Nós estamos destacando 2 artigos de professores renomados de não-dualidade, para conhecimento e entendimento sobre esse importante tema para os buscadores da verdade e para as Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBE’s).
A autora do primeiro artigo faz uma introdução que nós estamos reproduzindo, em tradução livre, por refletir a importância da não-dualidade como caminho para o despertar espiritual.
“Ao longo de todo esse site e do nosso trabalho aqui no [site] lonerwolf (https://lonerwolf.com/), nós temos falado sobre o processo de despertar espiritual. Nós temos abordado as inúmeras facetas da jornada espiritual e nós temos explorado a fundo uma grande variedade de práticas de cura [healing] para o corpo, o coração, a mente e a alma.
No entanto, chega um momento no caminho espiritual de qualquer pessoa em que surge uma sensação de exaustão absoluta.
Quando nós já tentamos todas as práticas de cura [healing], participamos de todos os retiros, fizemos as desintoxicações, lemos todos os livros e fizemos inúmeros cursos (ou quando, talvez, a simples ideia de fazer tudo isso já pareça ‘errada’ ou desconexa), o que vem a seguir?
Em que momento nós podemos finalmente descansar? Em que momento nós podemos finalmente encontrar alívio para essa busca, essa procura e esse desejo incessantes de agarrar as coisas?
Não me leve a mal. Em um nível humano, é fundamental ter algum tipo de ‘roteiro’ orientador e práticas a seguir, pois isso ajuda a acalmar, ancorar e orientar a mente e o coração.
Mas, em um nível mais profundo — não apenas o da Alma, mas o do Espírito —, aquilo que nós estamos buscando sempre e unicamente é o Lar, a Liberdade, o Amor e a Paz. Ou o que é conhecido na filosofia Vedanta como ‘Sat-chit-ananda’, isso é, ‘verdade, consciência no nível da percepção [consciousness] e bem-aventurança’.
Para aqueles que chegam a um ponto de esgotamento total, para aqueles que sentem que existe ‘alguma coisa mais’ e já tiveram feito um vasto trabalho interior, mas ainda sentem que falta alguma coisa, a não-dualidade é o ponto final da frase.
Ao longo dos meus muitos anos na jornada do despertar espiritual, o caminho mais direto que eu encontrei para a Iluminação, a Natureza Real, a Auto tomada de consciência ou a Unicidade é o caminho da não-dualidade.”
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Artigo:
What is Non-Duality? (The Awakened Philosophy of “No-Self”)
O que é Não-Dualidade? (A Filosofia Despertada de “Não-Self”)
Autora:
Aletheia Luna – July 16, 2026
Site:
What is Non-Duality? (The Awakened Philosophy of “No-Self”) ⋆ LonerWolf
O que é Não-Dualidade?
“A palavra ‘não dualidade’ deriva do termo Sânscrito Advaita, que significa ‘não dois’. Portanto, de forma simples, a não-dualidade aponta para a Unidade fundamental de todas as coisas — indicando que, em última análise, não existe divisão ou separação entre você e qualquer outro elemento da sua experiência.
Embora não-dualidade seja frequentemente associada à filosofia do caminho místico Hindu de Advaita Vedanta, ela também é encontrada em diversas partes do mundo através de tradições tais como o Budismo (Nirvana), o Sufismo (Wahdat al Wujud) e o Cristianismo (Henosis).
O Significado de Não Dualidade (Explicação em Mais Detalhe)
Para entender o significado de não dualidade com um pouco mais de profundidade, vamos analisar algumas de suas facetas fundamentais, que são:
- Todas as coisas são Una
- Não existe um self separado
- Isso é tudo!
Todas as coisas são Una
A realidade é que a não-dualidade pode parecer totalmente estranha, confusa e até mesmo sem sentido para as nossas mentes, a princípio. Afinal, as nossas mentes funcionam criando divisões por meio de palavras, conceitos e ideias — e a noção de que ‘todas as coisas são Una’ é diametralmente oposta a isso.
Exemplos comuns de noções dualistas com as quais nós estamos bastante familiarizados são: nós/eles, preto/branco, bom/mau, certo/errado, dia/noite, cima/baixo, agradável/desagradável, empolgante/tedioso, espiritual/não espiritual, mente/coração, masculino/feminino, jovem/velho e assim por diante.
Nós podemos nos perguntar: como todas as coisas são capazes de ‘serem Una’ se, claramente, existem diferenças em nossa experiência? Nós iremos dormir e é noite; nós acordamos e é dia. Nós conversamos com um amigo e, depois, nós vemos um inimigo. Nós comemos uma banana e, em seguida, nós comemos uma laranja. Todas essas são coisas diferentes, certo?
Embora, na superfície, isso seja verdade, a não-dualidade aponta, em última análise, para a interconectividade subjacente de todas as coisas. O Mestre Zen Thich Nhat Hanh chama isso de ‘interser’ — ou seja, o fato de que uma coisa não pode existir sem a outra.
Thich Nhat Hanh descreve isso da seguinte maneira:
‘Se você é um poeta, você verá claramente que há uma nuvem flutuando nessa folha de papel. Sem uma nuvem, não haveria chuva; sem chuva, as árvores não poderiam crescer; e, sem árvores, nós não poderíamos fazer papel. A nuvem é essencial para que o papel exista. Se a nuvem não estivesse aqui, a folha de papel também não poderia estar. Assim, nós podemos dizer que a nuvem e o papel inter-são.’
‘Interser’ é uma palavra que ainda não consta no dicionário, mas, se nós combinarmos o prefixo ‘inter’ com o verbo ‘ser’, nós temos um novo verbo: inter-ser. Sem a nuvem, nós não poderíamos ter o papel; portanto, nós podemos dizer que a nuvem e a folha de papel ‘inter-são’.
O mesmo vale para qualquer aspecto da nossa experiência. Sem a escuridão, nós não entenderíamos a luz. Sem a dor, nós não entenderíamos o prazer. Sem o ruído, nós não entenderíamos a quietude.
A ciência descobriu que tudo é, em sua essência, energia (E = mc²) e místicos ao longo dos tempos apontaram, de diferentes maneiras, que ‘tudo é Deus’. Em um nível fundamental, nós somos capazes de sentir que existe alguma coisa que nos unifica a todos. A não-dualidade vai além e afirma que, na verdade, para começar nós nunca estivemos realmente separados.
A única separação que aparentemente existe tem sido construída pela mente. Isso nos leva ao próximo ponto:
Não Existe um Self Separado
Como se registra que disse o sábio iluminado Ramana Maharshi:
‘Você tem que fazer a si mesmo a pergunta: ‘Quem sou eu?’. Essa investigação levará, por fim, à descoberta de alguma coisa dentro de você que está além da mente. Resolva esse grande problema e você resolverá todos os outros problemas.’
Essa pergunta ‘Quem sou eu?’ parece bastante simples. A nossa resposta imediata pode ser alguma coisa como:
‘O meu nome é Bob/Jane e nasci em ____. Eu tenho dois filhos, trabalho como assistente, eu tenho 36 anos e adoro tênis’.
Reserve um momento para pensar em sua própria história, em seu próprio senso de quem você é. Escreva isso se quiser ter uma ideia concreta… considere a sua personalidade, o que você gosta e o que não gosta, os seus interesses, a sua família, os seus sonhos, o seu senso fundamental de ‘mim’.
Agora, pegue esse papel, amasse-o e jogue-o na lixeira.
Ok… isso pode soar um pouco dramático, mas é bem por aí. Quando se trata de não-dualidade, o seu senso de ‘mim’ — aquela história que se desenrola na sua cabeça sobre você mesmo — não é apenas totalmente irrelevante, mas também pura-fantasia.
Por que?
Em suma: se você tentar e buscar essa senso de ‘mim’ dentro de você, você descobrirá que não há ninguém ali.
Como diz o mestre espiritual Mooji:
‘Quando nós olhamos com [‘look with’] o ‘eu’, nós sonhamos.
Quando nós buscamos [‘look for’] o ‘eu’, nós despertamos.‘
Quanto mais profundamente nós olhamos — por meio de práticas como meditação —, mais vividamente nós descobrimos que não existe em nós um senso sólido e imutável de ‘mim’ dentro de nós.
Nós descobrimos que nós não somos os nossos pensamentos. Nós não somos os nossos sentimentos. Nós não somos as nossas preferências. Nós não somos os nossos corpos. Nós não somos as nossas experiências. Quem nós somos está sempre mudando e evoluindo.
O nosso senso de self era diferente aos 5 anos, aos 15 e aos 25. Na verdade, o nosso senso de self está em constante transformação a cada instante! Num momento nós sentimos raiva; logo depois, felicidade. Num momento nós nos interessamos por filmes; em seguida, por videogames. O ‘você’ de agora não será o mesmo ‘você’ daqui a um ano — ou mesmo daqui a alguns instantes!
Então, quem somos nós?
Essa é a questão central colocada pela não-dualidade. E, embora nós possamos dizer que quem nós somos é Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness] ou a própria Vida, a resposta só pode ser experienciada diretamente para ser verdadeiramente entendida.
Isso é tudo!
Por fim, nós chegamos à última faceta principal da não dualidade, que é, essencialmente, o fato de que todas as coisas que você está buscando não está em algum futuro mágico. Elas estão aqui, nesse momento.
Como escreve a professora espiritual e autora Unmani:
‘Não há jornada. Isso é tudo. Não há outro lugar. Isso tem sempre sido isso. Nunca houve um passado e nunca haverá um futuro. Isso é tudo o que sempre se desejou. Isso é tudo.’
E também,
‘A vida é. Não há ninguém vivendo-a. Ela não é ‘a minha vida’. Não existe um ‘mim’ que vive. Mas eu sou Vida. Esse ‘eu’ não é um ‘mim’ personalizado. Ele não é uma pessoa separada assumida. Não há separação implícita entre o escritor e o leitor. Esse ‘eu’ é ‘você’. Esse ‘eu’ é tudo o que existe. Eu sou a própria Vida.’
O antigo Mestre Zen Huang Po expressou isso da seguinte maneira:
‘Aquilo que está diante de você é a própria coisa — em toda a sua plenitude, absolutamente completo. Não há nada além disso. Mesmo que você percorra, uma a uma, todas as etapas da trajetória de um Bodhisattva rumo à iluminação (o estado de Buda), quando finalmente — num único lampejo — alcançar a plena tomada de consciência, você estará apenas realizando a Natureza de Buda que sempre esteve presente em você; e, com todas as etapas anteriores, você não terá acrescentado absolutamente nada a ela.’
Em outras palavras, toda a nossa busca, todo o nosso esforço no caminho espiritual para alcançar algum futuro ‘estado de iluminação’ ou um Self liberado, deixam escapar o ponto essencial.
Isso é Tudo.
Esse momento, essa experiência do momento presente, essa respiração, esses sons, o canto dos pássaros lá fora e o trânsito passando — quando vistos sob a ótica de ‘não-self‘’, são tudo o que nós estamos buscando.
Para o ego — o senso de ‘mim’ e de ‘meu caminho espiritual’ —, tudo isso soa irremediavelmente deprimente, na pior das hipóteses (ou terrivelmente entediante, na melhor). Mas, novamente, você tem que experienciar isso diretamente para realmente entender isso; e, para experienciar isso, tem que ver através do falso senso de self.
Como o termo ‘não-dualidade’ sugere, não existem dois estados de ser distintos — todas as coisas estão interconectadas. O pensamento de um futuro estado de paraíso ou iluminação cristaliza um senso de self separado, um senso de ‘mim’ em busca ‘daquilo’. E, como diz a professora de não-dualidade Lisa Cairns:
‘Todo sofrimento nasce a partir da busca’.
Mas será que nós então simplesmente paramos de buscar? Como Cairns prossegue dizendo:
‘… não se trata de você não ser um buscador — você ficará deprimido se tentar não ser um buscador. Enquanto você está aí, é isso que você faz: você busca. É como dizer a um coelho que ele não tem permissão para saltar. Um buscador está aí; é isso que ele faz: busca’.
Tentar tornar-se alguma coisa — ou não se tornar alguma coisa — ainda é agir a partir de um senso de um self separado. O ponto é enxergar através da natureza absolutamente transitória dessa energia pegajosa que nós chamamos de ‘self’ e retornar àquilo que nós já somos e sempre temos sido: a Própria Vida.
Não-Dualidade e Despertar Espiritual
Então, qual é o relacionamento entre não-dualidade e o processo de despertar espiritual?
Em um nível humano, em um nível subjetivo, nós percorremos uma jornada metafórica que foi claramente explicada e detalhada nesse site.
A maioria de nós começa com algum tipo de chamado espiritual; depois, encontra orientação, volta-se para dentro, enfrenta a escuridão interior, experiencia momentos de iluminação e atravessa ciclos de integração e renascimento. Tudo isso segue o arco narrativo da ‘Jornada do Herói’, identificado inicialmente pelo mitólogo Joseph Campbell.
Essa jornada de crescimento psicoespiritual é o que nós chamamos de caminho do despertar espiritual, pois camadas de nós se dissolvem lentamente e o Centro em nós se expande gradualmente (como uma flor).
No entanto, em um nível absoluto e não humano, não existe jornada ou caminho de despertar, pois isso é uma história criada pela mente. Em termos de não-dualidade, tudo simplesmente ‘É’ — e quaisquer tentativas de rotular ou criar divisões são produtos da mente e do seu senso ilusório de um self separado.
Então nós temos um paradoxo interessante aqui: a jornada do despertar espiritual, ao mesmo tempo, existe e não existe. Mas a beleza da não-dualidade reside na aceitação desse paradoxo, entendendo que nós somos humanos e divinos — e, simultaneamente, nenhuma dessas duas coisas: nós somos todas as coisas e nada ao mesmo tempo.
Nas palavras do texto sagrado do Sutra do Coração:
‘A forma não é diferente do vazio; o vazio não é diferente da forma.’
O guru e filósofo Nisargadatta Maharaj ecoa esse paradoxo ao escrever:
‘A sabedoria é saber que eu não sou nada; o amor é saber que eu sou todas as coisas; e é entre os dois que a minha vida transcorre.’
Em um nível humano, o caminho sem caminho da não-dualidade frequentemente surge quase ao final da jornada de despertar espiritual, quando a pessoa está exausta de tanto buscar e tentar agarrar as coisas. No entanto, dito isso, algumas almas afortunadas encontram e compreendem a não-dualidade logo no início de seus despertares.
Por ser um caminho sem caminho, a não-dualidade nunca pode ser descrita com precisão — ao contrário da jornada do despertar espiritual (razão pela qual o ‘lonerwolf’ se dedica ao despertar espiritual e não à não-dualidade). As palavras, por sua própria natureza, são dualistas; portanto, só conseguem apontar de forma limitada para a verdade subjacente que é a não-dualidade.
Diante de tudo isso, como nós podemos experienciar a não-dualidade por nós mesmos? Nós abordaremos isso em breve, mas antes, um aviso e uma ressalva sobre a não-dualidade:
Os Perigos da Não-Dualidade
Pesquise no YouTube por palestras sobre não-dualidade — ou procure em praticamente qualquer livraria voltada para a espiritualidade — e você encontrará uma infinidade de ‘professores de não-dualidade’.
Embora haja muito poder, verdade e beleza na não-dualidade, ela também pode ser prejudicial se estiver em mãos erradas ou for abordada com a mentalidade equivocada.
Tendo acompanhado a cena da não-dualidade de perto — embora à margem dela — por vários anos, eu tenho observado o surgimento de muitos problemas, tanto em mim mesmo quanto nos outros.
Alguns dos principais perigos associados à não-dualidade — em particular, à abordagem do neo-Advaita — são os seguintes:
- Usar a não-dualidade como uma forma de ‘atalho espiritual’ (‘spiritual bypassing’) — isso é, evitar, reprimir ou escapar de questões de saúde mental ou emocional e da necessidade de realizar um trabalho interior — E/OU tentar usar a não-dualidade para ‘consertar’ esses problemas ou sentir-se melhor em relação a eles.
- Usar a não-dualidade para construir um ego espiritual blindado (‘à prova de balas’), mascarando um ego humano inseguro e desequilibrado subjacente, aliás — o que nós podemos chamar de megalomania de pseudoiluminado (você notará essa característica frequentemente em pessoas em plataformas como Reddit e YouTube, discutindo essencialmente sobre quem possui a interpretação ‘mais correta e despertada’ sobre as ideias não-duais).
- Perceber conceitos não-duais com uma mentalidade de ‘tudo ou nada’ (ou ‘preto ou branco’) e, consequentemente, mergulhar na miséria, no desespero, na apatia ou na chamada ‘Doença Zen’.
- Cair na influência de professores não-duais falsos ou equivocados, que abusam e manipulam psicologicamente você e/ou cobram quantias irresponsavelmente altas para oferecer orientações mais aprofundadas.
Como alguém que cresceu em um ambiente Cristão fundamentalista (onde a mentalidade de seita imperava), eu conheço muito bem — e encaro com cautela — os ensinamentos espirituais.
Como diz em um vídeo o palestrante e ex-adepto do neo-Advaita Arthur Paul Burton:
‘O neo-Advaita trata de afastar-se da vida: ‘apenas foca em consciência no nível da percepção [consciousness]’. Mas, para a maioria das pessoas, isso se torna debilitante… literalmente debilitante, paralisante. As pessoas ficam, literalmente, espiritualmente paralisadas e incapazes de viver a vida por causa de uma falsa não-dualidade.’
O canal dele no YouTube, ‘Overcoming Fake Non-Duality’ (‘Superando a Falsa Não-Dualidade’), é apenas um dos muitos alertas existentes para que se aborde esse campo com cautela e se foque em ensinamentos autênticos, ao invés daqueles ligados à cultura pop.
Descrito por Burton como ‘tanto um vício quanto uma seita mental’, o neo-Advaita quase o levou ao suicídio — e ele tem conhecido muitas pessoas que sofreram colapsos nervosos ou perderam a vida por causa dele.
Qual é a solução?
Em primeiro lugar, é essencial aprender a cultivar o discernimento espiritual. Não confie em qualquer pessoa que se apresente como ‘palestrante’ ou professor de não dualidade’. Se alguma coisa não lhe parecer certo lá no fundo, confie na sua intuição e afaste-se.
Burton também recomenda estudar o Advaita Vedanta autêntico — ou ‘verdadeiro’ — para obter ensinamentos não-dualistas; isso inclui o ‘Bhagavad Gita’, os escritos de ‘Adi Shankara’ e, em particular, o ‘Upadesa Saram’ de Ramana Maharshi.
Em suma: caminhe com cautela, use o bom senso e não aceite cegamente as ideias de qualquer palestrante ou professor de não-dualidade — é preciso dizer isso!
Como Praticar a Não-Dualidade
Se você perguntasse a um professor de não-dualidade como praticá-la, a primeira resposta provavelmente seria alguma coisa como: ‘Quem é aquele(a) que quer praticar a não-dualidade?’
O que isso significa é que o próprio indivíduo (o ‘mim’) que deseja praticar a não-dualidade é a mera ilusão que a filosofia não-dualista busca desmantelar. Se a sua mente está se sentindo confusa, não se preocupe, isso é normal. A não-dualidade não deve ser compreendida pela mente, mas sim experienciada como uma mudança na consciência no nível da realidade [awareness].
Dito isso, em um nível humano, nós necessitamos de alguma coisa com que trabalhar. Aqui estão três práticas que podem ajudá-lo a ter uma experiência direta de não-dualidade.
(Observe por favor que você pode ou não experienciar algo. Persista na prática que lhe parecer mais adequada por pelo menos um mês e veja o que acontece.)
1. Medite sobre a pergunta ‘Quem sou eu?’
A meditação ‘Quem sou eu?’ foi formalizada inicialmente pelo sábio e místico Sri Ramana Maharshi. Essa pergunta simples funciona como um ‘koan’ que esgota a mente em sua busca por uma resposta sólida. Após muita investigação, nós reconhecemos que, na verdade, nós não somos quem pensávamos ser. E, de fato, não existe um ‘self’ estático e separado, para começar!
2. Contemple a unidade subjacente por trás do jogo dos opostos
Em sua essência, a não-dualidade trata da integração espiritual total e da percepção da Unidade inerente a toda a vida. Enquanto nós continuarmos vendo todas as coisas em termos de ‘preto ou branco’, nós permaneceremos em um estado de sofrimento. Nós perseguiremos o prazer e evitaremos a dor incessantemente. Nós rejeitaremos e puniremos os outros. Nós condenaremos partes de nós mesmos e celebraremos falsamente outras partes.
No entanto, ao entender que todas as coisas — nas palavras de Thich Nhat Hanh — ‘inter-são’ (ou seja, tudo depende de todo o resto), nós podemos experienciar menos dualidade e menos divisão em nosso interior.
Para contemplar a unidade subjacente por trás do jogo dos opostos, traga à mente alguns dos opostos presentes em você. Podem ser, por exemplo: tolerante/intolerante, gentil/hostil, consciente/desatento, feliz/triste, irritado/pacífico, altruísta/egoísta e assim por diante.
Agora, contemple como cada qualidade depende da outra para existir. Por exemplo, sem as torrentes ardentes da raiva, nós não conheceríamos as águas frescas da paz. Sem uma mente aberta, nós não seríamos capazes de perceber o nosso próprio fechamento mental. Sem a tristeza, nós não conseguiríamos experienciar a alegria.
Se não existisse a realidade da dureza — se todas as coisas fossem um grande marshmallow macio e nada no universo fosse duro —, você não seria capaz de apreciar a maciez. Você a tomaria como algo garantido; a maciez seria monótona — na verdade, ela nem sequer existiria, de tão onipresente que seria.
Por fim, contemple como ambos os opostos existem dentro de você a todo momento, são necessários e indispensáveis e, de fato, constituem dois lados da mesma moeda.
Se você necessita de um símbolo para meditar, eu recomendo a ‘vesica piscis’, a cruz, a Estrela de Davi ou o símbolo do ‘yin-yang’, pois eles representam a não-dualidade.

3. Meditação de rotulagem mental
O meu primeiro insight da realidade da não-dualidade ocorreu anos atrás, quando eu comecei em primeiro lugar a praticar a meditação de rotulagem mental.
A rotulagem de pensamentos é uma técnica de meditação ‘mindfulness’ (atenção plena) que ajuda você a tomar consciência vívida dos pensamentos que passam pela sua mente, ao identificá-los e nomeá-los mentalmente. Foi esse estilo de meditação que me ajudou, pela primeira vez, a perceber que eu não era, de fato, os meus pensamentos — e que, na realidade, eu também não os controlava; eles simplesmente surgiam de forma espontânea e depois se dissipavam.
Para praticar a meditação de rotulagem mental, preste atenção ao conteúdo da sua mente. O que está acontecendo aí dentro? Talvez surja uma lembrança; então, rotule silenciosamente como ‘lembrança’. Talvez surjam planos para o futuro; então, rotule mentalmente como ‘planos’.
Você não necessita dizer em voz alta o que está acontecendo (a não ser que você queira). Ao rotular mentalmente o que surge — seja um sentimento, um pensamento, uma sensação, uma lembrança ou qualquer outra coisa —, você pode começar a perceber que você não é os seus pensamentos. Essa tomada de consciência pode criar o espaço interior necessário para que ocorram mais tomadas de consciência sobre a não-dualidade; pode ser liberador reconhecer que os seus pensamentos não definem você (e jamais poderão defini-lo)!
Perguntas Frequentes sobre Não-Dualidade
Aqui estão algumas outras perguntas que são feitas com frequência sobre a não-dualidade que podem ser úteis para você:
A não-dualidade resolverá todos os meus problemas?
Nas palavras do professor Scott Kiloby:
‘Sim, a tomada de consciência não-dual é uma coisa profunda e transformadora de vida. Não, ela não é a resposta para todo sofrimento.’
Não-dualidade é, sem dúvida, um caminho transcendente, mas, ao mesmo tempo, ela não está isenta de armadilhas como o ‘atalho espiritual’ (‘spiritual bypassing’) e o ‘egotismo espiritual’.
O filósofo, escritor e palestrante Alan Watts certa vez comparou a não-dualidade ao mito de Ícaro — uma antiga lenda sobre um jovem que voou perto demais do sol. A não-dualidade pode, de fato, dar essa sensação se não estiver ancorada (aterrada) na realidade. É por isso que Watts recomenda o caminho da atenção plena (‘mindfulness’) em conjunto com a não-dualidade: isso ajuda a ancorar (aterrar) a experiência.
Como eu posso aplicar a não-dualidade na prática em minha vida?
Nas palavras de Rupert Spira, professor de não-dualidade:
‘Há três passos essenciais no caminho espiritual: o primeiro é perceber que nós não somos um corpo ou uma mente, mas sim a Consciência No Nível Da Realidade [Awareness] na qual eles surgem e por meio da qual são conhecidos; o segundo é explorar a natureza da Consciência No Nível Da Realidade [Awareness] e descobrir que ela não compartilha o destino nem os limites do corpo e da mente — isso é, descobrir a sua natureza eterna e infinita; e o terceiro é viver uma vida que é consistente com esse entendimento.’
Esses três passos básicos podem ajudá-lo a aplicar a não-dualidade na prática em sua vida.
Eu posso alcançar ou conquistar a não-dualidade de alguma forma (por exemplo, com prática espiritual suficiente)?
A não-dualidade não funciona como a escola, a universidade ou o seu local de trabalho. Você não pode alcançá-la nem conquistá-la, embora você seja capaz de aprender sobre ela.
As mudanças de consciência no nível da percepção [consciousness] não-duais (frequentemente chamadas de Auto tomada de consciência, Iluminação ou Unicidade) ocorrem quando elas ocorrem organicamente, sem que você as force. O ‘você’ que está tentando conquistar, alcançar ou ‘obter’ isso é, em primeiro lugar, o próprio obstáculo no caminho!
Portanto, a única prática é deixar ir, entregar-se e aprender mais sobre a não-dualidade — é por isso que ela é chamada de ‘caminho sem caminho’ (‘pathless path’).”
“Para encerrar, eu deixo vocês com uma bela citação do poeta e professor espiritual Jeff Foster, que usa o oceano como uma metáfora para a não-dualidade:
‘Eu não penso que a não-dualidade seja alguma coisa que você possa realmente entender com a mente; mas você a conhece com o coração. Na verdade, você sempre a conheceu. Ela é como quando se olha para o oceano: você vê centenas, milhares de ondas, de todas as formas e tamanhos, que parecem estar bem separadas umas das outras. Nós somos como as ondas. Cada pessoa, cada animal, cada árvore, cada gota de chuva, cada planeta. Nós parecemos ser seres separados, mas, na realidade, nós somos todos expressões da Vida Una, o oceano da Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness]; nenhuma onda está, de fato, separada do oceano, em absoluto.’

Sobre a Autora:
Aletheia Luna é uma escritora psicoespiritual, autora e guia intuitiva cujo trabalho alcançou milhões de leitores desde 2012. Uma sobrevivente neurodivergente de abuso religioso fundamentalista, ela escreve a partir da experiência direta de trauma e recuperação, apoiada por anos de estudo sobre tradições transpessoais, metafísicas e contemplativas. Ela é autora de centenas de artigos e vários livros sobre o tema do trabalho interno e as suas publicações foram referenciadas na Psychology Today e apresentadas no The Mind’s Journal e no Tiny Buddha. Conecte-se com ela no Facebook ou leia mais sobre a sua história (read more of her story).
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O autor do segundo artigo também faz uma introdução que nós estamos reproduzindo, em tradução livre, por refletir a importância da não-dualidade como caminho para o despertar espiritual.
Artigo:
What Is Nonduality?
O Que É Não-Dualidade?
Autora:
Site:
What Is Nonduality? – Science and Nonduality (SAND)
Introdução:
E o que é Dualidade?
A não-dualidade é uma perspectiva que existe há séculos em muitas tradições diferentes, incluindo o Budismo, o Taoismo, o Chan primitivo, o Advaita Vedanta, o Shaivismo da Caxemira, as vertentes místicas das tradições Abraâmicas, bem como na filosofia Ocidental. E, naturalmente, existem muitas subdivisões dentro de cada um desses grupos. Mais recentemente, muitas pessoas vêm expressando a não-dualidade sem estarem vinculadas a nenhuma tradição — algumas sem qualquer formação tradicional e outras com vivência em múltiplas tradições (grupo no qual eu me incluo, é claro!).
Ao longo do curso de minha vida, as tradições espirituais Orientais têm crescido aqui no Ocidente. E, nas últimas décadas, à medida que mais dessas perspectivas penetraram na cultura Ocidental — e com o acesso proporcionado pelas redes sociais e pela internet —, tem havido uma verdadeira explosão de pessoas escrevendo livros, realizando workshops, ministrando palestras e publicando vídeos no YouTube, todas oferecendo diversas versões de não-dualidade. Às vezes, surgem até disputas (dualistas?) de ego para decidir qual versão da não-dualidade é a mais ‘não dual’.
E isso não é novidade alguma — debates tão controversos têm existido há séculos entre diferentes escolas e tradições.
Existem diferenças e semelhanças entre as muitas versões do não-dualismo. Mas, basicamente, isso significa ‘não dois’. Há diversidade na aparência, mas nenhuma separação real. Tudo é um todo único. Nós somos, ao mesmo tempo, nada (no-thing) e tudo (every–thing).
Uma maneira de ver isso é considerar que a nossa realidade mais fundamental, aquilo que nós somos — a única constante, a água em cada onda, aquilo de que nós não podemos duvidar — é essa consciência no nível da realidade [awareness] ou presença ilimitada, que é contínua e íntegra, sem divisão ou separação. O que se manifesta é infinitamente variado e está em constante mudança; no entanto, isso jamais se afasta da imediatez desse Aqui-Agora sempre presente e nunca pode ser realmente dividido ou separado. A nossa natureza mais profunda é o amor incondicional — a própria natureza da consciência no nível da realidade [awareness] —, que aceita todas as coisas, não se apega a nada e não encontra nada fora ou além de si mesma.
O dualismo, por outro lado, é a visão de que você é uma pessoa separada, encapsulada em um corpo separado, observando um mundo separado e fragmentado. Essa crença gera conflito e sentimentos de incompletude e ameaça. A partir dessa perspectiva, você imagina que o ‘acima’ é capaz de existir sem o ‘embaixo’ e que o objetivo da vida seja o ‘acima’ vencer [campo de batalha] o ‘abaixo’.
A não dualidade enxerga polaridades como ‘acima’ e ‘abaixo’ como aspectos inseparáveis de um todo — polaridades que só existem em relação uma à outra e que, portanto, são desprovidas de qualquer posição fixa ou realidade inerente (por exemplo: o teto está ‘acima’ em relação ao chão e ‘abaixo’ em relação ao céu). Ao invés de opostos em conflito [campo de batalha], a não-dualidade percebe que todas as coisas estão integradas e que jamais nós podemos encontrar um ponto exato onde o ‘acima’ se transforma em ‘abaixo’; trata-se de uma unicidade ininterrupta.
Ao assistir a um filme, nós vemos uma infinidade de personagens, objetos, paisagens, eventos, enredos e dramas, com close-ups e fotos ângulo amplo. As coisas parecem mover-se no tempo e no espaço. No entanto, na realidade, nós estamos sempre olhando para a tela imóvel e sempre presente (o Aqui-Agora) e o que aparece é uma imagem em movimento contínua e sem emendas. A vida funciona de maneira muito semelhante. Ela jamais se afasta desse momento único e insondável — o Aqui-Agora —, mas manifesta-se como uma multiplicidade de coisas movendo-se no tempo e no espaço.
O que segue são dois artigos de minha autoria sobre o tema da não-dualidade, extraídos da seção Outpourings do meu website. Eles oferecem a minha perspectiva sobre o significado da não-dualidade. E, na sequência, há uma recomendação de livro.
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Introdução à Não-Dualidade
“Se nós deixarmos de lado todas as coisas que podem ser postas em dúvida nesse momento, o que resta? É impossível duvidar da sabedoria de estar aqui e da realidade nua e crua da experiência presente. O que pode ser questionado e debatido são todas as ideias, interpretações, formulações e explicações sobre essa realidade viva — os mapas abstratos traçados pelo pensamento conceitual, as histórias e crenças a respeito dela.
Quando nós acreditamos que nós somos um fragmento separado, encapsulado em um corpo e navegando por um universo fragmentado, nós inevitavelmente nos sentimos ansiosos, carentes, incompletos e inseguros. Nós pensamos que nós somos alguém que necessita chegar a algum lugar e realizar alguma coisa, que nós somos os autores de nossos pensamentos e os artífices de nossas escolhas e que nós (assim como todos os outros) deveríamos ser melhores do que nós somos. Nós buscamos alívio para a nossa inquietação e insatisfação por meio de posses, conhecimento, poder, dinheiro, sexo, substâncias intoxicantes, experiências espirituais, etc. — coisas que, no fim das contas, nos deixam insatisfeitos e decepcionados.
Mas, se nós voltamos a nossa atenção para a experiência direta ao invés de ideias aprendidas, será que nós conseguimos encontrar uma fronteira real onde o ‘dentro de mim’ se transforma em ‘fora de mim’? Ou será que essa fronteira é apenas uma imagem mental, como a linha que separa dois países em um mapa? Se nos abrimos para as sensações puras do nosso descontentamento, sem pensar sobre elas, nós encontraremos alguma coisa substancial ou apenas vibrações em constante mudança, surgindo e desaparecendo?
E se nós buscarmos o pensador dos nossos pensamentos ou o autor (fazedor) das nossas escolhas? Será que cada respiração, batimento cardíaco, pensamento, interesse, impulso, ação e escolha não emerge de uma fonte impossível de localizar? E quanto à consciência no nível da realidade [awareness] que contempla todo esse filme da vida em vigília, a consciência no nível da realidade [awareness] que vê pensamentos como pensamentos? Será que ela é perceptível? Ela possui forma, tamanho, idade, gênero, nacionalidade, situação de vida ou algum lugar onde comece ou termine? E existe alguma fronteira real entre a consciência no nível da realidade [awareness] e o conteúdo da consciência no nível da realidade [awareness], entre sujeito e objeto?
Cada onda no oceano é inseparável a partir do oceano. O ondular é alguma coisa que o oceano faz, um movimento em constante mudança que nunca se fixa em nenhuma forma específica. Não há fronteira real entre uma onda e outra e cada onda é, igualmente, água. Nenhuma onda individual pode decidir seguir uma direção diferente daquela para a qual o oceano, como um todo, se move. É possível que todas as coisas — incluindo o que parecem ser as ‘minhas’ decisões independentes — sejam movimentos de uma unicidade ininterrupta? Nós podemos chamar isso de mente ou matéria, consciência no nível da percepção [consciousness] ou quarks, espírito ou inteligência-energia, mas a verdade é que nós não sabemos o que isso é. Até mesmo indagar sobre o que isso ‘é’ parece basear-se na noção dualista de que isso pode ser, de alguma forma, formulado, apreendido, definido e representado — de que isso tem que ser alguma coisa em particular que possa ser isolada, vista, experienciada (como uma experiência específica) ou possuída como conhecimento.
Mas a unicidade não pode ser apreendida, assim como a mão não pode agarrar a si mesma. Não existe divisão real entre sujeito e objeto, consciência no nível da realidade [awareness] e conteúdo, forma e vazio, self e não-self, figura e fundo, relativo e absoluto. As divisões aparentes são conceituais. E nada do que se manifesta é uma forma sólida, persistente, inerentemente real e independente do observador. Isso pode parecer que sim, mas quanto mais atentamente nós observamos — seja pela ciência ou pela meditação —, nós descobrimos que nada permanece imóvel ou igual, que tudo é, em grande parte, espaço vazio, que nada existe independentemente de tudo aquilo que supostamente não é e que jamais nós experienciamos alguma coisa fora da consciência no nível da percepção [consciousness]. Cada um de nós vê um filme único da vida de vigília, criado pelo nosso condicionamento singular; mas será possível que o ver (a conscientização) contemplando todos esses filmes diferentes seja incondicionada, indivisa, não encapsulada, ilimitada e livre? Não adote isso como uma crença, mas explore isso em sua própria experiência direta, Aqui-Agora.
A busca pela liberdade está enraizada na crença de que nós estamos aprisionados, de que nós estamos separados do todo, de que nós somos esse ‘mim’ no centro da nossa história de vida. Mas e se esse ‘mim’ for uma manifestação intermitente e em constante mudança, sem existência independente? Será que, antes de todas as ideias acumuladas sobre quem ou o que nós somos, aquilo a que todos se referem como ‘eu’ é, na verdade, o mesmo ‘aqui-agora’ ilimitado e indiviso (inteligência-energia, unicidade ininterrupta, o Tao, integridade, Totalidade, imensidão — ou qualquer nome que lhe demos)? Nós ao despertarmos para a simplicidade absoluta do que é — bem aqui, agora —, nós podemos descobrir que todas as nossas inseguranças e medos da morte se dissipam, pois baseavam-se em uma ideia falsa da realidade, tal como o medo que as pessoas tinham, antigamente, de navegar até a borda de uma Terra supostamente plana.“
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O Que É Não-Dualidade?
“Se você perguntasse a diversos escritores, professores ou palestrantes que utilizam o termo para descrever a sua própria perspectiva do que cada um deles quer dizer com ‘não-dualidade’, sem dúvida você obteria uma série de definições muito diferentes — algumas das quais, provavelmente, seriam bastante contraditórias. Portanto, como ocorre com todas as palavras — e especialmente com termos como ‘não-dualidade’, que não possuem um referente claro e óbvio —, é importante entender o que uma pessoa específica quer dizer ao empregar essa palavra.
Para mim, na forma como eu a utilizo, a não-dualidade significa que todas as coisas constituem um todo indivisível ao qual todas as coisas pertencem. É importante esclarecer que essa integridade não é uniformidade. Nesse exato momento, na experiência presente, existem qualidades de experiência infinitamente variadas e em constante mudança — diferentes cores, formas, texturas, sons, aromas, sensações táteis e somáticas, sabores — e há formas aparentemente separadas e distintas (mim e seu, cães e gatos, mesas e cadeiras, corações e cérebros, planetas e estrelas), cada uma sendo vividamente e unicamente ela mesma, sem que nós as confundamos ou misturemos umas com as outras. Existem também diferentes dimensões da experiência, desde o mundo relativo dos relacionamentos pessoais e da vida prática cotidiana até os reinos mais sutis encontrados na meditação ou na prática de ioga.
No entanto, toda essa infinita diversidade e variação manifesta-se como um único quadro completo, um único filme, um campo fractal holográfico de experiência contínua e ininterrupta — um único acontecimento indiviso. E, quanto mais atentamente nós observamos, mais nós descobrimos que as fronteiras entre formas aparentemente separadas não existem de fato e as próprias formas nunca são realmente sólidas ou duradouras. Nenhuma delas pode ser isolada do todo. Em nossa experiência real, ISSO é um todo ininterrupto e infinitamente variado que jamais se afasta a partir do Aqui-Agora. A impermanência é tão absoluta que nada chega realmente a se formar para sequer ser impermanente.
A não-dualidade aponta para a natureza incompreensível e inconcebível da realidade. Quaisquer palavras ou conceitos que nós usemos para descrevê-la nunca são totalmente adequados, pois nenhuma palavra ou formulação consegue captar a realidade viva. A vida em si simplesmente não pode ser definida. Nada do que nós dizemos ou pensamos é a verdade.
Essa realidade viva é não-dual no senso de que ela inclui todas as coisas e também no senso de que as polaridades aparentemente opostas caminham juntas e só existem em relação uma à outra — não são forças separadas ou antagônicas nas quais uma pode ou deve derrotar a outra. Assim, a não-dualidade inclui (e transcende) a dualidade aparente. Ela não se prende a um lado de qualquer divisão conceitual, como unicidade ou multiplicidade, individualidade ou singularidade, mente ou matéria, self ou não-self, livre-arbítrio ou determinismo, impotência ou responsabilidade, prática ou não prática, isso é ou isso não é. A não-dualidade não se fixa em lugar algum. Ela pode ser descrita como ‘não um, não dois’ ou, nas palavras do Mestre Zen Dogen, como ‘saltando para fora do múltiplo e do uno’. Pode ser chamada de ausência de baseamento.
A não-dualidade reconhece que nada jamais se consolida realmente em uma forma permanente e que o self aparente no centro de nossa experiência — o ‘mim’ aparente que parece ser o autor de ‘meus’ pensamentos, que toma as ‘minhas’ decisões e realiza as ‘minhas’ ações — não passa de uma miragem sem substância real. É um fantasma criado por uma mistura de pensamentos, sensações, sentimentos, histórias, imagens mentais e crenças em constante mudança. Todas as coisas estão acontecendo por si só. Não existe uma fronteira real entre o interior e o exterior. O clima interior é tão impessoal quanto o clima exterior. Nada disso é pessoal; nada disso diz alguma coisa sobre o ‘mim’ imaginário.
Mesmo qualquer ideia que nós possamos ter de um self maior, um Grande Self — como a Consciência No Nível Da Percepção [Consciousness] ou a Consciência No Nível Da Realidade [Awareness] — é, na verdade, algo que não pode ser encontrado. Pode haver até mesmo uma senso intuitivo ou visceral e convincente desse ver não visto ou Sujeito Supremo, desse Olho (ou Eu Verdadeiro) que não pode ver a si mesmo; mas até o senso mais sutil desse espaço aberto e ciente é, em si, apenas mais uma aparência na experiência presente, algo que não pode ser realmente isolado ou definido com precisão. Tudo o que nós temos é apenas ISSO — a experiência presente, desde o que parece mais sólido até o mais sutil e transcendental. Essa vivacidade ou estado de ‘não-coisa’ que não podem ser encontrados jamais se transforma, de fato, em alguma coisa substancial que seja capaz de ser separada da integridade do ‘apenas isso’. Quaisquer ideias de significado ou ausência de significado, de propósito ou ausência de propósito, são acréscimos criados pelo pensamento, sem qualquer realidade concreta.
‘Não-dualidade’ é, naturalmente, uma palavra, uma ideia conceitual, mas aponta para a própria natureza da realidade. Ela aponta para alguma coisa que não pode ser realmente conceituada! Ela aponta para ISSO, aqui e agora, exatamente como isso é!
Os pensamentos e ideias sobre essa realidade viva são sempre dualistas, mas ISSO é não-dual. Em outras palavras, os mapas conceituais dessa realidade viva são sempre, de alguma maneira, dualistas, mas o território em si é não-dual. Claro, o ato de mapear é alguma coisa que o território está fazendo e essa realidade viva inclui pensamentos, ideias e mapas — mas, sob uma perspectiva não-dual, eles são reconhecidos simplesmente como aparências ou ondas de energia, sem que se confunda o seu conteúdo com a realidade que eles alegam descrever ou representar. Eles são úteis na realidade relativa do cotidiano, mas nunca são realmente verdadeiros.
Perder-se na filosofia e na metafísica, tentando alcançar a liberação por meio do pensamento, não é — na minha experiência — o que nos libera do nosso cativeiro imaginário. O que nos libera é o desvanecimento (ou a percepção da natureza ilusória) do problema imaginário, que, na verdade, nunca existiu!
Ao dedicar atenção aberta à realidade nua e crua do que é — antes de todas as palavras e explicações a respeito — e ao relaxar na simplicidade desse momento, pode-se perceber que não restam nem problema nem ‘self’. Há simplesmente o ouvir, o ver, o pensar, o sentir, etc.. E, quando surge a confusão criada pelo pensamento, ela pode ser vista como a ilusão que realmente é; ao ser vista, ela se dissolve novamente, de forma bastante natural. E nada é, de fato, um problema. Tudo está incluído: até mesmo a aparente confusão, a contração, o sofrimento e a identificação com um ‘self’ separado e encapsulado são apenas mais um movimento, como uma onda, desse oceano indivisível e sem margens. O pensamento condicionado pode rotular o que surge como ‘confusão’, ‘ego’, ‘consciência no nível da realidade [awareness]’, ‘singularidade’ ou qualquer outra palavra, rótulo ou ideia. Mas a realidade em si nunca se cristaliza em uma forma permanente e nada pode ser realmente extraído do todo. Ninguém está fazendo nada disso e nada é jamais aquilo que nós pensamos que isso é.
Essas palavras são apenas indicadores ou mapas. A essência está na própria vivacidade em si, algo que não pode ser capturado por palavras ou conceitos. As palavras podem apenas sugerir, apontar ou convidar ao reconhecimento da realidade não-dual. Mas aqui está uma pista importante: isso já é, desde sempre, o caso. Nada necessita ser diferente de como exatamente é. A forma como as coisas parecem ser nunca permanece estática, mas jamais se afasta do Aqui-Agora. A realidade viva é o AGORA, bem aqui; é algo extremamente simples, óbvio e imediato. Ela nunca está ausente nem oculta de forma alguma. Ela não é alguma coisa em particular (isso, mas não aquilo). E também não é o nada. É essa vivacidade inexplicável — a presença surpreendente e a natureza de ‘não-coisa’ de tudo, que liberta de forma maravilhosa.
A não-dualidade não é uma filosofia. Ela é os sons do trânsito e o sabor do chá, a fragrância das flores e o cheiro do lixo, cores, formas e movimento — respirar, o bater do coração, sensação, estar consciente, pensar, sentir, ser — sempre presente, sempre em transformação — nem um, nem dois — apenas isso.
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Um livro sobre Não-Dualidade
A minha abordagem de tudo isso sempre enfatiza a experiência direta — explorá-la pessoalmente, não pensando a respeito, mas observando, ouvindo e sintonizando-se com a vivência do momento presente. No entanto, se você quiser abordar o tema de forma intelectual e filosófica, há um livro excelente de David Loy chamado ‘Nonduality: A Study in Comparative Philosophy’ (‘Não Dualidade: Um Estudo em Filosofia Comparada’), que recomendo fortemente. David Loy é um mestre Zen e professor de filosofia Budista e comparada; o livro compara e contrasta a noção de ‘Self’ (Realidade Imutável) do Advaita com o entendimento Budista de ‘não-self’ (impermanência, fluxo constante, a natureza de ‘não-coisa’). A obra explora conceitos como tempo e espaço, substância, causalidade, liberdade e caminho espiritual sob uma perspectiva não-dual, recorrendo não apenas ao Advaita e ao Budismo, mas também ao Taoísmo e à filosofia Ocidental. Eu recomendo também, com grande entusiasmo, o livro ‘The Book: On the Taboo Against Knowing Who You Are’ (‘O Livro: Sobre o Tabu de Saber Quem Você É’), de Alan Watts.
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Sobre a Autora:

Joan escreve e palestra sobre não-dualidade, consciência no nível da realidade [awareness], presença e a maravilha de simplesmente estar viva. Ela convida a uma exploração contemplativa que é direta, não metódica, baseada na consciência no nível da realidade [awareness] e não orientada para resultados. Joan tem experiência no Budismo, Cristianismo, Sufismo, Advaita, não-dualidade radical e em práticas não tradicionais de meditação e investigação, mas não se identifica com nenhuma tradição específica. Joan conviveu com diversos professores e manteve uma proximidade especial com Toni Packer, uma ex-professora Zen que deixou essa tradição para trás a fim de trabalhar de uma maneira mais simples e aberta. A trajetória de Joan também inclui trabalho corporal, recuperação de dependência, ativismo político, artes marciais e artes visuais.
Ao longo de sua vida, ela atuou como terapeuta corporal, professora universitária, faxineira, barista, funcionária administrativa, entre outras ocupações. Desde 1996, ela realiza encontros públicos e privados, bem como workshops e retiros ocasionais. Além de escrever livros, ela publica artigos no Substack e, atualmente, ela realiza encontros com pessoas via Zoom. Joan acredita que cada pessoa tem um caminho único e que o caminho de ninguém pode servir de modelo para outra pessoa seguir.
Ela descreve os seus escritos e encontros como explorações — ‘como uma criança explorando os dedos dos pés ou um amante explorando a pessoa amada’ — e acrescenta: ‘Não há fim para tais explorações; todas elas são formas de brincadeira’.
Joan cresceu na região de Chicago, morou em Nova York e na Califórnia e, atualmente, reside no sul do Oregon. Ela é autora de ‘Bare-Bones Meditation: Waking Up from the Story of My Life’ (1996), ‘Awake in the Heartland: The Ecstasy of What Is’ (2003), ‘Painting the Sidewalk with Water: Talks and Dialogs about Nonduality’ (2010), ‘Nothing to Grasp’ (2012) e ‘Death: The End of Self-Improvement’ (2019).
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Imagem: pexels-durica-6097930 13.08.26
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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios são capazes de ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.
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