Destacamos e transcrevemos trechos do artigo editado na Revista da ESPM Jan-Fev 2007, denominado “Espiritualidade nas Organizações: Nova Era e Negócios”, da autora Lívia Barbosa, que aborda sobre o movimento de busca pela Espiritualidade Interna preconizado pela Nova Era (New Age), com os seus princípios e expectativas, que, como não poderia deixar de acontecer, tem alcançado e transformado o mundo dos Negócios nos últimos tempos.

“Quando falamos de negócios e empresas, as imagens e representações que sempre nos vêm à mente são de objetividade, racionalidade, performatividade e mensuração.

Nas últimas décadas, entretanto, o ambiente físico das empresas passou a ser povoado por um conjunto de objetos e tecnologias gerenciais que sinalizam imagens e representações radicalmente opostas.

Cristais, incensos, harpas eólicas, baguás, entre outros, passaram a disputar espaço com arquivos, computadores, blocos, canetas, impressoras e outros objetos consagrados como partes da cultura material dos escritórios e do trabalho.

O mesmo se aplica à arquitetura externa e de interiores dos prédios que abrigam as empresas e organizações.

Edificações são hoje revestidas de espelhos para refratarem energias negativas. Ângulos retos foram transformados em formas arredondadas para que a energia circule com maior facilidade e conjugados a cores que estimulem a criatividade e atraiam prosperidade e sucesso.

Plantas naturais deram lugar às artificiais para que a energia da morte e da doença não afete negativamente o ambiente de trabalho e fontes de águas cristalinas e murmurantes completam o ambiente que deve, em suma, transmitir bons fluidos, paz e harmonia.

Paralelamente a esta dimensão material, tecnologias gerenciais estimulam o autoconhecimento, o desenvolvimento das pessoas, a intuição e a criatividade, fortalecendo o “eu” interior de cada um de nós.

Caminhadas sobre brasas podem coroar toda uma jornada de trabalho combinadas a exortações emocionadas do tipo “eu posso” ou “eu sou capaz”.

Como fazer sentido desta conjugação íntima entre racionalidade econômica, objetividade, mensuração e performatividade – ideologias oficiais das empresas e dos negócios – com intuição, energia e outras múltiplas expressões de espiritualidade e esoterismo?

Uma resposta irônica e radical poderia ser que a complexidade atual dos mercados e da sociedade contemporânea e a comoditização crescentes dos produtos e serviços teriam levado as empresas a apelarem para tudo e qualquer coisa afim de sobreviverem e continuarem lucrativas.

Uma postura mais analítica, contudo, sinalizaria para “variáveis” que passam ao largo do desespero empresarial e enveredam fundo em novas ideologias, mudanças epistemológicas e transformações culturais que atravessam a vida das sociedades modernas.

Antes de as analisarmos e as suas trajetórias e consequências no universo dos negócios e empresarial, se faz necessária uma relativização acerca deste próprio universo a partir das especificidades que lhes são atribuídas.

Nenhum universo social é organizado rigidamente em torno de uma única ética, de uma única lógica e/ou de um único valor. Não existe homogeneidade substantiva e absoluta.

Todos são compostos de elementos contraditórios e heterogêneos. O que diferencia os diferentes universos sociais entre si são as ênfases colocadas sobre dimensões particulares que lhes conferem especificidades.

No caso do mundo dos negócios e das empresas, aquilo que lhes é atribuído como constitutivo e estrutural, ou seja, os seus atributos centrais são, na realidade, unicamente as lógicas, as éticas e os valores mais enfatizados simbolicamente e o como da prática social.

Isto, no entanto, não significa a ausência de e nem impede ações e comportamentos pautados por princípios que lhes são inteiramente contraditórios. Basta um olhar mais atento sobre o mundo dos negócios e empresarial para que todo este castelo de objetividade, racionalidade, performatividade, entre outros, seja abalado.

Por exemplo, o que dizer da decisão de Henry Ford de despedir Lee Iacocca, justamente no primeiro ano em que a Ford deu lucro após anos de amargos prejuízos, para evitar que Lee lhe fizesse sombra e ameaçasse o seu poder?

O que dizer do mesmo Lee Iacocca que, quando presidente da Chrysler pagou um empréstimo subsidiado pelo governo norte-americano antes do tempo, afirmando que essa atitude mostrava o quanto todos estavam unidos?

Nós sabemos que, na prática, nenhuma decisão empresarial é fruto apenas da análise de dados objetivos. A informação nunca é absoluta para que possamos decidir “baseados nos fatos”. Portanto, existe sempre uma grande margem de “intuição/feeling”, “política” ou meramente preferência pessoal, critérios que são os opostos daqueles aconselhados para os negócios.

Aliás, historicamente, nem o mundo dos negócios, nem o da política, jamais estiveram livres de videntes, cartomantes ou astrólogos – da Rússia dos Romanovs aos Estados Unidos de Ronald Reagan.

Se sempre foi assim, qual então a diferença para o mundo atual? A diferença reside no fato de que antes essas atitudes e comportamentos encontravam-se escondidos ou implícitos e localizavam-se na periferia do “sistema”.

Hoje, elas encontram-se no seu centro, explicitadas e incensadas com o aval daqueles que detêm o poder.

Aliás, nada melhor para comprovar o afirmado anteriormente do que a presença de Paulo Coelho, o maior escritor esotérico brasileiro, membro da Academia Francesa de Letras, como convidado especial em Davos por vários anos consecutivos falando para aqueles que detêm o poder das decisões no mundo contemporâneo.

O que levou a esta mudança de posição de valores “estranhos” ao

universo dos negócios e das empresas – da periferia para o centro – foi justamente a disseminação dos princípios da Nova Era que, quando aplicados ao universo dos negócios, deram origem a um dos mais bem-sucedidos casamentos de todos os tempos.

O QUE É NOVA ERA?

Nova Era, Novos tempos, Era de Aquário são algumas das denominações utilizadas para designar um “movimento informal” não religioso, que afirma que a espiritualidade interna funciona como a chave que transforma tudo o que está errado naquilo que é certo. O termo novo tem como objetivo transmitir a ideia de que um modo de vida novo e melhor está nascendo.

O movimento NE enfatiza a autonomia, a liberdade e a responsabilidade individuais e coloca na experiência de cada um de nós – no nosso self/eu interior – toda a fonte de autoridade sobre aquilo que conhecemos. Conhecer é experimentar.

A NE é, portanto, um movimento que renega a tradição e as suas vozes, embora reconheça a existência de uma sabedoria e verdade universais subjacente sob os ensinamentos das diferentes religiões tradicionais.

Para o adepto da Nova Era o que importa é o arcano, o esotérico, a sabedoria escondida e imemorial, a tradição secreta. Por isto essa volta ao budismo, ao paganismo, à cabala, a Jung e ao esoterismo.

A Nova Era tem uma origem controversa, mas certamente está ligada ao movimento de contracultura da década de 1960. Ela sofre influências diversas, mas as mais importantes são as da filosofia e religiões do oriente, do individualismo ocidental, da Neurolinguística e do ecologismo.

Ela procura legitimar os seus ensinamentos invocando as descobertas da ciência contemporânea, principalmente da física subatômica e da matemática do caos. O Tao da Física e o Ponto de Mutação, de Fritjof Capra são dois livros extremamente populares que exemplificam esta busca por legitimidade na física.

A ênfase da Nova Era na espiritualidade interior representa um verdadeiro rompimento com a teodiceia ocidental, baseada em um Deus transcendente. Na versão Nova Era a fonte da espiritualidade encontra-se sempre no nosso interior. Nós somos todos deuses e deusas em exílio.

É o nosso Deus interior e a nossa capacidade de conectá-lo com o mundo exterior que faz com que a energia do universo conspire contra ou a nosso favor, levando-nos ao sucesso ou ao fracasso. A transcendência é substituída pela imanência.

Para alcançarmos esse processo de conexão, nós precisamos libertar o nosso eu interior. A educação que nós recebemos de nossos pais, espiritualmente desinformada, faz com que continuemos a repetir os mesmos vícios e erros que acompanharam as diversas gerações anteriores e que coibiram o desenvolvimento de nossas possibilidades interiores. Por isso é que a nossa vida não funciona como deveria.

Nós somos capazes de tudo desde que libertemos o “nosso deus interior” – a fonte do conhecimento e da verdade.

O rompimento com este círculo vicioso ocorre quando nós deixamos o passado ir embora. “Let it go” e “deixar fluir” são dois mantras da New Age e referem-se a psicotecnologias de fazerem os velhos padrões serem substituídos por novos que envolvem rituais de Descartes, de limpeza ambiental, perdão, desapego, reformulação do pensamento e do uso de fórmulas linguísticas, às quais se atribuem o poder de mudar a nossa mente.

Louise Hay é a papisa desta última modalidade. Afirmações relacionadas aos meus desejos são feitas a toda hora para nos ajudar a mudar os velhos padrões mentais que nos impedem e impedem o universo à nossa volta de acontecer.

Para esta autora tanto a prosperidade como a falta dela é uma expressão das ideias e pensamentos que nós temos dentro de nós. Um outro bom exemplo é o Erhard Seminar Training (EST), especializado em negócios, que começa, justamente, questionando a vida de cada um de nós e afirmando que “a razão pela qual as nossas vidas não funcionam é porque nós estamos vivendo mecanicamente em vez de autenticamente no mundo da experiência”.

Esta ênfase em uma espiritualidade interior faz com que uma das características centrais da NE seja a sacralização do self. Este é baseado em um individualismo não mediatizado do tipo “eu sou a minha própria fonte de autoridade”, que dispensa intérpretes e prefere gurus e “facilitadores” que nos ajudam na introdução a novas experiências.

A verdade externa ao self não pode ser confiável. Ela tem de estar embasada no nosso sentir, na nossa intuição e conectada ao nosso eu interior que deve ser utilizado como informante privilegiado de nossos julgamentos, decisões e escolhas. Nesta perspectiva, o indivíduo funciona como a sua própria fonte de orientação.

Experimentar o nosso verdadeiro self é conhecer a Deus, a verdadeira fonte de vitalidade, criatividade, amor, tranquilidade, sabedoria e poder e tudo o mais que envolve uma vida perfeita.

Por exemplo, Roger Evans e Peter Russel, discutindo o que é um “gerente criativo” – no livro Creative Manager (1989) –, enfatizam a importância de ouvir a sabedoria interior de cada um de nós.

Um outro aspecto da ética do self diz respeito ao exercício da responsabilidade. As pessoas se tornam inteiramente responsáveis quando se tornam conscientes de que existe uma alternativa à vida anterior e a estratégia de culpar a sociedade por aquilo que está errado com a vida de cada um de nós.

Esta importância atribuída à internalização do lócus de autoridade serve para garantir que muitos adeptos da Nova Era acreditem que eles e apenas eles, são os responsáveis por suas vidas. Alocar reponsabilidade a outros é alocar responsabilidade àqueles que podem estar operando fora de seus egos autênticos e, portanto, incapazes de poderem, realmente, escolher.

A importância atribuída à autonomia da experiência individual significa também que ninguém deveria tentar interferir na vida dos outros e até mesmo da sociedade através da tentativa de tomar a si responsabilidades sobre a vida dos outros. Portanto, alguns adeptos da Nova Era acreditam que exercer responsabilidade em relação a outros é, simplesmente, encorajar a dependência dessas pessoas.

Outros, por outro lado, se acham responsáveis por tudo, pois como os outros não estão de posse de seus próprios egos, eles precisam ser informados para escolherem mudar.

Qualquer que seja o caso, os adeptos da Nova Era geralmente insistem que eles são capazes de se apoiarem na sua espiritualidade interior para melhorarem a sua saúde, a sua prosperidade e as suas relações, aumentando a eficácia da autorresponsabilidade.

NOVA ERA, EMPRESAS E NEGÓCIOS

Como estes princípios são implementados e qual o impacto deles para as pessoas e os negócios?

Existem várias metabolizações da NE dentro das organizações e no interior do mundo dos negócios. Desde aquelas que priorizam a produtividade mágica, dando pouca importância ao trabalho e à produtividade, focando o uso de dispositivos e fórmulas mágicas, às quais são atribuídas grande eficácia – como foi o caso da organização Sokai Gakkai, na qual se entoavam cânticos em busca da boa fortuna – até um uso mais genérico e diluído em que os princípios da NE são metabolizados como instrumentos, tecnologias gerenciais que ajudam tanto no crescimento dos negócios como dos indivíduos.

Este último caso tem sido o mais comum no Brasil. Entre nós eles encontram-se entranhados nas mais diferentes tecnologias gerenciais. Estas impactam em três diferentes níveis distintos – individual, ambiental (ou seja, no ambiente de trabalho) e transformacional (na transformação dos gerentes e da atividade de gerenciar).

No âmbito individual procura-se desenvolver tudo o que é autêntico e expressivo nas pessoas. É atribuída uma grande importância ao que se denomina de espiritualidade psicológica.

Experiências de harmonia, encontro, amor para consigo mesmo e com o outro, de healing [cura física, mental, emocional, espiritual] e de se “tornar inteiro” são enfatizados.

A espiritualidade interior é posta para trabalhar para conceder maior poder expressivo aos indivíduos, principalmente nas relações pessoais.

Programas de “harmonização” do ambiente do trabalho, de atualização e sensibilização do eu são alguns dos lócus privilegiados desta tendência, nos quais os diversos aspectos do ser humano são estimulados (como o espiritual, o físico e o emocional), a partir de diferentes metodologias – curativa, educacional e de expansão da criatividade, entre outras.

Estas objetivam lidar com as barreiras íntimas das pessoas, possibilitando o desabrochar dos potenciais individuais. O objetivo central é nos tornar a todos pessoas inteiras.

A partir daí o crescimento pessoal é visto como um desdobramento natural desta integração e harmonização do eu.

Na dimensão ambiental, tanto a dimensão física como a processual do trabalho são focalizadas. O trabalho é visto como um ambiente de crescimento, que fornece a oportunidade das pessoas trabalharem a si mesmas e de cultivarem o que é ser humano.

Se isto contribui para a produtividade, tanto melhor. Learning Organization, Organizações criativas, Transformando o Mundo do Trabalho são alguns dos rótulos que sinalizam para estas transformações.

Do ponto de vista físico dos escritórios e das empresas as modificações são empreendidas através da demolição de barreiras e estruturas físicas, hierárquicas e burocráticas, em suma alienantes, pela criação de espaços mais igualitários, mais abertos e transparentes.

Escritórios abertos, feng shui organizacional são algumas das tecnologias implementadas.

No âmbito gerencial a atenção é concentrada no que significa ser um gerente na sociedade contemporânea e nas possibilidades que esta atividade proporciona para a transformação de si mesmo, do ambiente organizacional e dos resultados.

Assim, o que é enfatizado são as novas habilidades e competências demandadas. Creative Management, Self Development Managers, Líderes Inovadores entre outras tecnologias visam a dar conta desse processo transformacional.

O impacto dos princípios da NE tem sido enorme para os negócios, as organizações e as pessoas.

Primeiro eles fizeram um casamento perfeito com alguns dos princípios básicos do capitalismo como desempenho e responsabilidade individual.

Segundo, ao mudarem o eixo de responsabilidade pelo desenvolvimento das pessoas da empresa para o indivíduo, permitiram que as organizações quebrassem os elos que as prendiam a seus funcionários sem grandes tensões de ordem política e ideológica ao mesmo tempo em que as relações de lealdade foram reescritas por ambos os lados.

Terceiro, os princípios da NE abriram a possibilidade do estabelecimento de uma forte ideologia de permanente mudança e transformação que se adequou como uma luva à reformulação produtiva do capitalismo contemporâneo.

Quarto, esta ideologia de mudança abre espaços para uma atitude individual de permanente reflexão que permite reformulações pessoais constantes, mas, ao mesmo tempo, geram um grande stress pessoal e organizacional.

Quinto, mas não menos importante, esta cobrança por autoconhecimento e reformulações constantes colocam os indivíduos em uma permanente corrida por novas habilidades e expertises que assim que são adquiridas já existem outras novas para tomarem os seus lugares.

E, por fim, fracassos e sucessos se tornam responsabilidade única de nossa capacidade de nos conectarmos com o nosso eu interior. Na ausência desta nós somos os únicos responsáveis e não existe nada que possa resguardar ou proteger a nossa autoestima.

Não é por acaso que a própria NE criou o seu próprio antídoto: a autoajuda.”

Livia Barbosa – Doutora em Antropologia Social pelo PPGA/UFRJ; mestre em Ciências Sociais pela Universidade de Chicago/EUA; pesquisadora do CAEPM/ESPM e professora do Departamento de Antropologia das UFF.

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios podem ajudar tanto as Pessoas como as Organizações.

Autor

Graduação: Engenheiro Operacional Químico. Graduação: Engenheiro de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras FGV/SP. Consultor de Empresas: Projeto OREM® - Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBEs). Estudante e Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista; Psicofilosofia Huna e Ho’oponopono; A Profecia Celestina; Um Curso em Milagres (UCEM); Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT); A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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