criando uma comunidade de ambiente de trabalho espiritualmente fundamentada, que nós chamamos de Community of Freedom (COF) [Comunidade da Liberdade]. A nossa COF é o alicerce espiritual do nosso trabalho para transformar a nós mesmos e a sociedade de maneira autêntica e eficaz.
…muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013).
As maneiras de ser e as práticas individuais e comunitárias expressas por meio da COF – e enraizadas em nossos valores organizacionais essenciais de amor, confiança, autenticidade e inclusão – apoiam o Instituto no cultivo da cultura necessária para concretizar a nossa missão de ajudar a construir a base espiritual para um mundo amoroso. Uma das estruturas que nós utilizamos para nos mantermos firmes em nossa missão e visão são os nossos community of freedom gatherings (COFG) [encontros da comunidade da liberdade]. Os COFGs consistem em encontros semanais de três horas com todos os funcionários – desde os nossos jardineiros e equipe de programas até a nossa equipe e líderes de finanças e tecnologia da informação. Durante os COFGs, nós convidamos facilitadores externos e professores espirituais para nos ajudar a nos envolvermos em exploração espiritual individual e comunitária e na construção da comunidade. Nós também oferecemos sessões ministradas por funcionários e fornecemos espaço e recursos para que os funcionários busquem os seus caminhos pessoais. Exemplos de sessões incluem conjuntos de práticas contemplativas, a ciência do bem-estar, a capacidade de diálogo e o convívio com o luto coletivo. As sessões geralmente incluem componentes didáticos e experienciais, além de oportunidades para discussões em pequenos e grandes grupos, que permitem aos funcionários compartilhar experiências profundas uns com os outros.
…para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores.
Em 2016, o Instituto encomendou um estudo de caso independente para aprender mais sobre os primeiros pontos positivos, desafios e impactos do COFG. Algumas das principais conclusões foram que os funcionários sentiram um aumento na confiança, no moral, na conexão e na capacidade de lidar com dificuldades relacionais a partir do trabalho. O estudo de caso também abordou questões e preocupações dos funcionários sobre o propósito dos COFGs em relação ao nosso trabalho externo, o uso de linguagem inclusiva e a abordagem do COFG e as suas ofertas e como os encontros se traduzem em políticas e práticas organizacionais mais amplas. Algumas dessas questões têm sido respondidas à medida que nós temos aprofundado o nosso trabalho como uma comunidade e outras nós continuamos a investigar e a desenvolver.
O Instituto não só se dedica a cultivar um ambiente de trabalho espiritualmente fundamentado, como também busca aprender com outros que compartilham da mesma visão sobre como cultivar culturas organizacionais que apoiem o desenvolvimento e o florescimento humano; e que permitam às organizações operar a partir de sua visão e valores mais profundos, rumo a um mundo mais amoroso. É esse compromisso que motiva o nosso apoio ao trabalho realizado pela International Association of Management, Spirituality and Religion (IAMSR) [Associação Internacional de Gestão, Espiritualidade e Religião], incluindo esse volume. Aqueles que buscam criar ambientes de trabalho que sejam espaços robustos para o florescimento humano e o mundo que nós desejamos habitar precisam de apoio e companheiros de jornada. Muitos de nós estamos lidando com questionamentos semelhantes sobre os prós e os contras de trazer a espiritualidade para o ambiente de trabalho.
Há muito que nós temos aprendido nos últimos vinte anos de experimentação nessa área e muito mais a aprender. Esse volume oferece algumas das melhores ideias e práticas de líderes de pensamento na área. Que ele sirva de inspiração e alimente a nossa imaginação e esforços coletivos em relação ao que é possível.
Shakiyla Smith, Vice-Presidente de Cultura Organizacional – Instituto Fetzer – 10 de novembro de 2021.
Referências
Fetzer Institute. (September 2020). Study of Spirituality in the United States. Report retrieved from https://spiritualitystudy.fetzer.org/sites/default/files/2020-09/What-Does-Spirituality-Mean To-Us_%20A-Study-of-Spirituality-in-the-United-States.pdf
Jones, J.M. (2021). U.S. Church Membership Falls Below Majority for First Time. Gallup. Retrieved from https://news.gallup.com/poll/341963/church-membership-falls-below-majority-first time.aspx
Kegan. R., Lahey, L. L.(2016). An everyone culture: Becoming a deliberately developmental organization. Harvard Business Review Press.
Neal. J. (2013). Creating enlightened organizations: Four gateways to spirit at work. Palgrave Macmillan.
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—–Continuação da Parte XIV—–
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15. Atenção Plena (Mindfulness) e Mais: Formas Espirituais de Meditação
Autora: Marie Holm
Nas últimas décadas, nós temos testemunhado uma mudança, especialmente no mundo Ocidental, desde as religiões tradicionais para uma miríade de práticas espirituais. Além de smörgåsbord espiritual, nós encontramos diversas vertentes de yoga, meditação, mudras e mantras, até Espiritualismo e Espiritismo e todas as coisas que há entre esses extremos. Algumas dessas práticas espirituais se apoiam em alegações quase científicas, enquanto outras se apresentam como baseadas na fé, transcendendo o que pode ser explicado e considerado racional. Algumas são compostas por adeptos informais e dispersos, comprometidos de coração e mente, embora não formalmente, enquanto outras incorporam novas práticas, recrutando seguidores para evangelizar e, assim, expandir a atuação delas.
Um elemento constante nessa mesa farta tem sido a atenção plena (mindfulness), adotada por muitos para uma infinidade de propósitos, desde a elevação da consciência no nível da realidade [awareness] até o alívio da dor causada pelos abusos capitalistas em nosso mundo sofrido. De fato, os esforços para lidar com o estresse e o sofrimento deram origem a uma economia do bem-estar avaliada em US$ 4,5 trilhões (Global Wellness Institute, 2020). Práticas contemplativas têm entrado nas empresas no contexto de programas de treinamento de funcionários, intervenções psicossociais sob a égide do autodesenvolvimento e gerenciamento do estresse.
A mais popular dessas práticas é a atenção plena (mindfulness), que comprovadamente melhora o bem-estar, a produtividade e outros resultados funcionais. Embora cultivar a atenção plena traga benefícios para os indivíduos e para a sociedade, outras práticas também merecem consideração. Assim, a atenção plena tem se tornado o assunto do momento, mas que possibilidades mais amplas existem? Como abordagens alternativas também poderiam ser benéficas para os ambientes de trabalho, para os trabalhadores que neles atuam e para a sociedade ao seu redor? Vamos começar a tentar responder a essas perguntas explicando o que é atenção plena.
“A mais popular dessas práticas é a atenção plena (mindfulness), que comprovadamente melhora o bem-estar, a produtividade e outros resultados funcionais.“
Atenção Plena (Mindfulness), um Tipo Proeminente de Espiritualidade
A atenção plena é definida de diversas maneiras, em nível individual, como perceber ativamente coisas novas (Langer, 1990), prestar atenção intencionalmente ao momento presente sem fazer julgamentos (Williams & Kabat-Zinn, 2013) e um estado de consciência no nível da percepção [consciousness] ou “atenção receptiva” à experiência presente (Good et al., 2016). Enquanto Langer (1990), carinhosamente chamada de “mãe da atenção plena” e defensores dela veem a atenção plena como um estado que é capaz de ser cultivado durante a vida diária, Kabat-Zinn, conhecido como o “pai da atenção plena” e seguidores dele a consideram uma prática a ser realizada regularmente na forma de meditação (Williams & Kabat-Zinn, 2013). Além disso, a atenção plena é vista integralmente como uma característica que é capaz de ser desenvolvida individualmente por meio da prática (Good et al., 2016), seja através da meditação ou de outros métodos como a ioga (Munir et al., 2021). Em suma, a atenção plena é considerada um estado, uma característica ou uma prática e aqui nós nos concentramos principalmente nela como uma prática, também conhecida como intervenção (Good et al., 2016), visto que o nosso interesse reside em formas espirituais de meditação.
“A atenção plena é definida de diversas maneiras, em nível individual, como perceber ativamente coisas novas (Langer, 1990), prestar atenção intencionalmente ao momento presente sem fazer julgamentos (Williams & Kabat-Zinn, 2013) e um estado de consciência no nível da percepção [consciousness] ou “atenção receptiva” à experiência presente (Good et al., 2016).“
Em nível coletivo, a atenção plena é vista em relação a como vários processos se inter-relacionam para gerar atenção organizacional, como membros de um grupo agindo em sincronia para superar uma crise (Weick & Sutcliffe, 2006), ou como consciência coletiva, uma forma de dar sentido ao que está acontecendo (Barry & Meisiek, 2010; Sutcliffe et al., 2016), ou ainda como sabedoria coletiva (E. King & Badham, 2020). Particularmente, essa última classificação de uma noção coletiva de atenção plena, a sabedoria coletiva, direciona a atenção para a melhoria das condições socioeconômicas e da governança política (ibid.), de modo que a atenção plena transforma não apenas os indivíduos, mas também a sociedade, para melhor.
Embora muitos praticantes de atenção plena afirmem que ela não está relacionada à espiritualidade, como defende Kabat-Zinn (Purser, 2019), se adotarmos uma definição ampla de espiritualidade, então ela estaria incluída. Muitas definições proeminentes de espiritualidade no ambiente de trabalho incluem noções de vida interior, trabalho significativo e senso de comunidade (Neal, 2018, p. 9). Seguindo essa linha de pensamento, a espiritualidade não envolve necessariamente uma divindade, que também poderia ser chamada de força criativa, ser divino ou outro termo, estendendo-se, portanto, do humanismo ao esoterismo. Voltando-nos então para como uma prática espiritual, a meditação mindfulness, pode ajudar a humanidade, nós apresentamos uma visão geral dos benefícios que as pesquisas têm demonstrado em níveis individuais e coletivos.
“Muitas definições proeminentes de espiritualidade no ambiente de trabalho incluem noções de vida interior, trabalho significativo e senso de comunidade (Neal, 2018, p. 9).“
Benefícios da Atenção Plena para Indivíduos e Sociedade
A maioria dos estudos sobre meditação tem se concentrado na atenção plena (mindfulness), demonstrando como ela pode impulsionar o bem-estar, a criatividade e outros fatores (ver as meta-análises de Eby et al., 2019; Good et al., 2016; Badham & King, 2019 sobre estudos de atenção plena no ambiente corporativo). Comparados a estudos sobre outras formas de meditação, como a meditação transcendental, os estudos sobre atenção plena possuem uma metodologia de pesquisa mais robusta, o que lhes permitiu obter maior visibilidade em periódicos acadêmicos de alto nível.
Mais de 80% dos 67 estudos publicados sobre treinamento corporativo baseado em atenção plena incluídos na revisão de Eby e colegas (2019) tinham como objetivo reduzir o estresse e/ou a tensão e a minoria restante incorpora outros resultados relacionados à saúde e ao bem-estar. Entre os resultados de bem-estar estão a experiência de emoções positivas e a melhora da atenção. Muitos desses estudos foram realizados em ambientes clínicos, embora, cada vez mais, os pesquisadores estejam se aventurando em outras organizações para obter informações sobre os impactos da atenção plena nos aspectos individuais e coletivos, ou seja, maior engajamento e desempenho, juntamente com níveis reduzidos de estresse (ibid).
Tentar resumir os benefícios documentados da atenção plena é uma tarefa ambiciosa, visto que Good et al. (2016) observam que mais de 4.000 artigos acadêmicos sobre o assunto já haviam sido publicados na época de sua análise. Ainda assim, eles conseguiram categorizar essas descobertas em como a atenção plena influencia a atenção e, consequentemente, afeta a cognição, a emoção, o comportamento e a fisiologia. Em termos de resultados no ambiente de trabalho, eles encontram respaldo nessas inúmeras publicações sobre como a atenção plena eleva os níveis de desempenho, fortalece os relacionamentos e aumenta o bem-estar.
A literatura sobre atenção plena pode ser amplamente agrupada em quatro categorias, de acordo com a perspectiva de Badham e King (2019), segundo o grau de foco nos objetivos instrumentais versus o propósito substantivo da atenção plena. Esses estudiosos contrastam a atenção plena individual e coletiva com a sabedoria nesses dois níveis; não se limitando a colocar a pesquisa positivista em extremos opostos do espectro, mas sim a pesquisa crítica sobre atenção plena, construindo um meio-termo, com perspectivas integrais. A sabedoria, aqui, engloba as dimensões éticas e filosóficas, bem como as suas aplicações na prática.
No contexto organizacional, a atenção plena também tem sido explorada como uma forma de os atores darem sentido aos eventos e se adaptarem de acordo, buscando os melhores resultados possíveis (Barry & Meisiek, 2010; Weick & Sutcliffe, 2006). Esses autores e outros pesquisadores dentro do paradigma da construção de sentido, têm investigado como a atenção plena coletiva permite que as equipes aprimorem a comunicação e a coordenação para resolver situações críticas. Essa pesquisa analisa a atenção plena como uma forma de foco atencional dentro das organizações em relação à colaboração e, ao fazer isso, adiciona uma dimensão coletiva à literatura, que de outra forma seria focada no indivíduo.
“No contexto organizacional, a atenção plena também tem sido explorada como uma forma de os atores darem sentido aos eventos e se adaptarem de acordo, buscando os melhores resultados possíveis (Barry & Meisiek, 2010; Weick & Sutcliffe, 2006).”
A atenção plena é percebida por muitos como uma ferramenta para o aprimoramento pessoal e da sociedade, que consiste simplesmente em sentar em silêncio e observar os próprios pensamentos enquanto eles passam, sem se apegar a eles. Sem dúvida, essa ferramenta moderna alivia o sofrimento de muitos e traz, em certa medida, os supostos benefícios. Até recentemente, a atenção plena era amplamente aceita, sem questionamentos, como a solução definitiva para promover o bem-estar, liberar a criatividade e resolver todos os outros males do mundo. Embora tenha os seus méritos na redução do estresse e possa trazer benefícios em ambientes corporativos competitivos, é preciso prudência para evitar afirmações exageradas (van Dam et al., 2017), à medida que o movimento de mindfulness avança.
“A atenção plena é percebida por muitos como uma ferramenta para o aprimoramento pessoal e da sociedade, que consiste simplesmente em sentar em silêncio e observar os próprios pensamentos enquanto eles passam, sem se apegar a eles.”
Van Dam e colegas (2017) argumentam que a pesquisa sobre mindfulness avançou enormemente desde o surgimento desse conceito por volta da década de 1970, embora ainda haja espaço para melhorias na forma como os estudos são planejados e conduzidos. Eles também alertam que, embora o mindfulness tenha atributos desejáveis em termos de bem-estar, redução do estresse e outros resultados, para aqueles que sofrem de transtorno de estresse pós-traumático, depressão ou outros fatores de risco causados por condições psicológicas, é preciso ter cuidado antes e durante a prática de meditação. Quando necessário, o apoio psicológico necessita estar disponível aos praticantes para que possam lidar com memórias dolorosas que possam surgir e compreender o que estão sentindo como resultado do mindfulness ou de outras formas de meditação.
Intervenções Baseadas em Mindfulness (Atenção Plena) no Trabalho
No contexto das organizações, a espiritualidade tem sido limitada essencialmente às aplicações do mindfulness. Numerosos instrutores ministram cursos de mindfulness em empresas, seja de forma independente ou como parte de uma organização, como o Potential Project e o Search Inside Yourself Institute, lançado por um ex-engenheiro do Google, que vincula mindfulness à inteligência emocional. Por exemplo, a organização sem fins lucrativos Institute for Mindful Leadership oferece diversos cursos de mindfulness corporativo em empresas de renome, incluindo Proctor & Gamble e Target, bem como a Cruz Vermelha Americana (LoRusso, 2020, p. 5). Muitas empresas multinacionais oferecem treinamento em meditação mindfulness para seus funcionários, do Google à Nike e à Apple, e a lista continua.
A formação e as certificações dos instrutores variam, desde o treinamento para ensinar Redução do Estresse Baseada em Mindfulness (MBSR – Mindfulness-Based Stress Reduction) na forma que Kabat-Zinn (2003) desenvolveu (inicialmente em um ambiente clínico e posteriormente estendido a contextos não médicos), até outras certificações concluídas; enquanto outros instrutores ensinam com base em uma extensão de sua própria prática contemplativa pessoal. Os treinamentos corporativos assumem uma variedade de formas e focos, sendo um padrão comum o MBSR, que acontece semanalmente ao longo de oito semanas, além de um retiro de um dia. No entanto, existem muitas outras opções de programas de treinamento em mindfulness. Versões online também continuam a surgir, impulsionadas pela pandemia de Covid-19, incluindo o aplicativo móvel Headspace.
O treinamento em mindfulness concentra-se nos indivíduos, na introspecção, intangivelmente ligado a uma visão utópica distante de salvar a sociedade de seus males (Walsh, 2018). Aceitavelmente secular e científica, a prática de mindfulness migrou dos mosteiros para a medicina e para as salas de reunião, ostentando benefícios que vão desde um melhor controle das emoções até o despertar da criatividade (Islam et al., 2017) e a melhoria do bem-estar psicológico (Badham & King, 2019; Eby et al., 2019).
“O treinamento em mindfulness concentra-se nos indivíduos, na introspecção, intangivelmente ligado a uma visão utópica distante de salvar a sociedade de seus males (Walsh, 2018).”
Essa prática palatável, mindfulness, abrange o sagrado e o profano, sendo, portanto, inevitavelmente agradável às pessoas. Ou seja, mindfulness é geralmente apresentada como uma prática secular, embora ainda se acredite que exalte as virtudes da religião que outrora a englobou. Além disso, seja qual for a origem de mindfulness, ela é moldada para atender aos desejos de seu consumidor, seja para aliviar o estresse da vida moderna ou otimizar a concentração e a capacidade de tomada de decisões.
“Aceitavelmente secular e científica, a prática de mindfulness migrou dos mosteiros para a medicina e para as salas de reunião, ostentando benefícios que vão desde um melhor controle das emoções até o despertar da criatividade (Islam et al., 2017) e a melhoria do bem-estar psicológico (Badham & King, 2019; Eby et al., 2019).”
A prática de mindfulness é geralmente introduzida nas empresas como uma tentativa de melhorar o bem-estar mental, a produtividade e outros resultados funcionais (Islam et al., 2017; Karjalainen et al., 2019; LoRusso, 2020). Algumas implementações envolvem práticas físicas juntamente com aspectos mentais, como a ioga, que consiste em posturas e movimentos de origem Indiana entrelaçados com um conjunto de ética e filosofia (Munir et al., 2021). Esses pesquisadores descrevem um processo de adaptação semelhante ao da ioga, para que a prática de mindfulness se adequasse às organizações Ocidentais.
“A prática de mindfulness é geralmente introduzida nas empresas como uma tentativa de melhorar o bem-estar mental, a produtividade e outros resultados funcionais (Islam et al., 2017; Karjalainen et al., 2019; LoRusso, 2020).”
As intervenções de mindfulness corporativas são comercializadas como capazes de cultivar a atenção plena nos participantes (Eby et al., 2019; Reb et al., 2020). Embora os programas de mindfulness sejam implementados principalmente em grupo, a prática é predominantemente individual (E. King & Badham, 2020). No entanto, estão surgindo pontes para objetivos mais amplos, como no caso de Brummans, Hwang e Cheong (2013), que descrevem participantes que, posteriormente, levam outros a adotar a atenção plena, disseminando o movimento para auxiliar outras pessoas a superar o estresse e evitar a síndrome de burnout. A seguir, apresentamos possíveis adições e alternativas à atenção plena corporativa no âmbito da espiritualidade.
Intervenções Adicionais Baseadas na Espiritualidade no Trabalho
A pandemia da Covid-19 evidenciou que o nosso mundo continua a lutar contra a desigualdade gritante, a injustiça desenfreada e os desafios ambientais, com a iminência de um possível desastre. Ao invés de agravar esses problemas, perpetuando o status quo, com as suas tendências neoliberais que permitem aos indivíduos privilegiados engrandecerem-se e promoverem o crescimento econômico a qualquer custo, são necessárias transformações coletivas para construir um mundo melhor (Bell et al., 2020). A atenção plena no ambiente corporativo, pelo menos em parte, contribui para a resolução desses grandes desafios, através de uma mudança de mentalidade.
Contudo, pelo menos por agora, os nobres objetivos comunitários da espiritualidade ainda se encontram em grande desacordo com o discurso capitalista (Karjalainen et al., 2019). Embora existam inúmeras perspectivas espirituais ao longo dos milénios, poucas abordagens foram ainda visivelmente incorporadas nas organizações, para além da atenção plena. No que diz respeito à espiritualidade presente no trabalho, as práticas originais tendem a ser transformadas para se adequarem ao modelo cientificado, instrumentalizado e mercantilizado que o neoliberalismo imbuiu na vida organizacional (Heelas, 2009; Karjalainen et al., 2019).
“A atenção plena no ambiente corporativo, pelo menos em parte, contribui para a resolução desses grandes desafios, através de uma mudança de mentalidade.”
Alguns praticantes buscam reencontrar e resgatar uma versão original dessa prática contemplativa, baseada alternadamente na atenção plena Oriental, na atenção plena correta ou no Budismo Engajado (S. B. King, 2009), que não tenha sido diluída pelo Ocidente. Tais programas estão surgindo como atenção plena social, atenção plena engajada e com outros termos, refletindo um retorno às raízes de iterações de antigas tradições religiosas baseadas na ética e menos limitadas pelo capitalismo (ver, por exemplo, Walsh, 2018; Purser, 2019).
Diferentemente de outras formas de atenção plena corporativa, essas formas sociais mantêm intacta a base religiosa, instruindo, assim, sobre ética e aspectos sociais. Ao fazer isso, essas intervenções transcendem o foco individual para despertar mudanças no nível coletivo. Entre essas abordagens estão os programas de atenção plena de segunda geração, intervenções derivadas do Budismo que são explicitamente espirituais, combinando visão meditativa, consciência ética e insights e práticas de sabedoria (E. King & Badham, 2020). Essas reintegram uma base filosófica, como descrevem Patel e Holm (2018), ao restabelecer valores de não-materialismo, abertura à mudança e conexão com a natureza, fomentando comportamentos responsáveis e benevolentes de gestores conscientes para o bem da sociedade.
É o caso do surgimento de espiritualidades paranormais, esotéricas e da Nova Era no ambiente de trabalho, que passam por um processo de transformação ao adentrar o mundo corporativo (Heelas, 2009). A terminologia é alterada discretamente para evitar tabus, como no caso de médiuns, sensitivos e canalizadores, que Zaidman (2015) compara a consultores de negócios. Esses consultores espirituais oferecem conselhos sobre quais ações comprar, quais pessoas contratar e assim por diante, sem necessariamente mencionar um sistema de crenças ou código de conduta ética.
Além disso, nessas práticas, os envolvidos geralmente preferem o anonimato e o sigilo para evitar serem julgados como pessoas sem credibilidade. Afiliações religiosas e até mesmo conotações espirituais são frequentemente descartadas dessas práticas ao entrarem no ambiente e nas instalações das organizações. Simultaneamente, essas práticas espirituais, ironicamente lucrativas e procuradas, são muitas vezes marginalizadas, sendo até mesmo evitadas no ambiente de trabalho e relegadas à esfera pessoal.
Por ora, as formas organizacionais de espiritualidade restringem-se principalmente à atenção plena (mindfulness), embora alternativas estejam surgindo, as quais podem revelar benefícios mais amplos e diversos. Inevitavelmente, essas alternativas também passam por um processo de conversão, em maior ou menor grau, para se adequarem a um formato organizacional. Agora que a atenção plena abriu caminho para que as práticas espirituais assumam um lugar na sociedade em geral, nós podemos muito bem presenciar o surgimento de novos movimentos. Entre eles, poderia estar a prática de meditação da sintonia, proveniente do Espiritualismo, por exemplo, uma religião baseada em um conjunto de princípios filosóficos orientadores (Kirsebom, 2012). Esse tipo de meditação, a sintonia, cultiva a consciência no nível da realidade [awareness] da própria energia de maneira semelhante à atenção plena, acalmando e aquietando a mente, e então expande a consciência para uma conexão com todos os seres.
Outras filosofias e práticas também podem se tornar mais comuns e encontrar espaço na vida corporativa. Essa possibilidade deve-se em parte ao movimento da atenção plena, que abriu e ampliou essa janela para a espiritualidade no trabalho. Até o momento, a pesquisa sobre outras práticas espirituais além da meditação da atenção plena ainda é escassa, embora haja um crescente número de publicações na área.
Referências
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Barry, D., & Meisiek, S. (2010). Seeing more and seeing differently: Sensemaking, mindfulness, and the workarts. Organization Studies, 31(11), 1505–1530. https://doi.org/10.1177/ 0170840610380802
Bell, E., Gog, V., Sorin, Simionca, A., & Taylor, S. (Eds.). (2020). Spirituality, Organization and Neoliberalism: Understanding Lived Experiences. Edward Elgar.
Brummans, B. H. J. M., Hwang, J. M., & Cheong, P. H. (2013). Mindful authoring through invocation: Leaders’ constitution of a spiritual organization. Management Communication Quarterly, 27 (3), 346–372. https://doi.org/10.1177/0893318913479176
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Good, D. J., Lyddy, C. J., Glomb, T. M., Bono, J. E., Brown, K. W., Duffy, M. K., Baer, R. A., Brewer, J. A., & Lazar, S. W. (2016). Contemplating mindfulness at work: An integrative review. Journal of Management, 42(1), 114–142. https://doi.org/10.1177/0149206315617003
Heelas, P. (2009). Spiritualities of Life: New Age Romanticism and Consumptive Capitalism (Vol. 3). Blackwell Publishing.
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—–Continua Parte XVI—–
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Imagem: anika-huizinga-UCrMFsuS0oA-unsplash 07.02.26
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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.
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