Trechos do documento preliminar de trabalho de uma Conferência da Universidade de Santa Clara (EUA), denominado “Bridging the Gap Between Spirituality and Business” (tradução livre: “Construindo Ponte Sobre a Brecha Entre Espiritualidade e Negócio), para o nosso conhecimento e entendimento sobre as Organizações Baseadas em Espiritualidade (OBE) e o cenário de ambiente de trabalho (AT) onde essas Empresas atuam.

Debate de Santa Clara – Conferência entre 9 e 11 de março de 2001

Editor Andre’ L. Delbecq – E mail: [email protected]

©Leavey School of Business

Tradução livre Projeto OREM® (PO)

—–continuação da Parte IV—–

Seção Cinco

Chamado (Vocação), Novas Carreiras e Espiritualidade – Uma Perspectiva Reflexiva para Líderes e Profissionais Organizacionais (Empresariais)

Joseph W. Weiss-Bentley College

Michael F. Skelley – DePaul University

Douglas (Tim) Hall – Boston University

John C. Haughey, SJ. – Loyola University Chicago

Introdução

Qual é o meu propósito na vida? Por que eu estou nesse trabalho, nessa organização, nessa indústria? Como eu cheguei aqui em primeiro lugar? Eu estou trabalhando para viver ou vivendo para trabalhar? Como eu posso medir o meu sucesso?

O meu trabalho serve a algum propósito maior? Muitas pessoas fazem esse tipo de pergunta em algum momento de suas vidas. Quando confrontadas com situações de vida ou morte, como muitas o foram durante e após o ataque de 11 de Setembro, essas questões emergem das sombras. Para alguns de nós, o questionamento do nosso propósito na vida e na carreira é frequentemente colocado em primeiro plano pelas pressões e desafios – e às vezes pelo tédio e pelo vazio – do nosso local de trabalho. Ainda assim, essas questões são uma forma poderosa pela qual o nosso espírito humano se manifesta por si mesmo. Portanto, achar respostas significativas para elas é uma das tarefas essenciais que nós enfrentamos quando nós tentamos integrar mais plenamente a espiritualidade em nossas vidas.

As vidas de Mohandas [Karamchand] Gandhi e Martin Luther King – pessoas simples que vieram a ser líderes extraordinários – ilustram o intenso, por vezes doloroso, processo de busca e descoberta humana que ocorre no caminho para realizar o chamado [calling] único de alguém. A jornada espiritual de alguém se desenrola; ela raramente ou nunca é um caminho linear. Descobrir quem nós somos e quem nós somos chamados a ser, envolve muitas vezes o autossacrifício e a renúncia a imagens e planos pré-determinados. Tal como Gandhi e King, nós somos capazes de achar o nosso propósito único na vida através de uma autorreflexão profunda e da aprendizagem através da ação para considerar as vozes das nossas comunidades e o Infinito – Deus.

Descobrir quem nós somos e quem nós somos chamados a ser, envolve muitas vezes o autossacrifício e a renúncia a imagens e planos pré-determinados.

Gandhi não sabia até à segunda parte da sua vida que ele viria a ser um ativista Indiano não violento e depois um líder espiritual cuja missão era libertar o seu país do domínio Britânico. Ele provavelmente nunca se deu conta de que ele seria ‘a figura religiosa mais importante de nosso tempo’, como proclamou o historiador Lewis Mumford. A jornada de Gandhi girou e passou de um estudante de direito tímido e desajeitado, abaixo da média, para um pequeno funcionário de um escritório de advocacia Sul-Africano, depois para um advogado de sucesso e para vir a ser um defensor não violento dos direitos civis e um líder espiritual altruísta.

Da mesma forma, Martin Luther King não sabia, quando ele se formou no início da década de 1950 em Sociologia, que ele mais tarde faria doutorado em Teologia e depois serviria como pastor Batista antes de fundar e liderar uma organização nacional não-violenta que o empurraria para o papel de um polêmico ativista social, visionário e orador. Ele não teria previsto que ele poderia receber, antes de ter sido assassinado, o Prémio Nobel da Paz pela causa da integração racial e da liberdade dos negros Americanos. Tal como Gandhi, King viveu, enfrentou e triunfou sobre muitos dos seus demônios durante intenso diálogo interior, conflito, oração e descoberta antes de seguir ao seu chamado e propósito na vida.

Antes de passarmos à nossa discussão sobre as tendências contemporâneas sobre chamado (vocação), carreira e espiritualidade, nós apresentamos um breve resumo dos momentos decisivos (pontos cruciais) e da dinâmica nos caminhos transformacionais de Gandhi e King para o chamado (calling) deles. Eles são mais parecidos conosco do que diferentes em suas lutas para acharem o propósito deles em suas vidas e no trabalho.

O Chamado e a Jornada de Mohandas Gandhi

Mohandas Karamchand Gandhi (1869-1948), filho de um estadista, teve um temperamento violento quando jovem, era muito tímido e constrangido e era um estudante abaixo da média. Apaixonado e ciumento, ele se casou com a sua jovem esposa, Kasturbai, quando tinha 13 anos. Gandhi foi para a faculdade e foi reprovado em todas as matérias antes de desistir depois de apenas cinco meses no programa. Um tio o convenceu a ir para a Inglaterra estudar Direito depois que a sua família conseguiu dinheiro suficiente. Em Londres, Gandhi achou fácil estudar direito, embora ele permanecesse solitário e socialmente inepto. Depois de terminar a faculdade de direito, ele retornou para a Índia e se mostrou totalmente inadequado como advogado. A sua estranha autoconsciência no nível da percepção [self-consciousness] impedia que alguém lhe apresentasse um caso. Ele apareceu uma vez no tribunal e não conseguiu pronunciar uma única palavra.

Tendo fracassado em sua primeira tentativa como advogado, Gandhi recebeu e aceitou um cargo administrativo de nível inicial em um escritório de advocacia na África do Sul, onde mais tarde aprimorou as suas habilidades interpessoais. Nessa posição, ele ajudou a resolver e chegou a um acordo sobre uma amarga disputa legal extrajudicial que envolvia a sua empresa. Com essa experiência, ele disse: ‘Eu aprendi a descobrir o lado melhor da natureza humana e a entrar no coração dos homens.’ Gandhi começou a abordar todas as situações como uma forma de prestar serviço, em vez de obter lucro. Alguns anos depois, ele veio a ser um advogado de sucesso, adotou um estilo de vida Ocidental e trouxe a esposa e os filhos dele para morarem juntos. Ao mesmo tempo, Gandhi também começou a ver o sofrimento do povo Indiano na África do Sul. Ele foi solicitado a deixar um assento de primeira classe em um trem para ir para a terceira classe antes de recusar e, em seguida, foi forçado a sair do trem.

Mais tarde, quando um leproso bateu à sua porta, em vez de lhe dar o jantar e mandá-lo embora, Gandhi tratou das feridas do doente e cuidou dele. Uma transformação estava ocorrendo dentro dele. Ele leu as escrituras religiosas, simplificou a sua vida e abandonou os valores materialistas. Nós sabemos também que a atitude autoritária dele em relação à sua esposa deu lugar ao fato de aprender com ela práticas humanitárias. Fora da cidade de Durban, o exemplo de serviço prestado por Gandhi ao próximo atraiu uma pequena comunidade ao seu redor. Ele estava vindo a ser um líder de pessoas comuns. Ele regressou à Índia depois de viver na África do Sul durante 20 anos para praticar e aplicar ‘ahimsa’ (não-violência) e ‘satyagraha’ (insistência na verdade, ‘força da alma’, força da verdade’) na luta contra o domínio Britânico. Ele viajou extensivamente compartilhando a sua mensagem sobre o que veio a ser altruísmo e amor – perdoando os governantes Britânicos e ao mesmo tempo resistindo consistentemente à escravidão de um sistema imperialista.

Nehru, (que mais tarde veio a ser o primeiro Primeiro-Ministro da Índia independente), uniu-se a Gandhi e também foi um defensor dos princípios e da luta dele. Gandhi foi mais longe: ele deu à casta Indiana mais baixa, os ‘intocáveis’, um novo nome, ‘os filhos de Deus’. Ele não entrava em templos fechados para Indianos de castas inferiores, dizendo: ‘Não há Deus aqui. Se Deus estivesse aqui, todas as pessoas teriam acesso. Ele está em cada um de nós.’ Os templos começaram a abrir para todas as pessoas. Gandhi recebeu o título de Mahatma, ‘Grande Alma’. Gandhi praticou a sua não violência e desobediência civil contra os Britânicos durante a Primeira Guerra Mundial, durante a qual milhares de pessoas foram presas por não cooperação. Ele foi julgado por sedição (incitação) e transformou o julgamento numa condenação do imperialismo. Ele teria sido detido e encarcerado muitas vezes durante os seus protestos. Ele ganhou atenção internacional em 1930 durante a sua marcha de 24 dias até o mar para protestar contra o monopólio Britânico do sal na Índia. Finalmente, em Setembro de 1946, os Britânicos abandonaram o domínio deles na Índia. Nehru veio a ser o primeiro-ministro de uma Índia independente. Muçulmanos e Hindus continuaram lutando.

Por fim, o país se dividiu em Índia e Paquistão. Em 30 de janeiro de 1948, Gandhi foi assassinado por Mathuram Godse, um Brâmane de alto escalão e editor de uma revista semanal Hindu. Gandhi havia dito profeticamente anteriormente: ‘Se alguém me matasse e eu morresse com uma oração pelo assassino em meus lábios e a lembrança de Deus e a consciência no nível da percepção [consciousness] de Sua presença viva no santuário em meu coração, então eu seria o único a dizer ter tido a não-violência dos bravos.’ (Grupo Gale, 2000)

O Chamado (Vocação) e a Jornada de Martin Luther King

Martin Luther King foi muito influenciado por Gandhi. King adotou e usou os métodos de não-violência de desobediência civil de Gandhi para enfrentar as desigualdades raciais no Sul. Tal como Gandhi, King também passou por um processo de descoberta que envolveu auto dialogo, oração contínua, ouvir e responder a conversas com Deus e depois liderar grupos a partir das suas comunidades para mudar as cidades do sul e, depois, a sociedade.

Martin Luther King (1929-1968) deliberou durante vários anos antes de seguir os passos de seu pai e vir a ser um ministro Cristão. Ele lutou sobre as opções de estudar medicina, direito e outras áreas. King faltou um ano no ensino médio para ingressar no Morehouse College em 1940 para se formar em sociologia. Durante o seu primeiro ano, ele declarou que ingressaria no ministério Cristão como uma profissão. Quanto ao papel da educação em geral, King disse:

‘A função da educação…é ensinar alguém a pensar intensivamente e…criticamente. No entanto, a educação que para com a eficiência pode revelar-se a maior ameaça para a sociedade… O criminoso mais perigoso pode ser o homem dotado de razão, entretanto sem moral.’

As sementes de um chamado (calling) diferente estavam em seu pensamento.

King se formou no Morehouse College em 1948 e matriculou-se no Crozer Theological Seminary para estudar para o ministério. Outra virada ocorreu em sua vida nessa época, quando ele ouviu uma palestra do presidente da Howard University (Modecai Johnson) sobre Mahatma Gandhi. King disse mais tarde:

‘A mensagem dele foi tão profunda e eletrizante que eu saí da reunião e comprei meia dúzia de livros sobre a vida e a obra de Gandhi.’

Ao invés de ingressar no ministério após a formatura, ele ingressou em um programa de doutorado em teologia na Universidade de Boston, onde conheceu a sua futura esposa, Coretta Scott. Ele concluiu o doutorado e veio a ser ministro na Igreja Batista Dexer, em Montgomery, Alabama – onde se uniu aos apoiadores de Rosa Parks – uma mulher negra que se recusou a ceder o seu assento no ônibus para uma mulher branca. Em 1957, King formou e liderou a SCLC (Southern Christian Leadership Conference), uma organização dedicada a informar e liderar protestos e marchas não-violentas pelos direitos civis. Nesse mesmo ano, a casa e a igreja de King foram bombardeadas, à medida que continuavam os atos de violência contra os manifestantes negros.

Durante esse período, King revelou uma dupla natureza em sua personalidade, o desejo de viver e lutar pelos direitos dos negros enquanto lutava com a renúncia para morrer como mártir. William Robert Miller, um dos biógrafos de King, declarou a respeito dessa dupla natureza:

‘Quando ele obedeceu ao que parecia ser uma compulsão interna ocasional e irresistível, ele disse que se sentia seriamente chamado a ser um mártir — no entanto ele achou isso extremamente difícil e igualmente difícil de admitir que ele estava preocupado com o que considerava a sua inadequação para o destino que Deus lhe havia dado.’

Depois que a casa e a igreja de King foram bombardeadas, ele disse:

‘Senhor, eu espero que ninguém tenha que morrer como resultado de nossa luta pela liberdade em Montgomery. Certamente eu não quero morrer. Entretanto, se alguém tiver que morrer, que seja eu.’

King continuou a usar os métodos de protestos não-violentos de Gandhi contra as práticas institucionais da supremacia branca no Sul. Ele suportou confrontos ao longo de sua vida a partir desse momento. No início da década de 1960, King veio a ser um visionário. O seu discurso e tema ‘Eu tenho um sonho’ (‘I have dream’) de 28 de agosto de 1963 (‘Finalmente livres! Graças a Deus Todo-Poderoso, finalmente nós somos livres!’) foi proferido em Washington, DC. O discurso consagrou o seu papel proeminente como líder nacional não-violento dos direitos civis. Nesse mesmo ano, ele veio a ser o Homem do Ano pela revista Time. Então, em 1964, ele recebeu — como o mais jovem ganhador da história — o Prêmio Nobel da Paz. Ele também veio a ser um autor com o seu livro ‘Stride Toward Freedom.’

Com o seu destino aparentemente definido, King ainda experienciaria uma competição e conflito turbulentos sobre a eficácia da sua liderança e métodos não-violentos dentro da comunidade negra. Houve inquietação com a ineficácia de muitas marchas de King. Durante o ano de 1966, Stokely Carmichael (autor do slogan ‘cultura é uma arma’) e Adam Clayton Powell do Harlem (que chamou o grande líder de ‘Martin ‘Loser’ King’) desafiaram os métodos e a filosofia de King. Os amigos de King, Andrew Young e Ralph Abernathy, também questionaram a visão de King durante os tumultos em meados da década de 1960, quando o Vietnã também estava em fúria. Coretta King (a sua esposa) falou sobre os demônios da vida de King naquela época:

‘Meu marido era o que os psicólogos chamam de um homem-dominado-pela-culpa. Ele tem responsabilidades incríveis e literalmente se propôs a tarefa de nunca cometer erros nos assuntos do movimento.’

King viu os perigos de sua queda iminente. Em sua assim-chamada visão obscurecida, ele tinha declarado que Deus havia permitido que ele subisse ao monte:

‘E eu tenho olhado’, disse ele, ‘e tenho visto a terra prometida. Eu posso não chegar lá com você, no entanto, eu quero que você saiba essa noite nós, como povo, chegaremos à terra prometida… Eu não estou preocupado com nada. Eu não estou temendo nenhum homem. Os meus olhos têm visto a glória da vinda do Senhor!’

Ele foi assassinado em 4 de abril de 1968 na varanda de seu quarto de motel em Memphis. Essas palavras de King serão lembradas como parte de seu epitáfio:

‘Se um homem não achou alguma coisa pela qual ele morreria, ele não está pronto para viver.’

King teve imensa influência na legislação posterior de direitos civis, nas práticas institucionais antirracistas e nas atitudes e crenças públicas contra o racismo. (Grupo Gale, 2000)

A maioria de nós provavelmente não será chamado a ter vidas tão nobres ou perigosas em nossas profissões e carreiras, nem a dar tanto quanto Gandhi e King. No entanto, as histórias de vida deles ilustram os processos multidimensionais, muitas vezes confusos e complexos, nos quais nós nos envolvemos na nossa busca de significado e identidade profissionais. Ambos os líderes tiveram que lutar desde cedo com decisões educacionais, profissionais, psicológicas, familiares, espirituais, comunitárias e éticas para perceberem, ao longo do tempo e de muitas provações, o seu propósito na vida.

Ambos se envolveram – e permitiram a eles mesmos assim fazê-lo – em jornadas espirituais que passaram por mais de um emprego e carreira. Gandhi lutou contra a timidez e a inépcia para falar em público e mal conseguiu terminar a escola. (Ele teve que pedir dinheiro emprestado para frequentar a faculdade de direito.) King passou por períodos intensos de culpa e de martírio iminente – até mesmo esperado – antes de retornar à sua causa e, por fim, à morte. Ambos foram ‘atraídos’ pelos seus valores e muitas vezes ‘impulsionados’ pela consciência e forças reacionárias deles para redefinirem continuamente e alcançarem o ‘próximo’ nível da sua jornada. Nenhum dos dois lutou apenas isoladamente.

Ambos foram envolvidos e influenciados pelas suas comunidades, pelas ações sociais, pela mudança dos sistemas legais, da injustiça e dos costumes locais e depois nacionais, até mesmo internacionais. Ambos passaram de empregos, carreiras e profissões definidas pela sociedade para uma vocação (chamado) e ‘posição’ que não tinha sido criada ou formalizada antes. Nenhum dos dois achou descrições de eventuais carreiras deles em anúncios de emprego ou em um site. Eles criaram os seus papéis em resposta ao cumprimento de suas visões.

Ambos estiveram intimamente em contato com a dor, o sofrimento e as experiências de seus seguidores antes de liderá-los. Nenhum deles foi derrotado pelas forças destrutivas e malignas nas situações que eles ajudaram – no entanto, não alcançaram totalmente – para transformar através da não-violência, altruísmo e força espiritual. Ambos valorizaram as vocações (chamados) deles e escolhas o suficiente para dar a vida deles por suas crenças.

Passemos agora a desvendar algumas das pistas que nós somos capazes de extrair dessas histórias em termos de como pensar as nossas próprias carreiras.

Ideia de Vocação e Chamado

Muitas pessoas não fazem conexões entre questões humanas fundamentais sobre como encontrar significado e propósito na vida e os termos ‘vocação’ (‘vocation’) ou ‘chamado’ (‘calling’). A palavra Inglesa ‘vocation’ vem de uma raiz latina, ‘vocare’, que significa ‘chamar’. Basicamente, uma vocação é aquilo que as pessoas acreditam que elas são chamadas a fazer na vida. No entanto, a maioria dos líderes organizacionais (empresariais) contemporâneos não costuma se referir às suas carreiras como vocações. Há pelo menos duas razões para isso.

Em primeiro lugar, a nossa utilização dos termos ‘educação vocacional’ e ‘reabilitação vocacional’ sugere que as vocações têm a ver com pouco mais do que trabalho qualificado ou manual.

Em segundo lugar, a palavra ‘vocação’ tem fortes associações religiosas ou humanitárias. Isso é compreensível, uma vez que durante muitos séculos o termo ‘vocação’ se referia apenas a pessoas que estavam comprometidas com um trabalho explicitamente religioso, como o clero, ou pessoas que viviam em comunidades religiosas. Assim, o termo não parece se adequar ao trabalho que a maioria de nós realiza.

Além disso, o movimento acelerado, a rotatividade e as redefinições da maioria dos empregos – até mesmo das carreiras – podem parecer tornar a noção de ‘vocação’ e ‘chamado’ irrelevante na era da informação.

No entanto, um novo interesse na ideia de vocação e chamado – embora esses termos não possam ser utilizados – está emergindo à medida que as pessoas buscam formas mais humanas e significativas de entender a sua vida profissional. O conceito de vocação e chamado lança nova luz sobre as carreiras dos líderes no século XXI. Uma estudante de um curso de MBA sobre espiritualidade e liderança ilustra a sua maneira de responder perguntas sobre significado, propósito, chamado, muito embora ela tenha parado, pouco antes, de usar a palavra vocação:

‘Eu não tenho certeza, no entanto, eu penso que acabei de ouvir uma ligação comercial. Um trabalho que tinha se tornado um fardo devido à luta constante para fazer o que é certo para as minhas equipes…tem se tornado uma missão de lutar pelos direitos dos colaboradores. Uma missão de ‘criar uma espiritualidade específica para a liderança empresarial’.… Isso é alguma coisa que eu sinto ser a minha missão. Eu realmente acredito nisso… A paixão queima em minhas veias. Eu reconheço que eu tenho um desafio difícil com muitos obstáculos a superar. Entretanto, há um propósito maior nisso, muito maior do que fazer isso ‘por causa do meu trabalho’. Isso vai muito além de tentar fazer o que é certo para os meus colegas, isso abrange fazer o que é certo para a sociedade.’ (Delbecq e McGee, 2000).

A estudante achou em um seminário que envolvia extensas leituras sobre espiritualidade, textos religiosos, oração e outros exercícios de apoio uma nova maneira de apoiar as suas questões sobre vocação.

Uma missão de ‘criar uma espiritualidade específica para a liderança empresarial’.… Isso é alguma coisa que eu sinto ser a minha missão. Eu realmente acredito nisso…

Como nós somos capazes de resolver os nossos problemas profissionais em direção a um senso mais profundo de chamado? O ambiente de negócios em que a maioria de nós trabalha raramente oferece incentivo ou orientação na busca por respostas. Essa é uma consequência infeliz da privatização e compartimentação da espiritualidade. É lamentável, uma vez que grandes líderes como Gandhi e King tenham achado na profundidade da sabedoria da religião uma forma importante de explorar essas questões. Um provérbio Chinês afirma:

‘O céu está um metro acima da nossa cabeça.’

Nós temos apenas que abrir a nós mesmos à sabedoria e às práticas disciplinadas das tradições espirituais e religiosas.

Esse capítulo examinará mais profundamente parte da sabedoria que a tradição Cristã em particular tem a oferecer sobre vocação e chamado. Nós exploramos as implicações em relação ao caráter mutável das carreiras modernas. As mudanças sociais, tecnológicas, econômicas, empresariais e de gestão nas últimas décadas causaram mudanças sísmicas na forma como agora nós entendemos, criamos e reinventamos as nossas carreiras. Nós discutiremos alguns dos principais desafios contemporâneos na literatura atual sobre gestão de carreira e liderança e mostraremos como esses temas têm conexões explícitas com a espiritualidade. Finalmente, nós ofereceremos algumas sugestões práticas que um líder pode utilizar na reflexão espiritual dele/dela relacionadas com um processo de decisão de carreira.

I. Mudança de Visão sobre Carreira e Liderança

Nós começamos observando como o nosso entendimento do nosso trabalho e carreira tem sido radicalmente transformado no mundo contemporâneo. Os efeitos da tecnologia da informação, da Internet e a consequente mudança e indefinição de indústrias, ‘posições’ e ‘empregos’ criam uma nova competição por liderança e carreiras (Business Week, 1999; D. T. Hall, 1996). ‘A carreira está morta!’ proclamou Hall (1996). A assim-chamada ‘organização sem fronteiras’ tem sido traduzida na ‘carreira sem fronteiras’ (M.B. Arthur e d. M. Russeau, 1996). Com efeito, a velocidade e a magnitude da mudança tecnológica nas organizações fizeram com que as carreiras passassem de uma progressão de carreira ordenada, orientada pelas empresas, para um modelo individual gerido por pessoas. Os objetivos finais sugeridos para a carreira nessa literatura são ‘sucesso psicológico’, qualidade e equilíbrio de vida e avanço econômico.

A carreira também é vista como uma série de mudanças de identidade e aprendizado contínuo ao longo da vida. O modelo de estágios de carreira tem se tornado uma série de curvas de aprendizado de ‘Exploração, Teste, Estabelecimento e Domínio’. A escada unidimensional e linear ‘aprendizado versus idade’ está obsoleta. Os indivíduos buscam desenvolvimento pessoal e profissional e significado nas carreiras. As organizações são vistas como proporcionando desafios de trabalho, reeducação (reciclagem de habilidades), mobilidade ascendente e um ambiente de aprendizado e desenvolvimento.

A noção de uma ‘carreira proteana’, isso é, aquela que é impulsionada e moldada pela pessoa e não pela organização, exige novos tipos de capacidades pessoais. Nós podemos chamar isso de ‘metacompetências’, ou seja, competências superiores que permitem às pessoas aprender como aprender. Uma das metacompetências mais importantes é o crescimento da identidade através da autorreflexão e do autoaprendizado à medida que o ambiente e as tarefas aumentam em complexidade. Outra é a adaptabilidade (Briscoe e Hall, 1999). O perfil de sucesso dos indivíduos também está mudando da visão de um ‘Eu (Ser, Self) do Trabalho’ para a de um ‘Eu (Ser, Self) Integral’.

Têm proliferado livros e programas de liderança que permitem o desenvolvimento dessas metacompetências. Por exemplo, L. Sunny Hansen (1997) escreveu sobre métodos que apoiam o desenvolvimento da identidade do líder através de buscas espirituais e seculares para fins pessoais e profissionais. A ‘pessoa integral’ é desenvolvida pela integração de todos os papéis, subidentidades, esperanças, sonhos e orações. Outros (por exemplo, Heifetz, 1994, Kouzes e Posner, 1997 e Schultz e Yang, 1997) têm escrito e desenvolvido programas semelhantes que enfatizam a ligação entre os eus (seres, selves) público e privado, a construção de comunidades de significado, a aprendizagem da aceitação das próprias vulnerabilidades e a identificação de estilos de liderança baseados em valores.

Os líderes também têm que desenvolver a visão, a capacidade de comunicar a visão, a autoestima positiva e as competências para orientar a concretização da visão (Bennis, 1997). Kouzes e Posner (1987, 2002) identificaram cinco grandes compromissos comportamentais no estudo deles sobre os melhores casos de liderança pessoal: desafiar o processo, inspirar uma visão partilhada, permitir que outros atuem, modelar o caminho e encorajar o coração.

Há também um interesse e uma ênfase crescentes na ‘abordagem relacional’ no local de trabalho (Kram, 1988). Três temas relacionais e espirituais associados incluem (1) interdependência, (2) mutualidade e (3) reciprocidade. Nesse sentido, relacionar-se e partilhar valores e experiências de vida com outras pessoas vem a ser um elemento significativo no espaço de trabalho e na carreira de alguém. Covey, Senge e outros têm mostrado como as organizações ganham a partir da atenção dos líderes e funcionários ao significado pessoal e às preocupações espirituais.

Finalmente, as chamadas ‘novas carreiras’ e a mudança da força de trabalho não se referem apenas a trabalho interessante e desafiador e ao autodesenvolvimento (Author e Rousseau, 1996; Mirvis e Hall, 1996). Além disso, as prioridades e questões de diferentes faixas etárias são muito relevantes (por exemplo, SAWDC (single adults with dependent children and aging profissional [adultos solteiros com filhos dependentes e profissionais idosos]). Há também questões relativas a habilidades diferenciadas e áreas potencialmente discriminatórias. Competências de líderes, colegas de trabalho e funcionários e os recursos são vistos como um aspecto importante do desenvolvimento, a fim de facilitar a integração da diversidade como parte das mudanças nas Novas Carreiras.

Quem é um ‘Líder’: Liderança na Literatura Empresarial

Os modelos contemporâneos de liderança empresarial refletem esse ambiente em mudança. Observem algumas das terminologias na literatura sobre liderança empresarial: autoliderança, superliderança, liderança transformacional, liderança carismática e liderança servil (servidora) (ver Weiss, 1996). A ênfase na literatura de gestão e negócios – e nós poderíamos acrescentar nos currículos de MBA sobre liderança – tem sido em (1) líderes como agentes de mudança e transformação organizacional, (2) líderes como treinadores, líderes de torcida e mentores, (3) líderes como estrategistas que orientam as atividades de construção de alianças e (4) líderes também como seguidores. Menos tem sido escrito e ensinado sobre liderança do ponto de vista da espiritualidade. A exceção é o escrito clássico de Greenleaf (Spears, 1995), no qual ele descreveu os líderes como administradores e servidores, como nós discutiremos abaixo.

As competências dos CEOs (Chief Executive Officers) e líderes contemporâneos são agora listadas como quase infinitas. Um estudo da Andersen Consulting incluiu 14 atributos de liderança e 82 subcaracterísticas, quase todas refletindo competências tradicionais. Haviam três novos atributos de liderança executiva no estudo: autoconfiança, visão e excelência pessoal. A escuta e a capacidade de inspirar as pessoas a se comprometerem com a visão da organização também foram incluídas. (T. Stewart, 1999) Mais uma vez, é interessante notar que o termo ‘espiritualidade’ ainda é omitido na maioria dos textos de MBA ou de escolas de negócios. Parece haver timidez, talvez falta de vocabulário ou de entendimento de como integrar e incluir a espiritualidade na literatura sobre liderança e gestão geral.

Liderança como um Chamado (uma Vocação) Especial: Funções e Competências Espirituais

A liderança nas organizações tem sido concebida, definida e implementada em organizações empresariais e com fins lucrativos de formas mutáveis, no entanto, ainda seculares. Embora os CEOs, diretores e gestores profissionais sejam formados e contratados para desempenharem de acordo com os padrões financeiros e econômicos, muitos considerarão cada vez mais difícil cumprir as exigências mais amplas de liderança descritas acima. Se a carreira tradicional e o modelo de carreira forem radicalmente alterados, as nossas noções de liderança têm que evoluir.

Parece haver timidez, talvez falta de vocabulário ou de entendimento de como integrar e incluir a espiritualidade na literatura sobre liderança e gestão geral.

O modelo e a personificação do líder altamente eficaz como alguém que escolhe e é ‘chamado’ para servir autenticamente vem a ser mais saliente nesse novo contexto. O que, então, oferece a literatura sobre ‘chamado’ (‘vocação’)?

Líder como Servidor e Administrador (Steward, Mordomo)

A imagem do líder como servidor é um trampolim para expandir a conceituação de liderança (empresarial), introduzindo elementos de perspectivas teológicas e filosóficas. Cerca de 70 anos antes de Daniel Goleman escrever o agora altamente influente livro e método de consultoria ‘Inteligência Emocional’, Robert Greenleaf originou a teoria da ‘Liderança Servidora (Spears, 1995)’. Curiosamente, muitas das características dos líderes de Greenleaf são paralelas às características de inteligência emocional de Goleman: escuta, empatia, consciência no nível da realidade (awareness), previsão, conceituação e persuasão. Greenleaf vai além ao incluir cura (healing), administração (stewarship), compromisso com o crescimento das pessoas e construção de comunidade. Ainda assim, os principais textos sobre gestão geralmente evitam identificar as responsabilidades de liderança com esse senso mais rico de chamado vocacional.

Visão Tradicional do Processo de Tomada de Decisão Vocacional

A literatura tradicional de gestão centra-se na vocação como um ‘processo de resolução de problemas’ empreendido pelo indivíduo, em vez de um caminho de descoberta envolvendo dimensões emocionais e espirituais (Greenhaus, Callanan e Godshalh, 2000). Nessa visão, o processo de resolução de problemas baseia-se no pressuposto de que o planejamento de carreira é uma iniciativa individual que exige que uma pessoa exerça controle sobre as suas metas, auto exploração e preferências de estilo de vida. Na verdade, essa visão argumenta que ‘…as pessoas têm que evitar sucumbir à definição de sucesso de outras pessoas para as suas vidas…. A felicidade e a realização, no entanto, dependem da satisfação de si mesmo, não dos valores e das aspirações de outras pessoas…’ Na mesma linha, ‘…a gestão de carreira é um processo pessoal….apenas os indivíduos podem desenvolver uma visão sobre si próprios e sobre o seu ambiente, comprometer-se com os objetivos e estratégias de carreira e avaliar com precisão o curso das suas carreiras e fazer os ajustes necessários. Nada poderá substituir o compromisso do indivíduo com a gestão ativa da sua própria carreira.(Greenhaus et al, 2000, p. 449).

Essa abordagem oferece sugestões úteis para examinar os objetivos, competências e aspirações de alguém. Mas há uma ênfase no planejamento psicológico e de mercado, ao invés de numa busca mais profunda de significado que incluiria o eu (ser, self) não mercantil, os outros e um chamado (uma vocação) superior. Embora as abordagens de gerenciamento de carreira sejam importantes. Na seção seguinte nós apresentamos temas Cristãos selecionados que oferecem uma abordagem complementar e mais contemplativa em relação ao chamado que é relacional e leva em conta as necessidades dos outros, bem como as preferências e oportunidades próprias.

II. Entendimentos Cristão da Vocação e Chamado

A tradição Cristã oferece uma fonte rica e variada de reflexão sobre a experiência de trabalho, de liderança, de vocação e de chamado. No entanto, antes de começarmos a explorar algumas dessas ideias, é importante chamar a atenção para os pressupostos que frequentemente rodeiam o termo vocação.

Um conjunto de suposições sugere que uma vocação é algum trabalho ou carreira muito particular que Deus escolheu para o indivíduo realizar. Nessa visão, Deus tem um plano definido sobre como a vida de cada pessoa se encaixa no propósito maior da história humana. A responsabilidade do indivíduo é descobrir quais são os planos de Deus e segui-los. Tal visão das vocações pode ser muito atraente, em grande parte porque oferece uma profunda sensação de segurança num mundo muito tumultuado.

Essa não é, contudo, a maneira como todos os Cristãos entendem as vocações. Na verdade, existem várias razões, todas bem fundamentadas nas correntes dominantes da tradição Cristã, para suspeitar da adequação teológica dessa visão. (Rahner, 1983, pp. 202-209) Por exemplo, essa visão depende de suposições questionáveis sobre a natureza da relação de Deus com a história humana que deixam pouco espaço para a liberdade humana.

As escrituras Cristãs fornecem um entendimento diferente da vocação daquela que muitos Cristãos comumente assumem hoje. No Novo Testamento, vocação ou chamado não se refere principalmente à carreira, ocupação ou profissão de alguém. Na verdade, de acordo com o Novo Testamento, as nossas carreiras só podem ser entendidas como vocações num sentido derivado e secundário (Badcock, 1998). Não há nenhuma evidência no Novo Testamento de que Deus tenha um plano de carreira totalmente elaborado para as nossas vidas que nós devemos simplesmente descobrir e seguir. Na Bíblia, vocação refere-se principalmente à orientação fundamental de nossas vidas. Em termos Cristãos, todas as pessoas partilham a mesma vocação: amar a Deus e amar o próximo. A nossa vocação, portanto, é muito maior que a nossa carreira. É uma escolha básica que nós fazemos sobre como viver toda a nossa vida. Ela abrange a nossa carreira, entretanto, muito mais.

Para ilustrar algumas das ideias-chave por trás da noção de vocação no Novo Testamento, nós podemos recorrer a uma história encontrada apenas no Evangelho de Lucas, a parábola do ‘amigo importuno’ (Lucas 11:5-8). Antes de nós discutirmos essa história, porém, é importante observar um ponto sobre como os ensinamentos de Jesus foram transmitidos e preservados. Como tantos outros grandes professores, Jesus era um contador de histórias habilidoso. Entretanto, ele sofreu o mesmo destino que se abate sobre esses professores: os seus estudantes muitas vezes se lembravam das histórias dele, entretanto, esqueciam o que ele estava tentando transmitir a eles.

Essas histórias foram transmitidas oralmente por várias décadas antes de serem preservadas na forma escrita. Como resultado, as suas histórias muitas vezes passaram a ser usadas de maneira bem diferente daquela que Jesus pretendia originalmente. A parábola do amigo importuno parece ser uma dessas histórias que foi preservada na tradição de uma forma diferente de como Jesus a usou. Lucas reconta a história em uma seção do seu evangelho que trata da oração. Nesse contexto, parece que o objetivo da história é que nós sejamos persistentes na oração, mesmo que Deus pareça não estar disposto a nos responder.

Isso deixou muitos pregadores Cristãos na desconfortável posição de ter que explicar por que seria necessário forçar Deus a nos ajudar. A parábola assume um sentido diferente e mais lógico se nós não assumirmos que se trata de oração, mas sim de chamado (calling). Então a história não é sobre a necessidade de atormentarmos a Deus, mas sobre a necessidade de Deus nos atormentar. Ouça a história dessa perspectiva:

Suponhamos que um de vocês tenha um amigo a quem vá à meia-noite e diga: ‘Amigo, empreste-me três pães, pois um amigo meu chegou de viagem em minha casa e não tenho nada para lhe oferecer’ e ele diz de dentro: ‘Não me incomode; a porta já está trancada e meus filhos e eu já estamos na cama. Não consigo me levantar para lhe dar nada.’ Eu lhe digo, se ele não se levantar para lhe dar os pães por causa da amizade deles, ele se levantará para lhe dar tudo o que ele precisa por causa da persistência dele. (Lucas 11:5-8, Nova Bíblia Americana).

Essa história normalmente é lida como se o amigo que está dormindo representasse Deus e o amigo que bate na porta nos representasse. Portanto, a questão parece ser que nós devemos continuar seguindo Deus mesmo quando Deus parece lento em responder. Se nós lermos a história ao contrário, Deus é representado pelo amigo importuno que bate à nossa porta e perturba o nosso sono. Isso implica um ponto muito diferente, nomeadamente que, embora nós demoremos a responder, Deus continua a nos chamar para ajudarmos a cuidar dos amigos necessitados de Deus. Sob essa luz, a história capta muito do que a tradição Cristã entende por vocação. Pelo menos cinco pontos importantes estão implícitos aqui.

1. O primeiro ponto chave da história é que o chamado vem a partir do amigo que está batendo na porta e não daquele que está dormindo na cama. Isso pode parecer óbvio, entretanto é absolutamente essencial para a ideia de vocação. Na visão Cristã, a vocação é principalmente um convite que nós recebemos, não uma oferta que nós propomos. Não é apenas alguma coisa que nós escolhemos fazer, é alguma coisa para o qual nós fomos escolhidos. A nossa vocação é a nossa resposta gratuita a um convite. A tradição Cristã acredita que a fonte última de uma vocação é Deus. No entanto, a tradição também afirma que uma vocação é sempre mediada e autenticada pela comunidade dos crentes. Muito poucas pessoas são derrubadas de um cavalo por uma luz ofuscante, como São Paulo foi a caminho de Damasco. A maioria das pessoas ouve o seu chamado expresso de forma muito mais sutil através das suas próprias dádivas (‘carismas’) e das necessidades que lhes são apresentadas pelas suas comunidades. A vocação não é apenas alguma coisa que nós necessitamos fazer, é também alguma coisa que a comunidade tem mostrado que necessita que nós façamos.

Na visão Cristã, a vocação é principalmente um convite que nós recebemos, não uma oferta que nós propomos.

Fredrick Buechner disse:

‘O lugar para onde Deus o chama é o lugar onde a sua profunda alegria e a profunda fome do mundo se encontram’ (Buechner, 1973, p. 95).

Essa visão desafia fundamentalmente as nossas suposições sobre a fonte e o objetivo final das nossas carreiras. Ou seja, desafia a ideia de que os nossos planos de carreira são algo que somos livres de fazer por nós próprios e apenas para nós; que somos a fonte e a meta exclusivos de nossas carreiras. A tradição Cristã diz que certamente nós temos escolhas fundamentais e contínuas a fazer em relação às nossas carreiras. Não existe nenhum plano divino que especifique os detalhes do trabalho que nós devemos fazer. No entanto, uma diferença básica entre uma vocação e uma carreira é que a vocação é determinada conjuntamente pelo indivíduo e pela comunidade. Para usar uma analogia musical, a literatura contemporânea de carreira tende a ver a carreira como um solo que o líder compõe e executa. A tradição Cristã sugere que a vocação é um dueto, ou melhor ainda, um coro ou sinfonia, que o líder compõe e executa com uma comunidade. A comunidade como um todo e não apenas aquele cantinho da comunidade com o qual nós nos sentimos mais confortáveis, necessita que nós trabalhemos com ela e para ela. Convida-nos a trabalhar não apenas para nós mesmos, mas para o bem comum (Donahue e Moser, 1996). Assim, a noção de vocação desafia as nossas noções excessivamente individualistas, psicológicas e de mercado do nosso trabalho e pede-nos que nós tomemos as nossas decisões de carreira num contexto comunitário.

A vocação não é apenas alguma coisa que nós necessitamos fazer, é também alguma coisa que a comunidade tem mostrado que necessita que nós façamos.

2. O segundo ponto importante na história do amigo importuno é que o chamado é difícil de ouvir e não muito bem-vinda. O chamado chega no meio da noite, quando a pessoa sendo chamada está confortável, segura e protegida. Ela tem que ser acordada para ouvir o chamado e então a sua resposta é resistir ao pedido. Não é por acaso que muitas histórias vocacionais na Bíblia têm a ver com pessoas que dormem, surdas ou cegas. Essas condições são metáforas para as limitações espirituais que nos atormentam a todos. É preciso um tipo especialmente intenso de observação e escuta para sairmos de nossa complacência habitual e reconhecermos um chamado. Mesmo que nós o reconheçamos, a nossa primeira reação poderá muito bem ser de resistência. Nós somos muito bons em evitar situações que desafiem a nossa segurança.

Esse segundo ponto esclarece o processo que envolve o discernimento de uma vocação. Ele sugere que, quando nós fazemos escolhas profissionais, nem sempre nós devemos depender dos nossos poderes habituais de percepção ou confiar nas nossas primeiras reações. O discernimento vocacional a partir de uma visão Cristã exige que nós aprendamos a ouvir sem julgamento e preconceitos e agendas predeterminadas, à voz de Deus em meditação silenciosa e oração, às vozes na comunidade, aos sentimentos em nós mesmos a partir de uma reflexão profunda que normalmente nós abafamos.

O processo de discernimento envolve aprender e praticar para ouvir muito claramente a nossa própria voz, a voz da nossa comunidade e a voz de Deus, tudo o que começa a lançar luz e visão na identificação dos nossos próprios dons e capacidades. O processo de discernimento exige que nós aprendamos a sondar a nossa resistência a novos desafios, de modo a distinguir a prudência legítima da apatia egoísta, do narcisismo, do escapismo, da ganância e da confusão. Muitas pessoas recorrem a terapeutas, consultores ou conselheiros de carreira para obter assistência na tomada de decisões profissionais.

A vantagem desses ajudantes qualificados é que eles estão empenhados em nos ajudar a tomar decisões com base em nossos próprios valores, necessidades e habilidades. O processo de discernimento vocacional, contudo, exige que nós ultrapassemos a nossa perspectiva individual e aprendamos a ouvir a voz de Deus falando em, através e em nós; considerar também as preocupações e reivindicações que a comunidade pode legitimamente fazer sobre nós. Isso requer um tipo de habilidade diferente da solução tradicional de problemas de carreira e de tomada de decisões discutidas anteriormente. Requer orientação de um ajudante qualificado, comprometido conjuntamente com os nossos melhores interesses e com os melhores interesses da comunidade em geral. Os ‘diretores Espirituais’ na tradição Cristã foram, por exemplo, treinados para ajudar as pessoas a navegar nas suas jornadas espirituais.

3. O terceiro ponto importante da história do amigo importuno tem a ver com o que aquele que dorme é chamado a fazer, ou seja, fornecer comida a um estranho. Alimentar os famintos é uma metáfora bíblica comum para garantir que as necessidades humanas básicas de cada membro da comunidade sejam satisfeitas. O chamado convida a quem dorme a ir além das necessidades da família imediata e a contribuir para o bem comum. Não é um trabalho explicitamente religioso. É um chamado para realizar o trabalho mais básico de todos: fazer pelos outros o que gostaria que fizessem por você. Essa não é apenas uma compreensão Cristã da vocação. É o núcleo ético de todas as principais tradições religiosas e espirituais.

Esse terceiro ponto tem a ver, então, com os valores básicos que norteiam uma vocação. Ele levanta outra diferença essencial entre uma carreira e uma vocação. Nós seguimos uma carreira principalmente para o benefício de nós mesmos e das pessoas próximas a nós. Além disso, nós conduzimos as nossas carreiras de acordo com um conjunto pessoal de valores. Não há nada necessariamente errado com nada disso. Na verdade, isso pode ser muito bom. Uma vocação, porém, nos pede para fazer isso e muito mais.

Na tradição Cristã, todo chamado sempre envolve, em algum nível, um compromisso de atender às necessidades humanas básicas de outros membros da comunidade. A vocação é uma carreira que não só atende às nossas necessidades, mas também ao bem comum. E uma vocação é uma carreira conduzida não apenas de acordo com os valores individuais, mas também com um sentido dos valores éticos globais que são os alicerces da comunidade humana.

4. O quarto ponto importante na história do amigo importuno tem a ver com alguma coisa que quem dorme não diz. Ao protestar contra o seu apelo, ele não diz que não pode fazê-lo. Fornecer comida para o estranho pode ser difícil ou desagradável, no entanto, é algo que ele tem habilidade ou recursos para fazer. Na tradição Cristã, nós nunca somos chamados a fazer alguma coisa impossível.

A vocação é uma carreira que não só atende às nossas necessidades, mas também ao bem comum. E uma vocação é uma carreira conduzida não apenas de acordo com os valores individuais, mas também com um sentido dos valores éticos globais que são os alicerces da comunidade humana.

Esse ponto tem a ver com uma forma importante de semelhança entre carreiras e vocações. Uma das maneiras comuns de tomar decisões de carreira é examinar as nossas habilidades, aptidões e recursos. A primeira resposta à pergunta sobre o que devo fazer da minha vida é perguntar: O que eu sou capaz de fazer? Quais são os meus dons e talentos? (A tradição Cristã às vezes chama isso de nossos ‘carismas’. Falaremos mais sobre isso mais tarde.) O que é possível no meu contexto? Nós não temos obrigação de fazer o heroico ou o impossível. Nós só somos obrigados a fazer o que pudermos por nós mesmos, pelos nossos entes queridos e pelo bem comum. Em muitos casos, isso nos deixa com várias opções entre as quais nós podemos escolher. Na verdade, é provavelmente incomum descobrir que só existe uma maneira de alguém viver uma vocação.

Isso significa que nós  temos que praticar o discernimento para compreender o nosso chamado. O próximo capítulo explorará detalhadamente a noção de discernimento Cristão. Aqui nós afirmamos simplesmente que o discernimento é o processo de oração e reflexão através do qual nós tomamos decisões fundamentais sobre as nossas carreiras. Nós aprendemos a reconhecer a voz de Deus ouvindo as vozes e preocupações dos outros, da comunidade, da sociedade e da terra. As nossas dádivas e oportunidades são esclarecidas e reveladas durante esse processo. Isso nos abre um profundo senso de identidade enraizado na comunidade que nos dá a liberdade de comprometer a nós mesmos ao serviço dos outros.

5. O último ponto importante sobre a história do amigo importuno é que a pessoa que está sendo chamada tem uma escolha. Não é necessariamente uma escolha clara ou fácil. Mas ele tem a opção de responder ao chamado. O chamado é oferecido como um convite e não como uma ordem. No entanto, há algo crítico no convite oferecido aqui. A pessoa que bate na porta persiste não apenas por causa do amigo faminto, mas também por causa do amigo que está sendo expulso de sua cama. O amigo faminto necessita de comida, no entanto, o amigo adormecido também necessita. Ele necessita ter uma maneira de compartilhar as suas habilidades e recursos com a comunidade.

Esse ponto sugere alguma coisa sobre um aspecto da tomada de decisões de carreira que nem sempre nós consideramos. Existem pelo menos dois lados em uma decisão de carreira: o lado da pessoa que faz a escolha e o lado da pessoa que oferece a escolha. Às vezes, nós estamos em condições de oferecer uma oportunidade de carreira a outras pessoas. Nessa posição, nós temos a chance de ajudar as escolhas de carreira a virem a ser escolhas vocacionais. Parte do que isso significa é proporcionar à pessoa que faz a escolha a liberdade de tomar uma decisão livre e autêntica. Não importa quão nobre seja o trabalho que nós temos para oferecer, ou quão grande seja a sua contribuição para o bem comum, nós temos a responsabilidade de apoiar a pessoa a fazer uma escolha livre. Às vezes, apoiar uma escolha livre significa que nós temos de persistir em aumentar a oportunidade na consciência no nível da realidade [awareness] da pessoa. Entretanto, isso também significa garantir que nós não tentamos de forma alguma coagir a decisão da pessoa.

Uma Espiritualidade de Autoapropriação e Liderança

Essas ideias sobre chamado e vocação já têm sugerido maneiras de integrar a espiritualidade na carreira de um líder. Tal espiritualidade também é capaz de ser desenvolvida mais plenamente explorando os temas de ‘daimon’, ‘carisma’ e ‘discernimento’. Diamon é uma noção que nos vem da filosofia Grega e pode nos ajudar a entender a autoapropriação que faz parte da vocação de um líder. A noção de ‘carisma’ pode nos ajudar a explorar como os nossos dons e talentos pessoais se enquadram na nossa vocação.

Será que os indivíduos descobrem a sua identidade através de um processo em que têm que se esforçar para obter alguma coisa que eles não ‘têm’? Ou será que o processo de discernimento é uma maneira de descobrir o eu [ser, self], a identidade e os talentos especiais de quem nós já somos, no entanto, não – ou por quaisquer razões que não poderíamos – conhecermos ou percebermos? Essas são as questões que a noção de daimon aborda.

Platão articulou um mito no final de sua obra mais famosa, A República. O mito de Er não é tão famoso quanto a alegoria da caverna de Platão, entretanto, em muitos aspectos é mais importante para o entendimento da liderança. Nesse mito, Platão imaginou ou intuiu que cada ser humano, antes de nascer, é dotado de um daimon, um eu [ser, self] quintessencial, por assim dizer, que contém a imagem ou padrão que nós devemos viver e a partir do qual devemos funcionar em nossos dias na terra. O problema é que ao entrarmos no mundo, corporal (físico), nós sofremos uma amnésia quase fatal, esquecendo qual era esse padrão primordial do qual nós fomos dotados. Já que é o nosso destino, o desafio dramático que cada pessoa enfrenta é lembrar ou redescobrir esse eu [ser, self] quintessencial. Se sentido e posto em prática, a personalidade cresce. Na medida em que isso cresce autenticamente a pessoa vem a ser ‘condizente com um líder’. Alguém cresce a partir da bolota até o carvalho. Os pássaros do céu são capazes de empoleirarem-se com segurança nos galhos do daimon. A força de daimon consiste em ele ter se tornado o que ele estava destinado a ser.

A ideia de daimon passou por muitas mudanças após a breve e amplamente sugestiva elaboração inicial de Platão. Plotino (205-270 d.C.) deu a essa ideia uma nota de necessidade e predestinação. Os nossos corpos, pais, circunstâncias fetais e de nascimento, alegou ele, foram todos escolha de nossos daimons. Os Romanos preferiam o termo ‘gênio’ como forma de nomear a qualidade dentro da pessoa que, se descoberta, contribuiria para o seu florescimento. Também tinha a nota de necessidade. O gênio de alguém ‘sabia tudo sobre o futuro do indivíduo e controlava o seu destino’ (Nitzsche, 1975, pp. 18, 19)

São Paulo explora território semelhante com a sua ideia de carisma, uma ideia que tem sido amplamente ignorada na disciplina da espiritualidade e na literatura de gestão. O termo vem de uma palavra Grega que significa ‘presente, dádiva, dom’. Na opinião de Paulo, um carisma é o favor de Deus derramado sobre aqueles que aceitaram Jesus como tendo sido enviado por Deus. Paulo, observando as comunidades de adoração dos Cristãos, notou que a cada um desses seguidores de Cristo ‘foi dado uma manifestação do Espírito [Santo] para o bem comum’ (1 Coríntios 12:7). A manifestação particular do Espírito que a cada um foi dado e por sua vez transmitido foi um carisma. Todos esses carismas serviram para construir a comunidade de fiéis de diferentes maneiras. (Haughey, 1999, 2000).

O evento que foi a origem da efusão inicial desses carismas foi o Pentecostes (Atos dos Apóstolos 2:1-12). Naquele dia, cada um daqueles que receberam o derramamento do Espírito ‘proclamaram ousadamente conforme o Espírito os capacitava’ (versículo 4). De certo modo, os seguidores de Cristo vieram a ser um corpo naquele dia. E daquele dia em diante cada um dos seguidores deveria ser uma ‘manifestação do Espírito’ distinta, de qualquer maneira que o Espírito escolhesse dotar cada um deles. A dotação individual do Espírito de cada um deles foi o seu carisma particular. O propósito do Espírito era fazer com que cada Cristão carismático funcionasse ‘para o bem comum’, quer fosse para o Corpo de Cristo ou para o corpo da humanidade. O ‘Decreto sobre os Leigos’ do Concílio Vaticano II reconhece que, no bem comum, os carismas deveriam efetuar não apenas a construção da Igreja, mas também do mundo.

Autoapropriação e Carisma

Como alguém sabe o que há em si mesmo que deve ser uma manifestação do Espírito para os outros? Isso não é diferente da problemática de localizar o daimon ou o gênio de alguém. A partir do ponto de vista Cristão, o Espírito tem interesse em que o indivíduo descubra o(s) carisma(s) que lhe foi dado ou que lhe seria dado se estivesse aberto a eles. Embora o Espírito ‘sopre onde tem vontade’, ele geralmente sopra nas velas que estão disponíveis para Ele. Ao que parece, os carismas geralmente têm a gênese deles incipientemente no pool genético da pessoa. As circunstâncias no íntimo em que se desenvolve um carisma não são diferentes daquelas em que se desenvolvem outras qualidades de uma pessoa. O Espírito, por assim dizer, tende a se conformar às leis de desenvolvimento do crescimento pessoal. Esses fatores incluem: atenção a partir de figuras confiáveis, incentivo, afirmação, crítica de falsos começos. Adicione a essa lista educação, desenvolvimento e treinamento de habilidades e experiências de vida. No entanto, a base de todos esses fatores é o crescimento da pessoa nas três virtudes teológicas da fé, esperança e amor. Essas moldam o horizonte e quanto mais forem exercidas, mais claro o horizonte da pessoa se abrirá para uma visão de si mesma e do seu papel no mundo que é inspirada por Deus.

As vidas e jornadas espirituais de Gandhi e King ilustram essa dinâmica. Gandhi e King descobriram o dom deles de liderar os outros sendo primeiro seguidores – não muito diferente da história de Jesus. Gandhi se abriu para vivenciar as injustiças diárias que os Indianos mais pobres enfrentavam com as práticas Britânicas. Ele, assim como King, foi forçado a sentar-se na terceira classe do trem (ou na parte de trás do ônibus, no caso de King) ou então descer. À medida que ambos os líderes avançavam para injustiças mais rígidas e duras das leis e costumes existentes, ambos sofreram prisão, espancamentos e, eventualmente, morte. Estranhamente, ambos estavam crescendo e desenvolvendo os seus dons únicos durante o processo de entendimento, desenvolvimento e resposta ao chamado deles. Eles ganharam força ao receberem afirmação de suas comunidades e orações a Deus. Ambos utilizaram e desenvolveram competências e práticas que iam além da sua educação e formação formal.

Estando Aberto para Si Mesmo, para o Divino e para a Comunidade

Relacionado ao processo de discernimento está o tema da autoapropriação. Autoapropriação é um termo que descreve interioridade suficiente nas pessoas para absorver os ‘dados’ mutáveis da consciência no nível da percepção [consciousness] deles para serem capazes de ‘ler’ e entender a si mesmas e a realidade na qual estão imersas com precisão. Preconceitos, pretensões, ignorância, vaidades, sonhos irreais, falsas autoimagens, negações… tudo isso desaparece na medida em que uma pessoa se apropria de si mesma – ou seja, em contato consigo mesma, com os seus desejos, os seus limites, em oração na luz de Deus. A dádiva particular que é um carisma pressupõe a interioridade que é capaz de resolver todas essas influências.

É importante que os Cristãos conectem a noção de líder ao carisma. Dito de forma simples, esses indivíduos são líderes que manifestam o Espírito às comunidades em que atuam. A manifestação do Espírito de alguém não será necessariamente evidente para todos. Na verdade, pode ser evidente para poucos ou nenhum. Os líderes de Deus podem ser os perdedores do ‘homem’. O ser humano mais ‘carismático’ de toda a história não foi uma manifestação do Espírito para muitos, aliás para a maioria, ao que parece, ou seja, para aqueles que não tinham olhos para ver. Alguém pode ser líder se não houver ninguém que seja liderado ou influenciado por ele? Num certo sentido, se alguém é conduzido é de importância secundária em relação à questão de saber se a apropriação da sua interioridade revelou o seu carisma particular. Será que os assassinatos violentos de Gandhi e de King tornaram os seus sacrifícios, chamados e ‘carreiras’ irrelevantes? Os dons que descobriram em si mesmos foram autodestrutivos? Ambos mudaram sociedades, leis, tradições e eventos internacionais até hoje.

Autoapropriação é um termo que descreve interioridade suficiente nas pessoas para absorver os ‘dados’ mutáveis da consciência no nível da percepção [consciousness] deles para serem capazes de ‘ler’ e entender a si mesmas e a realidade na qual estão imersas com precisão.

IX. INTEGRANDO VOCAÇÃO, CHAMADO E CARREIRAS:

GESTÃO E TEMAS ESPIRITUAIS CRISTÃOS

Nessa seção nós oferecemos uma integração de temas apresentados em nossas discussões anteriores sobre gestão de carreira contemporânea, literatura de liderança e da tradição Cristã. O nosso propósito é fornecer o que nós consideramos temas mutuamente relacionados com a intenção de ajudar líderes organizacionais, profissionais e estudantes a refletirem sobre chamado, vocações e carreiras deles, a partir de um ângulo mais amplo.

Entendendo Vocação, Chamado e Carreiras Diferentemente

A literatura sobre gestão de carreira e as empresas de consultoria de carreira executiva geralmente veem as carreiras e o desenvolvimento de carreira como um processo centrado no indivíduo que começa com avaliações psicológicas, interesses, habilidades e valores como base para o entendimento do perfil vocacional e potencial de carreira de um indivíduo. Esse processo geralmente termina quando uma pessoa aceita uma posição, emprego ou oportunidade de mercado. O foco e a ênfase estão nas oportunidades econômicas e de mercado. ‘Colocar’ um indivíduo em uma organização é uma meta.

Um conselheiro criativo pode usar algumas técnicas de visão e reflexão para ajudar os candidatos a entender o seu potencial de mercado. O processo então prossegue com a ajuda de um conselheiro de carreira ou recrutador executivo, ajudando a identificar os pontos fortes e fracos dos candidatos antes de personalizar os seus materiais de marketing individuais. As ‘empresas-alvo’ são selecionadas e inicia-se o processo de busca de oportunidades (emprego, carreira), networking e entrevistas. Faz-se uma oferta, negocia-se salário, opções de ações, negociam-se benefícios, o trabalho está concluído. O que é limitado e muitas vezes não satisfatório nesse processo para o candidato?

Os profissionais são capacitados técnica e interpessoalmente e de fato obtêm acesso a cargos para atender às necessidades econômicas e progredir na carreira. Contudo, os indivíduos podem não achar ‘respostas’ para as questões colocadas no início desse ensaio: ‘Quem sou eu nessa posição? Essa posição está ajudando a cumprir o meu chamado e propósito maiores na terra? Os meus dons e talentos dados por Deus estão sendo usados? A minha identidade está sendo realizada? Eu sou espiritualmente como também economicamente feliz?’

Existem temas na literatura sobre liderança, como nós discutimos anteriormente, que tentam abordar algumas dessas questões mais profundas a partir de uma perspectiva vocacional. Por exemplo, os seguintes exemplos a partir de escritores de gerenciamento reflexivo e de negócios são ilustrativos. Um profissional e líder pode ver a sua vocação, chamado e trabalho das seguintes maneiras:

-Como uma busca espiritual e secular no geral por significado e propósito pessoal e profissional, pode ser seguida como ‘o caminho com o coração’ (Shepard, 1984);

-Como um chamado e uma vocação que é capaz de abranger de forma realista e ter o potencial de transformar todo o contexto das vidas e carreiras dos líderes: papéis, subidentidades, esperanças, sonhos e orações deles;

-Entendendo a sua vocação como uma ponte entre as suas funções públicas e privadas e as responsabilidades de trabalho e envolvimento com múltiplas comunidades e grupos.

-Como uma prática reflexiva centrada no ‘ser’ [‘being’] como também no ‘fazer’, ‘…a espiritualidade genuína tem que ser a disponibilidade de entrar no processo de diálogo consigo mesmo e com os outros, para tentar permanecer com isso durante um período de tempo… ”(Vaill, 1998, 180).

-Por entender que ‘O Ser [Being] é a única realidade com integridade; por obedecer à essa consciência traz uma comunhão com essa ‘integridade do Ser [Being]’. (V. Havel, Cartas para Olga, P. Wilson, trad. (NY: Holt, 1989, 232).

-Sabendo que ‘Frequentemente, muitos caminhos falsos são seguidos antes que o caminho satisfatório seja finalmente descoberto. Experimentos, reveses dolorosos, falsas esperanças, discernimento, oração e muita paciência são muitas vezes necessários antes que a luz se acenda.’ (Novak, 1996, p. 35).

-Ver o papel dela como uma líder como um ‘verdadeiro chamado’ que ‘revela a sua presença pelo prazer e senso de energias renovadas que a sua prática produz…’ (Novak, 1996, 35).

-Buscar conectar-se com pessoas e conectar pessoas a pessoas com significado e de maneira significativa (K. T. Scott em Conger, 1994, 83).

-Criar comunidades, ‘ambientes de sustentação’, ‘refúgios seguros’, para empoderamento, mobilização, desenvolvimento, crescimento espiritual, nutrição (McDermott in Conger, 1994, 147; Scott in Conger, 1994; Kegan, 1994).

-Liderar com reflexão e escolha, paixão e razão, compaixão, humildade, vulnerabilidade e oração, bem como também coragem, ousadia e visão (Novak, 1996).

Esses temas na literatura de gestão vão além das práticas limitadas de mercado e de carreira econômica. Entretanto, será que eles vão longe o suficiente ao abordar as questões que nós colocamos sobre como uma pessoa pode achar um propósito e um chamado último ou mais profundo na vida?

Os temas espirituais Cristãos relacionados ao chamado e à jornada espiritual oferecem diferentes entendimentos. Uma vocação e uma carreira não são apenas um assunto ou empreendimento individual. A vocação é a nossa resposta a um convite que recebemos de Deus depois de nos engajarmos no discernimento e na oração. Essa é uma abordagem radicalmente diferente. Do ponto de vista Cristão, o diálogo e a oração consigo mesmo, com a comunidade e com Deus fornecem pistas e caminhos para saber quem nós somos, qual é o nosso propósito na terra e como nós podemos proceder para nos tornarmos quem somos.

As nossas expectativas podem ser radicalmente alteradas através desse processo e entendimento. Nós não podemos mais esperar ou desejar que a nossa vocação, chamado ou carreira sejam determinados externamente; ou nós começarmos a alcançar e a mudar a nossa direção quando começamos a mudar a nós mesmos primeiro: as nossas atitudes, os nossos valores mais profundos e a abraçar os nossos demónios, como fez Gandhi quando lutou contra o materialismo ocidental e o ‘sucesso’ conforme definido por uma profissão de advogado. Uma vez que nós abrimos os nossos corações e mentes a outras vozes que não as nossas, nós aprofundamos deliberadamente a nossa jornada espiritual.

A vocação é a nossa resposta a um convite que recebemos de Deus depois de nos engajarmos no discernimento e na oração.

Escutando e Respondendo ao Chamado de Alguém através do Discernimento

A prática Cristã de discernimento é uma prática deliberada. Através desse processo disciplinado, alguém aprende a centrar-se e meditativamente a escutar [voluntariamente] em silêncio para ouvir [involuntariamente] – às vezes pela primeira vez – a sua voz interior e depois a voz de Deus. Por meio desse processo de escuta, a pessoa ganha consciência no nível da realidade [awareness], calma e foco. Uma clareza recém-descoberta permite começar a reconhecer e então silenciar demônios e distrações internas. Esse processo é melhor facilitado com a ajuda orientada de um diretor espiritual treinado nas práticas, por exemplo, de Santo Inácio de Loyola.

Os indivíduos que desejam e optam por seguir a sua jornada espiritual através de um processo guiado de contemplação e discernimento podem descobrir que passam por vários níveis. No nível intrapessoal, uma pessoa pode sentir ansiedade, frustração e outras emoções resistentes enquanto escuta e permite que a sua voz interior e a voz de Deus falem. Uma vez que alguém é capaz de escutar, a consciência no nível da realidade [awareness] e a clareza começam a surgir com o tempo. Compaixão e perdão podem ser experienciados. Também surge um desejo de se envolver e aceitar novos insights sobre si mesmo.

Outro nível de consciência no nível da realidade [awareness] é aprender a escutar as vozes da nossa comunidade. Nós nos abrimos para aqueles a quem amamos e em quem confiamos e que nos conhecem. Também começamos a ouvir as vozes daqueles que nós ignoramos ou pensamos que não tinham nada a nos dizer – por exemplo, os nossos filhos, filhas, esposas, esposos, irmãos, pais. Nós podemos começar a descobrir, silenciosa mas profundamente, que nós não concordamos com a imagem que nós temos de nós mesmos ou com a forma como nós definimos — ou permitimos que outros definissem para nós — o nosso auto entendimento vocacional e as nossas carreiras.

King não permaneceria um ministro Cristão como fez o seu pai antes dele. Gandhi não iria ficar e aumentar a sua riqueza pessoal como um advogado de sucesso. Também nós podemos descobrir que a ‘nossa comunidade’ pode ser ampliada durante esse processo. Gandhi ajudou um leproso; King ouviu e marchou com os negros oprimidos entre cidades. Em nossa jornada espiritual guiada, nós ultrapassamos os bloqueios psicológicos e o condicionamento herdados de nossa família e de nós mesmos para vivenciar novas vozes de outras pessoas. A nossa autoimagem pode começar a mudar. Frequentemente ocorre um novo senso de liberdade, energia, vitalidade e autorrealização.

Outro estágio mais profundo de desenvolvimento na jornada espiritual é capaz de nos abrir à voz e à presença de Deus. Quando alguém experiencia um sentimento de união com Deus, pode sentir necessidade de autodoação, de ajudar os necessitados e de retribuir à sociedade. O amor e a conectividade são frequentemente sentidos quando alguém começa a abandonar as máscaras falsas e a aceitar o seu verdadeiro eu [ser, self].

Os indivíduos podem assumir causas para ajudar os pobres ou para promover a justiça social. Gandhi e King acompanharam o despertar espiritual e jornadas deles através dessa fase. Eles, como fizeram muitos mártires antes deles, deixaram-se guiar pela voz de Deus. As ‘carreiras’ deles vieram a ser o domínio das causas e valores pelos quais viviam, o que ia contra o Estado de direito no seu tempo e lugar. Para outros, passar para a fase em que se experiencia a união com Deus não requer necessariamente martírio ou assassinato.

Aaron Feuerstein, fundador e CEO da Malden Mills, fala publicamente sobre a sua ética e crenças espirituais em relação à sua profissão. Ele está próximo de sua fé e práticas Judaicas. Ele continuou a financiar os salários dos seus funcionários – que totalizaram 25 milhões de dólares – mesmo depois do incêndio da sua fábrica em Massachusetts, em 1995. Ele acreditava que era a coisa certa a fazer. Os críticos criticaram os funcionários que foram pagos por Feuerstein após a crise. A Malden Mills declarou falência, capítulo 11 [Código de Falência dos EUA], em novembro de 2001. A empresa não conseguiu pagar a dívida de US$ 140 milhões acumulada. A visão de Aaron Feuerstein sobre o chamado dele e profissão incluíam cuidar de seus funcionários. Ele fez um sacrifício conscienciosamente há vários anos para proteger os seus funcionários; agora essa decisão parece ter sido tomada sob o risco de possivelmente perder a sua empresa.

Um artigo recente, ‘Malden Mills e o preço do altruísmo’ (Kerber, 2001) capturou o escrutínio público sob o qual Feuerstein está sujeito. O que não está escrito ou apresentado na mídia empresarial é que a história não acabou. Esse pode não ser o capítulo final para Malden Mills ou para o papel de Feuerstein nessa questão. Ele é e tem sido um líder que segue princípios, segue as suas crenças religiosas e segue ao seu chamado. Ele também está politicamente e socialmente conectado com comunidades locais, estaduais e nacionais que subscrevem as suas crenças e práticas de negócios. O chamado de Feuerstein ainda não terminou.

Através do processo da jornada espiritual e do discernimento, os indivíduos são capazes de escolher se querem responder ao convite de Deus para eles, ou seja, ao ‘chamado’ (‘calling’) deles. Vir a ser consciente dos próprios carismas (dons) e do seu verdadeiro eu [ser, self] (daimon) através do discernimento e da autoapropriação abre novas perspectivas, formas de sentimentos, pensamentos, decisões. Com essa paz interior, liberdade e aterramento, alguém será possível utilizar sabiamente as informações e os dados provenientes de um processo de desenvolvimento de carreira mais tradicional.

O chamado faz parte do processo de desenvolvimento da realização da identidade de alguém – ele não começa nem se concentra em achar a ‘carreira’ ou a escolha de ‘emprego’ certa. Michael Novak (1996, 34) discutiu quatro características ou verdades relativas a um chamado:

(1) O chamado de cada pessoa é único. Não há estandardização (padronização, uniformização) para o chamado.

(2) Um chamado requer pré-condições: talento – um chamado tem que estar de acordo com as nossas habilidades. Nós temos que estar abertos para descobrir para o que nós somos convidados a ser, por fazer o que nós somos capazes de fazer. E muitas vezes, quando nós seguimos o nosso chamado através do nosso amor por aquilo que nós escolhemos ser, nós somos capazes de fazer coisas que nunca nós sonhamos: King, no início do chamado dele, não reconheceu que ele poderia ser um ganhador do Prêmio Nobel da Paz. Gandhi não reconheceu, depois de abandonar a advocacia e iniciar a sua ‘profissão’ como líder não violento do povo, que ele poderia contribuir para a saída dos Britânicos da Índia.

Portanto, o amor também é uma pré-condição para escutar [ação voluntária] e responder ao nosso chamado. ‘O teste de uma vocação é o amor ao trabalho penoso que ela envolve,’ escreveu o ensaísta Logan Pearsall Smith (Novak, 1996, 34). A luta da nossa jornada espiritual é cumprir o nosso propósito que é um caminho bem-vindo se ele envolver a nossa escolha, a nossa paixão, o nosso amor.

(3) O nosso chamado autêntico nos abre nova energia, prazer e vitalidade, como nós mencionamos acima. Quando nós sentimos que nós estamos vivendo para fazer o trabalho da nossa vida e não trabalhando para ganhar a vida, isso é um sinal de que nós estamos respondendo ao nosso chamado.

(4) O nosso chamado não é fácil de descobrir. Aprender a escutar as nossas vozes interiores, abrir o nosso coração através do diálogo com Deus em oração, aprender através das nossas comunidades quais os dons que nós temos para oferecer, descobrir através de muitas tentativas e erros quais são os nossos talentos inatos leva tempo, energia, experimentação, fracasso e persistência.

Igualmente importante é que a nossa jornada espiritual requer atitudes sem julgamento e paciência para com nós mesmos e para com os outros. Ter uma ‘mente de iniciante’ (como os Budistas se referem à prática, ou seja, ver o mundo e a nós mesmos ‘pela primeira vez’ a cada vez) também nos ajuda a obter clareza sobre como nos vermos sem nossos mecanismos de defesa, medos, negações, expectativas e profecias autorrealizáveis.

Metacompetências Espirituais e de Carreira

A literatura contemporânea sobre carreiras e vocações admite que muitas das formas tradicionais de ver, preparar para o trabalho e liderar organizações estão desatualizadas ou mortas. Não existe mais uma visão linear de uma carreira ou mesmo do ciclo de vida de um indivíduo. Os profissionais trabalham após os 65 anos e iniciam oportunidades (e empresas) antes dos 25 anos. Profissionais e líderes podem passar por seis, sete, doze ou mais cargos e várias ‘carreiras’ durante a sua vida profissional. Com essa constatação, surge a questão: que tipo de habilidades além das habilidades técnicas exigidas um líder e um profissional necessitam para ter sucesso pessoal, profissional e espiritual?

O ‘sucesso psicológico’ foi identificado no início desse artigo como uma competência contemporânea que é uma meta de quem busca carreira. Também nós discutimos o conceito de metacompetências de carreira: aprender como aprender, crescimento da identidade através da autorreflexão e da adaptabilidade – ser capaz de mudar de um ‘eu [ser, self] do trabalho’ para um ‘eu [ser, self] integral’. A ênfase numa ‘abordagem relacional’ foi discutida como uma competência-chave na carreira: interdependência, mutualidade, reciprocidade com os outros que buscam mais significado nas suas próprias vidas e necessitam partilhar valores e experiências com os outros.

A partir do ponto de vista da espiritualidade Cristã, o chamado vocacional envolve, então, todo os nossos eus [seres, selves] – as nossas identidades. O nosso chamado não se limita à nossa perícia (expertise), experiência, rede profissional ou patrimônio líquido.

Os dois maiores mandamentos de Jesus são relevantes ao considerar a natureza do chamado: Ame o Senhor seu Deus com todo o seu coração, alma e mente; e o seu próximo como a você mesmo.

Nós não somos solicitados a definir os nossos objetivos de carreira e identificar primeiro o que nós gostamos de fazer. O nosso relacionamento com Deus através do amor é necessário juntamente com o nosso amor ao próximo. Santo Agostinho, como foi observado anteriormente, ecoa esse sentimento:

‘Os nossos corações estão inquietos até que encontrem paz em Ti, Senhor.’

Nós só podemos achar o significado e o propósito de nossas vidas quando nós começamos a libertar a nós mesmos de nossos demônios e ídolos. Nós ganhamos esse poder e liberdade através do nosso relacionamento com Deus por meio do amor – que por sua vez nos permite, através da nossa jornada espiritual, a achar o nosso propósito maior na vida. Nós cocriamos com Deus. O nosso propósito é parte da ordem de Deus.

Jornada Espiritual: O Caminho Adiante

As nossas competências espirituais, então, começam com o nosso profundo desejo e abertura para buscar a nossa verdade e propósito na vida, que pode ser incorporado numa profissão e trabalho tradicionalmente definidos – ou não. Uma disponibilidade e disciplina é requerido para entrar em nossa própria jornada espiritual (a partir da tradição Cristã de Santo Inácio brevemente mencionada aqui ou em outra tradição religiosa ou espiritual).

Ao longo da nossa jornada espiritual nós necessitaremos, como mencionado anteriormente, de ter atitudes sem julgamento, paciência, uma ‘mente de principiante’ para nos vermos de forma diferente e a coragem para entrar em silêncio através do processo de discernimento no qual nós ouviremos as nossas vozes interiores e a voz de Deus revela quem nós somos por trás de nossas máscaras. Com o tempo, nós começaremos a nos livrar de nossos falsos eus [seres, selves], com grande esforço e talvez com algum sofrimento.

O processo de autodescoberta nem sempre é fácil. À medida que nós ganhamos clareza de nós mesmos, nós experienciamos renovação e nova energia. Nós continuamos vivendo e trabalhando, no entanto, sem enxergar com as nossas antigas visões e quadros de referência. Nós podemos questionar e nos tornar inquietos. À medida que nós avançamos na nossa jornada através da oração e do discernimento, nós escutamos [voluntariamente], nós vemos e nós experienciamos as nossas comunidades e vizinhos de forma diferente.

Líderes como Feuerstein podem ter pago aos seus empregados com fundos escassos e emprestados para ajudá-los a sobreviver, mesmo à custa possível de salvar a sua fábrica. Por outro lado, como Jesus declarou:

‘Que bem faz a uma pessoa ganhar o mundo inteiro e perder a própria alma?’

Essa declaração profunda também pode representar o outro lado de não ter coragem de prosseguir o seu chamado e jornada espiritual. Não escolher é uma escolha.

Supondo que nós tenhamos tomado medidas para achar a nossa identidade através da nossa própria jornada espiritual, através da prática do discernimento, da oração e da meditação guiada, com o tempo nós começamos a ganhar uma sensação interior de clareza que nos permite sentir amor pelas pessoas mais próximas de nós. Essas são pessoas de quem nós podemos ter estado emocionalmente separados antes – os nossos filhos, filhas, pais, mães, esposas, maridos… ou, no caso de Gandhi, um leproso.

Nós começamos a realmente aprender com os nossos vizinhos – que podem ser os nossos funcionários, supervisores, um zelador que recentemente salvou uma escola secundária de Massachusetts de sofrer o desastre que a Columbine High School, no Colorado, sofreu quando ele entregou notas que ele descobriu que revelavam um plano de assassinato em massa de estudantes e corpo docente da escola.

À medida que nós avançamos mais profundamente em nossa jornada, nós também podemos sentir uma união com Deus e com o universo. Os nossos caminhos nesse ponto são capazes de nos levar em direções diferentes. Gandhi veio a ser um líder espiritual nacional; King [veio a ser] um visionário. Nós podemos, ao longo de nossas jornadas espirituais, mudar posições, empregos, profissões e carreiras. O processo como nós observamos anteriormente não é linear nem segue uma lógica. À medida que nós integramos as nossas capacidades emocionais com as cognitivas, os nossos corações e almas com o pensamento racional e lógico, os nossos valores mais profundos vêm à tona. Os fins podem vir a ser meios e os meios fins em nossas vidas e profissões. Não existem duas jornadas iguais.

É importante ressaltar que não existe mágica nesse processo. Novak (1996) observou que o chamado é capaz de ser tácito, secular e, para alguns, dificilmente, se é que, perceptível ao público. Como alguém disse:

Embora nem todos sejamos chamados a mudar nações e sociedades, seguir o nosso chamado pode mudar a nós mesmos – e em muitos casos isso pode ser suficiente.

Às vezes, mudar os hábitos de nossos corações por meio do amor é capaz de nos levar a direções dramaticamente diferentes, talvez mais simples e mais objetivas.

Como T.S. Eliot observou em The Wasteland,

‘Nós não cessaremos de explorar
E o fim de toda a nossa exploração
Será chegar aonde começamos
E conhecer o lugar pela primeira vez.’ (TS Eliot)

PENSAMENTOS FINAIS

O que significa ser chamado? Qual é o propósito e o significado do chamado, da carreira e da vocação de alguém? As respostas a essas perguntas envolvem um processo de descoberta que pode combinar técnicas tradicionais e inovadoras de desenvolvimento de carreira executiva com tradições e práticas Cristãs. Nós temos indicado que, a partir do ponto de vista Cristão, a busca pela identidade envolve paradoxalmente o processo de perder a si mesmo… para o propósito de Deus para nós.

Uma vez que nós encontramos paz em nós mesmos através do nosso relacionamento mais profundo com Deus, outros detalhes que eram montanhas de incertezas e dúvidas tornam-se mais claros. O caminho para discernir e descobrir o seu eu [ser, self] único envolve escolher aceitar o convite de Deus para escutarmos [de maneira voluntária] o nosso chamado.

Traduzido, o nosso convite nos é revelado de forma mais completa ao entrarmos em nossa jornada espiritual, abrindo a nós mesmos a um convite a partir do transcendente, respondendo à autorrealização dos dons escondidos no coração e na alma. Seguir o ‘caminho com o coração… e a alma’ é uma jornada que pode exigir a orientação de um diretor espiritual e o apoio de uma comunidade comprometida.

Em jogo para os líderes que buscam redescobrir o chamado e a vocação deles e iniciar a sua jornada espiritual, as recompensas podem incluir ganhar paz interior, clareza de pensamentos e ações, tratar as partes interessadas (stakeholders) de forma diferente, mudar empresas, indústrias, ou talvez estar mais plenamente presentes na posição atual.

Responder ao nosso chamado através da nossa jornada espiritual pode ser caracterizado nas palavras do Padre Stephen Doyle:

‘Eu sozinho sou capaz de fazer isso, no entanto, eu não sou capaz de fazer isso sozinho.’

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Imagem indira-tjokorda-ajN2M3dybDM-unsplash.jpg – 11 de janeiro de 2024

—–continua Parte VI—–

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A Espiritualidade nas Empresas trata-se de uma Filosofia cujos Princípios podem ajudar tanto as Pessoas quanto as Organizações.
Autor

Graduação: Engenheiro Operacional Químico. Graduação: Engenheiro de Segurança do Trabalho. Pós-Graduação: Marketing PUC/RS. Pós-Graduação: Administração de Materiais, Negociações e Compras FGV/SP. Consultor de Empresas: Projeto OREM® - Organizações Baseadas na Espiritualidade (OBEs). Estudante e Pesquisador Independente sobre Espiritualidade Não-Dualista; Psicofilosofia Huna e Ho’oponopono; A Profecia Celestina; Um Curso em Milagres (UCEM); Espiritualidade no Ambiente de Trabalho (EAT); A Organização Baseada na Espiritualidade (OBE). Certificação: “The Self I-Dentity Through Ho’oponopono® - SITH® - Business Ho’oponopono” - 2022.

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