…continuação da Parte I…

Parte III – O sonho que perdoa” (T-29.IX) (cont.)

Todas as figuras no sonho são ídolos, feitos para salvar-te do sonho (T-29.IV.3:1).

“Tudo o que percebemos e acreditamos que está fora de nós faz parte do sonho. Esses são os ídolos e seu propósito é tornar o sonho externo real para nos proteger do sonho dentro de nossas mentes, que não queremos olhar.

Os estudantes do Curso comprometem isso repetidamente, tentando de todas as maneiras que podem tornar realidade algum aspecto do sonho externo. É por isso que muitos estudantes colocam tanta ênfase em ver Jesus ou o Espírito Santo fazendo coisas por eles no mundo.

Essa é uma maneira sutil de torná-los parte da ilusão, enquanto no Curso Jesus nos pede para levar a ilusão à verdade, não trazer a verdade à ilusão. Temos um forte investimento em tornar o sonho de fora real, porque se for real fora, nós não precisamos olhar para o sonho dentro de nossas mentes. Qual a melhor maneira de fazer com que pareça real do que ter Deus ou Jesus ou o Espírito Santo operando nele?

É por isso que é um erro confundir Um Curso em Milagres com os sistemas de pensamento da Nova Era. O Curso de forma alguma compromete a verdade de que todo o universo físico é uma ilusão. Apenas nós queremos estar cientes das figuras da realidade do sonho, incluindo o Espírito Santo e Jesus, assim nós somos protegidos do sonho subjacente em nossas mentes.

Contudo, eles [todos esses ídolos] foram feitos para salvar-te exatamente daquilo de que fazem parte (T-29.IV.3:2).

Esses ídolos foram feitos para nos salvar do ídolo que criamos em nossas próprias mentes (o sistema de pensamento do ego) que diz: “Eu roubei de Deus e agora existo. Tenho o que roubei. Não tenho mais que dar de volta e eu existo por mim mesmo. E agora Deus existe fora de mim.”

O ego começa com aquele pensamento inicial de julgamento, que é o começo do sonho. Então, torna-se um sonho desenvolvido em nossas mentes que nós somos diferentes de Deus, que roubamos de Deus e pecamos contra ele. E nossa culpa sobre isso agora nos diz que Deus nos punirá. Este é o sonho terrível dentro de nossas próprias mentes. É tão assustador que não olhamos para ele, mas o projetamos de tal forma que agora parece estar fora de nós.

E qualquer coisa que nos enraíze ainda mais no sonho externo servirá perfeitamente ao propósito do ego, mesmo que seja sob o nome de Deus, que é o que as religiões têm feito por séculos. É extremamente tentador para as pessoas fazerem a mesma coisa com Um Curso em Milagres – trazer parte da verdade para a ilusão, tornando a ilusão real. Se você fizer isso, nunca sairá do sonho, porque não saberá que é apenas um sonho.

Assim é que o ídolo mantém o sonho vivo e terrível, pois quem poderia desejar um, a não ser que estivesse no terror e no desespero? (T-29.IV.3:3)

Dr. Kenneth Wapnick então enfatiza que o “você” a que Jesus se refere nessas passagens é a mente, a parte da mente que escolhe – a que ele se refere como o tomador de decisões. É a parte de nossas mentes que primeiro se identificou com o sistema de pensamento do ego.

“É um sistema de pensamento de terror e desespero que nos diz que nós precisamos nos proteger do terror e do desespero negando-o, o que significa que nunca mais olharemos para ele. E então nós projetamos e vemos fora de nós mesmos.

É por isso que precisamos de um mundo de pessoas e objetos específicos. Projetamos todos esses pensamentos de pecado, culpa e julgamento para que não sejam mais vistos dentro, mas fora.

Enquanto acreditarmos na realidade do ídolo, nunca saberemos que o ídolo realmente reside em nossas próprias mentes.

E isso o ídolo [qualquer coisa no mundo fora de nós] representa e assim a idolatria dos ídolos é a idolatria do desespero e do terror e do sonho do qual eles vêm (T-29.IV.3:4).

Isso é verdade para os ídolos do especialismo que consideramos maravilhosos e nos fazem felizes, assim como para os ídolos do especialismo que odiamos.

No início do Texto, em ‘Os obstáculos à paz’ (T-19.IV), Jesus fala sobre isso de outra forma:

‘Enquanto acreditas que ele [o corpo] pode te dar prazer, também acreditarás que pode te trazer dor’ (T-19.IV-A.17:11).

Prazer e dor são lados opostos da mesma ilusão. Ambos tornam o corpo real porque ambos dizem que há algo fora de nós que pode nos fazer felizes ou infelizes e nos trazer dor.

A verdade é que a única coisa que pode nos trazer felicidade é escolher o Amor do Espírito Santo. A única coisa que pode nos trazer dor é escolher o ego. Isso é tudo. Não há mais nada.

As linhas aqui representam a mesma ideia. É por isso que nos tornamos tão envolvidos no mundo. É fácil cair nessa armadilha, mesmo como estudante de um Curso que ensina que não existe mundo, pois ainda nós acreditamos que comportamentos externos de alguma forma significam alguma coisa. Eles não significam nada em si mesmos. O seu significado reside apenas no significado que lhes atribuímos.

O que é importante nunca é algo externo – não o que os corpos fazem ou não fazem – mas a nossa decisão interna de escolher o ego e a separação, ou Jesus e a união.

Uma vez que focalizamos a nossa atenção fora e acreditamos que o que fazemos é importante, útil, curador ou amoroso, nós somos apanhados no especialismo, adorando o ídolo do especialismo. Pensaremos que estamos servindo a uma função de cura ou amor, mas na verdade é um ídolo de desespero e terror.

Ao adorar os ídolos do especialismo externo, estamos adorando não apenas o terror, o desespero e a culpa, mas todo o sonho, do qual o terror, o desespero e a culpa são apenas componentes. Estamos adorando o sonho de que temos o que roubamos de Deus e nunca o devolveremos, pois agora existimos como indivíduos por nós mesmos.

Amamos o terror, o desespero e a culpa, ou não os sentiríamos o tempo todo. Nós os amamos porque eles tornam real o pensamento de separação – o pensamento do julgamento original contra Deus – que torna real a nossa existência separada de Deus.

É por isso que nós temos um grande investimento em nossa auto importância, em ser um indivíduo único – isso estabelece que o sonho é real. O estado de terror ou desespero em nossas mentes diz que o sonho é real; a culpa e o pecado são ambos reais.

O julgamento é uma injustiça para com o Filho de Deus e é justiça o fato de que aquele que o julga não escapará da penalidade que infligiu a si próprio dentro do sonho que fez (T-29.IX.3:5).

É importante perceber que todo o sistema de pensamento do ego é real em si mesmo. Não é realidade, mas dentro do próprio sonho tudo é muito real. Quando dormimos à noite e sonhamos, vivenciaremos o sonho como muito real. Este mundo inteiro é um sonho.

Como Jesus explica em outro lugar (por exemplo, T-18.II.5:13-14), não há diferença entre o que chamamos de nossos sonhos adormecidos e o que ele se refere como nossos sonhos acordados, como os que estamos experimentando agora. Eles são todos iguais – apenas diferentes expressões dos pensamentos em nossas mentes.

Dentro do sonho do ego, o medo da punição é muito real. Nesse sonho, nosso medo de sofrer danos – físicos ou emocionais – é muito real.

Nós não somos solicitados, como estudantes de Um Curso em Milagres, a negar quais são as nossas experiências. Nós somos solicitados, no entanto, a não tornar essas experiências realidade. Há uma diferença crucial entre essas duas abordagens.

Em outras palavras, todos nós sentimos medo e acreditamos que nosso medo se deve a algo externo a nós que pode nos afetar. O ego interpreta isso como a ira de Deus sobre nós – essa é a nossa experiência. Podemos não experimentá-la conscientemente como a ira de Deus, mas certamente experimentamos o medo como causado por algo externo a nós.

Lembre-se de que nossos próprios corpos são tão externos às nossas mentes quanto o corpo de todas as outras pessoas. Mas isso não o torna realidade. É aí que as Igrejas Cristãs se enganaram; eles pegaram a sua experiência de medo e escreveram uma teologia sobre isso. Eles disseram que esta é a realidade de Deus: Deus vê nosso pecado como real e tem um plano para nos ajudar a expiá-lo, basicamente um plano de assassinato. O plano então se torna de sofrimento e sacrifício. Se acreditarmos que estamos nos sacrificando para que Deus não fique com raiva de nós, então nos sentiremos bem em relação ao sacrifício. Mas isso não o torna realidade.

A nossa experiência é que o sol nasce e se põe, mas isso não o torna realidade. Na realidade, é a rotação da Terra em seu próprio eixo que faz com que pareça que o Sol se move ao redor da Terra. E, de fato, é a terra que gira em torno do sol.

Da mesma forma, as pessoas podem experimentar o Espírito Santo ou Jesus fazendo coisas por elas no mundo, mas isso não significa que elas realmente são. Não confunda a sua experiência com a realidade. O ego sempre interpreta as nossas experiências a fim de construir uma teologia que atenda aos seus propósitos e é por isso que temos a experiência em primeiro lugar.

Em nosso sonho, sempre que fazemos um julgamento, estamos afirmando que somos diferentes de Deus; nós nos separamos Dele, pecamos contra Ele e roubamos Dele. Nossa culpa por isso exigirá que não escapemos da punição da ira de Deus.

Todo este mundo, que é um mundo de mudança e morte, é então a testemunha do fato de que o que o ego nos ensinou é verdade. Se nossa existência, que chamamos de vida, foi finalmente roubada de Deus, então, quando Deus roubar de volta a vida que roubamos Dele, ficaremos sem vida, o que significa que estaremos mortos. Essa é a interpretação do ego sobre nossa morte.

Deus sabe da justiça, não da penalidade (T-29.IX.3:6).

A justiça de Deus, é claro, não tem nada a ver com a justiça como a pensamos. A justiça de Deus afirma que nada aconteceu. Se nada aconteceu, não há culpa nem punição.

Mas no sonho do julgamento tu atacas e és condenado; e desejas ser o escravo de ídolos, que se interpõem entre o teu julgamento e a penalidade de que ele traz (T-29.IV.3:7).

Mas nós não somos condenados por Deus. Nós somos condenados pela projeção de nossa própria culpa, que constitui um Deus que está irado.

Então, negamos toda a dinâmica e criamos um mundo no qual estamos continuamente condenando e julgando os outros, enquanto nós acreditamos que eles nos condenaram e julgaram primeiro. Mas o nosso julgamento está dentro de nossas mentes; essa é a nossa culpa. Nós o projetamos e formamos um mundo de ídolos que vão nos punir; e realmente pensamos que existe um mundo lá fora que nos afeta. Tudo isso faz parte do sonho, que parece muito real de dentro do sonho.

Parte IV – O sonho que perdoa” (T-29.IX) (cont.)

Não pode haver salvação no sonho enquanto o estás sonhando   (T-29.IV.4:1).

Esta é a história do mundo. Isso explica por que toda tentativa de trazer a paz foi fútil e falhou. Estamos sempre tentando alcançar a paz dentro da estrutura do mundo. Estamos sempre tentando fazer tudo melhor aqui, quando nada pode ser melhor aqui. Isso porque, primeiro, este é um mundo de ódio; e, segundo, não há mundo aqui de qualquer maneira.

O que precisa ser melhorado é nossa decisão. Escolhemos o ego, o que foi um erro; a anulação desse erro é escolher Jesus ou o Espírito Santo.

Mas não há nada aqui que possa ser melhorado. Uma vez que tentamos tornar o mundo melhor, caímos na armadilha do ego. Por que desejaríamos tornar o mundo melhor, a menos que primeiro acreditássemos que havia algo de errado com o mundo?

E se acreditamos que há algo errado com o mundo, então obviamente nós acreditamos que existe um mundo aqui, que é exatamente o que o ego quer que acreditemos. Precisamos acreditar que existe um mundo aqui, porque essa é a nossa defesa contra o mundo que tornamos real dentro de nós mesmos, do qual temos medo.”

Pois os ídolos têm que fazer parte dele, para salvar-te daquilo que tu acreditas que realizaste e fizeste para fazer de ti mesmo um pecador, apagando a luz dentro de ti (T-29.IV.4:2).

Dr. Kenneth Wapnick continua didaticamente explicando esse importante capítulo:

“O que nós acreditamos ter realizado é o assassinato de Deus e agora Deus vai nos assassinar em troca. Todos nós acreditamos que roubamos a luz do Céu, o que significa que destruímos essa luz. A luz que então acreditamos ser a realidade – o sol e as estrelas – é realmente artificial.

Achamos que há uma diferença entre a luz do sol e a luz de uma lâmpada – uma é chamada natural e a outra artificial ou não natural. É tudo antinatural.

Algumas pessoas pensam que há uma diferença entre alimentos naturais e alimentos processados ​​e não naturais com aditivos químicos e outros artificiais. Todos os alimentos não são naturais porque tudo neste mundo não é natural.

Não há distinção entre os níveis de ilusão. Como afirma a primeira lei do caos, existe uma hierarquia de ilusões (T-23.II.2). Todos nós acreditamos que apagamos a luz.

Nesse ponto, a seção começa a mudar de foco. Jesus vai nos dizer como lidar com esse sonho. É óbvio que esse sonho de julgamento é tão enorme que parece impossível jamais superá-lo. E não somos solicitados a superar isso por nossa própria ação – e certamente não por ação de nosso ego.

Tudo o que nós somos solicitados a fazer, o que é inerente à segunda etapa do julgamento, é olhar para o sonho e vê-lo como ele é.

Nós não somos solicitados a negar o que experimentamos neste mundo, seja físico, emocional ou psicológico. Nós somos apenas solicitados a iniciar o processo de negar que o que experimentamos tem algum poder sobre o Amor e a paz de Deus dentro de nós. Podemos começar a fazer algo sobre isso.

Não temos que experimentar paz, mas pelo menos temos que perceber por que não estamos experimentando paz. Se não estou em paz, não é por causa de algo que você disse ou deixou de me dizer, ou do que você fez ou deixou de fazer. Se eu estou me sentindo fraco e não bem, não é porque algo está errado com o meu corpo. É sempre porque algo está errado com a minha mente: escolhi o ego em vez do Espírito Santo.

É por isso que, repetidamente, Jesus diz como o seu proceder é muito simples. É simples porque tudo é verdadeiro ou falso e nunca existe nenhum meio-termo. Não há causa para nada neste mundo, exceto minha decisão de que seja real. Se eu sou feliz, é porque eu escolhi ser feliz. Se eu estou triste, é porque eu escolhi ficar triste. Como eu me sinto não tem nada a ver com coisas externas.

O começo do desfazer do sistema de pensamento de julgamento do ego é o nosso reconhecimento do que ele é: um sistema de pensamento de julgamento que está nos deixando chateados ou felizes. Não tem nada a ver com nada externo; é um sistema de pensamento que escolhemos.

Em outras palavras, nada aconteceu. O problema não é o sonho de julgamento. O problema é que acreditamos no sonho do julgamento. Não há sonho de julgamento. Não há pecado contra Deus. Deus nem sabe que algo aconteceu, porque nada aconteceu. Se não há pecado contra Deus, não há culpa. A culpa vem apenas do pecado. E não pode haver medo, porque o medo vem da culpa. Não haverá nenhum pecado em minha mente que eu tenha que negar ou defender. E se eu não tenho que negar ou me defender contra isso, eu não preciso de um mundo, porque o único valor que o mundo serve é como um esconderijo onde minha culpa é protegida.

Então Jesus diz:

Pequena criança, a luz está aqui. Tu estás apenas sonhando e os ídolos são brinquedos com os quais sonhas que estás brincando. Quem tem necessidade de brinquedos a não ser as crianças? (4:3-5)

Este é apenas um lugar entre muitos (por exemplo, T-11.VIII.7:1; T-12.II.4:6) onde Jesus se dirige a nós como crianças. Ele não pensa muito em nossa maturidade; e ele descreve o mundo inteiro de ódio, maldade, assassinato e especialismo como um jogo que as crianças jogam (por exemplo, LE-pI.153.7-8).

Isso certamente coloca tudo em um contexto totalmente diferente. Achamos que nossos problemas e os problemas de nossos entes queridos e os problemas do mundo em geral são todos muito sérios. E de fato eles são muito sérios dentro do sonho.

Mas quando nós colocamos o sonho contra a realidade, nós percebemos como tudo é trivial. Não é trivial dentro do sonho – assim como em um pesadelo à noite, o que está acontecendo em nossas mentes não parece trivial. Só quando nós acordamos é que percebemos que inventamos tudo. É trivial apenas quando olhamos para isso da perspectiva do Amor de Deus. Portanto, a minha ansiedade e inquietação, o meu medo, terror e minha culpa vêm de não olhar para o sonho no contexto do Amor de Deus e não de nada que eu acho que está acontecendo em minha vida.

Todo o propósito do Curso é nos ajudar a entender isso. Se eu estou chateado, não é por causa do que você está fazendo comigo. Sinto-me culpado porque, mais uma vez, deixei cair a mão de Jesus ou do Espírito Santo e me sinto sozinho. E na minha solidão, eu sinto medo de que a ira de Deus desça sobre mim e me castigue por causa do que fiz. É por isso que estou chateado.

Não tem nada a ver com qualquer coisa que você ou qualquer outra pessoa no mundo diga ou qualquer outra coisa que aconteça. É um erro confundir o Curso com outros sistemas espirituais que ensinam que o Espírito Santo intervém no mundo. Se o fizesse, estaria caindo no mesmo truque do ego em que caímos. O Espírito Santo ou Jesus permanecem em nossas mentes como um farol que simplesmente brilha o seu amor, lembrando-nos que nós podemos escolher esse amor em vez das trevas do ego.

Toda a paz, conforto e alegria que desejamos são encontrados nesse amor. Tudo o mais que fazemos é como um jogo que as crianças brincam. Quando as crianças brincam – “faz de conta”, como às vezes nos referimos a isso – o que estão fazendo não é real. Pode parecer real para elas no momento, mas o adulto olhando para elas percebe que não é real.

Jesus é o adulto olhando o nosso cercadinho e todos os soldadinhos com quem estamos brincando. Um grupo está matando outro grupo, literal ou simbolicamente. Nós achamos que é sério, mas Jesus está nos dizendo que não. É por isso que ele nos chama pequenas crianças.

Como pequenas crianças, nós não entendemos a diferença entre aparência e realidade. Todos caímos na armadilha de pensar que o que nós fazemos e dizemos, onde vivemos, o que se passa no mundo e assim por diante, são tudo muito importante, nós somos crianças que vêem o mundo apenas através das lentes míopes de nossa percepção muito limitada.

Assim novamente:

Quem tem necessidade de brinquedos a não ser as crianças? Elas fingem que governam o mundo e dão aos seus brinquedos o poder de se locomoverem, de falarem e de pensarem, de sentirem e de falarem por elas. Entretanto, tudo aquilo que os seus brinquedos aparentemente fazem está nas mentes das crianças que com eles brincam (T-29.IV.4:5-7).

Um tipo de psicoterapia com crianças é a ludoterapia, em que a criança recebe bonecos e outras figuras para representar o que está em sua mente e que ela não consegue verbalizar. A criança dá realidade às figuras, projetando nelas questões não resolvidas com pais, irmãos e com ela mesma. E o que a criança está fazendo não tem nada a ver com as próprias figuras. Ela está fazendo com que as figuras representem os pensamentos em sua própria mente.

Bem, isso é exatamente o que este mundo inteiro é. E levamos a sério o que parece acontecer no mundo que nós acreditamos estar lá fora, para que não tenhamos que entrar em contato com o mundo do julgamento dentro de nós.                                                                                                                              

Portanto, uma parte essencial do processo de Um Curso em Milagres é desenvolver um relacionamento com Jesus ou o Espírito Santo. Se nenhum desses nomes funcionar para você, substitua qualquer outro símbolo que reflita para você uma presença amorosa e sem ego que não é sua, mas está dentro de você.

Um relacionamento pessoal com Jesus ou o Espírito Santo permite que você comece a se separar longe do ser e do mundo que parece estar fora dele. Esse processo nos permite olhar o que está acontecendo e perceber que este é apenas um jogo que as crianças brincam. Parece muito real e muito poderoso dentro do jogo, mas isso não significa que deixe de ser simplesmente um jogo de crianças.

E novamente:

Entretanto, tudo aquilo que os seus brinquedos aparentemente fazem está nas mentes das crianças que com eles brincam. Mas elas anseiam por esquecer que elas próprias inventaram o sonho no qual os seus brinquedos são reais e não reconhecem que os desejos que eles têm são os seus próprios (T-29.IV.4:7-8).

As crianças se envolvem muito e se identificam com as suas brincadeiras de faz de conta, esquecendo que tudo é inventado. Mas isso é exatamente o que todos nós fazemos. Agimos como crianças. É ridículo pensarmos que nós somos adultos. Fisicamente, podemos ser, mas certamente nós não somos adultos do ponto de vista espiritual.

Nós inventamos tudo isso e depois esquecemos que inventamos. Se nos virmos ficando chateados por causa de uma notícia, ou algo em nosso mundo pessoal, como estudantes deste Curso certamente nós não queremos lutar ou negar o que estamos sentindo. Nós devemos apenas dar um passo para trás e olhar com Jesus ou o Espírito Santo e observar a nós mesmos ficando perturbados por algo que acreditamos estar fora de nós.

Agora, novamente, nós não estamos falando simplesmente sobre observar o que os nossos olhos vêem. Estamos falando sobre observar a nossa reação a isso – a nossa interpretação do que os nossos olhos veem – e perceber que o que nós estamos vendo do lado de fora e acreditamos ser real e tem um efeito sobre nós nada mais é do que uma projeção de um pensamento que não queremos de fato ver em nós mesmos.

Isso é tudo que temos que fazer. Não temos que lutar contra o pensamento ou tentar mudá-lo. Simplesmente temos que olhar para ele. Mas temos que olhar para isso com honestidade. E a honestidade diz que se eu estou sentindo algo – se eu estou com raiva, chateado, com medo, culpado ou com dor – não é por causa de algo fora da minha mente. É por causa de uma decisão que a minha mente tomou de me ver, mais uma vez, como separado do Amor de Deus. E o que estou sentindo é o efeito dessa decisão: a culpa, o medo, o sofrimento e a dor, que vêm automaticamente por acreditar que pequei. Isso é tudo que tenho que fazer. Eu devo apenas perceber que isso não é o que pensei que fosse.”

Parte V – A visão da impecabilidade (T-20.VIII)

Dr. Wapnick analisa e explica o parágrafo 7, da seção VIII “A visão da impecabilidade”, do capítulo 20 do Livro Texto.

O julgamento não passa de um brinquedo, um capricho, o meio sem significado de jogar o jogo da morte em tua imaginação (T-20.VIII.7:1).

Todo este mundo faz parte da nossa imaginação. Não tem base na realidade. Lembre-se de que, quando nós fizemos o julgamento original, pensamos que era tudo menos um brinquedo. Achamos que era muito, muito sério. Este foi um julgamento que disse que nós voltamos contra Deus e roubamos Dele, que destruímos Deus, Cristo e a unidade do Céu.

Isso dificilmente parece um brinquedo! Estamos dizendo que a nossa mente é extremamente poderosa. Veja o que conseguiu: o impossível. Esse é o julgamento original e é expresso repetidamente em tudo o que acontece no mundo, sem exceção. Tudo parece tão pesado, tão importante, tão real, tão valioso, tão vicioso e destrutivo e maravilhoso, etc. E tudo isso vem do julgamento original de que fiz uma coisa terrível a Deus. E tudo isso vem do julgamento original de que fiz uma coisa terrível a Deus.

O outro lado é: ‘Mas ele não é maravilhoso? Agora tenho minha própria individualidade; eu sou único e presunçoso.’ E, claro, eu roubei tudo isso de Deus, o que significa que o lado inferior dessa sensação de admiração e alegria é o terror.

Mas a verdade é que tudo é um brinquedo. Nada aconteceu. Eu só pensei que roubei de Deus. Eu só pensei que o havia destruído. Eu só pensei ter destruído Jesus na cruz. Nada aconteceu. A coisa toda foi inventada.

Mas a visão corrige todas as coisas, trazendo-as gentilmente para o controle benigno das leis do Céu (T-20.VIII.7:2).

A visão ocorre quando nós olhamos com Jesus para todos os nossos julgamentos terríveis – os julgamentos terríveis que faço sobre você e os julgamentos terríveis que faço sobre mim, pois é claro que eles são a mesma coisa. Eu olho com Jesus para eles e digo: ‘Este é apenas um brinquedo. Não tem efeito sobre o Amor de Cristo em você ou em mim. Não tem efeito sobre o amor de Jesus por mim.‘ Em outras palavras, nada aconteceu. Isso é o que a visão nos diz.

O que aconteceria se reconhecesses que esse mundo é uma alucinação? O que aconteceria se compreendesses realmente que o inventaste? (T-20.VIII.7:3-4)

Jesus quer dizer essas palavras muito literalmente. Uma alucinação do ponto de vista clínico refere-se a ver, ouvir ou cheirar algo que não existe. Jesus está nos dizendo que o mundo inteiro é uma alucinação – estamos literalmente vendo algo que não existe. O mundo é simplesmente uma projeção de um pensamento em nossa mente que ele mesmo não existe. O mundo que percebemos e experienciamos é um mundo de separação, diferenças e julgamento.

Como as ideias não deixam a sua fonte em nossa mente, o mundo simplesmente reflete o pensamento de julgamento, a percepção das diferenças em nossa mente. Mas esse pensamento também não existe, porque na verdade nunca saímos da casa do nosso Pai.

O que aconteceria se te desses conta de que aqueles que parecem perambular sobre ele, para pecar e morrer, atacar e assassinar e destruir a si mesmos, são totalmente irreais? Poderias ter fé no que vês, se aceitasses isso? E queres ver isso? (T-20.VIII.7:5-7)

A resposta, claro, é que temos medo de perceber que este mundo é uma alucinação, que tudo é inventado e, portanto, não o vemos dessa forma. Temos medo de ver que tudo está inventado, porque então o mundo aparentemente externo não terá mais valor como defesa.

Se eu acredito que o mundo é real, eu não preciso olhar para a minha mente. Se eu perceber que o mundo é feito, eu entendo que o que estou percebendo do lado de fora é uma projeção do que está dentro da minha mente. E isso significa que devo olhar para dentro deste terrível pensamento de julgamento. E eu não quero fazer isso.

As alucinações desaparecem quando são reconhecidas pelo que são. Essa é a cura e o remédio (T-20.VIII.8:1-2).

Este é realmente o ponto crucial da segunda etapa do julgamento e eu gostaria de passar alguns minutos discutindo isso.

Se eu reconheço que o que eu estou percebendo é inventado, perde seu valor como defesa, o que significa que desaparece, pois eu não tenho mais necessidade disso.

O mundo continua a existir para nós apenas porque nós temos necessidade dele para nos proteger da culpa do julgamento original. Esse é o propósito do mundo.

Se agora eu percebo que não há mundo lá fora e tudo que vejo é inventado, então explodo o mito da defesa, o que significa que a defesa desaparece.

Assim, “as alucinações desaparecem quando são reconhecidas pelo que são”. Em outras palavras, eu tenho que olhar para elas. Sempre voltamos a isso.

Vejo o fato de que eu estou ficando com raiva, que eu estou ficando ansioso, que eu estou com ira, que eu estou com uma dor terrível, que eu estou em êxtase, que eu mal posso esperar que algum acontecimento maravilhoso aconteça. Não importa se é positivo ou negativo; Anseio por algo que eu acredito que me trará prazer, ou temo algo que eu acredito que me trará dor. Eu só tenho que perceber que eu estou inventando.

Eu não preciso parar de acreditar, temer ou ficar animado com isso. Eu simplesmente tenho que saber o que fiz. Isso é tudo que a ‘um pouco de boa vontade’ está pedindo de nós. Não é nos pedir para abrir mão de tudo – estamos apavorados demais.

É por isso que no Curso, com muito poucas exceções (por exemplo, T-18.V.2:5; T-26.VII.10:1), Jesus nos pede um pouco de boa vontade. Um pouco de boa vontade é simplesmente a disposição de começar o processo de recuar e olhar, o que significa automaticamente recuar com Jesus – o ego nunca nos deixaria olhar para si mesmo sem julgamento.

Se estou olhando para o meu ego sem julgamento, eu devo estar olhando com Jesus, o que significa olhar para o meu ego e dizer: ‘Isso é o que eu estou fazendo. Eu estou sendo teimoso e resistente. Eu estou me agarrando a isso porque eu tenho medo do Amor de Deus. Eu prefiro muito mais matar você do que ver Deus me matar. Eu prefiro me entregar a todo o meu especial do que ter a paz de Deus. Eu prefiro me entregar a todos os meus especialismos do que ter a paz de Deus.’

Pelo menos eu sei o que estou fazendo. Eu não tenho que mudar isso, porque se eu sinto que o tenho que mudar, então eu o tornei real.

Se você alguma vez acredita que Jesus (ou o Espírito Santo) o está forçando a fazer algo, então não é Jesus. É o Jesus do seu ego. Jesus nunca o forçaria a fazer nada, porque ele sabe que não há nada a ser feito.

Tudo o que ele [Jesus] faz, por sua própria presença em nossas mentes, é gentilmente nos lembrar que poderíamos ver o que está acontecendo de maneira diferente.

Nós não precisamos olhar para isso de forma diferente, apenas reconhecer que existe uma outra maneira de olhar. Nós podemos escolher não fazer isso imediatamente; mas reconhecer que existe uma maneira diferente é a cura e o remédio.

Não acredites nelas [não acredite nas alucinações] e desaparecerão (T-20.VIII.8:3).

Esse é um processo. Eu posso acreditar intelectualmente que são alucinações, mas uma parte de mim ainda se apega a elas. Então eu olho para isso e percebo, sim, eu entendo que tudo isso é inventado.

Sim, eu entendo que nunca fico chateado pelo motivo que penso. No entanto, eu ainda quero me agarrar a esse especialismo, essa mágoa, essa depressão e dor – porque eu tenho mais medo do que isso esconde: o amor e a paz de Deus. É disso que eu tenho medo, mas pelo menos agora eu sei disso.

Aqui está a próxima linha muito importante:

E tudo o que precisas fazer é reconhecer que foste tu que fizeste tudo isso (T-20.VIII.8:4).

Jesus não diz que tudo que você precisa fazer é desistir, ou mudar isso, ou lutar contra isso, ou ter dificuldade contra isso. Ele diz: “tudo que você [o tomador de decisões] precisa fazer é reconhecer que você fez isso.”

Uma vez que tiveres aceito esse simples fato e tomado a ti o poder que lhes deste, estás liberado em relação a elas. Uma coisa é certa: as alucinações servem a um propósito e quando esse propósito já não se mantém, elas desaparecem (T-20.VIII.8:5-6).

O propósito das alucinações é me proteger do Amor de Deus. Mas se eu puder começar a saber que o amor de Jesus está totalmente presente em mim, mesmo que eu ainda tenha medo dele e que meu único problema é que eu o continuo afastando, então eu não preciso mais de uma defesa contra isso .

Não preciso mais acreditar que o problema é externo a mim porque agora sei que o problema é interno. Talvez ainda tenha medo da solução. Talvez eu ainda tenha medo do amor, mas agora pelo menos entendo do que tenho medo.

Eu não tenho medo de você. Não tenho medo de envelhecer e morrer. Não tenho medo de não ter dinheiro suficiente. Não tenho medo de pegar AIDS. Não tenho medo de outra guerra estourar. Não tenho medo de uma recessão. Tenho medo do Amor de Deus e eu não chamo o meu medo por nenhum outro nome. Agora eu sei que é isso. Ainda posso escolher manter Jesus afastado, mas pelo menos agora eu sei o que estou fazendo.

Portanto, a questão nunca é saber se tu as queres, mas sempre, queres o propósito ao qual elas servem? (T-20.VIII.8:7)

Isso é extremamente importante. A questão nunca é todos os ídolos, todas as formas que a alucinação assume. O problema é que eu quero o propósito a que servem. Eu quero manter o Amor de Deus longe de mim. É disso que eu tenho medo, porque na presença do Amor de Deus, eu desaparecerei como um indivíduo separado.

Mais uma vez, nós de fato não desaparecemos de uma vez: ‘Não tenhas medo de ser abruptamente erguido e jogado da realidade’ (T-16.VI.8:1). Antes de desaparecer totalmente, o que desaparece é minha ansiedade, culpa, depressão, dor, etc. – todas as coisas negativas que eu estou sentindo.

E o que os substitui é o Amor e a paz de Deus, que eu experimento dentro do ser separado que eu acredito ser. Mas agora pelo menos eu sei a diferença entre a realidade e a ilusão. Isso significa que eu estou começando a crescer. Não uso mais fraldas.

Essa é a etapa do processo: eu simplesmente entendo o problema real e o chamo pelo nome correto. O problema não é nada externo. O seu nome próprio é meu medo do Amor de Deus. Agora eu estou ciente de como eu tenho usado o mundo e todos em meu mundo pessoal e todo o meu especialismo para resistir e me defender contra este Amor.

Se eu posso começar a olhar para o que tenho feito, com o amor de Jesus ao meu lado, então estou começando a entender que o amor não me condena nem me pune.

Se eu puder começar a sentir o quão odioso eu tenho sido para com Jesus e, portanto, quão odioso eu tenho sido com todos os outros e se eu puder olhar para isso com o seu amor próximo a mim – um amor que não está me julgando pelo ódio – posso começar a entender que ‘o julgamento é apenas um brinquedo, um capricho‘. Não é realidade.

Por isso é importante olhar com Jesus ou com o Espírito Santo.

Esse mundo parece oferecer muitos propósitos, cada um diferente e com valores diferentes. No entanto, todos são o mesmo. Mais uma vez, não há nenhuma ordem, apenas uma aparente hierarquia de valores (T-20.VIII.8:8-10).

O único propósito que tudo no mundo serve é manter o Amor de Deus afastado – não há ordem nisso.

Parte VI – O sonho que perdoa (T-29.IX) (cont.)

O autor retorna para análise e explicação à seção IX O sonho que perdoa, do capítulo 29, começando com o parágrafo 5.

Pesadelos são sonhos de crianças. Os brinquedos se voltaram contra a criança que pensou tê-los feito reais. No entanto, é possível um sonho atacar? Ou é possível um brinquedo crescer e tornar-se perigoso, ameaçador e selvagem? Nisso a criança acredita, porque tem medo de seus pensamentos e os atribui aos brinquedos em vez de a si mesma (T-29.IX.5:1-5).

“Aqui, como em outros lugares do Curso, Jesus fala especificamente sobre o que as criancinhas fazem, mas então pega esse exemplo e generaliza para todos nós. Uma criança tem muita culpa e medo. Uma criança adormecida repentinamente acordada por um som fora de sua janela pode pensar que é um homem mau que vai machucá-la ou matá-la. Na verdade, é apenas o vento soprando entre as árvores.

Mas seus pensamentos de culpa e medo agora têm uma realidade fora dela, porque primeiro ela os tornou reais dentro de si mesmo. Ela primeiro acredita que é culpada e temerosa, o que significa que ela acredita que merece ser punido. Ela então projeta isso para fora e pega um estímulo neutro – o vento soprando entre as árvores – e o traduz em um homem que vai entrar em seu quarto e matá-la. No entanto, isso é exatamente o que todos nós fazemos.

A criança ‘tem medo de seus pensamentos e os atribui aos brinquedos em vez de a si mesma‘. Nós acreditamos que nós somos um pensamento terrível, que nós somos o pensamento que matou Deus. Agora nós não temos que entrar em contato com aquele pensamento ontológico original de destruir Deus, porque nós estamos em contato com ele o tempo todo de várias formas específicas.

Sempre que eu tenho um pensamento negativo sobre mim, em qualquer nível, é uma expressão da culpa original. Qualquer medo ou ansiedade que eu atribuo a algo fora de mim vem do medo original de que Deus vai me punir. E esse pensamento vem da ideia de que tornamos o pensamento de separação, o pensamento original de julgamento, real e poderoso. Uma vez que nós tornamos o pensamento real e o tornamos realidade, nós o projetamos no mundo.

E a realidade deles [a realidade dos brinquedos] vem a ser a sua realidade, porque parecem salvá-la de seus pensamentos (T-29.IX.5:6).

Os brinquedos seriam qualquer coisa no mundo a que déssemos importância. Estamos voltando aqui para o propósito de todos os ídolos: o especialismo. Parece que tenho medo de algo externo. Na verdade, eu amo o que é assustador fora de mim, porque prefiro lidar com o medo de algo fora de mim do que com o medo de Deus dentro de mim.

Parece que sempre há algo que eu posso fazer com o medo fora de mim, mas não há nada que eu possa fazer para escapar da presença colérica, vingativa e maníaca de Deus dentro de mim. E então nós negamos o medo interno e o colocamos fora de nós.

E, novamente, esse é o propósito dos brinquedos externos: eles parecem nos salvar do pensamento interno. Prefiro odiar você e acreditar que você está conspirando contra mim do que entrar em contato com o horror subjacente que Deus está tramando contra mim.

Contudo, eles mantêm os seus pensamentos vivos e reais, só que vistos fora dela, onde podem voltar-se contra ela, pela traição que ela faz a eles (T-29.IX.5:7).

Essa é a mesma ideia que foi expressa anteriormente no Texto em ‘Os dois retratos’ na declaração importante, ‘as defesas fazem exatamente aquilo do qual pretendem defender’ (T-17.IV.7:1).

O objetivo de qualquer defesa é nos proteger de nosso medo, de tudo o que nós tememos. Mas quanto mais nós acreditamos que precisamos de uma defesa, nos identificamos com ela e investimos nela, mais nós estamos dizendo que algo dentro de nós é vulnerável e merece punição.

Portanto, ‘as defesas fazem exatamente aquilo do qual pretendem defender‘. Elas deveriam nos proteger de nosso medo, mas, em vez disso, nos deixam ainda mais amedrontados. Esta linha expressa o mesmo princípio.

Quanto mais eu acredito que existem coisas fora de mim que podem me dar prazer ou dor, mais real eu estou tornando os pensamentos que as originaram. A única razão pela qual eu preciso dos ídolos externos – ídolos do prazer ou ídolos da dor – é para me proteger do pensamento de julgamento.

O fato de ter esses ídolos fora de mim está me dizendo que eu tenho um pensamento de julgamento que eu estou protegendo. E vejo os ídolos fora de mim se voltando contra mim como punição pela traição que eu acredito ter feito a eles. Bem dentro de mim, eu acredito que eu sou um assassino. A minha própria existência aqui como um ser individual separado está dizendo que eu matei Deus. E não apenas eu matei Deus, mas eu peguei aquele pensamento de assassinato, dividi-o, fragmentei-o e agora eu acredito que vou matar todos os outros. É assim que funciona o especialismo.

Eu quero meu parceiro especial, meu amor especial, meu objeto especial – e vou matar qualquer um que se interponha no caminho. E é claro que todos ficam no caminho porque todos querem o mesmo especial que eu. Portanto, eu estou sempre em estado de guerra.

Este mundo é um campo de batalha perpétuo do especialismo. Eu acredito que todo mundo vai fazer comigo o que eu secretamente acredito que fiz para eles. Eu secretamente acredito que eu sou o assassino; mas agora eu projeto e acredito que todo mundo vai me matar.

Ela pensa que necessita deles para poder escapar dos próprios pensamentos porque pensa que os seus pensamentos são reais (5:8).

Cada um de nós é a criança, pensando que precisamos desses ídolos do especialismo. Nós achamos que os nossos pensamentos são reais e nós temos que fugir deles. E esse é o propósito do mundo. Nós podemos dizer que ainda nós somos escravos de nosso especialismo simplesmente por perceber o quão investidos nós estamos em certas coisas no mundo.

A ideia, porém, não é negar todos os nossos julgamentos e nosso especialismo. Em vez disso, nós queremos olhar para eles. Jesus não está pedindo a nenhum de nós para abandonar a nossa ganância e os nossos ídolos de especialidade: os nossos amigos e todas as coisas externas de que pensamos que precisamos. Nós somos solicitados apenas a olhar para eles pelo que são.

Claro, temos medo de fazer até isso. E então todos entendem mal o que o Curso está dizendo, embora seja realmente muito claro. Sabemos em algum nível que se realmente olharmos com Jesus para o nosso especialismo, ele não o tirará de nós – nós o deixaremos ir.

A parte de nós que ainda está identificada com o especialismo não quer deixá-lo ir. Se olhar para as várias formas de nosso especialismo é como deixá-las ir, então é óbvio: para mantê-las, não olhe para elas! E se o único papel do Espírito Santo é olhar conosco para o nosso especialismo, então para negar a Ele esse papel, simplesmente temos que acreditar que Ele faz coisas por nós no mundo.

É por isso que as pessoas interpretam mal os ensinamentos do Curso e têm um investimento tão insano em acreditar que o Espírito Santo faz coisas por elas no mundo. Se nós percebermos que o Seu propósito não é nos dar vagas de estacionamento ou curar os nossos corpos ou nos encontrar novos amantes ou nos dar mil dólares, mas sim estar dentro de nossas mentes assim nós podemos nos unir a Ele e olhar para o nosso ego, então toda a nossa culpa e especialismo desapareceriam. E então, para que eles não desapareçam, dizemos: ‘Não, não é isso que o Espírito Santo faz. Ele faz coisas no mundo.’

E assim ela faz de qualquer coisa um brinquedo, para fazer com que o seu mundo permaneça fora dela e brincar de ser apenas uma parte dele (T-29.IX.5:9).

Uma criança sentada sozinha, com qualquer tipo de engenhosidade, pode transformar qualquer coisa em um jogo. Ela simplesmente pega algo e começa a brincar com ele, o que significa que ela projeta um significado nele. E é isso que todos nós fazemos. Fazemos de qualquer coisa um ídolo do especialismo.

O Livro de Exercícios diz: “Pode-se achar outra” (LE-pI.170.8:7). Se isso não funcionar, eu vou encontrar outra ou outra – qualquer coisa para ocupar minha mente e distraí-la de onde o problema e a resposta realmente estão: em minha mente.

Todos nós acreditamos que o mundo está fora de nós e brincamos dentro dele. Eu entro nele, brinco com ele enquanto estou aqui e depois o deixo quando morro e ele fica para a próxima criança entrar e brincar.

Há uma época em que a infância deveria passar e acabar para sempre (T-29.IX.6:1).

Isso é tirado de uma declaração de São Paulo (1 Coríntios 13:11). Jesus está dizendo: “Você não precisa mais ser uma criança. Pegue a minha mão e deixe-me ensiná-la a olhar para o mundo como eu digo que ele é. E se você me deixar mostrar como olhar para o seu ego —como algo para não ter medo — então você irá gradualmente crescer e se tornar como eu.”

A criança aprende a crescer identificando-se com os adultos. Nós dizemos que se uma criança não tem bons modelos, ela não vai crescer direito. A ideia é encontrar um modelo que nos ajude a crescer e nos tornar adultos maduros.

Assim Jesus está nos dizendo: “Eu sou esse modelo para você. Pegue a minha mão, deixe-me ensiná-lo e crescer comigo. Eu o ajudarei a crescer. Eu o ajudarei a ver tudo em seu mundo como simplesmente uma parte de uma brincadeira de criança, embora pareça tão real e terrível. Se você acha que é real e terrível, você largou a minha mão e não está aprendendo comigo. Você está acreditando que sabe por si mesmo.”

Essa é a arrogância do ego. Nós achamos que entendemos o que está acontecendo. A verdade é que nós não entendemos nada.

Aqui está alguém que nos deu um livro e continua a nos ensinar isso, a nos ajudar a aprender. Nós queremos estar cientes de que sempre que fazemos um grande alarido sobre qualquer coisa, nós deixamos cair a sua mão novamente.

Jesus nunca nos diria que algo é assunto sério. Ele de fato nem mesmo pensa que ele é um assunto sério. O único assunto sério é Deus. Mas como Ele é a única opção disponível, mesmo Ele não é um assunto sério, porque sério implica um contraste.

Nada neste mundo é assunto sério. Portanto, sempre que você se sentir tentado a fazer tal julgamento, saiba que se esqueceu de quem é o seu professor. E não é que você realmente tenha esquecido quem ele é – você o afastou porque está com muito medo.

Não busques reter os brinquedos das crianças. Põe todos de lado, pois já não necessitas deles. O sonho do julgamento é um jogo de criança, no qual a criança vem a ser o pai, poderoso, mas com o pouco juízo de uma criança (T-29.IX.6:2-4).

Isso descreve o que nós acreditamos ter feito com Deus; nós acreditamos que agora somos o pai. Muitos lugares na literatura mundial exaltam a grande sabedoria de uma criança. Mas essa não é a visão de Jesus. Ele não gosta muito de crianças. Ele acha que as crianças não entendem nada. É por isso que ele usa isso como uma imagem. As crianças não são puras nem inocentes. Elas são tolas – elas têm pouca sabedoria. E é isso que ele está dizendo sobre nós – não que nós sejamos maus ou pecadores, mas apenas que nós não entendemos. Nossa arrogância está em pensar que sim.

O que fere é destruído; o que a ajuda, abençoado (T-29.IX.6:5).

Em poucas palavras, isso é amor especial e ódio especial. Tudo o que acreditamos nos machuca, o que, claro, é uma projeção de nossa própria necessidade de machucar, nós destruímos – física ou verbalmente ou dentro de nossas mentes. Ou fazemos isso conspirando com pessoas contra outras. Tudo o que nós acreditamos nos ajuda – em outras palavras, ajuda o nosso ego – nós sentimos que é abençoado. Isto é amor especial.

Mas isso é julgado do mesmo modo como julga uma criança, que não sabe o que fere e o que irá curar (T-29.IX.6:6).

Este é outro ponto importante do Curso. Repetidamente Jesus tenta nos convencer de que não entendemos nada. Confundimos dor e alegria, ele nos diz (T-7.X). Confundimos aprisionamento e liberdade (T-8.II) e progresso com retrocesso (T-18.V.1:6). Não entendemos nada. Não percebemos os nossos maiores interesses (LE-pI.24).

O que pensamos que nos ajudará, que é a indulgência com o nosso especialismo, realmente nos prejudicará. E achamos que não conseguir o que queremos nos prejudicará, mas realmente nos ajudará.

E coisas ruins parecem acontecer e ela tem medo de todo o caos em um mundo que pensa que é governado pelas leis que ela mesma fez (T-29.IX.6:7).

Coisas ruins parecem acontecer e nós esquecemos que somos nós que inventamos tudo. Na realidade, nada está acontecendo.”

Imagem tingey-injury-law-firm-DZpc4UY8ZtY-unsplash.jpg

…continua Parte III…

Um milagre é uma correção. Ele não cria e realmente não muda nada. Apenas olha para a devastação e lembra à mente que o que ela vê é falso. Desfaz o erro, mas não tenta ir além da percepção, nem superar a função do perdão. Assim, permanece nos limites do tempo. LE.II.13

Nada real pode ser ameaçado.
Nada irreal existe.
Nisso está a paz de Deus.
T.In.2:2-4

Autor

Graduação: Engenheiro Operacional Químico. Graduação: Engenheiro de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras FGV/SP. Consultor de Empresas: Projeto OREM® - Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBEs). Estudante e Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista; Psicofilosofia Huna e Ho’oponopono; A Profecia Celestina; Um Curso em Milagres (UCEM); Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT); A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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