Com o objetivo de conhecimento e de entendimento sobre o sistema de pensamento de uma Organização Baseada na Espiritualidade (OBE), nós estamos transcrevendo trechos do artigo “Workplace Spirituality – Making a Difference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”], editado por Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer.

A fonte do artigo é o livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1, dos autores acima referenciados.

O Prefácio abaixo explica a razão de ser desse importante artigo para entendimento do passado, presente e futuro do que se tem observado no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho.

Artigo:

“Workplace Spirituality – Making a Difference” [“Espiritualidade no Ambiente de Trabalho – Fazendo uma Diferença”]

Editado por:

Yochanan Altman, Judi Neal and Wolfgang Mayrhofer

Fonte:

Livro “Management, Spirituality and Religion” – Series Editor [“Gestão, Espiritualidade e Religião” – Editor da Série] Yochanan Altman – Volume 1

DE GRUYTER (www.degruyter.com)

Instituto Fetzer (Home – The Fetzer Institute)

Essa obra está licenciada sob a Licença Internacional Creative Commons Atribuição-NãoComercial-SemDerivações 4.0. Para mais detalhes, acesse http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0.

Prefácio

Esse livro é extremamente relevante e oportuno. A e a espiritualidade têm sido um aspecto fundamental da experiência humana ao longo dos tempos. No entanto, a forma como são experienciadas e expressas continua a mudar com o passar do tempo. Por exemplo, no contexto dos Estados Unidos (EUA), uma pesquisa recente da Gallup mostra que a participação de Americanos em locais de culto (por exemplo, sinagogas, igrejas ou mesquitas) caiu para 47% – o nível mais baixo nos 80 anos de história da pesquisa e uma queda em relação aos 70% registrados em 1999 (Jones, 2021). Isso representa um declínio constante desde o início do século XXI. Essa tendência é impulsionada por dois fatores: um número maior de adultos que não se identificam com nenhuma religião e um declínio na frequência a igrejas entre aqueles que se identificam com alguma religião. Por trás dessas tendências, existem diferenças populacionais ou geracionais, com as gerações mais jovens expressando menos afiliação religiosa (7% dos tradicionalistas – adultos Americanos nascidos antes de 1946; 13% dos baby boomers (1946-1964); 20% da geração X (1965-1980) e 31% dos millenials (geração Y) (1981-1996)).

Simultaneamente, o Instituto Fetzer apoiou um estudo sobre a espiritualidade Americana que buscou entender melhor o significado da espiritualidade para os Americanos e como ela influencia as suas vidas sociais e ações cívicas (Instituto Fetzer, 2020). O estudo incluiu participantes de diversas afiliações religiosas ou identidades espirituais, incluindo aqueles sem nenhuma. Constatou-se que “a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020). Mais especificamente, 86% das pessoas se consideram espirituais e 68% acreditam que a sua espiritualidade guia as suas ações no mundo. Esses números incluem pessoas que se identificam com alguma tradição religiosa e aquelas que não se identificam.

…“a espiritualidade é um fenômeno complexo, diverso e cheio de nuances que pessoas de todas as autoidentificações espirituais e religiosas experienciam” (Instituto Fetzer, 2020)

O que nós podemos concluir desses dois relatórios aparentemente contraditórios? Eu apresento esses dados como base para a importância e a relevância da espiritualidade no ambiente de trabalho. Para muitos, a espiritualidade no ambiente de trabalho é inadequada. Contudo, como demonstram esses estudos, muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando. Ao mesmo tempo, muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013). De fato, para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores. Além disso, as organizações são frequentemente os mecanismos estruturais pelos quais as sociedades se organizam e alcançam os seus objetivos sociais, econômicos e técnicos mais importantes e complexos. Elas são tanto impulsionadoras quanto representações da vida e dos valores da sociedade. Diante disso, elas permanecem um foco crucial e um potencial impulsionador do crescimento e desenvolvimento pessoal e do florescimento humano.

muitas pessoas reconhecem a importância da espiritualidade em suas vidas, mesmo que a sua conexão com as estruturas e os espaços para expressá-la esteja se transformando.

Reconhecendo tudo isso, no Instituto Fetzer (o Instituto), nós nos esforçamos para viver a nossa missão e os nossos valores criando uma comunidade de ambiente de trabalho espiritualmente fundamentada, que nós chamamos de Community of Freedom (COF) [Comunidade da Liberdade]. A nossa COF é o alicerce espiritual do nosso trabalho para transformar a nós mesmos e a sociedade de maneira autêntica e eficaz.

muitas organizações e locais de trabalho estão convidando as pessoas a trazerem o “eu [ser, self] integral” delas, incluindo a espiritualidade delas, para o trabalho, visando maior bem-estar, engajamento, criatividade e eficácia (Kegan & Lahey, 2016; Neal, 2013).

As maneiras de ser e as práticas individuais e comunitárias expressas por meio da COF – e enraizadas em nossos valores organizacionais essenciais de amor, confiança, autenticidade e inclusão – apoiam o Instituto no cultivo da cultura necessária para concretizar a nossa missão de ajudar a construir a base espiritual para um mundo amoroso. Uma das estruturas que nós utilizamos para nos mantermos firmes em nossa missão e visão são os nossos community of freedom gatherings (COFG) [encontros da comunidade da liberdade]. Os COFGs consistem em encontros semanais de três horas com todos os funcionários – desde os nossos jardineiros e equipe de programas até a nossa equipe e líderes de finanças e tecnologia da informação. Durante os COFGs, nós convidamos facilitadores externos e professores espirituais para nos ajudar a nos envolvermos em exploração espiritual individual e comunitária e na construção da comunidade. Nós também oferecemos sessões ministradas por funcionários e fornecemos espaço e recursos para que os funcionários busquem os seus caminhos pessoais. Exemplos de sessões incluem conjuntos de práticas contemplativas, a ciência do bem-estar, a capacidade de diálogo e o convívio com o luto coletivo. As sessões geralmente incluem componentes didáticos e experienciais, além de oportunidades para discussões em pequenos e grandes grupos, que permitem aos funcionários compartilhar experiências profundas uns com os outros.

para aqueles que não possuem uma religião específica e para aqueles cuja fé e espiritualidade são centrais em suas vidas, o local de trabalho – onde muitos adultos passam a maior parte do tempo fora de casa – pode ser um espaço importante para a expressão e a realização de seus valores.

Em 2016, o Instituto encomendou um estudo de caso independente para aprender mais sobre os primeiros pontos positivos, desafios e impactos do COFG. Algumas das principais conclusões foram que os funcionários sentiram um aumento na confiança, no moral, na conexão e na capacidade de lidar com dificuldades relacionais a partir do trabalho. O estudo de caso também abordou questões e preocupações dos funcionários sobre o propósito dos COFGs em relação ao nosso trabalho externo, o uso de linguagem inclusiva e a abordagem do COFG e as suas ofertas e como os encontros se traduzem em políticas e práticas organizacionais mais amplas. Algumas dessas questões têm sido respondidas à medida que nós temos aprofundado o nosso trabalho como uma comunidade e outras nós continuamos a investigar e a desenvolver.

O Instituto não só se dedica a cultivar um ambiente de trabalho espiritualmente fundamentado, como também busca aprender com outros que compartilham da mesma visão sobre como cultivar culturas organizacionais que apoiem o desenvolvimento e o florescimento humano; e que permitam às organizações operar a partir de sua visão e valores mais profundos, rumo a um mundo mais amoroso. É esse compromisso que motiva o nosso apoio ao trabalho realizado pela International Association of Management, Spirituality and Religion (IAMSR) [Associação Internacional de Gestão, Espiritualidade e Religião], incluindo esse volume. Aqueles que buscam criar ambientes de trabalho que sejam espaços robustos para o florescimento humano e o mundo que nós desejamos habitar precisam de apoio e companheiros de jornada. Muitos de nós estamos lidando com questionamentos semelhantes sobre os prós e os contras de trazer a espiritualidade para o ambiente de trabalho.

Há muito que nós temos aprendido nos últimos vinte anos de experimentação nessa área e muito mais a aprender. Esse volume oferece algumas das melhores ideias e práticas de líderes de pensamento na área. Que ele sirva de inspiração e alimente a nossa imaginação e esforços coletivos em relação ao que é possível.

Shakiyla Smith, Vice-Presidente de Cultura Organizacional – Instituto Fetzer – 10 de novembro de 2021.

Referências

Fetzer Institute. (September 2020). Study of Spirituality in the United States. Report retrieved from https://spiritualitystudy.fetzer.org/sites/default/files/2020-09/What-Does-Spirituality-Mean To-Us_%20A-Study-of-Spirituality-in-the-United-States.pdf  

Jones, J.M. (2021). U.S. Church Membership Falls Below Majority for First Time. Gallup. Retrieved from https://news.gallup.com/poll/341963/church-membership-falls-below-majority-first time.aspx

Kegan. R., Lahey, L. L.(2016). An everyone culture: Becoming a deliberately developmental organization. Harvard Business Review Press.

Neal. J. (2013). Creating enlightened organizations: Four gateways to spirit at work. Palgrave Macmillan.

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1 – O Passado, o Presente e o Futuro da Espiritualidade no Ambiente de Trabalho

Introdução

Autores: Judi Neal, Yochanan Altman, Wolfgang Mayrhofer

Nesse capítulo introdutório, nós oferecemos um breve histórico da IAMSR, um breve histórico do campo da espiritualidade no ambiente de trabalho e uma visão geral das tendências na área. Nós, os três editores desse livro, concluiremos esse capítulo apresentando as nossas próprias perspectivas sobre a espiritualidade no ambiente de trabalho e o que nós vemos emergindo no futuro.

Uma Breve História da IAMSR

A International Association of Management, Spirituality and Religion (IAMSR) foi fundada em 2010 por Yochanan Altman em resposta a uma necessidade emergente de profissionais informados que não se sentiam à vontade na comunidade do Journal of Management, Spirituality and Religion (JMSR), por ser um fórum exclusivamente acadêmico. Desde então, a IAMSR tem atuado principalmente como uma ponte entre a academia e a prática por meio de suas conferências bienais, que atendem a ambas as comunidades, com duas trilhas paralelas – uma acadêmica e outra voltada para profissionais – sobre um tema comum, com frequente troca de experiências e enriquecimento mútuo. Em 2020, a IAMSR lançou uma série de livros intitulada Management, Spirituality and Religion [Gestão, Espiritualidade e Religião] em parceria com a De Gruyter, sendo esse o primeiro título da série.

Até o momento, a IAMSR realizou cinco conferências internacionais. Após a conferência inaugural em Viena, em 2010, com o tema “Espiritualidade e Gestão: Não Somos Mais Estranhos?”, nós realizamos conferências em Bangalore, na Índia, sobre “O Desafio Indiano à Gestão Ocidental”, em 2012; em Lourdes, na França, sobre “Milagres e Gestão”, em 2013; sobre “Criatividade e Espiritualidade”, em Barcelona, ​​na Espanha, em 2015; e sobre “Liderança, Espiritualidade e Educação”, em Fayetteville, Arkansas, EUA, em 2017.

As conferências foram guiadas pelo lema “informar-se e inspirar-se pelo contexto”. O contexto refere-se ao local da conferência. Portanto, nós queremos nos referir tanto à localização quanto à época do ano em que o evento ocorre. Em Viena, foi durante os famosos mercados de Natal (e também durante o Hanukkah, que aconteceu simultaneamente); em Bangalore, conhecida por sua herança espiritual, nós recebemos a visita de nada menos que três deuses (gurus); em Lourdes, um local Mariano, nós realizamos a conferência durante o feriado religioso de Pentecostes; em Barcelona, ​​a conferência foi planejada em torno do dia nacional de Sant Jordi; e em Fayetteville, nós nos beneficiamos do contato com a cultura Cristã do Deep South (Estados Unidos). Ao longo dos anos, as conferências evoluíram em duração e estrutura. As duas últimas conferências foram eventos de três dias com duas vertentes paralelas: uma acadêmica e workshops voltados para a prática, com palestras conjuntas.

Os participantes da IAMSR vêm da academia (principalmente, mas não exclusivamente, de escolas de negócios), empresas de treinamento e consultoria, gestores e também de ministérios religiosos. As conferências são eventos estritamente profissionais, abertos a todas as crenças e à ausência delas, bem como a participantes de todos os países. As conferências têm sido realizadas sob os auspícios do Management, Spirituality and Religion Special Interest Group of the Academy of Management (AoM) [Grupo de Interesse Especial em Gestão, Espiritualidade e Religião da Academia de Gestão].

Nós tínhamos planejado realizar a sexta conferência em Viena, em setembro de 2020, vendo-a como uma oportunidade para celebrar o décimo aniversário das conferências da IAMSR. A nossa visão era convidar eminentes acadêmicos para apresentar as suas perspectivas sobre as tendências no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho nos últimos dez anos e para refletir estrategicamente sobre o futuro da área para os próximos dez anos. Nós tínhamos a intenção de que os participantes submetessem capítulos para um livro após a conferência. A pandemia da Covid-19 mudou os nossos planos e, até o momento da redação desse texto, nós esperamos realizar a conferência em setembro de 2022.

Desafios também trazem oportunidades, então nós decidimos que, como a data da conferência foi adiada, nós convidaríamos acadêmicos selecionados com perspectivas únicas sobre o campo para submeter capítulos antes da conferência. Assim, surgiu esse livro. Mais de trinta autores de todo o mundo compartilham a sua experiência e conhecimento sobre as tendências passadas e atuais da espiritualidade no ambiente de trabalho e oferecem muitas sugestões para pesquisas futuras e para o futuro do próprio campo.

Os vinte capítulos desse livro estão divididos em cinco partes. A Parte I, “Introdução”, inclui esse capítulo introdutório e um capítulo panorâmico sobre o campo da espiritualidade no ambiente de trabalho. A Parte II inclui sete temas importantes que são lentes essenciais para o campo: (1) liderança, (2) ética, (3) gestão estratégica, (4) mudança organizacional, (5) comportamento organizacional, (6) gestão de recursos humanos e (7) gênero e diversidade. A Parte III concentra-se em três setores onde a espiritualidade no ambiente de trabalho tem sido implementada, descrevendo tanto a pesquisa quanto a prática nesses contextos. A Parte IV, intitulada “Questões-chave”, apresenta três capítulos que aprofundam maneiras de pensar e praticar a espiritualidade no ambiente de trabalho que ainda não são convencionais, mas que expandem esse campo em direções valiosas. A Parte V consiste em quatro capítulos sobre epistemologias e metodologias essenciais de interesse para o desenvolvimento teórico e a pesquisa empírica: (1) estudos Indígenas, (2) ontologias relacionais, (3) etnografia e (4) psicodinâmica.

Esse livro não é um manual para um curso introdutório sobre espiritualidade no ambiente de trabalho. Tampouco pretende abranger completamente todos os aspectos da área. Ao invés disso, busca ser uma atualização e um panorama do que está acontecendo atualmente no domínio da espiritualidade no ambiente de trabalho desde a conferência inaugural da IAMSR. Também foi concebido para estimular o diálogo colaborativo entre os pesquisadores que participarão da próxima conferência da IAMSR. É nossa esperança que os leitores desse livro ampliem e enriqueçam os pensamentos deles, as suas pesquisas e a comunidade deles.

Breve História da Espiritualidade no Ambiente de Trabalho

Em 1970, Robert Greenleaf, frequentemente reconhecido como o instigador do movimento de Liderança Servidora, publicou um ensaio intitulado “The Servant as Leader” [“O Servidor como Líder”]. Esse panfleto foi publicado alguns anos após Greenleaf se aposentar como Diretor de Pesquisa de Gestão, depois de 38 anos na AT&T. Poucos anos depois, ele fundou o Centro Greenleaf para Liderança Servidora. O seu conceito de liderança servidora foi inspirado pelo livro “Journey to the East” (1956) [“Viagem ao Oriente”], de Hermann Hesse, que lembrou Greenleaf do papel da profecia no Cristianismo. A adoção da liderança servidora cresceu ao longo do tempo e ainda é praticada em muitas organizações hoje. No entanto, embora o movimento de liderança servidora tenha sido fundado como resultado de um livro espiritual e embora Greenleaf fosse um homem profundamente religioso, o movimento de liderança servidora não pode ser retratado como o início do movimento de espiritualidade no ambiente de trabalho, uma vez que não era explícito sobre espiritualidade ou de forma alguma.

O mesmo se aplica à contribuição seminal de Abraham Maslow. Conhecido como o pai fundador da psicologia humanista, ele poderia ser considerado um dos pais fundadores da espiritualidade no ambiente de trabalho, com livros como “Towards a Psychology of Being” (1962) [“Rumo a uma Psicologia do Ser”] e “Religions, Values and Peak-Experiences” (1970) [“Religiões, Valores e Experiências de Pico”]. De origem Judaica, os seus conceitos de experiência de pico e autorrealização influenciaram profundamente a psicologia positiva e o movimento de estudos organizacionais positivos, um componente importante de nossa área; e a sua hierarquia das necessidades tem sido fundamental para a gestão de recursos humanos e o comportamento organizacional. Greenleaf e Maslow pertenciam às religiões Abraâmicas (esse último considerava a si mesmo um Ateu), incorporando um viés implícito no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho até hoje – as suas perspectivas Monoteístas e Ocidentais, embora Maslow tenha sido profundamente influenciado por espiritualidades Indígenas (Stine, 2019).

Assim, tanto Greenleaf quanto Maslow lançaram as bases para o que viria a seguir.

Uma extensa revisão da literatura sobre espiritualidade no ambiente de trabalho não relatou nenhuma referência anterior a 1970 e poucas entre 1970 e o início da década de 1990. No entanto, no início da década de 1990, o campo da espiritualidade no ambiente de trabalho começou a florescer (Neal, 2018).

Mitroff et al. (1994) publicaram um artigo seminal na Academy of Management Executive [Academia de Gestão Executiva],  recomendando que as empresas criassem um “Centro de Serviço Mundial/Espiritual” para ajudá-las a enfrentar os desafios globais em um mundo turbulento. Uma busca online não revela nenhuma organização que tenha criado esse tipo de centro, mas esse artigo foi um passo inicial para legitimar o campo emergente da espiritualidade no ambiente de trabalho. Há duas razões para essa legitimação: (1) Ian Mitroff é um acadêmico e profissional de gestão altamente respeitado, particularmente por seu trabalho em teoria de sistemas e gestão de crises e (2) a Academy of Management Executive é uma revista de grande prestígio para acadêmicos e profissionais. Alguns anos depois, Mitroff e Denton (1999) publicaram uma pesquisa seminal sobre o estado da área sob uma perspectiva corporativa e esse trabalho ainda está entre os mais citados.

Uma extensa revisão da literatura sobre espiritualidade no ambiente de trabalho não relatou nenhuma referência anterior a 1970 e poucas entre 1970 e o início da década de 1990. No entanto, no início da década de 1990, o campo da espiritualidade no ambiente de trabalho começou a florescer (Neal, 2018).

Outras três obras seminais foram publicadas em 1994, incluindo Dehler e Welsh (1994), McCormick (1994) e Neck e Milliman (1994). Dehler e Welsh contrastaram os campos do desenvolvimento organizacional e da transformação organizacional, declarando que a atenção à emoção e à espiritualidade distingue o campo da transformação organizacional. McCormick escreveu sobre os desafios gerenciais na espiritualidade no ambiente de trabalho e examinou cinco temas: compaixão, meio de vida correto, serviço altruísta, trabalho como uma forma de meditação e os problemas do pluralismo. Neck e Milliman focaram no trabalho interior da espiritualidade no ambiente de trabalho, descrevendo a “autoliderança do pensamento”. Acadêmicos continuaram a desenvolver os seus trabalhos ao longo da década de 1990, resultando em um aumento significativo de publicações na área.

Em 1995, a mídia dos negócios começou a dar atenção à espiritualidade no ambiente de trabalho a partir de uma perspectiva prática. Neal (2018, p. 13) documenta:

Em junho daquele ano, a Business Week publicou um artigo intitulado “Companies hit the road less travelled: Can spirituality enlighten the bottom line?” (Galen & West, 1995) [“Empresas trilham o caminho menos percorrido: A espiritualidade pode iluminar os resultados finais?” (Galen & West, 1995). Ao longo do ano seguinte, artigos sobre espiritualidade no ambiente de trabalho foram publicados na maioria das principais publicações de negócios (cf. Laabs, 1995; Murray, 1995; Osborne, 1995; Segal, 1995; Brandt, 1996) e em muitos jornais internacionais. Em minha opinião, foi nesse momento que a espiritualidade no ambiente de trabalho se tornou um movimento. Uma rápida olhada em qualquer bibliografia abrangente da área (cf. Neal, 2016) mostrará uma pequena quantidade de publicações acadêmicas e da imprensa popular antes de 1995 e um aumento drástico a partir de 1995.

A maioria das publicações durante a década de 1990 se enquadrava em uma das seguintes categorias: (1) descrições de práticas organizacionais, (2) tentativas de definir espiritualidade no ambiente de trabalho e (3) desenvolvimento teórico. Uma das principais críticas ao trabalho acadêmico durante esse período inicial foi a falta de pesquisa empírica, particularmente pesquisa quantitativa (Gibbons, 2000; Giacalone & Jurkiewicz, 2003; Dent et al., 2005). Isso é típico de um novo campo de estudo.

Uma rápida olhada em qualquer bibliografia abrangente da área (cf. Neal, 2016) mostrará uma pequena quantidade de publicações acadêmicas e da imprensa popular antes de 1995 e um aumento drástico a partir de 1995.

Em meados da década de 1990, tornou-se comum que organizações acadêmicas profissionais, como a Organizational Behavior Teaching Society [Sociedade de Ensino de Comportamento Organizacional], as Academies of Management and the Management Education Division (MED) [Academias Regionais de Administração dos EUA e a Divisão de Educação em Gestão] da Academy of Management, incluíssem apresentações sobre espiritualidade no ambiente de trabalho em seus programas de conferências. A maioria dessas apresentações era experiencial e atraía acadêmicos com profundo interesse pessoal em espiritualidade. Nessa fase inicial, elas tendiam a não ser baseadas em pesquisa. No entanto, alguns estudantes de doutorado começaram a desenvolver dissertações na área. A primeira delas foi a dissertação de David Trott (1996), intitulada “Bem-estar espiritual dos trabalhadores: Um estudo exploratório da espiritualidade no local de trabalho”. Naquela época, o apoio do corpo docente a esse tipo de pesquisa era praticamente inexistente. Tackney et al. (2017) entrevistaram vários pioneiros na área e citaram Trott descrevendo os desafios de pesquisar espiritualidade no ambiente de trabalho como estudante de doutorado:

Quando o professor me perguntou qual era o meu tema, eu nem tinha terminado de falar o título quando ele abriu um sorriso de orelha a orelha, bateu uma nota de 10 dólares na mesa e disse: “Aposto que ninguém irá se importar com esse tema daqui a 5 anos”. Literalmente, no segundo seguinte, o sinal tocou. Levantei-me e saí da sala de cabeça baixa. A minha mente fervilhava pensando: “O que eu irei fazer?”. Eu não tinha dado nem 100 passos quando eu disse: “Eu não me importo com o que ele diga – mesmo que eu tenha que sair dessa universidade, eu irei seguir em frente com isso.” (Tackney et al., 2017, p. 141)

Quando Trott conduziu a pesquisa dele, não havia medidas de espiritualidade no ambiente de trabalho, então ele utilizou a avaliação psicológica de bem-estar espiritual de Ellison (1983). No entanto, no ano seguinte, Hamilton Beazley (1997) concluiu a sua dissertação intitulada “Significado e mensuração da espiritualidade em contextos organizacionais: Desenvolvimento de uma escala de avaliação da espiritualidade”. Ambas as dissertações ajudaram a estabelecer as bases para a pesquisa empírica a partir daquele momento. Vários anos depois, Kinjerski e Skrypnek (2004) desenvolveram o Inventário de Espiritualidade no Trabalho (SAWS, na sigla em Inglês), que ainda é amplamente utilizado em estudos quantitativos.

Um ponto de virada para a profissionalização da área foi um simpósio sobre espiritualidade no ambiente de trabalho organizado por Lee Robbins em 1997, patrocinado pela divisão MED da Academia de Administração. Os palestrantes incluíram Judi Neal, Lee Bolman e David Cooperrider. A sessão estava lotada e Lee Robbins, Jerry Biberman e Judi Neal criaram uma lista de e-mails com os participantes interessados, com a ideia de potencialmente criar um novo grupo de interesse na Academy of Management. O alto nível de energia e interesse demonstrado naquele simpósio levou à criação de outros eventos na AOM nos dois anos seguintes, nos quais foram divulgadas petições para a formação de um grupo de interesse. O pedido de reconhecimento como grupo de interesse foi aprovado pela Academy em 2000 e as primeiras sessões do grupo MSR foram realizadas em 2001.

No início dos anos 2000, um dos obstáculos ao maior reconhecimento da área era a dificuldade de publicar em periódicos tradicionais, que se mostravam céticos em relação ao campo ou consideravam os temas abordados muito ameaçadores (King, 2008). À medida que mais e mais pesquisadores começaram a conduzir estudos na área, Jerry Biberman e Judi Neal elaboraram uma proposta para um novo periódico e, então, descobriram que Yochanan Altman estava considerando fazer o mesmo. Altman tornou-se o editor fundador do Journal of Management, Spirituality and Religion (JMSR) e Biberman foi seu primeiro editor sênior. Durante os primeiros seis anos (2004–2009), Altman publicou o periódico de forma independente e, nos dez anos seguintes (2010–2020), em parceria entre a IAMSR (constituída em 2010) e a Routledge, do Taylor & Francis Group.

A partir de 2021, o Journal of Management, Spirituality and Religion voltou a ser independente. A sua plataforma de publicação é a IngentaConnect (Journal of Management, Spirituality & Religion: Ingenta Connect Publication). Com mais de 70 edições publicadas, o JMSR é o maior repositório de conhecimento acadêmico na área e amplamente considerada a principal revista do gênero. Atualmente, o JMSR publica 5 edições por ano e oferece os seus serviços como editora ad hoc para grupos profissionais com interesses semelhantes. Em 2021, a revista publicou uma edição especial de Acesso Aberto em parceria com o Instituto AITIA (https://www.aitiainstitute.org), além de suas edições regulares.

Além de ser a patrocinadora organizacional do JMSR e organizadora das conferências bienais, a IAMSR estabeleceu, em 2020, uma série de livros em parceria com a De Gruyter.

Esse livro é o primeiro da série e, no momento da publicação desse texto, outros dois livros estão em fase de desenvolvimento (https://www.degruyter.com/serial/MSR-B/html).

Desde o início dos anos 2000, a área de pesquisa amadureceu substancialmente. Enquanto as pesquisas iniciais eram principalmente descritivas, definicionais e não empíricas, as pesquisas atuais são mais rigorosas, mais internacionais e mais abrangentes. Um sinal desse amadurecimento é a recente parceria entre o grupo de interesse em Gestão, Espiritualidade e Religião (MSR) e o Instituto Fetzer. O Instituto Fetzer é uma das principais fundações dos EUA que apoia pesquisas sobre fé, espiritualidade e consciência no nível da percepção [consciousness]. A sua missão é ajudar a construir a base espiritual para um mundo amoroso. Em 2018, o instituto trabalhou com a liderança do MSR para criar a Bolsa de Estudos MSR Fetzer para Pesquisadores Emergentes e Novos Professores. Desde 2019, o Instituto Fetzer, patrocinador desse livro, apoia anualmente 20 estudantes de doutorado e novos professores para participarem da conferência anual da Academy of Management, com foco no envolvimento em eventos de Gestão, Espiritualidade e Religião (MSR).

O fato de ter sido fácil encontrar pelo menos 20 acadêmicos altamente qualificados a cada ano para essa bolsa é uma forte evidência de que o trabalho nessa área está agora disseminado. Os bolsistas vêm de toda a Europa, de países Africanos, da Ásia e da região Ásia-Pacífico, do Oriente Médio, da Austrália, da América Latina e da América do Norte. Eles formam um grupo diversificado, representando uma variedade de perspectivas religiosas e espirituais, bem como áreas de estudo. Vinte anos atrás, teria sido impossível encontrar sequer perto desse número de bolsistas anualmente.

Algumas Observações sobre as Tendências na Área Desde a Primeira Conferência da IAMSR

Essa seção discute algumas das tendências que nós temos observado desde a primeira conferência da IAMSR. Ao longo dos capítulos desse livro, você encontrará descrições adicionais de tendências recentes, bem como a visão dos autores sobre o que poderia ou deveria surgir à medida que nós avançamos no desenvolvimento dessa área.

1. A Maturidade do Campo da Espiritualidade no Ambiente de Trabalho

Nós já discutimos o crescimento da MSR e a maior aceitação da pesquisa sobre espiritualidade no ambiente de trabalho na Academia de Administração, bem como o crescimento do periódico Journal of Management, Spirituality and Religion.

Esse livro também representa a maturação do campo, que passou de um foco inicial na espiritualidade genérica no ambiente de trabalho ou em pesquisas genéricas sobre fé no trabalho para distinções mais sutis. Por exemplo, na seção “Temas” desse livro, os autores exploram conexões específicas entre espiritualidade e diferentes aspectos do campo da administração, como liderança, ética, estratégia, empresas familiares e assim por diante. Os autores também exploram aplicações específicas da espiritualidade no ambiente de trabalho em vários setores, como policiamento e saúde e bem-estar. Outras coletâneas contêm capítulos que descrevem diversas perspectivas religiosas e de tradições de fé (cf. Dhiman, 2018; Neal, 2013).

2. Níveis de Análise

Nos estágios iniciais desse campo, a maior parte da pesquisa e das publicações se concentrava no nível individual de análise. À medida que o campo se desenvolveu, o nível de análise também passou a incluir a dinâmica de grupos, os sistemas organizacionais e os padrões entre organizações. Como será discutido adiante, há agora um interesse crescente no papel da espiritualidade no ambiente de trabalho no desenvolvimento da consciência no nível da percepção [consciousness] global.

3. Processos Judiciais por Discriminação Religiosa

Um desafio que tem surgido nos últimos anos é o aumento, nos EUA, de processos judiciais por discriminação religiosa (Sullivan, 2013). De 2002 a 2010, o International Center for Spirit at Work [Centro Internacional para o Espírito no Trabalho] concedeu o Prêmio Internacional para o Espírito no Trabalho a organizações que possuíam políticas, práticas ou programas específicos que cultivavam o espírito humano no ambiente de trabalho (Neal, 2013). No entanto, após 2010, o comitê de premiação não conseguiu encontrar nenhuma organização disposta a se candidatar ao prêmio. Eles temiam que receber o prêmio pudesse lhes dar muita visibilidade devido à sua ênfase em espiritualidade ou religião, expondo-os a possíveis processos judiciais por parte de funcionários (Point et al., 2019).

4. Evolução da Linguagem

Como Marie Holm descreve nesse livro, a atenção plena (mindfulness) tem se tornado uma grande tendência no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho. Existem alguns motivos para isso, incluindo o fato de que os primeiros programas de atenção plena na Aetna demonstraram uma forte correlação entre a redução dos custos com saúde e o aumento da produtividade dos funcionários. A Aetna estimou que economizou cerca de US$ 2.000 por funcionário por ano em custos com saúde e obteve um aumento de cerca de US$ 3.000 por funcionário por ano em produtividade (Pinkser, 2015). Chade-Meng Tan, um engenheiro de software do Google, aproveitou o sucesso dos programas de atenção plena da Aetna (Giang, 2015; Tan, 2012), trazendo um toque de modernidade do Vale do Silício para a atenção plena no ambiente de trabalho. Depois disso, um grande número de empresas aderiu à tendência e essa agora é a abordagem mais comum para a espiritualidade no ambiente de trabalho. O uso do termo “atenção plena” (“mindfulness”) gera muito menos resistência do que termos como “espiritualidade no ambiente de trabalho”. De fato, Altman descobriu no primeiro seminário para Gerentes de Recursos Humanos sobre espiritualidade no ambiente de trabalho que ele organizou em Londres em 2008 que os participantes não conseguiam pronunciar a palavra ‘spirituality’ [‘espiritualidade’] e, ao invés disso, se referiam à “palavra S”.

Nós devemos ressaltar, no entanto, que há uma aceitação muito maior da linguagem de cunho espiritual em ambientes acadêmicos do que em ambientes corporativos. Isso também varia bastante de acordo com a região geográfica e a cultura. Por exemplo, na China e na França, há pouca tolerância à linguagem explicitamente espiritual, em ambos os casos devido à sua associação com a religião: na primeira, a religião é proibida; na segunda, entra em conflito com a constituição do país por ser laica; e, portanto, acadêmicos e profissionais encontram outros termos para descrever os fenômenos, que variam da terminologia filosófica à científica.

A linguagem em torno da “liderança” também parece estar mudando. Jody Fry é provavelmente o acadêmico mais reconhecido sobre liderança espiritual (Fry & Nisiewicz, 2012) e o seu trabalho tem sido a inspiração para muitas dissertações sobre espiritualidade no ambiente de trabalho. Mas, assim como o termo “espiritualidade no ambiente de trabalho” é capaz de gerar resistência, principalmente em corporações, parece haver uma resistência crescente ao uso do termo “liderança espiritual”. Assim, as pessoas usam uma linguagem mais secular para descrever os mesmos fenômenos, incluindo termos como liderança autêntica, autoliderança, liderança interior, liderança quântica e liderança consciente.

5. Acadêmicos/Praticantes

Outra tendência que nós discutiremos aqui é a ascensão do Acadêmico/Praticante no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho. Vinte a trinta anos atrás, os acadêmicos tinham pouca conexão com os profissionais e não estavam muito cientes do que acontecia na prática organizacional. Ao mesmo tempo, os profissionais desconheciam as pesquisas na área e dificilmente liam artigos de periódicos ou participavam de conferências acadêmicas, não sendo guiados por descobertas científicas. Agora, não apenas as interconexões entre acadêmicos e profissionais são muito mais fortes, como também não é incomum que o acadêmico atue como consultor e coach na área; muitos profissionais possuem doutorado e conduzem pesquisas aplicadas em seus contextos organizacionais.

6. Impacto: Fazendo uma Diferença

Uma grande tendência que nós temos observado na academia de gestão é um novo foco em pesquisas que tenham um impacto positivo no mundo de alguma forma, também conhecido como Modo 2 de Pesquisa em Gestão (Bartunek, 2011). O mesmo se aplica à MSR e ao campo da espiritualidade no ambiente de trabalho. No passado, o foco frequentemente recaía sobre a existência ou não de abordagens espirituais explícitas dentro das organizações. Caso elas existissem, os pesquisadores tendiam a descrevê-las, mas somente mais recentemente começaram a explorar os resultados de programas e abordagens. Normalmente, os resultados se concentram nos benefícios para o indivíduo ou para a organização. Mais recentemente, acadêmicos e profissionais estão começando a se questionar sobre o impacto da espiritualidade no ambiente de trabalho em todas as partes interessadas, incluindo comunidades, famílias, meio ambiente e povos Indígenas. Questões mais amplas, como racismo, opressão, colonialismo, justiça social, igualdade de gênero, degradação ambiental e a relação da humanidade com as partes interessadas não humanas, tornaram-se parte da discussão. O resultado final é que números crescentes de pessoas que trabalham na área da espiritualidade no ambiente de trabalho estão mais interessados em fazer a diferença do que em publicar artigos, ser promovido ou ter mais poder.

Essa seção discutiu seis macrotendências no campo da espiritualidade no ambiente de trabalho. Essa lista não é exaustiva e você é encorajado a explorar as tendências descritas nos capítulos seguintes. Todas essas tendências e outras, aparecem em um ou mais capítulos e, esperamos, ampliarão a sua perspectiva sobre o seu próprio trabalho de novas maneiras.

Perspectivas Individuais sobre o Que está Emergindo na Espiritualidade no Ambiente de Trabalho

Essa seção final do nosso capítulo introdutório analisa brevemente as tendências emergentes que cada um de nós observa a partir de sua própria perspectiva. Essas três tendências emergentes são baseadas em nossas experiências pessoais, em nossos interesses profissionais e em nosso compromisso em realizar um trabalho que faça a diferença.

Espiritualidade no Ambiente de Trabalho e Consciência no Nível da Percepção [Consciousness] Global – Judi Neal

Vaclav Havel, em um discurso ao Congresso dos EUA, fez uma declaração que é ainda mais relevante hoje, mais de trinta anos depois:

Sem uma revolução global na esfera da consciência no nível da percepção [consciousness] humana, nada mudará para melhor na esfera do nosso ser como humanos e a catástrofe para a qual esse mundo está caminhando – seja ela ecológica, social, demográfica ou um colapso geral da civilização – será inevitável. (Havel, 1990)

Eu acredito que nós estamos entrando em uma “revolução global na esfera da consciência no nível da percepção [consciousness] humana” e é essencial que nós entremos. Essa revolução global é impactada pela espiritualidade no ambiente de trabalho e também tem um impacto sobre a espiritualidade no ambiente de trabalho.

Como acadêmicos e profissionais, nós vivemos em um mundo globalizado e interconectado. O mundo necessita de líderes capazes de pensar e agir com consciência no nível da realidade [awareness] global e um compromisso com o bem comum. No entanto, existem poucos recursos disponíveis para apoiar o desenvolvimento de líderes com consciência [conscious] global na academia ou no desenvolvimento de liderança corporativa. Não existem cursos ou programas universitários sobre consciência no nível da percepção [consciousness] global e ela não é considerada um campo de estudo na academia, nem um campo de atuação nas organizações. Mas ela é essencial para o mundo em que nós vivemos.

Eu acredito que nós estamos entrando em uma “revolução global na esfera da consciência no nível da percepção [consciousness] humana” e é essencial que nós entremos. Essa revolução global é impactada pela espiritualidade no ambiente de trabalho e também tem um impacto sobre a espiritualidade no ambiente de trabalho.

Os problemas complexos que nós enfrentamos exigem que a humanidade responda coletivamente de maneiras que transformem situações complexas e caóticas, como a pandemia de Covid-19, a polarização política e as mudanças climáticas, em um mundo que proporcione bem-estar e prosperidade para todos (Tsao & Laszlo, 2019). Mitroff (2021) afirma que esses problemas complexos e caóticos exigem um novo modo de investigação, que ele chama de “Investigação Heroica”. A Investigação Heroica exige um senso de integridade, interconectividade e unicidade para entender e resolver problemas complexos, ao invés da abordagem científica materialista predominante de desmontar alguma coisa para analisar os seus elementos.

O mundo necessita de líderes capazes de pensar e agir com consciência no nível da realidade [awareness] global e um compromisso com o bem comum.

O campo da espiritualidade no ambiente de trabalho tem estudado fenômenos nos níveis individual, de equipe e organizacional. Agora, começa a explorar interconexões em nível global a partir de uma perspectiva de dinâmica sistêmica (Meadows, 1991). Uma das primeiras iniciativas a adotar essa abordagem foi o Fowler Center for Business [Centro Fowler para Negócios] como Agentes de Benefício Mundial da Case Western University, liderado por David Cooperrider. Utilizando uma abordagem de Investigação Apreciativa (Cooperrider & Whitney, 2005), os estudantes desenvolvem estudos de caso que apresentam empresas com impacto positivo no mundo, com foco no florescimento humano. O trabalho deles demonstra a importância de uma mudança de consciência no nível da percepção [consciousness] na liderança organizacional. A pesquisa sobre liderança quântica de Tsao e Laszlo faz com que essa conexão com a consciência no nível da percepção [consciousness] global seja ainda mais clara (Tsao & Laszlo, 2019).

Utilizando uma abordagem de Investigação Apreciativa (Cooperrider & Whitney, 2005), os estudantes desenvolvem estudos de caso que apresentam empresas com impacto positivo no mundo, com foco no florescimento humano.

Como um novo campo de investigação no domínio da espiritualidade no ambiente de trabalho, as definições são importantes nessa fase inicial. Eu apresento três definições como uma maneira de fornecer um mapa inicial do território e convidar a diferentes, porém complementares, formas de pesquisa e ações programáticas.

1. Consciência no Nível da Percepção [Consciousness] Global como um Estágio Individual de Desenvolvimento

A consciência no nível da percepção [consciousness] global pode residir em um indivíduo como um estágio do desenvolvimento humano que transcende o egocentrismo e o tribalismo. O indivíduo sente uma profunda conexão, interdependência e unicidade com a humanidade e o planeta. Existem inúmeras teorias sobre os estágios do desenvolvimento humano e sobre o desenvolvimento dos níveis de consciência no nível da percepção [consciousness]. Alguns exemplos incluem a Teoria da Confiança (Gibb, 1978), a Dinâmica Espiral (Beck & Cowan, 2014) e a Teoria Integral (Wilber, 2001). O nível mais elevado de consciência no nível da percepção [consciousness] nesses modelos é denominado por termos tais como consciência no nível da percepção [consciousness] global, consciência no nível da percepção [consciousness] da unicidade ou consciência no nível da percepção [consciousness] não-dual. Nessas teorias, geralmente existem pontos de bifurcação onde ocorre uma mudança quântica na autoidentidade. Tsao e Laszlo descrevem isso como uma transição da consciência no nível da percepção [consciousness] da separação para a consciência no nível da percepção [consciousness] da conectividade (2019).

Tsao e Laszlo descrevem isso como uma transição da consciência no nível da percepção [consciousness] da separação para a consciência no nível da percepção [consciousness] da conectividade (2019).

2. Consciência no Nível da Percepção [Consciousness] Global como um Aspecto do Desenvolvimento de Liderança

A consciência no nível da percepção [consciousness] global é um aspecto do desenvolvimento de liderança no qual as pessoas são treinadas em práticas de sabedoria, práticas de conectividade e maneiras lineares e não lineares de conhecimento. O objetivo é criar uma massa crítica de líderes com uma profunda consciência no nível da realidade [awareness] de conectividade e interdependência.

No passado, no mundo dos negócios, termos como “consciência no nível da percepção [consciousness] global” ou “mentalidade global” foram enquadrados como sensibilidade intercultural, que é baseada em aspectos cognitivos e comportamentais, ou como gestão internacional, que é estratégica. Egel e Fry (2019) adotam uma visão ampliada da liderança global em um ambiente complexo, que denominam “Liderança centrada no Ser”. Eles argumentam que um compromisso com a jornada espiritual é essencial para desenvolver o tipo de mentalidade global que reconhece a dignidade e a comunalidade da experiência humana e inclui a capacidade de reconciliar e transcender aparentes opostos.

O objetivo é criar uma massa crítica de líderes com uma profunda consciência no nível da realidade [awareness] de conectividade e interdependência.

Programas de desenvolvimento de liderança, como o programa de Liderança Quântica de Tsao e Laszlo (2019), têm sido desenvolvidos para proporcionar experiências, sabedoria, práticas, modelos e orientações que auxiliem líderes a alcançar níveis mais elevados de consciência no nível da percepção [consciousness], impactando positivamente as suas vidas pessoais e profissionais, as suas organizações, a humanidade e o planeta. Seria valioso documentar esses programas e aprofundar o conhecimento sobre as melhores práticas e os seus impactos.

um compromisso com a jornada espiritual é essencial para desenvolver o tipo de mentalidade global que reconhece a dignidade e a comunalidade da experiência humana e inclui a capacidade de reconciliar e transcender aparentes opostos.

3. Consciência no Nível da Percepção [Consciousness] Global como um Fenômeno Coletivo

A consciência no nível da percepção [consciousness] global é um fenômeno coletivo pelo qual a raça humana se percebe coletivamente inserida e inseparável da natureza, comprometendo-se com o bem comum. Há um surgimento de projetos e organizações internacionais e multifuncionais atuando nesse domínio. Eles trabalham juntos para solucionar a crise climática e para apoiar a paz mundial, o bem-estar de todos os seres vivos e a justiça econômica, social e ambiental.

Tem havido exemplos ocasionais da experiência da consciência no nível da percepção [consciousness] global como um fenômeno coletivo. A angústia da geração Y (millenials) na véspera do Ano Novo de 2000 é um exemplo. Naquela época, o mundo industrializado estava preocupado com o potencial negativo do bug do milênio (Y2K) no mundo centrado em computadores. Mas, por um período de 24 horas, os telespectadores puderam ver o novo ano chegar, país por país, ao redor do mundo. Foi como se, por um instante, toda a humanidade estivesse celebrando o início de um novo ano, um novo século e um novo milênio. E eles também comemoravam o fato de que os computadores e a internet continuavam funcionando e que não era o “fim do mundo”.

Atualmente, nós estamos imersos em diversos “problemas complexos” globais. Todas as pessoas são impactadas e serão necessárias ações, pequenas e grandes, de cada indivíduo, bem como um esforço interconectado e coordenado das principais instituições para transformar essas crises compartilhadas em um mundo mais amoroso, onde todos possam prosperar.

Espiritualidade no Ambiente de Trabalho e Novas Tecnologias – Wolfgang Mayrhofer.

É evidente que as novas tecnologias vieram para ficar e continuarão a ter um forte impacto no mundo do trabalho. A forma como nós organizamos o trabalho em nível coletivo e individual, por exemplo, em diversas sociedades, organizações e em nossas vidas pessoais, depende fortemente das tecnologias disponíveis que apoiam a produção e o serviço, bem como a relação entre os atores individuais e/ou coletivos. Considere, por exemplo, as mudanças induzidas pela tecnologia que ocorreram nas últimas décadas em relação aos processos de produção automatizados, ao rastreamento de informações sobre mercadorias enviadas e às possibilidades de comunicação em grandes distâncias geográficas. Máquinas controladas por computador que exigem menos pessoas com diferentes tipos de qualificações, o papel dos bancos de dados eletrônicos que fornecem informações em tempo real sobre congestionamentos, rotas alternativas e atrasos em conexões de trem, avião e bonde, bem como várias formas de comunicação via celulares, computadores e softwares sofisticados de videoconferência com membros da equipe em todo o mundo, são apenas a ponta do iceberg. Como resultado, surgem pelo menos três questões cruciais, todas com consequências para o futuro da espiritualidade no ambiente de trabalho.

Desacoplamento (dissociação) entre espaço e desempenho.

Devido à ampla gama de tecnologias recentes e o seu impacto no mundo do trabalho, um número crescente de empregos não depende mais de um ambiente espacial específico no qual o indivíduo precise estar. É verdade que esse não é o caso de diversas profissões, tais como, por exemplo, fisioterapeutas, policiais patrulhando as ruas e faxineiros. No entanto, a pandemia global de COVID-19, do início da década de 2020, demonstra claramente o enorme potencial de trabalhar, para o bem ou para o mal, fora de um local de trabalho fornecido pela organização empregadora.

Monitoramento em tempo real de si mesmo e de terceiros.

A ampla difusão de vários tipos de tecnologia permite a vigilância contínua de diferentes aspectos do comportamento individual, de grupo e organizacional. Há uma infinidade de exemplos disso, incluindo o uso da computação incorporada, que utiliza tecnologia tangível no, dentro e ao redor do corpo, tais como pulseiras inteligentes, eletrônicos epidérmicos e implantes/ingeríveis; a disponibilidade de vários indicadores-chave de desempenho na equipe/unidade organizacional relacionados, por exemplo, a vendas e contato com o cliente; e a ampla gama de indicadores, frequentemente em formato de “painel de controle”, que mostram vários indicadores de desempenho organizacional, como rotatividade, participação de mercado, desperdício e consumo de energia diariamente.

Otimizando a si mesmo e aos outros.

Ligado ao exposto acima, dados que parecem capturar com precisão aspectos vitais de indivíduos, grupos e organizações não estão simplesmente “disponíveis”. Ao invés disso, a inserção de nossas vidas em uma sociedade capitalista, onde eficiência, eficácia e mérito fazem parte do cânone individual e coletivo que rege muitas áreas de nossas vidas, parece exigir o uso dessas informações para otimizar ainda mais o que nós temos à disposição. A “magia dos números” faz o seu trabalho e nos seduz a usar os dados disponíveis e a sua evolução ao longo do tempo para orientar as nossas ações e nos desenvolver de forma mensurável. Nesse contexto, uma série de desenvolvimentos deve surgir – e em parte já surge – na área da espiritualidade no ambiente de trabalho. Os seguintes são de importância específica.

1. Ênfase crescente no corpo

Embora as abordagens à espiritualidade variem em sua visão do que constitui uma visão holística do indivíduo, muitos considerariam o corpo um elemento essencial da teia configuracional que forma os seres humanos. A espiritualidade no ambiente de trabalho é afetada, por exemplo, pela dissociação entre o espaço ocupado durante o expediente e a unidade à qual o desempenho é atribuído, uma vez que essa lacuna levanta preocupações sobre questões como responsabilidade, sensação de plenitude e significado. Embora, por milhares de anos, a ligação imediata entre ação e resultado, pelo menos em termos espaciais, tenha sido relativamente forte, os desenvolvimentos das últimas duas décadas são muito recentes e exigem uma reorientação individual e coletiva massiva. A espiritualidade no ambiente de trabalho é capaz de orientar ainda mais essa reorientação.

2. Apoiando o aqui e agora além da funcionalização

A popularidade atual de abordagens tais como a atenção plena (mindfulness) é apenas um indicador de uma crescente e generalizada inquietação com o regime rígido que – muitas vezes com boas intenções – nós, assim como os nossos colegas, supervisores e organizações, aplicamos para otimizar os “resultados”. O conhecido ditado da “intencionalidade não intencional” vem à mente – a espiritualidade no ambiente de trabalho, em muitas, mas não em todas as manifestações práticas não atreladas ao ditame de desempenho e resultados, tem um campo valioso para ser explorado. Abrir caminhos onde indivíduos, grupos e organizações possam conscientemente dedicar tempo a explorar e experienciar o reino espiritual vem a ser cada vez mais importante em condições que parecem exigir incessantemente o uso eficiente, eficaz e orientado para objetivos dos recursos.

3. Estabelecer, defender e ampliar espaços sagrados

O conceito do sagrado é parte integrante da maioria das tradições e práticas espirituais. Embora, naturalmente, a forma concreta, a justificativa e o significado do sagrado variem bastante, uma característica comum é, sem dúvida, o seu isolamento do ordinário que permeia a nossa vida diária. As novas tecnologias tendem a usurpar muitas, senão todas as áreas da vida individual e coletiva. Isso é especialmente verdadeiro em ambientes e vidas de trabalho onde as demandas são altas e existe a suposição implícita de que, pelo menos durante – e muitas vezes muito além – do horário de trabalho, a pessoa faz parte integral do sistema econômico. Salas de silêncio, pausas para oração, zonas de meditação, peregrinações internas e externas, etc., são alguns exemplos de como a espiritualidade no ambiente de trabalho pode criar e utilizar espaços sagrados, tanto em seu sentido material quanto imaterial.

Esses são caminhos já bem trilhados, bem como caminhos parcialmente novos. O surgimento de novas tecnologias e, alguns argumentariam, a intrusão delas em nossas vidas profissionais exigem que a espiritualidade no ambiente de trabalho abranja muitas vertentes para contribuir para uma existência individual e coletiva mais plena e holística.

Salas de silêncio, pausas para oração, zonas de meditação, peregrinações internas e externas, etc., são alguns exemplos de como a espiritualidade no ambiente de trabalho pode criar e utilizar espaços sagrados, tanto em seu sentido material quanto imaterial.

Confrontando Espiritualidades Sombrias: O Antissemitismo como Exemplo – Yochanan Altman

O movimento da espiritualidade no ambiente de trabalho é comumente retratado de forma positiva, já que o seu objetivo (em linhas gerais) é criar um mundo melhor, incluindo o ambiente de trabalho. Com o passar do tempo, porém, os seus atributos temporais vêm à tona. A espiritualidade no ambiente de trabalho, como campo acadêmico e os seus equivalentes na prática, emergiu na década de 1990 e na primeira década dos anos 2000. O mesmo período também testemunha o início dos campos acadêmicos da psicologia positiva e dos estudos organizacionais positivos; uma época de crescente riqueza e prosperidade no Ocidente, quando a democracia liberal e os direitos humanos e liberdades civis que ela defende triunfaram, a legislação pró-LGBT tornou-se canônica e a gestão da diversidade no local de trabalho passou a ser uma prática normativa. Ao introduzir a psicologia positiva, Martin Seligman, em seu discurso de posse como presidente da APA em 1998, previu esse novo domínio como “a construção das qualidades mais positivas de um indivíduo: otimismo, coragem, ética de trabalho, visão de futuro, habilidade interpessoal, capacidade de sentir prazer e discernimento, e responsabilidade social” (Seligman, 1999, p. 561). E assim foi, possivelmente culminando no estabelecimento dos estudos da felicidade como um campo acadêmico e uma prática.

O movimento da espiritualidade no ambiente de trabalho é comumente retratado de forma positiva, já que o seu objetivo (em linhas gerais) é criar um mundo melhor, incluindo o ambiente de trabalho.

No início da década de 2020, nós nos encontramos com uma visão de mundo diferente, ou talvez em um clima mundial diferente. Na Europa, de onde eu estou escrevendo, o multiculturalismo foi substituído pelo nacionalismo como retórica dominante e a “democracia iliberal” deixou de ser um termo clandestino para se tornar a política oficial de Viktor Orbán na Hungria, cujo longo período no poder e sucesso em corroer as liberdades civis se assemelham aos de Recep Erdoğan na Turquia e Vladimir Putin na Rússia (lista não exaustiva). Sob o título “Democracia sob Ataque”, o levantamento da Freedom House sobre a política mundial resume a situação atual: “Enquanto uma pandemia letal, a insegurança econômica e física e os conflitos violentos devastavam o mundo, os defensores da democracia sofreram novas e pesadas perdas em sua luta contra inimigos autoritários, alterando o equilíbrio internacional em favor da tirania”. E o relatório detalha: … “O declínio democrático a longo prazo tornou-se cada vez mais global em sua natureza… em 2020, o número de países livres no mundo atingiu o seu nível mais baixo desde o início de um período de 15 anos de declínio democrático global, enquanto o número de países não livres atingiu seu nível mais alto.” (Repucci & Slipowitz, 2021) E Gandesha (2018, p. 49) observa: “Parece que nós estamos vivendo em uma era de populismo”, tanto de direita quanto de esquerda.

Em retrospectiva, sinais do que estava por vir já eram evidentes quando a espiritualidade no ambiente de trabalho deu os seus primeiros passos nos cenários acadêmico e prático. Zakaria (1997) alertou para a “ascensão das democracias iliberais”; e políticas populistas de direita foram defendidas, entre outros, por Le Pen na França, Haider na Áustria e a Liga Norte na Itália desde a década de 1980, atraindo crescente apoio público. Nessa altura, as teorias de Laclau e Mouffe sobre o populismo de esquerda (Laclau & Mouffe, 1985) já estavam bem articuladas e eram estudadas de perto nos círculos políticos de esquerda.

Um desenvolvimento crucial da última década – a rápida disseminação das mídias sociais e o seu amplo uso (e mau uso) – é uma importante corrente contemporânea no discurso público, com evidentes conotações políticas. O impacto das mídias sociais na criação e implementação de movimentos populares como #MeToo, Black Lives Matter e campanhas modernas contra a escravidão, com óbvias implicações no ambiente de trabalho, é difícil de ignorar. A questão é a seguinte: independentemente de nossas visões e crenças, tornou-se difícil dissociar a espiritualidade no ambiente de trabalho da política vigente.

Assim, por exemplo, ao organizar a quinta conferência internacional da IAMSR em Fayetteville, Arkansas, em maio de 2017, os organizadores se depararam com a calamidade de que delegados de países Muçulmanos foram impedidos de participar devido à Ordem Executiva 13780 emitida pelo presidente Trump pouco antes da conferência, que proibia a entrada nos EUA de cidadãos desses países. Isso representou um anátema para a filosofia de uma instituição e um movimento que se baseiam no diálogo com a religião e a sua relevância para o trabalho, a gestão e as organizações. Portanto, posicionar-se sobre questões de domínio público e que podem ser controversas torna-se difícil de evitar. Eu não estou falando de ter uma posição de princípio sobre sustentabilidade, mudanças climáticas ou responsabilidade social corporativa — esses já se tornaram lugares-comuns, como diz o ditado, a maternidade e a torta de maçã. Eu estou falando de tomar uma posição contra espiritualidades sombrias.

Por espiritualidades sombrias, refiro-me a preconceitos profundamente enraizados, estereótipos negativos amplamente aceitos e implicitamente compartilhados por muitos, entrelaçados no tecido cultural das sociedades desde tempos imemoriais e que se manifestam em nosso cotidiano, muitas vezes de forma subconsciente e, por vezes, sem intenção maliciosa. Eu desejo diferenciar essas espiritualidades sombrias, frequentemente tidas como certas, “porque as coisas são assim”, do discurso sobre o lado sombrio das organizações (Vaughan, 1999) como bullying e assédio, discriminação flagrante, corrupção e nepotismo, sabotagem; bem como o lado sombrio da espiritualidade no ambiente de trabalho, frequentemente atribuído por estudiosos da gestão crítica (Lips-Wiersma & Mills, 2014), visto que esses tendem a ser específicos e episódicos; enquanto as espiritualidades sombrias às quais me refiro tendem a ser difusas e universais.

Um exemplo de espiritualidade sombria é o Nazismo, a mais sombria de todas as espiritualidades dominantes do século XX. Como um movimento humanista radical, o Nazismo colocou no centro das atenções a criação de uma “nova” raça de seres humanos que exigia o extermínio de elementos “indesejáveis” na sociedade, como pessoas com deficiência física e mental, homossexuais e, principalmente, Judeus; culminando na Solução Final da Questão Judaica, ou seja, a Shoah (Holocausto). No cerne da ideologia Nazista estava o Antissemitismo, isso é, o ódio e o medo dos Judeus. O Nazismo foi derrotado, mas não erradicado e o seu fundamento – o Antissemitismo – permanece intacto. Se o nazismo foi uma continuação direta do Antissemitismo alemão (e europeu) do século XIX, ou um novo rumo para esse ódio secular, é uma questão que tem sido debatida.

O Antissemitismo, enquanto atitude generalizada contra os Judeus (seja contra Judeus individualmente, contra Judeus coletivamente ou contra o conceito abstrato de “Judeus”), existe pelo menos desde o surgimento do Cristianismo – sendo relevante para um movimento acadêmico que tem a religião como ponto de partida. A sua intensidade oscila, mas nunca desapareceu completamente e está presente também em regiões sem presença Judaica (“Antissemitismo sem Judeus”), ressurgindo em circunstâncias favoráveis. Justin Welby, arcebispo de Canterbury, afirmou isso em depoimento perante a Comissão de Assuntos Internos da Câmara dos Comuns (2016, p. 19).

…nós temos que reconhecer que o Antissemitismo tem sido a raiz e a origem da maioria dos comportamentos racistas nos últimos mil anos… Parece ser algo latente, que permanece sob a superfície e que vem à tona com muita facilidade. Eu penso que é uma daquelas coisas que, quando nós a vemos, indica-nos que há tensões e problemas na sociedade. É o canário na mina de carvão

O mundo tem experienciado tensões e estresses consideráveis ​​na última década, e, como era de se esperar, o Antissemitismo proliferou em todos os cantos do planeta e se intensificou, impulsionado pelas redes sociais e pela darknet. Uma pesquisa de 2016 revelou que uma publicação Antissemita é feita nas redes sociais a cada 83 segundos (WJC, 2017). Incidentes Antissemitas incluem agressões físicas e mortes, ataques a locais de culto, vandalismo em cemitérios, assédio e intimidação de pessoas em espaços públicos. Mais recentemente, os Judeus foram acusados ​​tanto de serem os criadores da pandemia de Covid-19 quanto de se beneficiarem financeiramente de sua cura [cure] (EJC, 2021).

Embora amplamente estudado por historiadores e cientistas políticos, e de interesse para psicólogos sociais, o Antissemitismo parece ter escapado à atenção de estudiosos de negócios e gestão (Altman et al., em publicação). Consequentemente, salvo escândalos ocasionais, nós sabemos muito pouco sobre como o Antissemitismo, enquanto atitude e padrão de comportamento, pode afetar indivíduos no trabalho ou permear a cultura organizacional. O primeiro aspecto pode ser uma preocupação pessoal para qualquer pessoa percebida como Judia – seja ela Judia ou não; o segundo, como foi o caso do partido Trabalhista Britânico, considerado institucionalmente Antissemita em uma investigação oficial (EHRC, 2020), causou graves danos a indivíduos e prejudicou profundamente uma instituição centenária.

O desafio que se apresenta ao movimento da espiritualidade no ambiente de trabalho é a oportunidade de se engajar no aqui e agora no combate a ódios seculares, como o Antissemitismo, ampliando assim o nosso alcance como um movimento acadêmico e aplicado que busca fazer o bem. E embora um logotipo com as cores do arco-íris para uma parada do Orgulho Gay não torne necessariamente um local de trabalho seguro para funcionários LGBT+, nem uma celebração corporativa do Juneteenth implique que os trabalhadores Negros sejam tratados com equidade, há sinais de disposição, tanto por parte das empresas quanto de outras pessoas, em confrontar os nossos preconceitos mais profundos no ambiente de trabalho. Contribuir por meio de pesquisa, teorização e desenvolvimento de aplicações práticas seria um empreendimento valioso para acadêmicos e profissionais da espiritualidade no ambiente de trabalho.

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—–Continua Parte II—–

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.

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Autor

Graduação: Engenharia Operacional Química. Graduação: Engenharia de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing - PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras - FGV/SP. Blog Projeto OREM® - Oficina de Reprogramação Emocional e Mental - O Blog aborda quatro sistemas de pensamento sobre Espiritualidade Não-Dualista, através de 4 categorias, visando estudos e pesquisas complementares, assim como práticas efetivas sobre o tema: OREM1) Ho’oponopono - Psicofilosofia Huna. OREM2) A Profecia Celestina. OREM3) Um Curso em Milagres. OREM4) A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE) - Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT). Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista como uma proposta inovadora de filosofia de vida para os padrões Ocidentais de pensamentos, comportamentos e tomadas de decisões (pessoais, empresariais, governamentais). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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